Anyone Else But You
38 What A Beautiful Mess
Notas iniciais
PDV Freddie.
– Fredward Benson e Samantha Puckett! — Gritava o professor Howard, suspendendo no ar a folha do nosso trabalho com desprezo.
Assustado e meio tonto, me levantei e fui até ele buscar o papel. Ao pega-lo depois de forçar um sorriso, me deparei com uma letra d marcada de forma raivosa no canto superior direito e arregalei meus olhos indignados.
– D menos?! — Perguntei com a voz esganiçada e o coração dolorido por ter recebido minha primeira nota baixa.
– Foi uma surpresa para mim também. — Respondeu com descaso, folheando o restante dos trabalhos que segurava.
– A gente merece pelo menos um C! Qual é!
– Não adianta, Benson. — Continuou, me olhando por cima dos óculos. — Você sabe que eu não mudo as notas que dou. Agora vá mostrar à sua dupla.
Pensei em insistir mais, mas apenas assenti bufando e voltei ao meu lugar. Antes de me sentar, olhei ao redor procurando por Sam mas não a encontrei. Ela deveria estar naquela aula comigo, mas não havia nem sinal de sua presença. Me lembrei que a última vez que eu havia a visto fora perto dos armários antes que John a chamasse para uma conversa. Permaneci preocupado, mas esperei até o intervalo para procurá-la.
– Você viu a Sam? — Perguntei assim que vi Carly no corredor, não me importando com a urgência em minha voz ou com o fato dela possivelmente me questionar em seguida em que momento passei a me importar com a loira.
– Eu ia te perguntar isso agora. — Respondeu, um pouco confusa.
– Tudo bem. — Assenti e a deixei sozinha. Descaso, talvez. Mas eu precisava encontrar a Puckett.
Não me preocupei em comer durante o intervalo ou assistir às aulas do dia que ainda restavam, apenas me importando em encontra-la. Na hora da saída, voltei para casa sozinho, me controlando para não ir até a de Sam me certificar de que ela estava lá. Passei direto por sua rua, me segurando para não apertar meus olhos em uma direção na qual pudesse avistá-la. Nem que fosse bem de longe. Só um vulto. Eu só queria saber onde diabos ela havia se enfiado.
"Quer saber? Eu nem ligo", pensei enquanto andava de um lado a outro do meu quarto. "Ela não se deu ao trabalho de avisar onde está. Na verdade, já deve ter se esquecido do nosso último beijo. Pior que isso, deve estar saindo com o John."
Isso era tudo o que me passava pela cabeça. Tudo o que eu não queria acreditar mas já estava aceitando.
E o resto do dia se resumiu a isso. Paranoias. Eu amaldiçoando a mim mesmo e me arrependendo de tudo o que havia feito nos últimos dias. Já tinha até esquecido daquela nota baixa. Ou não. Porque eu havia a tirado justamente por causa de quem? Pois é.
"Mas isso não pode ficar assim", pensei mais tarde. Minha mãe estava cumprindo um plantão no hospital, já eram dez e meia e eu continuava inquieto. Não sou desses que sai de casa quando bem entende, ainda mais à noite. Mas não resisti. Precisava dizer umas boas para aquela garota. Peguei meu casaco, não me importando com o horário ou a possibilidade de nem encontra-la em sua casa. Eu só estava indo até ela.
Mas ela veio até mim antes.
Já nos primeiros degraus da escada, nos chocamos um contra o outro. O susto foi tão grande que até gritamos de uma só vez e eu quase não acreditei na grandeza daquela coincidência. Mas só de vê-la ali eu já pensava em desistir de buscar as repostas para as perguntas que pairavam na minha mente. Porque talvez elas estivessem sintetizadas em apenas uma pessoa.
– Que susto! — Exclamou ela em seguida.
– O que você está fazendo aqui uma hora dessas? — Perguntei intrigado.
– Eu vim... ver a Carly. — Sem a menor segurança. Com a maior falta de vergonha na cara. Como se eu não a conhecesse.
