Notas iniciais
Esta ai pesoal mais um capítulo, mais curto que os dois primeiros, resolve deixar algumas coisas de lado e ir direto ao ponto. A partir deste momento que as coisas começam a se complicar na vida dos três amigos Adonias, Renato e Cláudio André. Espero que gostem.

Apesar de faltar ainda cerca de um mês para o fim do ano, o clima do Natal e Reveillon já dominava a cidade. Santana e Mello era conhecida no estado como a capital do natal, e esse titulo era digno daquele lugar. Todo fim de ano, as casas, a maioria com formas e estruturas das famosas residências americanas, eram enfeitadas pelos moradores com objetos e luzes de várias cores. As ruas se enchiam de iluminações e no centro da cidade era construído uma espécie de cidade mágica, um local construído especialmente para aquela época do ano e que trazia para a população os mais variados entretenimentos.

Os preparativos estavam quase prontos para receber turistas nacionais e estrangeiros de todo o mundo e naquele dia, Adonias preparava algumas filmagens e fotos para uma edição especial do jornal matinal da cidade. Ele se encaminhou entre as pequenas cabanas de comida e de brinquedos, tirou fotos e ainda, mesmo estando ali a trabalho, ele se divertiu com as falações e histórias contadas pelos sujeitos que trabalhavam na construção daquela cidade imaginária. Por diversas vezes, a lembrança de Ana Karen lhe vinha à cabeça, mas as inúmeras pessoas ao redor e os tons altos e barulhos de máquinas trabalhando impediam Adonias de ficar pensando nela.

A casa da família Alves situada no centro de Santana e Mello quase sempre era ocupada apenas pelos funcionários encarregados de cuidar e manter a ordem na residência, já que a família morava e passava a maior parte do tempo em uma fazenda que lhes pertencia. A mansão era quase tão bela e tão conhecida quanto a casa da família Del Sales. O luxo, porém – não que fosse pouco. – era menos extravagante e a fama daquela família era maior e mais agradável aos moradores de Santana e Mello. Algo que se espalhava pela cidade em comentários e fuxicos eram as inúmeras reuniões e pequenas comemorações lícitas preparadas naquele lugar que Jonas Alves transformava em verdadeiras festanças, não se importando com a classe social ao qual seus convidados pertenciam. Jonas era conhecido pelas pessoas por uma figura de bom político, honesto e humilde que realmente se preocupava com a região ao qual pertencia, e como num gesto carinhoso e educado, os moradores da cidade o chamavam de Grande Jonas, apelido criado nas duas campanhas políticas ao qual Jonas fora candidato e eleito e que rapidamente se popularizou. Ele ajudava ao máximo que podia os cidadãos de Santana e Mello, e não negava sua origem pobre e humilde; algo que talvez o fizera ser daquele jeito. A família de Jonas era pequena, composta apenas por sua esposa Dora, uma mulher de quarenta e cinco anos, com aparência jovial, educada e bela. Com Dora, Jonas tinha uma única filha chamada Fernanda, uma jovem com pouco mais de vinte anos, tão bela quanto a mãe, tinha gestos finos e educados. Fernanda cursava seu primeiro ano na faculdade de Química e apesar de ser uma jovem bonita, inteligente, perfeitamente gentil e honesta, nunca tivera bons relacionamentos amorosos justamente por ser filha de Jonas.

A influência ao qual Jonas fazia na vida de Fernanda era algo que ela odiava. O fato de ser filha daquele grande político era algo que de certa forma, sempre facilitava as coisas para Fernanda. Na sala de aula, ela sentia que recebia um tratamento diferente, nas ruas, sempre era barrada por alguém. E muito além disso, ser filha do Grande Jonas, sempre trazia para Fernanda pretendentes mal-intencionados, interessados na filha do grande magnata político e fazendeiro que exercia forte influência sobre todos na cidade.

Naquela manhã, Fernanda chegou na fazenda dirigindo seu carro e se encaminhou até a casa, deixou seu carro no estacionamento e entrou na residência. Ela trazia sua bolsa e alguns livros. Ao entrar na sala, ela jogou tudo sobre uma poltrona e em seguida sentou no sofá ao lado, demonstrava-se entediada e enfurecida. Gisela uma das empregadas, assistiu àquilo assustada. Dora surgiu na sala e logo perguntou.

— O que aconteceu que a deixou assim? Falou Dora, sua voz era delicada e as palavras perfeitas.

— Não agüento mais isso! Exclamou Fernanda, áspera. – Toda essa bajulação falsa e esse cinismo das pessoas comigo.

Dora sentou ao lado da filha e disse com a voz calma.

— Me diga, o que realmente aconteceu?

Fernanda sentia raiva só de lembrar.

— Um dos meus professores da faculdade, lá na capital! Fernanda olhava para o chão enquanto falava. A lembrança lhe vinha perfeitamente na mente. – Eu perdi algumas aulas e precisaria repor e então decidi conversar com ele sobre isso. Fui, mas meu professor me tratou daquela forma safada, dizendo que a filha do Grande Jonas não precisaria de repor aulas já que a forte influência de meu pai daria meu diploma. Ele disse de uma forma... Como se eu utilizasse disto!

— E o que você disse a ele?

— Neguei tudo, mas ele não quis me dar as aulas e o pior, continuou a pensar que eu aproveito da presença de meu pai para conseguir obter alguma coisa!

Fernanda estava furiosa. Dora a tranqüilizou.

— Não dê importância ao que os outros pensam de você! Falou ela. – O mais importante é que todos que realmente devem e se importam com você como seu pai e eu, sabemos que tudo não se trata de um erro de julgamento dessas pessoas desconhecidas. Seres ignorantes!

Gisela falou.

— Isso tudo sabe o que é? Gisela agia de modo atrapalhado porém engraçado. – Inveja!

Naquele instante, Jonas chegou na casa e se juntou as três na sala. Ele adorava a filha e fazia questão de demonstrar a todos que os vissem.

— Sobre o que falavam? Perguntou Jonas sorridente, sentando no sofá entre a filha e a esposa.

