Ao Seu Segredo Meu Coração.

1 A verdade está aos olhos de quem quer enxergar


Campo Grande

10:30 da manhã

15 de novembro de 1999.

Ela caminhou rapidamente pela plataforma daquele saguão, tentando acompanhar o movimento ágil e apavorante daquele aeroporto olhando ao redor e tentando se desvencilhar dos olhares famintos de desejo dos homens a sua volta – e os olhares carregados de ódio e inveja das mulheres em plantão. Mas era impossível. O aeroporto daquela capital era um complexo enorme, podendo fazer com que um estrangeiro se perdesse facilmente em seus corredores.

Demonstrava-se uma garota jovem e alegre e isso lhe servia como um escudo para esconder sua real idade. Ana Karen Esmaz fazia o gênero recatada – o que talvez chamara ainda mais a atenção das pessoas; ela tinha entre vinte e trinta anos, um corpo atlético e atraente, um rosto esbelto, lábios carnudos e olhos fortes. Seu cabelo era cacheado, totalmente pretos. A pele era perfeita, amarronzada e suave. Mas estes não foram os fatores que levaram Cláudio André se perder de amores por ela. Enquanto era levada por uma escada rolante ao andar de baixo daquele complexo, Ana Karen pensara: “Isso é mesmo um sonho. Estar aqui sempre foi tudo que desejei, agora basta concluir meus objetivos e tudo saíra perfeitamente como planejei”. Conforme era levada por entre aqueles estranhos, Ana não deixou de se lembrar como fizera para se aproximar de Cláudio André. Quem a ouvisse contar, pensaria que tudo se tratara de uma simples coincidência, mas Ana nunca acreditara em por acaso.

ANA E CLÁUDIO se conheceram em Acapulco, na recepção do hotel Las Ondas Del Mar, quando no mesmo instante, eles pararam diante do recepcionista. Cláudio precisaria de dois quartos, um para si, e o outro para a avó Henriqueta. Ana queria apenas um.

— Desculpem, mas só resta dois quartos! – Anunciou o recepcionista. Ele virou-se para Ana Karen. – E tratando-se de Henriqueta Marinho senhorita, sinto muito...

— Mas isso é um absurdo! Disse Ana Karen, indignada. Seu sotaque era carregado por um tom sulista. – O que você quer dizer com “tratando-se de Henriqueta Marinho”, ela é uma pessoa tão comum quanto eu...

Cláudio André a assistiu, admirado com o que ele considerava uma ousadia.

— Acalme-se senhorita. – Disse o rapaz por trás do balcão.

— É muito interessante saber que vocês tratam desta forma uma cliente só porque não sou uma grande e famosa atriz! Continuou Ana. – Eu irei pagar para permanecer hospedada aqui e exijo que me tratem com total respeito e...

Henriqueta surgiu por trás de Ana Karen e caminhou lentamente com o auxilio de uma bengala. Ela parou perante a jovem. Sua voz era quase tão leve e lenta quanto seus gestos. As duas se entreolharam por alguns instantes. Para Henriqueta, não havia nada alem de uma simples e nervosa garota à sua frente. Mas em Ana Karen, o medo estava mais que estampado em seu rosto. Estar diante de uma mulher como Henriqueta Marinho não era algo comum e que lhe agradara. Henriqueta olhou por trás do balcão e avistou o atendente, calado.

Antes de iniciar qualquer frase, Henriqueta virou-se e fitou o neto ao seu lado. Cláudio André sorria, debochado.

— Onde esta a graça garoto? Disse Henriqueta. Todos os três a olharam sem falar qualquer coisa. – Será que alguém poderia me explicar o que esta havendo aqui?

— Desculpe-me Sra. Marinho, mas acontece que essa jovem insiste em...

Iniciou o balconista, mas foi interrompido por Ana Karen, desvencilhando-se dos olhares de Henriqueta.

— Desculpe-me senhora, mas eu preciso de um quarto e esse rapaz, junto com esse recepcionista estão se negando a me entregar a chave. – Ana deu uma pausa, mas depois prosseguiu, seu tom era calmo. – Desculpe, mas não posso permitir que me destratem apenas porque querem lhe tratar bem. E é isso que seu filho esta tentando fazer!

Henriqueta lançou um olhar de reprovação ao neto. Cláudio parou de sorrir no ato. Em seguida, ela tornou a olhar o homem por trás do balcão.

— Restam quantos quartos vagos, meu rapaz?

— So-somente dois senhora – respondeu o sujeito tropeçando nas palavras. – Mas eu já estou providenciando um para a senhora e o outro ao seu neto.

— Faça isso! – Falou Henriqueta. Ela virou-se para Ana Karen a tempo de vê-la dar de ombros, enfurecida. – Mas no meu quarto, eu quero que coloque duas camas. – Continuou Henriqueta.

— Mas para que duas camas, vovó? Quis saber Cláudio.

— Oras, uma para mim, e a outra para esta jovem. – Henriqueta pôde perceber a reação de espanto em Ana Karen. – Mas isso só se ela não se importar em dividir o quarto comigo, senão eu não me importaria em dividir o quarto com meu neto!

Ana realmente não esperava por àquilo. Ao ser questionada, ela mal conseguia falar.

— Oh, claro que não. – iniciou ela. – Mas dividir com a senhora o quarto, acho melhor que...

— Esta certo menina, você fica com o quarto só pra você e eu me viro com o Cláudio no outro!

— Não, Sra. Marinho, tudo bem, vamos dividir o quarto. Eu sei bem como é difícil para uma mulher permanecer no mesmo lugar que um rapaz e...

— Realmente é horrível! Henriqueta soltou uma gargalhada. Ana deixou que um leve sorriso surgisse em seu rosto.- Com certeza dormir com um homem no mesmo quarto seria horrível... Ficaremos assim então, eu e essa jovem juntas num quarto enquanto o Cláudio André permanece no outro. – Henriqueta virou-se para o balcão e dirigiu-se ao atendente. – Acho um desfrute da parte deste hotel que uma coisa insignificante como esta aconteça, um lugar deste nível tendo um problema tão fútil como este!