– Mas você mente muito mal. — Falei num tom de lamento.
– Eu minto muito bem.
– Obrigada por confirmar. — Respondi triunfante, me voltando para o corredor novamente. Claro que ela me seguiria. Ela me seguiu. Eu faria o mesmo, afinal.
– Como você consegue adivinhar tudo? — Disse enquanto vinha logo atrás de mim. Do jeito que imaginei. Como esperei. Como deveria.
– Eu não adivinho. Eu sei.
Eu realmente sei. Porque a conheço. Porque a entendo. Porque é fácil demais decifrar quem você quer decifrar. Quem você precisa descobrir. Com quem você não está simplesmente acostumado, mas sim de quem você se sente cada vez mais dependente.
– Tudo bem... — Ela admitiu, revirando os olhos. — Podemos conversar?
– Sim.
Um pouco atordoado, abri a porta do apartamento para entrarmos. Enquanto eu a trancava, Sam já ia se adiantando ao tirar os tênis surrados que calçava, me fazendo rir.
– Eficiente.
– Pois é. — Ela riu discretamente, se voltando para mim. — Antes que você me desse uma bronca...
– Sem problemas. — Respondi enquanto tirava meu casaco e ela fazia o mesmo logo em seguida, me olhando atenta, como se estivesse imitando um manual de instruções para adentrar a residência do Freddenstein.
– Precisa tirar mais alguma coisa? — Perguntou em seguida.
– Todo o resto.
– O quê?!
– Nada. — Desconversei e desisti da brincadeira que provavelmente me custaria um braço são caso Sam a entendesse. — Mas então... o que especificamente você quer me dizer?
– Antes de tudo quero te perguntar uma coisa.
– Diga.
– Aonde você estava indo uma hora dessas?
– Eu? — Exclamei, confuso, sem querer admitir que estava indo justamente atrás dela. — Eu só estava indo comprar, uns... uns biscoitos.
– Sério?
– Sério.
Depois de alguns segundos me estudando minuciosamente, ela avançou em minha direção, apressada, apalpando os bolsos do meu jeans e, consequentemente, minha bunda.
–Ei! — Protestei, afastando a loira que segurava uma risada. — Que assédio é esse?
– Eu só estava checando essa sua mentira descarada. Como é que você ia comprar alguma coisa sem dinheiro?
– Não te interessa. — Desconversei, um pouco preocupado.
– Certo. — Ela desfez o sorriso e se sentou no sofá, parecendo conformada. Correu os olhos por todo o cômodo como se estivesse o apreciando pela primeira vez e naquele instante pensei que já deveria ter esquecido o assunto, mas lá no fundo sabia que depois daquele silêncio o retomaria de alguma forma. — Sua bunda é bem durinha, hein Benson.
– Olha, você é... inacreditável. — Falei inconformado, tentando não rir, enquanto colocava as mãos em minhas nádegas assediadas.
– Eu nem sabia que os homens malhavam o bumbum também.
– Pois é, alguns sim. De que adianta malhar todo o resto e... — Interrompendo a mim mesmo, parei para analisar a total falta de sentido daquela conversa enquanto minhas bochechas queimavam de vergonha e a garota à minha frente já gargalhava, sem hesitar. — Você não presta, sabia?
– Oh, como isso é divertido...
– Não estou vendo graça.
– Essa é a melhor parte. — Respondeu ela, se contorcendo em cima do sofá de forma preguiçosa.
– Fala logo o que você veio fazer aqui. — Falei enquanto me sentava no chão, em cima do tapete.
– Ok. — Ela respondeu mais séria, enquanto tentava se ajeitar. — É sobre o John.
– Eu esperava qualquer outro assunto, menos esse. Se você quiser, podemos falar até dos biquínis da sua mãe e...
– Calma. É algo bom.
– O quê? Ele entrou em coma ou algo do tipo?
– Não. — Um pouco desolada, ela encarou o carpete que cobria o meio da sala e levantou os olhos novamente até mim antes de continuar. — Nós terminamos.