Dora e Fernanda não revelaram o que falavam segundos antes, desconversando sobre o assunto. Jonas então anunciou.

— Bem, receio que teremos que passar uma temporada na cidade! As duas se surpreenderam. Fazia cerca de um ano que eles não iam até a casa no centro de Santana e Mello. – É fim de ano e surgem inúmeros projetos e campanhas no nosso governo e estando lá no centro, ficara mais perto e bem mais fácil para eu poder ir a Campo Grande.

— Por mim, nós já estávamos lá a muito tempo! Anunciou Fernanda. – É bem mais rápido para chegar a capital, e como eu tenho que ir todos os dias para lá...

— Esta decidido! Falou Dora. – Vamos para a cidade.

Eles seguiram naquele mesmo dia para a casa situada no centro da cidade e se instalaram em algumas horas, após os empregados da mansão limparem e organizarem o imóvel para os receber. Os dias subseqüentes se seguiram tranqüilamente e certa tarde, enquanto Fernanda ainda não havia chegado de sua faculdade e após participar de um comício na capital do estado, Jonas entrou na casa sorridente e logo anunciou para a empregada e a esposa.

— Quero que preparem um verdadeiro banquete para esta noite! Disse ele.

— Por que? Quis saber Dora.

— Teremos um convidado especial. – disse Jonas. – Um amigo vira com sua família para jantar hoje à noite em nossa casa!

— Quem é? Eu a e Fernanda o conhecemos?

— Acho pouco provável que o conheçam. – Jonas sorriu ainda mais ao pronunciar o nome. – Ele se chama Renato Freitas!

Naquele entardecer, Fernanda chegou na mansão e logo ficou a par de que um convidado viria com sua família para o jantar naquela noite. Ela, assim como a mãe, se surpreendeu com o inesperado, porém, prontificou-se a receber Renato.

Como havia dito, Jonas aguardou ansioso pela chegada de Renato e assim que o tão esperado rapaz chegou, foi muito bem recebido por Jonas e Dora. Renato estava belo como sempre e naquela ocasião usava uma roupa rara de ver em seu corpo: camiseta, calça, sapatos todos alinhados a classe daquele âmbito e assim como a ele, Marcos, Joana e Felipe estavam nervosos e apreensivos com aquela situação. Sentiam que estavam em um lugar fora de seu costume – e estavam. – e mais que isso, sentiam estar num local que nunca deveriam estar e que não lhes pertenciam. Jonas, ao perceber isso, tentou de todos os meios fazê-los sentir-se à vontade, mas era impossível. Eles se sentaram na sala e conversaram por alguns minutos. O casal Marcos e Joana pouco falavam, já Renato se sentira um pouco mais à vontade para conversar livremente com Jonas e sua esposa.

— Há quanto tempo o senhor tem aquela oficina? Perguntou Jonas a Marcos.

— Me chame de você, por favor! Disse Marcos, sorrindo aos nervos.

— Claro, mas também quero que me trate como você, nada de cordialidades! Anunciou Jonas.

No mesmo instante, sentadas lado a lado, Dora e Joana conversavam acanhadas.

— Como é ter dois filhos homens... – Perguntou Dora. – Gostaria de saber, pois eu só tenho uma filha, e uma menina, que alias nem é mais uma menina, agora já é uma mulher...

— Bem – Falou Joana. – acredito que só quem é casada e só tem filhos homens sabe como é viver no meio de rapazes. Mas eu tenho mais dois filhos, mais um garoto e uma menina, o nome dela é Laura!

— E porque eles não vieram?

— Achei melhor não trazer as crianças. Elas não saberiam se comportar de tal maneira e...

— Oh, o que é isso. Eu e o Jonas adoramos crianças, acho que é porque raramente vem uma ou outra aqui em casa e...

Ao canto, Jonas se deu conta de que Fernanda ainda não surgira para o jantar.

— O senhor tem só uma filha? Perguntou Marcos.

— Sim. Respondeu Jonas. – E estou me perguntando por que ela não desceu ainda para o jantar!

Renato ouviu aquilo e no mesmo instante Fernanda desceu pela escada. Estava radiante. Ele a assistiu descer lentamente e se encantou com o gesto delicado e gentil daquela garota. Fernanda usava uma calça e blusa brancas. Seus gestos eram suaves e atraentes. Fernanda parou diante de Renato.

— Boa noite. Disse Renato, pegando uma das mãos de Fernanda e beijando-a levemente.

— Boa noite. Disse Fernanda. – Você é o Renato?

— Sim, prazer em conhecê-la!

Jonas e Marcos assistiram aquilo e se agradaram com a combinação que ocorreu logo de cara entre os seus filhos.

O jantar se seguiu tranqüilo e agradável a todos, até mesmo para Marcos, Joana e Felipe, que mesmo acanhados, sentiram-se perfeitamente bem recebidos e bem tratados pela família Alves. “Quem diria que um dia estaríamos aqui sentados à mesa com uma família como esta!” pensou Marcos, certo momento. Jonas e a esposa demonstraram-se felizes e bem educados quanto à família Freitas e mesmo que fosse difícil, eles tentavam de todos os modos deixá-los à vontade. Durante toda à noite, desde que se viram na sala, Fernanda e Renato não deixaram de trocar olhares curiosos e atentos um ao outro. Tudo percebido por Jonas, que gostou daquilo. Após comerem satisfatoriamente e se reunirem na sala de visitas para conversarem mais e tomarem algum vinho, Fernanda se afastou dos convidados e se encaminhou ao jardim da mansão. Renato veio logo atrás.

Eles caminharam juntos a uma estufa repleta de flores e plantas e iniciaram uma conversa.

— Como você e meu pai se conheceram? Quis saber Fernanda certo momento. Seu tom era calmo e ainda amedrontado.

— Na verdade eu já conhecia o seu pai há muito tempo...

Ambos sorriram.

— Quem não conhece o Grande Jonas. O fazendeiro e político mais popular e rico da região!

— Tem razão! Concordou Renato. – Mas eu pude perceber um tom irônico em sua voz. Por quê?