Ela baixou o tom da voz. – Mas é claro que você não é culpado por isso e entendo bem que o senhor apenas queria dar o melhor atendimento para mim e cumprir com competência seu dever, mas se para me oferecer o melhor atendimento é necessário que destrate as demais pessoas, por favor me destrate que ai sim eu o considerarei um bom recepcionista. – Ela levantou-se e sorriu. – Por favor, mande alguém levar as nossas malas para o quarto!

Ana Karen sorriu. Henriqueta lhe segurou pelo braço e ambas se encaminharam para o local de lazer do hotel. Cláudio André fez menção de ir junto, mas foi barrado pela avó.

— Onde você esta indo? Falou Henriqueta. – Isso é um encontro de mulheres apenas, vá para seu quarto, afinal você tem muitas malas para arrumar!

— Mas vovó, eu preciso ficar...

Insistiu Cláudio, mas as duas seguiram a diante, sem lhe dar ouvidos. Pouco antes de deixar o saguão do hotel, Ana Karen lançou um olhar ao sujeito por trás do balcão. Ela parecia satisfeita.

Chamado Valdir Martins, o recepcionista pegou seu crachá de identificação e pendurou-o no pescoço. “Sorte minha ninguém ter se dado conta de que eu estava sem meu crachá. Mas não entendo, porque será que a Srta. Esmaz armou toda essa cena com os Del Salles?” Por mais que Valdir procurasse, não havia resposta!

Cláudio André permaneceu sem ver a avó por todo àquele dia, e só tivera noticias dela quando um dos funcionários do hotel veio ao seu quarto, enquanto ele se preparava para um banho. Ele já estava sem a camisa e trazia nas mãos uma toalha branca quando ouviu as batidas pelo quarto, Cláudio abriu a porta. No corredor, um dos funcionários lhe falou:

— Sr. Del Sales? Falou o rapaz.

— Sim.

— A Sra. Henriqueta Marinho pediu que a encontrasse as 19:00 no restaurante do hotel para o jantar. – Disse o sujeito. – E insiste que o senhor esteja lá sem atraso!

Segundos depois, o rapaz partiu e deixou Cláudio André em seu quarto, sem compreender a atitude da avó. Ele fechou a porta olhando para seu relógio de pulso, já eram 18:33, ele tinha cerca de vinte e cinco minutos para se aprontar. Cláudio não poderia afirmar, pois não conseguia entender quais eram as intenções de Henriqueta, mas algo lhe fazia ter uma idéia de que Ana Karen, — de certa forma. – estaria envolvida com àquilo.

E ele não estava enganado.

Os minutos se passaram rapidamente e Cláudio chegou ao restaurante do hotel com cerca de dez minutos de atraso. Ele parou diante a porta e avistou a avó sentada numa cadeira, diante de uma mesa de jantar. A sua frente estava Ana Karen. “Isso só pode ser brincadeira”, pensou Cláudio. Ele entrou e caminhou pelo salão, dirigindo-se rumo a Henriqueta. Como sempre lhe ocorrera, eram inevitáveis os olhares curiosos das pessoas, devido a sua exagerada beleza e, algo que sempre acontecia, os cochichos feitos pelas pessoas a respeito do neto da tão conhecida atriz Henriqueta Marinho; coisa que Cláudio detestava. Ao avistar o neto, Henriqueta levantou-se e acenou, sorridente.

— Boa noite meu querido! Disse Henriqueta. – Ora, onde está o cavalheirismo que eu lhe ensinei, por que demorou tanto?

— Desculpe-me vovó! – Disse Cláudio, tentando desvencilhar-se da presença de Ana Karen, mas ele não conseguia. – um rapaz me avisou tão em cima da hora, que não pude chegar a tempo!

— Tudo bem... – Disse ela, sentando-se. – Agora, por favor, cumprimente nossa convidada – Henriqueta apontou para Ana. – Esta é Ana Karen Esmaz!

Os dois se entreolharam. Apesar do pequeno desentendimento que ocorrera entre ambos, Cláudio não pôde se negar a reparar na elegância e beleza de Ana Karen, que usava um vestido cumprido azul, deixando à mostra seus ombros.

— Olá, como vai. – Falou Cláudio, receoso. Levemente ele pegou a mão de Ana e beijou-a.

— Oi!

As vozes foram suaves e tímidas, era como se ambos estivessem confraternizando com o pior inimigo que tivessem – puro cinismo entre as duas partes. Um silêncio repentino pairava sobre o local até Henriqueta encarregar-se de rompê-lo.

— Vamos Cláudio, sente-se logo. – Cláudio sentou-se. – Desculpe-me pelo meu sumiço, mas não pude deixar de lado a agradável presença desta linda jovem. Imagino que ambos tenham tido uma péssima ideia um do outro e espero que isso mude. – um garçom aproximou-se e serviu-lhes uma taça de vinho. – Por isso eu pedi que me encontrasse aqui. Nem mesmo Ana sabia que eu o havia chamado.

— Fiquei assustado com o seu desaparecimento esta tarde. – Anunciou Cláudio. – Mas ao que parece, você esteve bem segura com a presença da Senhorita Esmaz.

— Não precisa me agradecer Sr. Del Sales! Falou Ana Karen, cética.

— Por favor, parem com essa cordialidade de chamarem-se de "Sr." e "Sra".. – Pediu Henriqueta. – Até parece que vocês são os velhos aqui! E também chega desse cinismo.

Cláudio André sentiu-se ofendido e num gesto bruto, levantou:

— Eu não sou obrigado a passar por isso! – Ele fez menção de se retirar mas Henriqueta levantou e o interrompeu.

— Sente-se Cláudio André, estou pedindo! Ela levantou-se. – Não me interessa o que estão pensando de mim, ou de si próprios, mas quero que fiquem aqui e conversem. Eu estarei no saguão quando terminarem o jantar!

E Henriqueta saiu do restaurante, deixando-os enfurecidos.