Até hoje não sei descrever muito bem o que senti ao ouvir isso. Foi incrível como consegui esconder algo tão forte sem esboçar nem uma pequena comemoração. Mas eu já estava quase explodindo com a esquisitice que ia me consumindo.
– Achei que você fosse gostar de saber. — Ela falou em seguida, preocupada.
– Não! Quer dizer... sim, mas... como foi?
– Foi rápido. Eu até estranhei porque foi ele quem sugeriu.
– Sério? — Perguntei incrédulo e contente com a novidade.
– Sim. Na verdade ele veio tirar satisfações sobre nós termos feito o trabalho do Howard juntos e reclamou porque eu não o avisei.
– Que outra escolha a gente tinha?
– Pois é! Foi isso que eu disse. Mas ai ele lembrou do dia em que iria lá em casa me convidar para conhecer a família dele e não me encontrou porque, na verdade, eu estava aqui. Com você.
– E por acaso ele sabe?
– Deduziu de primeira e acertou. Mas eu não confirmei nada.
– Mas que imbecil! De pensar que isso tudo era justamente pra ele...
– Pois é. Mas eu nunca quis que ele soubesse, e agora muito menos.
– Certo...
A essa altura eu já não estava mais tão feliz quanto deveria. Porque John poderia desconfiar de algumas tardes ou outras juntos mas não que fossem tantas. E o pior: os beijos. Assim mesmo, no plural. O que só os agrava mais ainda. Tudo isso, logo menos viria à tona. E talvez eu já nem me importasse tanto em relação à Carly saber, a não ser de uma forma amigável. Porque ela não suporta quando guardamos algum segredo dela e seria complicado dar satisfações sobre tudo o que foi surgindo nos últimos meses sem abalar nossa relação de amizade. Porque eu já tinha entendido, mais do que nunca, que não passaria disso.
– Eu aqui pensando que você fosse gostar da ideia mas tudo o que ouço em resposta é "certo." — Ela disse, depois de um instante refletindo, atônita.
– E por que eu tenho que gostar dessa notícia? — Foi tudo o que pude dizer enquanto, na verdade, já comemorava por dentro.
– Porque... sei lá. Você sempre foi o maior ativista contra esse namoro.
– Mas pelos motivos certos, tipo a idiotice aguda, o jeito como ele era mimado... essas coisas.
– Não que você seja o maior exemplo, mas...
– Mas pelo menos eu não tentei mudar você.
Naquele instante, foi como se tudo parasse de uma vez. Porque ninguém simplesmente interrompe Sam Puckett ou a deixa sem palavras. Mas eu o fiz e sabia muito bem o motivo. E ela simplesmente travou. Apenas separou os lábios incrédulos como se algo ali a assustasse, mas sem saber movimenta-los ao som de alguma resposta.
Eu não sabia por mais quanto tempo iria segurar tudo o que estava entalado até a minha garganta sem demonstrar pelo menos metade à única pessoa que interessava.
Aquela mesma que estava à minha frente, em cima do meu sofá e dentro da minha mente numa frequência ainda maior. Ela mesma. A loira endemoniada. Aquela com uma enorme propensão à tomada de atitudes inconsequentes. Com uma arcada dentária do tamanho do universo e os olhos mais azuis que qualquer mar que eu já tenha visto. Com a gargalhada mais gostosa e a maior falta de educação para se instalar dentro de mim sem ao menos ter perguntado antes. Ela mesma e ninguém mais.
– Pois é, Samantha. — Escolhi chama-la assim porque ela não gostava, afim de provocar alguma reação. — Eu aceito tudo em você. Diferente dele.
– Mas você não tem que aceitar nada. — Ela disse, tentando dissimular uma risada.
– Não tenho mesmo? Aturando você há anos pegando no meu pé e há meses quase o dia inteiro tentando ensinar o que você já deveria ter aprendido há muito tempo? Sério?
– Quer saber? Eu tô cansada, entendeu? Eu... — Ela deu um suspiro pesado e empregou à voz um tom que eu sabia que só aparecia quando estava chateada. — Eu me sinto péssima.