— A influencia que meu pai tem não só aqui em Santana, mas em todo nosso estado, acaba se recaindo sobre mim de uma forma que eu detesto. – Fernanda se recordou do que ocorrera dias antes entre ela e seus professor na faculdade. – Todos me tratam com bajulação e eu não gosto disso!

— Entendo. – Renato tentou reconfortá-la.

— Acredite você não entende! Eles se olharam calados por alguns segundos. Fernanda desvencilhou-se, envergonhada. – Mas e quanto a você, mora com seus pais?

— Sim. – Renato deixou de sorrir. – E pretendo continuar ao menos por enquanto. Contrariar meu pai seria horrível e não pretendo dar esse desgosto para ele.

— E como fará então quando você resolver se casar e partir para viver e construir sua vida ao lado de sua família?

— Bem, acredito que só passando por isso eu saberei que atitude tomar! Renato a olhou fixamente. – Até porque, ele devera se preocupar com a minha felicidade, já que eu sou seu filho. Impedir-me de ficar com quem eu gosto causara um desentendimento entre mim e ele!

Na mesma noite os dois marcaram de se encontrar no shopping da cidade para jantarem e se conhecerem ainda mais.

Como vinha se demonstrando nos últimos dias, Adonias não estava agindo como um bom funcionário dedicado e eficiente, como era no inicio de sua profissão. Quase sempre ele permanecia disperso, distraído em seus pensamentos, cometia erros, muitas vezes irreparáveis, mas que eram deixados de lado por Marta Severo, a chefe de Adonias. Ela tinha cerca de cinquenta anos e uma aparência bem mais jovem. Marta Severo tinha fama nacional como boa empregadora e que sempre tratara bem seus funcionários, escolhidos a dedo por ela. Naquela manhã Marta decidiu chamar Adonias para uma conversa em seu escritório. Ele entrou confiante na sala de Marta e logo se sentou numa cadeira diante da mesa de sua chefe. Marta assistiu atenta aos seus gestos.

— Foi bom que veio Adonias. – Marta falava com o tom calmo e seguro. – Antes eu quero que saiba que eu andei ouvindo comentários a seu respeito. Não sei se são verdadeiros, e espero que não, mas quero ouvir de você próprio. O que esta havendo?

Adonias não entendeu.

— Desculpe Marta, mas não entendo a que você esta se referindo...

Ela o interrompeu.

— Você vem cometendo inúmeros erros aqui na empresa, muitos irreparáveis que infelizmente estão nos causando sérios danos. O que aconteceu que o deixou assim, tanto eu quanto qualquer um dos nossos empregados mais antigos sabem que você era um rapaz competente, e de repente você começa a cometer erros.

— Desculpe Marta. – Falou Adonias confuso. – Eu nunca tive a intenção de deixar de ser aquele bom fotografo e muito menos quis causar problemas a essa empresa. Se achar que eu mereço ir embora, vou entender perfeitamente.

— Não! Disse Marta. – Demiti-lo jamais passou por minha cabeça. Mas se precisar, eu darei um jeito de conseguir que você retire alguns dias de licença para poder resolver o problema que o está atormentando.

“Se isso fosse adiantar”, pensou Adonias. Ele pensou em recusar, mas acabou por aceitar.

— Acha que pode fazer isso?

— Claro! Anunciou Marta.

Naquela tarde, apenas para concluir aquele serviço já que o havia confirmado, Adonias recebeu uma garota no estúdio fotográfico, uma menina de quinze anos que queria montar um book. Após concluir o serviço, Adonias juntou seus pertences, sua bolsa de sempre e se preparou para deixar o local. Ele desceu pelo elevador até o térreo do prédio e quando as portas do elevador se abriram, ele se surpreendeu ao dar de cara com Ana Karen.

Ela pareceu tão bela e radiante quanto na primeira vez em que a havia visto. Ana o olhou calada por alguns instantes. Adonias saiu do elevador e pronunciou gaguejando.

— Ana? Ele procurou as palavras. – O que esta fazendo aqui?

— Estou a sua procura! Ela falou aquilo sem saber que era o que Adonias não queria ouvir.

Eles começaram a caminhar pela recepção.

— Eu estive pensando em tirar algumas fotos e fazer algumas imagens agora, enquanto minha barriga ainda esta pequena para que eu possa depois comparar com fotos que eu farei quando estiver próxima de ganhar o bebê. – Ana deu uma pausa e depois falou. – E não há ninguém melhor que você para fazer essas fotos.

— O Cláudio sabe que você esta aqui?

— Sinceramente, não! Ana deu um leve sorriso. – Você deve saber que ele começou a trabalhar na clínica do pai dele. Estamos nos vendo muito pouco agora.

— Bem, eu estou saindo agora de licença no meu trabalho. – Adonias achou que nada poderia acontecer em retirar algumas fotos. – Se quiser, terá que ser agora e rápido!

Ana assentiu. Segundos depois eles estavam sozinhos no estúdio. Estranhamente, praticamente todos os funcionários e demais fotógrafos já haviam deixado o lugar. Mas Adonias prosseguiu. Primeiro Ana pousou com roupas normais. Em seguida, ela seguiu ao closet e usando uma blusa que era amarrada por trás, chamou por Adonias e lhe pediu que desamarrasse a blusa. Ele fez aquilo, sem qualquer reação. Em seguida Ana se trocou e pousou com peças mais leves. Logo ela resolver ser mais ousada, retirou todas as roupas e ficou apenas com peças intimas. Seu corpo esbelto e atraente deixou Adonias envergonhado, mas ele era profissional. As fotos saíram perfeitas. Naquele instante, todos os problemas que o vinham atrapalhando sumiram de repente e ele agiu de forma eficiente e respeitável.

A noite já havia caído sobre a cidade sem eles se darem conta, e ao fim das fotos, Ana caminhou ao closet para se vestir. Adonias ficou ao lado remexendo algumas fitas em uma das câmeras quando Ana saiu do closet segurando apenas sua blusa pelos seios.

— Você poderia me ajudar?