Por mais que tentassem, era inevitável Ana Karen e Cláudio André se desvencilharem dos olhares penetrantes que fuzilavam os dois. Não havia outra forma, a não ser que uma das partes cedesse, mas isso estava fora de cogitação.

Antes de iniciar qualquer palavra, os dois se entreolharam por mais uma vez. Cláudio falou:

— Tudo bem, eu não preciso conversar e me tornar amiguinho seu. – ele foi irônico. – Mas não posso deixar de fazer o que minha avó disse, já que estou aqui com ela e tenho que agradá-la seja como for!

— Se quer mesmo saber – iniciou Ana Karen. –, eu também não me sinto bem com esta situação. Se soubesse que a Henriqueta havia planejado isso, eu jamais teria aceitado o convite para jantar.

— Henriqueta? Cláudio André não sabia o que subia por dentro de si. Uma mistura de ira com ironia. – Ao que parece vocês já estão bastante íntimas!

— Eu e a sua avó nos entendemos super bem, e ao que parece – ela falou irônica. –, somos muito parecidas, apesar da diferença na idade. – Ela deu uma pausa e depois prosseguiu. Seu tom ficou calmo. – O que um rapaz como você faz viajando com a avó? Quero dizer, isso é raro, geralmente um sujeito da sua idade só pensaria em permanecer distante de qualquer parente, curtindo a juventude alucinante com amigos e garotas.

Nesse instante, um garçom surgiu entre eles trazendo em uma bandeja dois pratos de comida. Enquanto o rapaz preparava os talheres com as taças e os pratos sobre a mesa, Cláudio André deixou que um sorriso cínico e debochado surgisse em seu rosto. “Eu não posso acreditar”, pensou ele. Ao serem servidos, Cláudio certificou-se de que o sujeito já estava distante o bastante para não ouvir o que ele tinha a dizer.

— Escuta só uma coisa! Disse ele, áspero, com a voz ameaçadora. – eu não sei de onde você é e o que quer, isso pouco me importa. Não quero brigar com você, só o que peço é que se mantenha distante de mim e de minha avó. Ela anda muito cansada nos últimos dias e eu sinto que...

Ana Karen o interrompeu. Sua voz foi calma e ao máximo que ela podia torná-la, foi também reconfortante.

— Senti que ela poderá partir a qualquer momento! O silêncio foi inevitável.

Segundos depois, Cláudio se levantou. Parecia ter sido ofendido de alguma forma.

— Ora não fale bobagens!

Mas ele sabia que o que Ana havia dito era verdade.

— Por favor, não se ofenda! Ana levantou-se, tentando fazer com que Cláudio sentasse. – Eu não tive a intenção. Desculpe-me! – Ela falava suavemente. – Não sinta vergonha de falar o que realmente sente, é muito difícil de encontrar alguém que ame tanto a avó como você e que sente medo de perdê-la. Você nem mesmo precisou falar isso diretamente para eu poder perceber. E o mais belo disto é que é sincero.

Sabendo que de alguma forma Ana Karen tinha a razão, Cláudio se sentou, disposto à ouvi-la. Ana seguiu o gesto.

— Você não sabe o que diz!

— Acredite, eu sei. – Ela deu um leve sorriso e depois continuou. – Eu me formei em psicologia numa faculdade em Puebla e no seu caso, nem é preciso ser da área para perceber o que tanto o atormenta. – Ana estendeu seu braço sobre a mesa e tocou a mão de Cláudio André, que também estava sobre a mesa. – Não sinta vergonha de falar o que esta sentindo!

Cláudio levantou-se e se afastou rapidamente. − Oras, porque você não cuida da sua vida?

E Cláudio André partiu, sem nem mesmo dar chance de resposta a Ana Karen. Ela o assistiu se afastar rapidamente e quando se certificara de que Cláudio já estava fora daquele salão, ela chamou um dos garçons.

— Diga Srta. Esmaz? Falou o rapaz.

— Não me chame desta forma! Ordenou Ana. – Eu já disse para não dizer meu nome em voz alta. – ela deu uma pausa e depois prosseguiu. – Chame o Valdir e junto dele, vá ao meu escritório em meia hora!

Passado esses minutos, o recepcionista Valdir Martins, junto de Vagner Miranda – o garçom do restaurante no hotel – estavam no ultimo andar do prédio, dentro de um grande escritório. Na sala havia vários quadros pelas paredes, ao fundo, uma janela de frente para a rua onde era possível ver toda a fachada do prédio. Ao centro, uma mesa com computador e vários papéis. No canto havia uma estante enorme com uma televisão em meio a vários e mais variados tipos de enfeites. No chão havia um carpete legítimo feito à base da pele de animais.

Distraídos com as figuras e formas dos enfeites por toda a sala, Valdir e Vagner se assustaram quando a estante ao canto da parede se partiu ao meio, abrindo uma espécie de fenda entre o móvel. Na parede uma porta se abriu e de um escuro corredor surgiu Ana Karen. Ao contrario do tom jovial e inocente que ela demonstrara no restaurante com um vestido azul, Ana agora parecia uma mulher bruta e desagradável. Ela usava uma blusa preta de manga curta, colada no corpo – deixando seus seios ainda mais voluptuosos, sem intenção; uma calça jeans azul desbotada e um sapato de pequeno salto nos pés. No pescoço, ela usava um cordão preto. Seus cabelos estavam presos.

Ana Karen caminhou e parou diante dos dois, olhando-os satisfeita. Era incrível como ela tinha uma técnica fácil de poder falar a Língua Portuguesa. Suas palavras saiam perfeitas, e se tratando do fato dos dois funcionários serem brasileiros, ela fazia questão de lhes falar desta maneira.

— Bom saber que eu tenho funcionários pontuais. – Ela olhou diretamente para Vagner. – Apesar de cometerem algumas falhas às vezes!

Vagner adiantou-se.

— Desculpe-me pelo ocorrido no restaurante Srta. Esmaz, mas eu me atrapalhei com...