– Por quê? — Perguntei, apreensivo, me arrastando para mais perto ainda.
– Eu pensei que dessa vez pudesse ser diferente.
– Sam, não fica assim. Ele que é um idi...
– Ele não aceitava o que eu era. — Ela me interrompeu, falando ainda mais alto. Encostou a cabeça no sofá e olhou para o teto como se algo ali fosse interessante. — Tipo, nada mesmo. Eu não podia nem comer o que eu gostava ou dizer o que eu queria. Tive até que tentar ser mais inteligente e olha a que ponto eu cheguei: estudar com você! Freddie, isso é ridículo.
– Sam...
– Eu nunca tive um namoro sério. E o que pareceu mais decente, simplesmente não me aceitava. — Ela parou, encarou minha perna dobrada em cima do couro marrom e continuou. — Mas talvez ele nem estivesse errado... eu devo mesmo ser tudo o que há de ruim.
– Não, Sam. Você não é. Olha aqui...
– Freddie, pelo amor de Deus! Você foi a pessoa que mais sofreu na minha mão! Para de ser dissimulado.
– Na verdade, não. — Ela se desencostou um pouco do sofá como que se, naquele momento, o interesse do teto tivesse voltado para mim. — Você apenas projetou... e usufruiu e... abusou em mim de uma de suas qualidades. — Falei com uma risada solidária.
– Como assim?
– É que você é... forte. O tipo de garota que consegue derrubar um homem e levantá-lo de novo se quiser, sabe?
– Ah. — Ela bufou. O teto ficou interessante novamente. — Talvez eu seja só isso, mesmo. Forte.
– E um pouco carente, às vezes. — Conclui com um sorriso amistoso, arrancando dela um olhar impressionado.
– Você também é carente. E careta. — Devolveu, voltando a se encostar no sofá.
– Mas eu não sou tão generoso quanto você, sou?
– Talvez você seja... mais. — Ela franziu o cenho, desconfiada. Cautelosa. — Eu não sou nada generosa.
– Ambiciosa?
– Ai vamos nós... — Concordou com uma risada.
– Com um estilo bem... seletivo. — Continuei, enquanto a analisava dos pés a cabeça.
– Isso foi uma crítica? — Perguntou de volta, como se tivesse sentido uma ofensa.
– Não, senhora mente imprudente.– Eu ri e ela apenas se calou de volta. Não satisfeita. Não convencida. Não tão na minha quanto eu tão na dela.
– Han. — Ela riu alguns instantes depois. Fez um bico tristonho, encarou a meia que calçava seus pés que faziam alguns círculos no tapete da sala. — E quem é que gosta disso? Dessa bagunça...
– Não é só uma bagunça. É uma bela bagunça. — Enfatizei, fazendo-a rir também.
– Oh. — Ela devolveu em seguida com os olhos arregalados e a ponta de um sorriso. — Mas que droga... Freddie, você não tem mais o que fazer?
– Mesmo você sendo tão tendenciosa eu adoro os seus conselhos, sabia?
– Conselhos? Ah, garoto... você não deve estar batendo bem e é melhor eu ir embora. — Ela disse, já prestes a se levantar.
– Sem problemas. — Falei pesando sobre ela um olhar tão sugestivo que a fiz mudar de ideia no mesmo instante. — Você vai voltar bem rápido, de qualquer forma. E isso deve ter alguma coisa a ver com a sua insegurança...
– Você deve estar bem louco.
– Assim como você, sabia? Mas eu nem ligo. Não há problema algum. — Interrompi-a, cada vez mais no controle da situação. — Só depende de como você encara isso.
– Freddie, por que você está dizendo essas coisas? — Ela perguntou intrigada.
– Só algumas palavras que parafraseiam a nossa... relação. — Falei enquanto chegava ainda mais perto da loira.
– Você já me chamou de ambiciosa, tendenciosa e louca como se eu já não soubesse! Pelo menos eu não sou um nerd estu...