Ana virou-se e Adonias a olhou intensamente. Fazer o que lhe vinha à cabeça era algo absurdo. Adonias passou sua mão pelas costas de Ana e depois pegou sua blusa. Ana sentiu aquelas mãos firmes e fortes e as tocou levemente. Ela virou-se de frente a Adonias e lhe encarou. Não houve como evitar. Os dois se beijaram desesperadamente, como se já esperavam por aquilo. Ana soltou sua blusa e a deixou cair no chão. Adonias a olhou e depois continuou a beijá-la loucamente.

Eles seguiram ao closet onde Ana havia trocado suas roupas e começaram a se tocar, acariciando-se e se beijando. Certo momento, Adonias ouviu nitidamente a voz de Cláudio: “Esta é Ana Karen Esmaz, ela esta grávida e vamos nos casar!”. Bruscamente ele se afastou e olhou Ana a sua frente. Com os braços, Ana tentou esconder os seios.

— Eu não posso... Não, é errado e não serei desleal ao meu amigo!

— Não pense que estou me agradando com isso. – Anunciou Ana. – Mas não posso me negar ao que estou sentindo dentro de mim. Você não sente...

— Você esta noiva do Cláudio e ira ter um filho dele!

— Só o que importa agora é o que nós estamos sentindo um pelo outro. – Disse Ana, calma a persuasiva. Ela levantou e falou enquanto passava sua mão pelo rosto de Adonias. – Desde a primeira vez que eu o vi, senti algo crescer dentro de mim e hoje, estou disposta a tudo por você!

Os dois se beijaram novamente. Não houve como evitar. Eles transaram ali mesmo.

Naquela tarde, Renato e Fernanda marcaram de se encontrar novamente. Era a terceira vez naquela semana e mesmo que para Renato parece precipitação, ele sabia que se fizesse aquilo, não apenas agradaria a Fernanda, mas também agradaria a todos os seus familiares. Eles se encontraram em um restaurante na capital. Fernanda vinha de sua faculdade e trazia nas mãos sua bolsa com livros e pastas. Ela sorriu diante de Renato que permanecia sentado a sua frente.

— Que bom que veio! Anunciou Fernanda. – Pensei que se negaria a vir, e eu entenderia...

Os gestos de Fernanda demonstravam que ela estava confusa e amedrontada.

Duas mulheres jovens e bonitas, porém arrogantes e evidentemente de famílias ricas e bastante influentes se aproximaram da mesa e se dirigiram a Fernanda, agindo como se Renato não estivesse ali.

— Olá Fernanda – disse uma das garotas. – Porque não se senta conosco?

— Venha nos fazer companhia! Adiantou-se a outra.

Fernanda levantou-se e pronunciou.

— Renato, essas são Alice Martine e Clara Pietro e estudam comigo. – As duas garotas olharam para Renato com o olhar cheio de desprezo e prepotência. Elas se viraram para Fernanda. – Desculpem meninas, mas eu prefiro ficar aqui com o Renato, não há companhia melhor que a dele!

As duas perceberam que havia algo além que uma simples amizade da parte de Fernanda e se afastaram. Depois daquele dia, elas pouco falaram com Fernanda.

Renato a olhou se sentar e murmurou:

— Eu é que pensei que você não fosse querer me ver novamente. – Disse Renato, ele pensou por alguns segundos e depois falou. – Imagino como deve estar sendo difícil para você.

— O que?

— Deixar de lado seus amigos, os ricos de alta classe e nível... Renato mal sabia o que dizer, tropeçando nas palavras confusas e embaralhadas.

— Não diga bobagens! Fernanda tocou as mãos de Renato sobre a mesa. – Tenha a certeza que eu estou aqui porque quero, e me agrado muito mais estando na sua companhia do que daquelas garotas cínicas e metidas!

— Há uma coisa que eu quero lhe dizer. – Renato tremia de nervosismo, mas ele se encorajou. – Eu tenho pensado muito em você desde a noite em que nos conhecemos e apesar de ser impossível para nós, eu quero que saiba que eu estou gostando muito de você Fernanda...

— Por que você diz que é impossível para nós? Fernanda sabia bem a que Renato se referia e a aparição de suas amigas serviu como uma confirmação ao que ele insinuara.

— Há um enorme empecilho... Uma diferença que nunca permitira que eu e você possamos ficar juntos! Ele a olhou nos olhos fixamente, as palavras haviam saído no impulso, mas na verdade era o que ele tanto queria e pretendia dizer. – Desculpe-me, eu não quis...

Fernanda o interrompeu.

— Não diga mais nada! Ela pediu tranqüilamente e segura. – Eu gosto de você e quero ser sua namorada!

Renato não soube o que dizer. Apenas a ouviu calado, confuso, porém entusiasmado. Os dois se aproximaram e ainda sentados se beijaram. Foi a primeira vez em que Fernanda sentiu a sinceridade em um homem.

Aquela oficina não era uma verdadeira fábrica de consertar veículos, mas a renda mensal que Marcos de Freitas tirava naquele lugar era mais que o suficiente para ele e sua família. A Freitas e Amais era uma oficina mecânica especializada nos mais variados tipos de automóveis e motocicletas. O prédio de dois andares era situado na estrada que dava acesso a capital do estado, saindo de Santana e Mello, exatamente ao lado do velho aeroporto. Na parte de baixo havia um enorme salão com capacidade para sete veículos bem estacionados, mas naquele instante havia nove; as ferramentas estavam espalhadas por cima de um balcão ao canto da parede e pelo chão. Ao lado daquele balcão estava a escada, dando acesso à parte de cima da casa. No andar de cima morava Marcos e seus familiares: Joana, a esposa, tinha entre quarenta e cinquenta anos, uma aparência jovial e bondosa, incapaz de desejar qualquer mal a alguma pessoa; os filhos Renato, o primogênito; Felipe o segundo e mais problemático dos filhos, com problemas de relacionamentos com a família e amigos, rebelde; e, Mateus e Laura, duas crianças brincalhonas e curiosas. Todos, com exceção de Renato, viviam as complicações e os medos surgidos ao decorrer de sua infância adolescência.