— Esqueça! Falou Ana. Ela caminhou rumo à cadeira por trás da mesa. Suas palavras eram firmes, com uma autoridade respeitada que ela fazia questão de demonstrar. – Só o que quero é que não cometa o mesmo erro de novo, ou se não terei de tomar alguma providência desagradável!

Ela se sentou. Valdir perguntou:

— Não que seja do meu interesse, até porque eu sou pago para isso, mas se não lhe importar, Srta. Esmaz, diga-nos porque esta nos pagando para fingirmos que não a conhecemos? – Falou ele, receoso com a resposta que Ana Karen poderia lhe dar. – Hoje mais cedo, na recepção, eu tive que realmente fazer um esforço enorme para lhe tratá-la daquela forma diante daquele rapaz e daquela atriz.

Ana Karen poderia ter mentido e em certos momentos se sentido irada, como no restaurante quando fora deixada sozinha por Cláudio André, mais uma coisa que ela fazia questão de demonstrar as pessoas, assim como a firmeza em autoridade, era a sua classe e educação. Ana respondeu calma e educada.

— Ambos são fieis a mim e sei que em vocês posso confiar meus objetivos. – Iniciou ela. – O que eu quero é me aproximar do Cláudio André Del Sales o quanto antes, preciso fazer isto antes de partir para o Brasil. Não quero que ele saiba quem eu realmente sou, e muito menos que sou a dona deste hotel. – Ela ressaltou bem isso. – Tenho assuntos importantes para resolver no Brasil e preciso me aproximar dele para poder conseguir resolvê-los!

A voz de Ana Karen baixou. Ela inclinou-se sobre a mesa e lançou um olhar frio para os dois sujeitos a sua frente.

— E não vou medir esforços para isso! Ana abriu uma das gavetas da mesa e retirou um pequeno frasco de remédio. Dentro do objeto havia uma pequena quantidade de pó branco. – Vocês trabalham aqui, portanto não terão dificuldades de entrar no quarto da velha Henriqueta e colocar um pouco deste pó numa das bebidas dela.

Vagner se levantou, assustado.

— Desculpe senhorita, mas eu não pretendo cometer um assassinato. – Vagner se lembrava bem dos últimos anos de sua vida, quando ele passou um longo período preso em uma penitenciária, acusado de cometer homicídio. – Sai em condicional e não pretendo voltar para a cadeia, caso seu plano dê errado!

— Isso não mata ninguém, apenas causa um estado de trauma repentino. – Anunciou Ana. – É como se a pessoa que ingerisse isso entrasse em estado de overdose!

Valdir foi mais calculista.

— Tudo bem que queira se aproximar do rapaz, mas acho que é demais ter de fazer isso com a avó do sujeito! – Ele calou-se por algum instante e depois prosseguiu. – Não estou me negando a fazer, só o que quero é que ninguém saia ferido disto. Ou até mesmo morto!

Vagner permaneceu de pé, apreensivo. Ana Karen permanecia sentada, com o frasco na mão. Ela era cética, deixava um sorriso cínico e arrogante estampar seu rosto.

— Não poderei estar no quarto pois se não levantarei muitas suspeitas, ainda mais do Cláudio. Portanto preciso que um dos dois entre no quarto e faça com que a Henriqueta tome isso – ela dirigia o olhar ao vidro enquanto falava. –, apenas uma pequena quantia servira!

Ela se virou para Vagner.

— Eu entendo seu receio em fazer isso Vagner, e seu medo de que algo ocorra de errado e que acabe gerando sua prisão novamente, mas eu preciso que ajude o Valdir. – Além do mais, eu lhe pago para fazer o que eu desejar.- Ana deu uma pausa, e enquanto caminhava até Vagner, ela falou com a voz suave. – Não estou sendo prepotente, jamais faria isso com meus parceiros, que é o que vocês são: mais do que funcionários, vocês são meus amigos, e é justo que vocês façam isso por mim. – Ela aproximou o seu corpo ao de Vagner e lhe falou aos sussurros. – Muito mais do que como amigo, eu gosto de você e sei que você também tem apresso por mim, e se for de seu agrado, saiba que eu preciso de um homem como você comigo. Acredite, eu precisarei de você em várias ocasiões, e a maioria será de seu agrado!

Ana Karen se afastou e lançou um longo olhar ao rapaz. Ela mesma se sentira espantada com a incrível técnica de persuasão que podia dominar.

Valdir se levantou. Vagner e ele se encararam. Eles sabiam dos riscos, mas o plano tinha que prosseguir.

Na mesma noite, Vagner e Valdir seguiram até o 12° andar, o quarto era o 211. Ambos usavam seus uniformes de trabalho e, caminhando lentamente, eles tentaram passar desapercebidos pelos demais hóspedes. O corredor era extenso e largo, as paredes amareladas, bem iluminadas com o tom dourado das luzes, decorados com espelhos e ramos de flores colocadas em louças de porcelanas sobre as mesas. No chão, um longo tapete vermelho, sobre um piso lustrado, com vários tipos de desenhos.

Os dois chegaram ao quarto e bateram na porta. Ninguém atendeu. Valdir insistiu, batendo e tocando ao sino, mas nada, ninguém saía. Nesse instante, o som do elevador tocou e a dupla pôde ouvir o som da porta se abrir. Um casal saiu de dentro do elevador e, acariciando e se beijando, passaram por Valdir e Vagner sem pouco se importarem com os dois. Lentamente, Valdir retirou de dentro do bolso de sua calça um molho de chaves. Instantes depois, ele e Vagner abriram a porta e se encaminharam para dentro do quarto. Não havia ninguém.

Demonstrando-se entediada, Henriqueta permanecia no salão de festas do hotel, sentada numa cadeira em beira de uma mesa. Sobre a mesa, além de uma pequena bola de cristal que servia de enfeite, havia uma garrafa de champanhe pela metade ao lado de uma taça com metade do líquido. Henriqueta olhava-a incansavelmente, pois ela não via a taça, nem nada a sua volta. Em sua mente passavam cenas de sua vida, como se assistisse a um filme. “Fora-se o tempo em que champanhe era sinônimo de classe!”