– Mas quem disse que isso foi pra te ofender? — E eu a interrompi mais um vez. Porque alguma coisa em mim permitia que eu fizesse isso. E alguma coisa nela, deixava. — Sam, eu só quis te mostrar que essas coisas não precisam ser levadas, necessariamente, como um defeito. Elas só sugerem o que é a felicidade. Essa bagunça que você é... é justamente isso.
– Mas quem vai aturar essas coisas em mim quando se tem aquelas coisas na Carly? A gentileza, a doçura, a compreensão... E essa minha contradição? Quem aguenta isso? Ninguém aguenta isso!
– Eu posso tentar. — Falei de imediato, sorrindo e espantando-a. — Até gosto de estar submergido nela.
– Freddie...
– Sam, — Eu a interrompi pela última vez antes de falar pelo menos o começo de tudo o que precisava ser dito. Me aproximei sem hesitar, permanecendo numa margem de segurança. Ultrapassando a margem da dúvida. — a gente nunca parou pra enxergar um ao outro até precisar. Porque você queria o John e eu a Carly. Porque só você podia me ajudar e vice-versa. Nós só estávamos tentando achar o que esteve sempre ao nosso lado, ao alcance dos nossos olhos. Sempre. E mesmo que nada disso tenha dado certo, pelo menos eu consegui enxergar o que eu nunca parei pra ver. Eu consegui enxergar a sua loucura e o porquê dela. Que a sua insegurança, às vezes, pode ser boa. E não há nada de errado com a sua ambição. Porque, Sam, isso é você. E virar noites em claro, conversar sobre o que há de mais estúpido e te ver por tanto tempo todos os dias me fez aceitar isso. Não apenas aceitar, mas gostar também. Mesmo que mais ninguém o faça. Mesmo que você ainda ache que não é preciso, eu vou continuar gostando. E precisando.
Dizer isso foi como ter tirado um caminhão carregado de cima das minhas costas. Foi como me sentir respirando o ar da mais pura floresta do mundo. Foi como ter dormido o melhor sono do mundo em um minuto e acordar revigorado. Foi como ser eu mesmo, querendo que ela fosse ela também.
Mas Sam permaneceu imóvel. Continuou a me olhar como se eu ainda não tivesse terminado. Como se ainda estivesse digerindo aquilo tudo e tentando encontrar algum sentido. Porque não há quem diga que faz o mínimo sequer. Mas àquela altura, era o que menos importava. Eu só estava sendo guiado por tudo o que meu coração ou rim ou pulmão imploravam que eu fizesse, sem me arrepender em momento algum, mesmo diante da falta de reação da única pessoa que eu queria que tivesse pelo menos uma. A pior que fosse, quem sabe. Mas que ao menos tivesse.
– Sam...
– Shhh... — Ela me interrompeu, ainda um pouco perplexa, colocando os dedos em frente à minha boca e segurando meu queixo discretamente.
– O que f...
– Só... cala a boca.
Ela sussurrou.
E eu quase não ouvi.
Na verdade, nem precisei obedecer.
Porque ela mesma o fez por mim.
Ela me puxou pelo maxilar e quando nossas bocas se chocaram, deslizou a mão até a minha nuca sem hesitar. Como sempre, eu não estava esperando, evitando pensar em qualquer coisa enquanto a puxava pela cintura ao me dar conta de que aquilo estava mesmo acontecendo e não era nada, nada estranho.
Porque a boca dela parecia ser preenchida pela minha cada vez que nos movimentávamos ansiando por mais. Porque tudo parecia tão certo, mas eu já não me importava se parecesse errado também. E, provavelmente, ela também não.
Já era a terceira vez em tão pouco tempo mas continuava parecendo a primeira. Como se fosse algo inédito, e ansioso como se jamais fosse acontecer de novo.
Mas diferença alguma importava naquele momento depois das roupas rasgadas e manchadas na sujeira de tantos desvios até chegarmos ao caminho certo. Já não importava quando estávamos feridos juntos. E a cura parecia estar um no outro. Nos lábios. Nos olhos e nas palavras. E no que mais pudéssemos alcançar.