Mas se havia algo que Marcos e a esposa Joana faziam questão de demonstrar a todos era a simplicidade e harmonia que fazia parte da família Freitas. Assim como o irmão mais velho – e tirando-o como um exemplo. – Felipe Freitas, o segundo dos filhos, seguia a mesma índole de Renato. Não aceitava ser desafiado, não aceitava ser desrespeitado seja por quem fosse e devolvia as pessoas o mesmo tratamento que era lhe dado. Ele tinha dezessete anos, mas agia e era tratado como um adolescente mais jovem. Felipe sempre nutriu uma paixão por Cristina Junqueira, porém ela nunca lhe demonstrou interesse; e como se não bastasse, Cristina namorava Cláudio André e há alguns anos, partiu para a Europa sem manter contato com qualquer pessoa da cidade. Namorar Cláudio e não a ele, fez com que um ódio se plantasse na alma de Felipe. Ele detestara Cláudio André e a figura que ele demonstrava e mesmo após anos terem se passado e Cristina ter partido, não ficando com nenhum dos dois, Felipe não deixava de ter raiva e desejar o mal a Cláudio André.

Ele era seu verdadeiro inimigo e Felipe não se importaria em fazer algo que pudesse prejudicar Cláudio, mesmo que isso fosse ilegal e de mal-caráter. Felipe chegou até Renato naquela tarde, na oficina. Renato estava deitado em cima de um papelão, debaixo de um dos carros e usava um uniforme da oficina manchado e sujo.

— Quer dizer que o Cláudio André vai se casar – Anunciou Felipe. – Além disto, a noiva dele esta grávida?

Renato se levantou rapidamente e falou áspero.

— Como soube disto?

— Uma amiga que estudou comigo me falou. – Felipe era cético. – Ela trabalha na casa dos Del Sales agora e se chama Renata. – Felipe sorriu pensando na semelhança entre o nome do irmão com o da amiga. – Você deveria conhecê-la, afinal, freqüenta tanto a mansão Del Sales...

Renato aproximou-se de Felipe e, lhe segurando pelos braços lhe perguntou.

— Eu não estou sabendo de casamento algum! Murmurou Renato.

— Parece que a garota chegou no dia seguinte da noite em que Cláudio retornou, na festa que fizeram para ele e se deram ao desfrute de não nos convidar!

— Não diga besteiras, toda nossa família foi convidada e vocês que não quiseram ir! Renato tentou não se desvencilhar ao que ouvira sobre Cláudio. – Me explique melhor essa história sobre casamento e gravidez!

Eles falaram com a voz baixa, como se tentassem evitar que os demais ali ouvissem o que eles falavam. Naquele salão havia mais dois funcionários da oficina trabalhando.

— Eu não sei bem te explicar, a Renata me contou sem muitos detalhes. Apesar de sermos amigos, ela não gosta de fofocar sobre a vida dos patrões com ninguém e detesta que eu saia por aí revelando aos outros tudo que ela ouve naquela mansão a respeito da vida dos Del Sales. – Felipe baixou ainda mais o tom em sua voz. – Parece que a família Del Sales esta rodeada de mistérios e segredos!

Felipe virou e se afastou lentamente do irmão. Enquanto andava, rumo à escada que dava acesso ao andar de cima do prédio, ele deixou um leve sorriso surgir em seu rosto. Renato o olhava se afastar, mas seus pensamentos estavam em outra coisa. “Será que era com isso que o Cláudio pretendia nos surpreender naquele almoço?”, perguntou-se ele. Sem resposta. Rapidamente Renato caminhou até o balcão e de entre as ferramentas retirou um pedaço de pano velho onde esfregou as mãos. Instantes depois ele subiu a escada e seguiu ao banheiro da casa, tomou um banho e se trocou. Em menos de dez minutos ele pegou um dos carros da oficina e saiu, deixando os outros dois funcionários trabalharem sozinhos.

Renato estava decidido a tirar aquela história a limpo.

No mesmo instante, Cláudio entrava em seu quarto acompanhado de Ana Karen. O lugar era grande, com vários quadros e desenhos pendurados pela parede. Havia um closet onde eles haviam colocado suas roupas e junto do armário, tinha também uma banheira de hidromassagem. Ao canto estava o boxe com um chuveiro. A cama para dois já havia sido colocada, sendo bem destacada com a iluminação do quarto. Atrás da cama, uma porta com acesso à sacada.

Eles caminharam rumo a cama e jogaram algumas sacolas que traziam sobre os lençóis limpos e novos, comprados por Domingas especialmente para aquela ocasião.

Ana Karen se sentou na beira da cama e Cláudio caminhou pelo quarto. As lembranças de sua infância e juventude lhe vieram nítidas na mente. Era apenas a cama que havia mudado. Ana o assistiu por alguns segundos e resolveu falar:

— Adorei ter feito compras com você. – Falou Ana. – Será que hoje finalmente iremos estrear nosso novo quarto?

Assim que Ana chegou de viagem, precisou dormir em um quarto de hóspedes, até que a cama nova e o quarto, em geral, fossem preparados para o casal. Cláudio a olhou calado por alguns instantes e depois falou.

— Eu estive pensando sobre essa história de gravidez e...

Ana o interrompeu.

— Não termine! Ela se levantou e caminhou até ele. – Agora que começamos, teremos que terminar. Já conversamos sobre isso e você concordou. – Ela sussurrou no ouvido de Cláudio. – Não me abandone, eu preciso de você!

Cláudio a assistiu novamente. Ana não soube decifrar a sua feição.

— O que você acha dessa história de eu trabalhar na empresa de meu pai?

— Será ótimo. – Anunciou Ana, afastando-se. – Além do mais, não levantara desconfiança quanto a nós, pois é o que esta acontecendo. Todos ainda desconfiam de nossa relação e principalmente, da minha gravidez!

— Devem estar achando que você esta me enganando, mas...