Com pouco das forças que lhe restavam, Henriqueta apertou ao máximo os olhos; em devaneio. Ela podia ouvir os aplausos, os gritos de alegria e emoção da platéia. O perfume das rosas inundou o ar. Ela pode sentir o piso de madeira lustrado do palco, o tecido aconchegante e macio das cortinas.

— Parabéns... Grande Mulher... Henriqueta Marinho, a rainha do teatro e da televisão...

Henriqueta parecia novamente estar ouvindo da boca das pessoas essas palavras. Ela se recordou de uma frase que dissera certa vez, em uma das várias cenas que já havia gravado na televisão: “Tudo na vida tem um fim, até nós mesmos!”

Uma voz feminina interrompeu o transe de Henriqueta. Ao virar-se, rumo a direção de onde vinha à voz, Henriqueta deparou-se com Ana Karen a sua frente. Ambas sorriram.

— O que aconteceu? – Perguntou Ana. – Porque esta aqui, sozinha?

— Sente-se Ana Karen. – A garota se sentou. Henriqueta prosseguiu. – Desculpe-me pelo jantar, mais cedo, mas eu precisei fazer àquilo. Não quero que você e o meu neto permaneçam com esse desentendimento.

— Eu até tentei me aproximar do Cláudio, Sra. Henriqueta – Falou Ana. –, mas ele é complicado de mais. Não dá o braço a torcer!

— O Cláudio sempre foi assim, de um gênio difícil, puxou ao pai.

Ana olhou-a cética ao ouvir a última frase, que se repetiu em sua cabeça. “Puxou ao pai!”

— Mas se você mostrar à ele quem realmente é, e ainda que é sincera, ele amansa! Henriqueta sorriu. – O Cláudio é uma pessoa desconfiada às vezes, mas é um bom rapaz!

— E eu acredito que seja, mas tem algo sobre ele que o faz agir daquela forma. E isso esta sendo, de certa forma, um atraso na vida dele.

Henriqueta a olhou curiosa, sentiu em Ana um certo interesse em resolver o problema de Cláudio.

— Você parece bastante interessada em querer mudar isso dele. – Disse Henriqueta. Ela pegou nas mãos de Ana Karen sobre a mesa. – Eu gosto de você e sinto a sinceridade em suas palavras, se esta querendo ajudar meu neto, é porque talvez esteja interessada nele, seja como for!

Nesse instante, Ana Karen percebeu que era a hora de colocar seu plano em prática. Vagner, que servia os convidados, caminhou em sua direção.

— O que é isso Henriqueta, não diga bobagens. – Ana gaguejava e sorria. – Desta forma eu me sinto constrangida e...

— Não fique assim Ana... – Continuou Henriqueta, até ser interrompida por um incidente. Vagner derrubou sobre sua roupa a taça com champanhe que estava sobre a mesa.

— Oh, meu Deus! Disse Vagner, pegando um pano. – Desculpe-me Sra. Marinho, eu me atrapalhei. Perdoe-me!

Henriqueta se levantou lentamente.

— Oras, o meu vestido vai ficar todo manchado! Anunciou Henriqueta.

Ana aproximou-se dela.

— Acalme-se. – Disse ela. – Venha comigo, vamos ao banheiro limpar isso.

As duas seguiram ao banheiro. Não havia mais ninguém alem delas. Henriqueta usou a água na pia para enxaguar e o pano de secar as mãos para secar a roupa. Por sorte, nenhuma mancha ficara sobre o tecido.

Instantes depois, Ana e Henriqueta voltaram ao salão, e demonstrando-se preocupada e apreensiva com Henriqueta, Ana foi até o garçom que causara àquilo tudo e, agindo como se nunca o vira antes, pediu-lhe um copo de água. Henriqueta tomou metade do líquido, enquanto Ana Karen acompanhou tudo.

“A metade já é o suficiente”, pensou Ana Karen. Ao se encaminharem rumo a porta, para deixarem o salão, Ana ao lado de Henriqueta, que não percebeu qualquer sinal, lançou um olhar satisfeito a Vagner. Os dois sorriram.

Lado a lado, Henriqueta e Ana pararam, aguardando o elevador. De repente, ao olhar para os lados, Henriqueta viu tudo balançando, conforme a sua visão embaraçava. Seus olhos ficaram pesados e ela mal conseguiu deixá-los abertos.

Ana segurou-a pelos braços, Henriqueta desmaiou em questão de segundos. Valdir veio em sua direção e com a ajuda de Ana, carregou Henriqueta nos braços. Eles entraram no elevador e se encaminharam ao décimo segundo andar e entraram no quarto onde Ana se hospedara com Henriqueta, colocando-a lentamente na cama.

— Onde esta o neto dela? Perguntou Valdir, demonstrando-se nervoso.

— O Vagner esta de olho nele, na piscina! Parece que o rapaz preferiu permanecer um tempo sozinho!

Valdir olhou novamente Henriqueta caída sobre a cama.

— Não se preocupe, a velha ira dormir por um longo tempo. – Respondeu Ana Karen. Ela olhou Valdir nos olhos. – Tudo ficara bem.

“Realmente, ela irá dormir por um longo tempo”.

Cláudio estava deitado em sua cama, disperso, pensando em que fazer dali pra frente. Ele tinha que cair em si e assumir que o que Ana Karen lhe dissera na noite anterior era a mais pura verdade – e pior para ele e mais difícil era admitir que aquela desagradável e arrogante garota tinha razão.