Num abraço, inclusive.
– Freddie.. — Ela murmurou, ainda um pouco ofegante, enquanto me apertava. Depois de dez segundos na mesma posição, ela o desfez, como se tivesse cometido algum pecado. — Oh, meu Deus... o que nós estamos fazendo?
– Agora, eu não sei. Mas há meio minuto estávamos nos beijando e...
– Eu não estou pra gracinhas agora. — Me repreendeu, já se levantando. — Por que a gente... por que eu...
– Por que o quê? — Respondi, me levantando também.
– Por que a gente fica... se beijando? Já é a terceira vez em menos de duas semanas e eu não acho que isso seja normal.
– Porque não é pra ser normal. — Conclui enquanto me aproximava. — Desde quando você é?
– Eu não sei, mas... você, quem sabe... Freddie, mas que droga! — Ela berrou, estapeando a própria perna.
– Em minha defesa, posso afirmar que os últimos dois beijos foram iniciados por você.
– Não é essa a questão, seu idiota! Eu acabei de terminar meu namoro com o John e você deveria estar atrás da Carly!
– Sam, qual o problema? — Falei apreensivo, porém sorrindo. — Não estamos devendo nada pra ninguém, não acha?
– Acho, sim. Talvez um pouco de honestidade com nós mesmos. — Respondeu ela com um olhar apreensivo.
– Eu sei que estou sendo honesto comigo mesmo quando estou onde preciso estar e fazendo o que tenho que fazer. Tipo aqui e agora. Falando algumas coisas toscas pra você e acabar te beijando porque você quis. E porque precisava, talvez.
– E como você sabe se é ou não o certo?
– Eu sei que é certo quando me faz bem.
Tudo o que eu mais queria era beijá-la logo em seguida mas não faria nada sem a certeza de que ela queria também.
Eu estava esperando uma resposta.
Que não tardou a vir.
Quando me dei conta, já estava agarrado nela. De novo. De uma forma ainda mais urgente e necessária.
Eu a guiei até a parede, pressionando-a um pouco. Bem, foi o calor da emoção. Mas ela também não se incomodou, afinal. Parecia pedir ainda mais, como sempre, ousando primeiro. Intercalando entre alguns suspiros e sorrisos nas pausas para respirar. E não havia outro lugar no mundo onde eu quisesse estar, a não ser ali.
Daquele mesmo jeito.
– Não disse que é sempre você quem começa? — Murmurei para ela, ainda entre um selinho e outro.
– E sou eu quem termina também. — Respondeu, saindo do canto onde eu a encurralava.
– O que foi? Fiz alguma coisa errada? — Perguntei enquanto a seguia com o olhar até o sofá.
– Vem cá. — Ela pediu.
– Sam...
– Por favor. Por mim. — Ela continuou, forçando uma voz doce, como se imitasse alguém.
– Ok. — Assenti, já sabendo quem.
– Olha... — Sam começou, um pouco depois deu já ter me sentado. — Eu espero que você não se iluda com a possibilidade deu te dizer coisas iguais às que me disse porque você sabe que eu não sou boa com palavras. Então, só quero dizer o quanto esteve certo, sempre. Que foi incrível o que você fez por mim e tudo o que você fez ainda antes também, mesmo que eu só veja agora. E não se empolgue, porque eu não vou agradecer.
– Ah, não?
– Não. — Ela sorriu convencida, enquanto eu ria. — Não do jeito que você está acostumado.
– Isso me fez lembrar do nosso primeiro beijo, sabia?
– E a forma como sempre sou eu quem toma a iniciativa?
– Hey. — Protestei, um pouco envergonhado. — Hoje foi um pouco diferente, não acha?
– É. Uma vez na vida e outra na morte, pelo menos, não?
– Engraçadinha. — Reclamei, um pouco insatisfeito.
– Já vamos brigar de novo?
– Foi você quem começou.
– Então é justo que eu termine também.