As palavras de Cláudio foram interrompidas inesperadamente por batidas na porta. Ao ser autorizada, Domingas entrou no quarto trazendo um envelope amarelo. Ela entregou a Ana Karen.

— Achava que esse negócio do correios estivesse fora de moda, mas vejo que não, afinal, a senhorita esta a tão pouco tempo aqui e já lhe estão chegando correspondências! Falou Domingas, direcionando suas palavras a Ana Karen.

Ela virou-se a Cláudio.

— Por favor, querido — falou Domingas, num tom muito mais agradável. –, você poderia vir comigo um instante, preciso de sua ajuda sobre o cardápio do jantar nesta noite. Quero fazer algo que agrade sua noiva, e como vocês já se conhecem bastante, você deve saber quais são os gostos da Srta. Esmaz!

“Porque não pergunta diretamente a ela?”. Cláudio pensou em dizer àquilo, mas preferiu sair com Domingas. Ao se encaminhar rumo a porta, Cláudio deu uma rápida olhada para o envelope, tentando ler o que estava escrito no papel, mas ele não conseguiu ver nada além do destinatário e um selo escrito em espanhol. Certificando-se de que os dois haviam descido a escada e não havia chance de alguém ver qualquer coisa no papel, Ana Karen fechou a porta e girou duas vezes a chave. Trancada, ela rasgou o envelope e leu aquele texto em espanhol.

— Estou sendo chamada para depor numa delegacia em Acapulco. – Cochichou Ana. Ela continuou a ler o papel. – Estou sendo acusada na morte de Henriqueta... O Vagner me entregou! Mas como puderam acreditar nele depois de terem achado o frasco com veneno em sua mochila... Ninguém, principalmente o Cláudio pode saber disso!

Ela olhou a data ao qual deveria estar presente na delegacia. Em cerca de uma semana ela deveria estar no México. Alguns minutos se passaram e Cláudio retornou ao quarto. Ele bateu na porta e Ana abriu.

— Porque se trancou?

— Eu ia tomar um banho e como não há porta em seu closet...

Cláudio entrou no quarto e fechou a porta em meio às palavras de Ana Karen.

— Eu tive de dizer qualquer coisa para a Domingas. – Anunciou Cláudio. – Quando descermos para jantar, diga que tudo que ela preparou é o que você mais gosta!

— Claro!

Cláudio caminhou até um guarda roupas ao canto da parede e retirou uma toalha, em seguida se encaminhou ao closet. Ao retirar a camiseta e demonstrando-se pouco interessado, ele perguntou:

— O que havia naquele envelope que a Dodô lhe entregou?

— Nada! Anunciou Ana. – Apenas problemas de família. Infelizmente eu terei que viajar para lá daqui dez dias ou menos.

Ana disfarçou tão bem que Cláudio nem percebera que o envelope havia sumido. Ela permaneceu parada de pé e ouviu o som do chuveiro abrir. Cláudio gritou.

— Você não vai tomar banho agora?

Rapidamente Ana retirou suas roupas e enrolada numa toalha usando por baixo apenas suas lingeries, se encaminhou rumo ao closet. Ela entrou no boxe junto de Cláudio. Ele tinha o corpo nu, com a água que saia do chuveiro lhe escorrendo por todo o corpo já ensaboado. Ana o olhou por inteiro. Cláudio a assistiu retirar suas peças íntimas. Ao entrar no chuveiro, Ana parou diante Cláudio e os dois se encararam calados por alguns instantes, beijando-se em seguida. Um beijo carregado de paixão e ternura.

Em alguns minutos, Ana e Cláudio já estavam vestidos no quarto, após aquele banho. Cláudio vestira um terno com sapatos, ficando bem a linha de um empresário. Ana colocou um vestido preto, sandália de salto alta e, minutos depois, prendeu o cabelo perfeitamente. Eles estavam prontos para sair. Como Cláudio havia começado a trabalhar na sede dos hospitais de seu pai, ele e a namorada decidiram ir naquela hora fazer uma visita a Luiz e conhecer um pouco da empresa da família Del Sales.

Ana terminou de se aprontar enquanto Cláudio já a aguardava no andar de baixo da casa. Enquanto ela descia pela escada, Ana ouviu a voz de Domingas tentando convencer Cláudio a não sair naquela hora. Ana parou nos degraus, sem que ninguém a visse.

— Porque irão sair agora? Perguntou Domingas. Ela estava de pé, na sala, olhando Cláudio sentado a sua frente num sofá. – Essa já não é uma boa hora para irem até a empresa, já esta anoitecendo!

— Eu não vou demorar, Dodô. Falou Cláudio. – Apenas quero resolver alguns assuntos que ficaram pendentes na empresa e quero apresentar a Ana o local onde eu trabalho. E ainda faremos uma surpresa ao meu pai!

— E quanto ao jantar!

Cláudio levantou e falou sorrindo.

— Não se preocupe, oras, chegaremos a tempo!

Naquele instante, Ana surgiu na sala. Sua beleza atraiu a atenção de Domingas no mesmo instante.

— Estou pronta! Anunciou ela.

Segundos depois, eles se encaminharam até a garagem e, dessa vez utilizando os serviços de Bernardo, o motorista, o casal seguiu até a sede das clínicas. Nem mesmo cinco minutos se passou até que Luiz chegasse à mansão.

O prédio era situado em Campo Grande, um belo edifício de quinze andares com uma fachada atraente e bem agradável. Logo na recepção, Cláudio se aborreceu com o atendente. Paulo Camargo, que acabara de iniciar sua estada naquele prédio, trabalhava anteriormente em um dos hospitais em Santana e Mello. Por sua capacidade para o serviço e boa qualidade, ele fora transferido para uma das clínicas na capital, e apesar de cumprir o mesmo trabalho, ele recebia mais e tinha várias vantagens.

Não permitir que ninguém entrasse no escritório de Luiz após ele ter saído era uma das regras que Paulo seguia à risca, mas não permitir que o filho deste magnata entrasse no escritório, talvez lhe pudesse trazer problemas; mesmo assim, Paulo se tornou um empecilho.