Como um filme que se assiste na televisão, Cláudio André fechou os olhos e recordou-se perfeitamente da noite em que recebera a noticia da morte de sua mãe Magdalena, conhecida como Mada. Ele chegava na casa do pai, quando se deparou ainda no portão da casa, com várias viaturas policiais e ambulâncias. Sem ser impedido pelos oficiais e médicos ao redor da casa, Cláudio avançou pelo portão e chegou na escadaria que dava acesso a casa: Mada estava caída debruçada sobre os degraus de concreto da escada. Ela usava um roupão branco – que agora estava todo manchado de sangue. Sua pele era pálida e, com a boca aberta, as manchas de sangue demonstrava que um tiro havia sido dado em sua boca. Ela fora assassinada brutalmente durante uma tentativa de assalto e depois de morta, tivera seu corpo jogado pela janela de seu quarto no 3° andar da mansão.

Foi a cena mais absurda e terrível que Cláudio vivera até então.

Segundos depois, Cláudio abriu os olhos, desvencilhando-se da lembrança de ver a mãe morta daquela forma. Perder a mãe foi talvez o momento mais difícil de sua vida, mas quando Mada morreu, ele ao menos tivera a avó Henriqueta, com quem pôde se reconfortar. Pensar que agora ele perderia também a avó, a quem amou tanto quanto sua mãe, Cláudio estremecia. Com quem se reconfortaria dali em diante?

Não houve resposta. O relógio na escrivaninha marcava 8:35 da manhã e sol já brilhava intensamente, Cláudio levantou-se devagar da cama e caminhou ao banheiro, escovou os dentes em meio ao banho. Saiu cerca de trinta minutos depois, enrolado em uma toalha pela cintura e, enquanto secava os cabelos com outra, o sino na porta tocou pelo quarto. Logo em seguida batidas frenéticas e apressadas. Seja quem for que estivera do outro lado da porta – pensou Cláudio. –, estava com muita pressa de lhe falar. Ele abriu a porta e avistou três homens no corredor.

Um deles, o que batera constantemente na porta era Valdir, o recepcionista do hotel. Ele estava visivelmente nervoso. Os outros dois sujeitos estavam calmos, porém eram mal-encarados. Um deles era baixo, careca e barrigudo, deveria ter mais de cinqüenta anos e usava um terno ocre, trazendo nas mãos uma pasta preta. O outro era mais jovem, demonstrava ter menos de trinta anos, usava um terno preto e óculos escuros.

Valdir adiantou-se, gaguejando nas palavras.

— Desculpe-me Sr. Del Salles por bater em seu quarto e incomodá-lo desta forma, mas ocorreu um coisa terrível!

O homem mais baixo com um terno marrom adiantou-se.

— Olá rapaz, eu sou o inspetor Domine Ralmonder – ele retirou do bolso de seu terno um distintivo e com o olhar apontou para seu colega. – e este é meu parceiro Willian Díaz, fomos chamados aqui pelos funcionários do hotel e pela jovem Ana Karen Esmaz.

Todos permaneceram em silêncio por alguns segundos. O inspetor Domine interrompeu aquele silêncio assustador.

— Sugiro que vista-se imediatamente e venha conosco!

Assustado e apreensivo em saber o que ocorrera, Cláudio vestiu-se rapidamente enquanto os outros o aguardaram no corredor. Em instantes os quatros se encaminharam ao quarto de Henriqueta. Mal podia imaginar Cláudio que mesmo que indiretamente, ele preverá o futuro: Sua avó estava caída em sua cama com os olhos fechados, sem qualquer reação. A atriz Henriqueta Marinho morrera na noite anterior vítima de complicações respiratórias. Ao canto do quarto, em meio à escuridão do lugar, Ana Karen estava parada de pé, chorando desesperadamente. Ela tentava desvencilhar-se da visão de Henriqueta caída na cama, em meio aos olhares pavorosos que os demais sujeitos no quarto lhe lançavam. Além de Cláudio, os dois inspetores e Ana Karen, havia mais três homens no local fazendo uma espécie de revista e examinando o corpo. Por mais que a cena lhe chocara, Cláudio não demonstrou qualquer reação, apenas olhou o corpo frio de Henriqueta caído sobre aqueles lençóis. Alguns segundos se passaram e em meio a um silêncio total, com a voz ríspida e desalenta, Cláudio falou:

— O que ocorreu aqui? Perguntou ele, encaminhando-se à beira da cama e sentando ao lado da avó. Cláudio segurou na mão de Henriqueta.

Um dos legistas, Roger Braga, aproximou-se e lhe disse.

— Esta senhora faleceu esta noite, vítima de problemas respiratórios enquanto dormia. – Disse o médico. Sua voz saiu pesada e baixa. – Infelizmente nada mais pode ser feito!

Cláudio virou-se para o corpo de Henriqueta, olhando-a fixamente, em seguida avistou Ana Karen ao canto, chorando. Domine Ralmonder adiantou-se.

— Esta jovem deparou-se com esta senhora já morta quando acordou esta manhã e, imediatamente chamou pelos funcionários do hotel, que prontamente nos constataram! Falou o inspetor, Domine aproximou-se lentamente de Cláudio e lhe tocou no ombro. Sua voz saiu baixa. – Sinto muito por sua avó, rapaz!

Cláudio não respondeu. Segundos depois, ele deu-se o direito de olhar novamente Ana Karen no canto do quarto. Em seguida, Cláudio virou para o corpo de Henriqueta e olhou-a pela última vez. Não contendo as lágrimas, Cláudio chorou enquanto abraçava o corpo da avó com toda sua força.

O prédio tinha cinco andares, não havia elevadores, as paredes do lado de fora tinham a tintura manchada e que aos poucos, caía os pedaços da tinta seca no chão. O interior daquele edifício era quase tão assustador quanto a sua fachada. Os longos corredores que se estendiam pelo local mal tinham iluminação, o piso era de madeira e no teto, a laje estava manchada e sem pintura. – É um absurdo que alguém seja obrigado a trabalhar num local precário como este! Comentou Domine Ralmonder, em uma das inúmeras vezes em que caminhava por um dos corredores da delegacia, rumo a copa. A delegacia daquele distrito era situada no velho prédio denominado Partirão. O local fora construído a cerca de quarenta anos e nunca passara por uma reforma.