O rosto dela assumiu uma expressão mais séria e o olhar que me lançou parecia atravessar meu corpo e penetrar no fundo da alma. Como se ela pudesse enxergar lá dentro e entender tudo o que via. E talvez tenha entendido mesmo o desejo que eu ainda tinha em beijá-la quando não demorou para saciá-lo.
Ela se rastejou um pouco e se posicionou em cima de mim com as mãos apoiadas no meu peito. Eu mal conseguia corresponder no início, apenas tentando assimilar até onde iríamos com aquilo.
E eu simplesmente não conseguia. Mas precisava começar qualquer coisa para saber.
Então, quando um desejo de descoberta se apoderou de mim, eu finalmente a puxei, como se houvesse a possibilidade de ficarmos ainda mais próximos do que já estávamos.
Meu corpo já estava queimando e o dela parecia estar da mesma forma enquanto eu o sentia por cima do tecido da camisa jeans que a vestia.
Entretanto, conseguimos nos manter não muito desesperados durante aquele beijo. Era lento porque eu queria que durasse, mas ela mudou de ideia quando começou a transferi-lo para a minha bochecha e todo o caminho até o meu pescoço.
– Ai! — Falei rindo, um pouco sem jeito, enquanto ela segurava meu cabelo e o puxava para trás afim de explorar ali tudo o que pudesse.
– O que foi? — Ela perguntou antes de voltar os lábios aos meus sem esperar pela minha resposta.
– Sam, eu... — Comecei, ainda um pouco ofegante, quando o barulho da fechadura da porta sendo aberta se fez nítido e eu interrompi a mim mesmo pelo susto. — É a minha mãe! — Sussurrei em seguida, enquanto nos levantávamos.
– Freddinho! — Ela cantarolava atrás da porta.
– Oi, mãe! — Gritei de volta enquanto Sam se calçava e vestia seu casaco novamente. — Se esconde ali atrás da estante.
– Ah, filho, eu estou exausta. — Ela disse ao entrar, quase ao mesmo tempo em que Sam desapareceu do meio da sala. — Nunca mais cubro plantão na minha vi...
– Então por que a senhora não vai logo tomar um banho? — Falei enquanto pegava sua bolsa e a encaminhava até a entrada do banheiro.
– Eu vou, mas...
– Sua toalha já está ai, até mais! — Empurrei-a para dentro e fechei a porta com uma batida forte.
– Mas Freddie, eu ainda...
– Depois nós conversamos, ok mãe? Eu estou meio ocupado agora.
– Não entendi. Mas já que você me enfiou aqui dentro...
Quando percebi, um minuto depois, que ela não iria me contrariar ao ligar o chuveiro, fui até a loira foragida atrás da minha estante.
– Pode sair. — Falei, fazendo-a reaparecer logo em seguida. — Você vai ter que ir embora.
– Ok. — Concordou, revirando os olhos.
Eu assenti, um pouco frustrado e a puxei pelo braço corredor afora.
Dei uma olhada no local um pouco antes caso alguém aparecesse, saindo apenas quando tudo parecesse seguro.
Rapidamente chegamos à rua. Já era tarde, mas ainda estava movimentada. Mesmo assim, eu ainda não queria deixa-la ir.
– Então... tchau. — Ela disse, um pouco sem jeito. Como se não quisesse demorar na despedida. Assim como eu.
– Tchau. — Respondi com um sorriso decepcionado.
Eu realmente não esperava que fizéssemos ali nada do que havíamos feito antes, mas fiquei frustrado ao ver que estava certo.
Ela sorriu uma última vez e saiu caminhando com certa pressa, olhando para trás discretamente algumas vezes. Eu continuei ali, observando-a até que desaparecesse do meu campo de visão.
Àquela altura eu já nem me importava mais se alguém chegou a nos ver ou não. Eu só conseguia me maravilhar com o que ainda sentia mesmo depois que ela já tivesse ido.
Estava tudo bem.
E a espera, mais do que nunca, percebi o quanto havia valido à pena.
Fale com o autor