— Desculpe – Anunciou Paulo, sentado por trás de sua mesa. A porta do escritório de Luiz Augusto estava logo atrás dele, trancada. –, mas tenho uma regra a seguir. Ninguém entra no escritório do Dr. Luiz Augusto após ele ter partido!

— Meu pai sabe que estamos aqui...

— Sinto muito, mas acho pouco provável que o Dr. Del Sales esteja a par de que os senhores estão aqui, ou senão ele me diria que os senhores iriam vir na clínica, ou até mesmo os aguardaria na sala!

Ana assistia a tudo calada e percebeu que o noivo já estava perdendo a paciência.

— Deixe de bobagens e me deixe entrar nesta sala! Anunciou Cláudio

Paulo se negou. Nesse instante, a porta do elevador se abriu e cerca de cinco pessoas se juntaram as demais naquele lugar. O local, por acaso, estava estranhamente cheio para àquela hora da noite e todos curiosos, assistiram a cena patética de Cláudio e Paulo. Cláudio André – pela primeira vez. – tomara partido de algo que não fazia parte de sua conduta. Exasperado e com sua voz carregada de prepotência e arrogância. Ele falou agressivo.

— Quem você esta pensando que é para me tratar desta forma? Cláudio estava irado. – Não pense que só porque você é secretario do meu pai que eu não poderei demiti-lo. Você deve me tratar com respeito e cumprir com dever meus pedidos. E isto que eu estou lhe falando não se trata de um simples pedido, mas sim uma ordem!

Paulo ouviu tudo calado. Retrucar o filho de seu patrão poderia lhe trazer problemas, mas se tinha algo que ele estava decido a fazer era seguir as ordens de Luiz, mesmo que se para isso, ele teria que se negar a cumprir ordens de Cláudio.

— Abra esta porta! Ordenou Cláudio, mas novamente Paulo se negou.

No mesmo instante, Cláudio pegou o telefone sobre a mesa e discou o número da segurança do prédio. Dois rapazes fortes e mal encarados chegaram rapidamente naquele andar e, ao contrário de Paulo, seguiram as ordens de Cláudio André.

— Sabem quem eu sou? Ele falou alto, ressaltando bem as palavras a todos que ali estavam. – Eu sou Cláudio André Del Sales, o futuro dono deste lugar, portanto quem não quer cumprir minhas ordens, que saia agora! – Ele apontou para Paulo. – Agora quero que retirem este sujeito daqui. Ele não trabalha mais nesta clínica e, portanto, não há mais motivos para que ele permaneça neste local!

Num gesto brusco, os dois seguranças pegaram os pertences de Paulo e a ele mesmo, levando pelo elevador e colocando tudo para fora do prédio. Na escada situada na fachada, na frente do edifício, Paulo caiu no chão ao ser solto pelos sujeitos. No mesmo instante, Renato chegava ao local e dentro de seu carro assistiu tudo de longe espantado.

Ana acompanhou tudo sem qualquer reação. A principio ela pensara que era exagero de Cláudio demitir daquela forma aquele rapaz, mas o namorado agira de forma tão violenta que ela preferiu não dizer nada. Segundos depois, ela e Cláudio estavam dentro do escritório de Luiz Augusto, remexendo no computador e em inúmeros papéis guardados nas gavetas da mesa e na estante ao canto da parede. Certo momento, sentado numa cadeira de couro por trás de uma mesa, Cláudio reverá seu ato e percebeu que havia agido de uma forma absurda com Paulo.

— Ao menos há uma vantagem. – Disse Ana. Sua voz, eterna, estava carregada com sua técnica de manipulação e sensualidade. – Desta forma você mostrara a todos os funcionários desta clínica quem eles deveram respeitar e obedecer daqui para frente!

E Cláudio se convenceu de que agira de forma apropriada.

Renato chegou na recepção do prédio no primeiro andar e informando-se com o recepcionista, ele entrou no elevador e se encaminhou ao andar onde Cláudio estaria com a namorada. Ao passar pelas pessoas no prédio, ele percebeu que muitos estavam tensos e apreensivos, o deixando também daquela forma. Ao chegar naquele andar, Renato saiu do elevador e caminhou ao escritório, ele bateu na porta e segundos depois, Ana Karen, dentro da sala, anunciou que ele poderia entrar.

Ao cruzar a porta uma rápida reação invadiu Renato. Ele não sabia o que subiu dentro de si, mas sentia que era uma sensação inesperada e agradável. Eles se encararam calados por alguns segundos. Ana Karen, uma linda mulher estava diante dele e Renato não teve reação, apenas a olhou curioso e atencioso.

— Eu estive na casa do Cláudio e me falaram que ele estaria aqui. – Falou Renato, tropeçando nas palavras. – Eu precisava conversar com ele...

— O Cláudio desceu ao andar de baixo a poucos instantes, vocês se desencontraram! Anunciou Ana Karen.

A voz de Ana foi como uma melodia aos ouvidos de Renato. Ela não se conteve, aproximou-se de Ana lentamente e se apresentou.

— Eu sou Renato Freitas, amigo do Cláudio. – Ele a olhava nos olhos. – E você quem é?

— Me chamo Ana Karen Esmaz. – Ela pensou em se apresentar apenas como a noiva do Cláudio, mas achou melhor dizer seu nome e nada a mais.

— Eu soube que o Cláudio esta de casamento marcado e que terá um filho. Eu sou amigo dele e não entendo como ele não me disse isso antes!

— Provavelmente não tenha tido oportunidade! Completou Ana.

Nesse instante Cláudio apareceu no escritório e sorriu ao ver o amigo.

— Renato o que faz aqui? Cláudio demonstrou-se surpreso. – Como soube que eu estava nessa clínica?

Renato precisou se desvencilhar da imagem de Ana a sua frente para poder responder.

— Eu estive na mansão e a Dodô me disse que você havia vindo para cá junto de sua noiva.

Cláudio sorriu, aproximou-se de Ana e a abraçou.

— E imagino que já a tenha conhecido. – Disse Cláudio. – Renato, esta é Ana, e este é Renato, um dos meus melhores amigos!