Mas a situação precária de seu local de trabalho era o que pouco estava importando ao inspetor naquela tarde. Ele entrou em seu escritório e sentou-se em sua cadeira, por trás de uma mesa. Willian Díaz veio logo atrás.

— O que achou a respeito da morte repentina daquela atriz? Perguntou Willian, sentando diante de Domine.

— Achei estranho o fato dela ter morrido durante a noite e a outra moça...

— Ana Karen Esmaz! Completou Willian. – Fácil de ser lembrado, pois, o sobrenome da garota é parecido com o da proprietária do hotel, Esmazis.

— Isso, achei estranho a Srta. Ana Karen não ter percebido nada durante a madrugada. – Domine olhou em seu relógio no pulso. Instantes depois, ele levantou-se e pegou um casaco que estava pendurado numa cadeira, ao lado. – Preciso ir, tenho um compromisso importante esta noite e não posso me atrasar.

Nesse instante, algumas batidas violentas na porta assustaram Domine e Willian.

— Entre! Falou Willian.

Roger Braga, o médico que examinou o corpo de Henriqueta no quarto, entrou naquele escritório nervoso. Ele trazia um envelope amarelo com várias folhas dentro.

— Desculpe-me por entrar desta forma em sua sala, Dr. Ralmonder. – Anunciou Roger, ofegante.

— Tudo bem! – Falou Domine. – Mas me diga o que houve.

Rapidamente, Roger retirou alguns papeis de dentro do envelope e estendeu-os em direção aos policiais. – Este é o resultado do exame que fizemos em base da amostra do sangue que recolhemos de Henriqueta Marinho. – Roger gaguejou. Ele pegou outra folha de dentro do envelope. – E este é o resultado sobre a busca que fizemos pelo quarto!

— E descobriram alguma coisa? Perguntou Domine, apreensivo.

— Identificamos uma substância desconhecida no sangue e além disso, identificamos uma impressão digital que não deveria estar no quarto. Roger leu o papel e em seguida anunciou. – Ela pertence a Vagner Miranda!

Todos se olharam calados por alguns segundos, mas Domine teve uma rápida reação. Pegou o telefone e ligou imediatamente a gerencia do hotel Las Ondas Del Mar. Na recepção, Valdir atendeu ao telefone.

— Buenas, posso ajudar? Falou Valdir. Ele ficou nervoso quando o inspetor, do outro lado do fone, se identificou. – Ah, sim, sobre o que se trata?

Rapidamente, Valdir estava a par de tudo o que ocorrera nos últimos instantes e, apreensivo, chamou Pedro Arantes, o gerente do hotel. Pedro tinha entre trinta e quarenta anos, mas sua aparência era muito mais velha. Cerca de meia hora após falar com Domine ao telefone, Pedro e Valdir receberam o policial, junto de Willian Díaz e Roger Braga no saguão do hotel.

— Não entendo com qual fundamento os senhores acusam um de meus funcionários! Falou Pedro Arantes, arrogante. – É um absurdo e muito pouco provável que tenha mesmo acontecido isso em meu hotel! Um funcionário envenenar um hóspede...

— Viemos até aqui a fim de tirarmos algumas dúvidas com o suspeito. – Disse Domine. – Por favor, nos leve até o lugar reservado aos funcionários!

Pedro agia como se tudo não se passara de um mal entendido. Pensar na possibilidade de que um assassinato ocorrera no hotel era algo que o apavorava e que poderia manchar gravemente a imagem do local quanto aos clientes.

— Tudo bem, me sigam.

Todos, com exceção de Valdir se encaminharam pelos corredores do interior do prédio. Rapidamente, eles chegaram ao vestiário, usado para os funcionários se trocarem. Vagner estava sentado em um banco ao canto do grande salão, tinha uma mochila nas costas e não usava o uniforme de funcionário, demonstrando que estava se aprontando para deixar o hotel. Assustando-se ao ver os policiais e ouvir a voz de Pedro Arantes, ele se levantou.

— Vagner? Chamou Pedro. Vagner o olhou assustado. − Algum problema? Perguntou ele.

— Estes sujeitos são da policia e querem conversar com você!

Domine adiantou-se.

— Temos pistas que nos levam a crer que você esteve no quarto de Henriqueta Marinho, provavelmente na noite em que morreu.

As palavras foram como um tapa que Vagner levara no rosto. No mesmo instante, ele se recordou do que Ana Karen lhe dissera: “Eu entendo seu receio em fazer isso Vagner, e seu medo de que algo ocorra de errado e que acabe gerando sua prisão novamente, mas eu preciso que ajude o Valdir”, as palavras de Ana Karen vieram nítidas em sua mente: “Acredite, eu precisarei de você em várias ocasiões, e a maioria será de seu agrado”

— Importasse em me deixar ver o que há em sua mochila? Pediu Willian.

Vagner até pensou em se negar a deixar que revistassem seus pertences, mas se fizesse isso, levantaria ainda mais suspeita. Tremendo, ele retirou das costas a mochila e estendeu ao policial. A presença daqueles policiais, e o modo como eles chegaram naquele lugar fez com que várias das pessoas ali presentes ficassem curiosas e acompanhassem de longe a cena que assistiam, tentando entender o que se passava. Domine acompanhou o momento em que o parceiro foi retirando um por um dos objetos de dentro da bolsa de Vagner, e assim como todos, se surpreendeu no instante em que viu Willian retirar de dentro da mochila um pequeno vidro, contendo uma pequena quantia de pó.

Vagner apavorou-se, falando desesperadamente.

— Oh meu Deus! Disse Vagner. – Isso não é meu, não tenho ideia sobre como isto foi parar em minha mochila...

— Sinto muito, mas você terá que vir conosco para nos explicar o que é este negócio, e ainda que haja, nos dar uma explicação sobre o que foi fazer no quarto da vitima na noite em que ela morreu! Anunciou Willian, retirando do bolso de sua camiseta um par de algemas.

— Não! Gritou Vagner. – Vocês não têm o direito de fazer isso!

— Não é preciso que o algemem!

Falou Pedro, em vão. A esta altura, sabendo que se case se negasse a ser algemado, ou ainda, tentasse qualquer coisa que pudesse ser interpretado como uma tentativa de fuga, Vagner se deixou algemar e ser levado pelos policiais. O medo ficou estampado em seu rosto e ele não sabia o que dizer. Ao passarem pelo saguão do hotel ele avistou Ana Karen parada na recepção.

Ela agiu como se nada estivesse acontecendo, permanecendo de costas aos sujeitos que passavam, levando Vagner. O tom de Vagner foi alto e agressivo.

— Foi ela! Disse Vagner, tentando se soltar e dirigir-se à recepção, mas Willian e Domine o segurou. – Foi ela que mandou eu ir até o quarto e envenenar a velha, mas eu não fiz isso, não havia ninguém lá! Eu não a matei...

O som da voz de Vagner afastou-se lentamente e Ana Karen olhou naquela direção apenas quando teve a certeza de que Vagner e os policiais já haviam partido. Foi a última vez em que ela o viu.

O enterro foi marcado para acontecer em três dias, assim que o corpo de Henriqueta Marinho chegasse em Vera Cruz Del Plata, uma pequena cidade situada no interior, onde Henriqueta nascera e foi criada. As noticias se espalharam pelo ar rapidamente e uma espécie de luto nacional se implantou por todos os cantos do México. Os noticiários na tv, no rádio e as manchetes de jornais traziam as informações verdadeiras em meio as mais absurdas coisas ditas pelas pessoas, sobre a vida e morte de Henriqueta Marinho. Naquela tarde, não só os mexicanos, mas o mundo inteiro parou para acompanhar o velório da grande dama do teatro.

Cerca de cinqüenta pessoas estavam no teatro municipal de Vera Cruz, despedindo-se de Henriqueta. Cláudio permanecia de pé, no canto do salão, usava um terno totalmente preto e óculos escuros, acompanhando o movimento das pessoas ao redor do caixão lacrado de Henriqueta, colocado no meio do salão. Era impossível saber o que se passava em sua cabeça. Quando o grande relógio no salão marcou quinze horas, os encarregados de levar o caixão ao cemitério se encaminharam ao centro do local, cinco homens – um deles Cláudio. – caminharam cerca de três quarteirões, rumo ao local onde enterrariam Henriqueta. Fora necessário colocar barreiras e grades nas calçadas, a fim de impedir o acesso das milhares de pessoas que tentavam ver e tocar Cláudio e o caixão. Enquanto cruzavam o portão do cemitério, uma garoa fina se iniciou.

Rapidamente, um dos funcionários de Cláudio se aproximou dele lhe trazendo um guarda chuva. A chuva rapidamente aumentou e, àqueles que se preveniram, pegaram um guarda chuva e prosseguiram.

O caixão foi posto em sua cova e imediatamente os coveiros começaram a enterrá-lo. Cláudio acompanhou tudo sem qualquer reação.

Os minutos se passaram rapidamente e assim que o caixão fora todo coberto, as pessoas se retiraram lentamente. Cláudio caminhava rumo ao seu carro acompanhado de um empregado que lhe segurava o guarda chuva quando ouviu, atrás de si, uma voz feminina familiar.

— Cláudio! Falou ela. – Desculpe-me mais eu tinha que vir!

Ana Karen estava as suas costas, molhada e amedrontada.

Os dois se entreolharam calados por alguns segundos.

— O que faz aqui? Perguntou Cláudio.

— Me senti muito mal com o que ocorreu e decidi vir para acompanhar o enterro de Henriqueta. – Ela falava em meio às gotas que escorriam em seu rosto e entravam em sua boca. – Sei que não acreditara em mim, mas eu e Henriqueta nos tornamos amigas demais e tenho certeza que se fosse eu quem tivesse falecido, – ela falou com a voz carregada de medo. – ela estaria me acompanhando!

Cláudio a fitou, atordoado.

— Entendo! Ele falou grosseiramente. – Entendo que tenha se tornado muito intima de minha avó, mas não quero que se torne intima minha. Há algo em você que me intriga e eu pretendo manter-me longe de você!

Cláudio virou-se e caminhou rumo ao seu veículo. Não satisfeita, Ana Karen seguiu-o furiosa. A chuva era intensa.

— Algo que te intriga? Falou ela, enquanto andava. – Você tem medo, é covarde demais para admitir que sofre com tudo a sua volta. Perder sua avó talvez tenha sido a pior coisa de sua vida e você tem medo de admitir que sofre com isso. –Nesse instante Cláudio entrou em seu carro e fechou a porta. Ana Karen berrou. – E é mais ainda covarde para admitir que eu estive sempre certa, desde o começo!

Cláudio ficou imóvel por alguns instantes dentro de seu carro enquanto as palavras de Ana Karen fluíam pelo ar.

— Não estou aqui para lhe convencer de que sou uma santa, pois não sou. Você pode me achar prepotente, mas é você que esta sendo, agindo desta forma. – seu tom de voz baixou. – Só quero ajudá-lo, seja como for!

Ana Karen calou-se. Cláudio manteve-se calado por alguns segundo, tentando desvencilhar-se das palavras de Ana – impossível!

O motorista ligou o veículo e, ouvindo o som do motor do carro, Ana estremeceu. Falhara mais uma vez. Ela virou-se de costas e já se preparava para deixar o local quando ouviu o barulho da porta do carro se abrir. Cláudio estava a sua espera.

Notas finais
Logo neste começo Ana Karen mostra que é capaz de tudo para conseguir o que deseja, e mesmo sem deixar muito claro as reais razões pela qual deseja se aproximar de Cláudio, foi capaz de assassinar Henriqueta. Com exceção dos primeiros parágrafos, tudo se tratou de uma recordação, e no próximo capítulo - que é o primeiro pois este se tratou de um prólogo - , uma espécie de "reviva" ocorre novamente, e somente a partir do segundo capítulo, a trama começa a se desenrolar em tempo real.Espero que tenham gostado e obrigado.