Aquilo soou estranho para Renato, que sentiu uma súbita culpa dentro de si. Ele olhou mais uma vez para Ana Karen que correspondeu vergonhosamente. Cláudio interrompeu.

— Foi bom que veio Renato – disse Cláudio. – Gostaria que levasse a Ana para casa.

Ana o olhou, sem entender nada.

— Não entendo! Murmurou ela.

— Eu estive olhando alguns documentos aqui da empresa e terei que resolver alguns assuntos pendentes ao meu pai, e vou demorar muito. – Cláudio a abraçou. Renato acompanhou calado. – Portanto quero que volte para a mansão e jante com meu pai e com a Dodô. – Cláudio se virou a Renato. – Eu vou lhe dar um dinheiro e vocês pegam um táxi...

— Não será preciso – Renato anunciou rapidamente. –, estou com meu carro!

Cláudio sorriu.

— Ótimo!

Eles desceram ao estacionamento do prédio. Cláudio era o que mais sorria e falava. Renato, dizia algumas palavras uma vez ou outra. Ana Karen não pronunciou qualquer som desde que deixaram o escritório – na verdade, ela não disse nada desde que havia visto Renato entrar naquela sala. Eles permaneceram parados perante o carro de Renato e segundos depois, Ana entrou e se sentou no banco do carona. Logo Renato sentou no banco do motorista e em seguida, saíram do prédio, deixando Cláudio André para trás.

No inicio, um silêncio pairou sobre o ar. Renato tentava de todos os meios se desvencilhar da presença de Ana Karen ao seu lado, mas nem mesmo ela fazia questão daquilo.

— Desde quando você e o Cláudio se conhecem? Perguntou Ana, para o desagrado de Renato.

— Nos conhecemos na rua, ainda crianças... Eu, o Cláudio e o Adonias. Daí ficamos amigos, logo nos tornamos adolescentes. Os dois iniciaram juntos a estudar na mesma faculdade e como eu e o Adonias morávamos, e ainda moramos próximos até hoje, nós três sempre nos encontrávamos na casa dele. Em outros momentos, os dois iam até minha casa ou eu e o Adonias íamos à casa do Cláudio.

Ana ouvia tudo calada. Ela olhava o gesto de Renato e se encantava a cada momento com a voz e a maneira como Renato agia.

— Mas um tempo depois, e como sempre ocorre, os três basicamente se separaram. O Cláudio desistiu da faculdade e partiu para o México, o Adonias começou a trabalhar após concluir o estudo e eu, passei a seguir minha vida cuidando e ajudando meu pai com os negócios dele. Mantivemos pouco contato um com o outro, principalmente depois que o Cláudio se mudou.

— É incrível! Anunciou Ana.

— O que é incrível?

— Tanto você quanto o Cláudio, quando falam sobre suas vidas, envolvem sempre o Adonias no meio. – Ana deu uma pausa ao ver a reação de Renato, que lhe lançou um olhar frio e confuso. Ela prosseguiu. – Quero dizer, como é a amizade sua com o Cláudio?

— Nos damos perfeitamente bem, desde que nos conhecemos. Não há como explicar, pois é algo que só quem passa por isso pode dizer. Não se demonstra com palavras, mas sim com gestos!

— Ao menos o Cláudio tem por perto pessoas que ela gosta e que sabe que pode confiar! Ana falou com a voz baixa, olhando através do vidro ao seu lado. O carro corria rapidamente pela estrada e algumas gotas da garoa que caia escorriam pelo vidro. – O Cláudio não lhe contou o porque que estamos nos casando?

— Vocês se gostam e a maior prova esta dentro de você!

— Antes fosse! Ana falava com a voz carregada de pesar. – Indiretamente, é mesmo por causa desta gravidez, mas não por amarmos um ao outro. Aquela velha história de peso na consciência, arrependimento e o pior, por obrigação. Tanto nesta cidade quanto na cidade em que eu vivia no México, engravidar uma garota sem se casar é algo mal visto que gera vergonha e desprezo nas pessoas. – Ela deu uma pausa e depois continuou a falar. – O que eu sinto pelo Cláudio é uma espécie de admiração, nada mais!

Renato ouviu Ana desabafar. Ele poderia tentar consolá-la e convencê-la do contrario, mas tanto Ana quanto ele sabiam que aquilo vinha a calhar. Renato encostou o veículo num canteiro da rodovia e falou.

— Desculpe pelo que vou dizer, mas agindo desta forma, os dois estão sendo inconsequentes. Não estão prejudicando a si próprios, mas também essa criança. – Renato se inclinou no banco, falando baixo. – Imagina o quanto essa criança ira sofrer futuramente convivendo num ambiente repleto de enganos e mentiras!

Ana o olhou dispersa. Ela não soube o que dizer.

— Não sei se é correto lhe afirmar, mas se você mesma disse isto, é porque não quer se casar e certamente essa seria a decisão mais sensata numa situação como esta!

Eles se encararam novamente. Não houve como se negar ao desejo repentino que surgira dentro dos dois. Ana se jogou sobre Renato e o beijou loucamente. Uma reação rápida e inconseqüente que ela estava disposta a seguir. Renato sentiu um frio em seu corpo e um medo que o estremecia, mas ele também sentia que assim como aquele sentimento de culpa – e talvez ainda maior e mais forte. – ele tinha dentro de si uma ousada e absurda vontade de prosseguir com àquilo. A única reação que tiveram os dois foi de deixar fluir o desejo que sentiam um pelo outro. Dentro de um carro estacionado no canteiro da estrada não era um dos locais mais confortáveis e agradáveis, mas isso era o que pouco importava para o casal — que transaram ali mesmo, com todos os riscos e medos, algo que de certa forma os deixou ainda mais excitados.

Notas finais
Como puderam ver Ana está cada vez mais envolvendo os amigos Adonias e Renato em sua trama. Mal sabem os rapazes o que acontecera no futuro quando este quarteto amoroso for descoberto. Espero que tenham gostado e obrigado por lerem.