Notas iniciais
Eu quero dedicar esse capítulo à Kath porque quinta foi o aniversário dela. Estou com saudades de você por aqui, Bilgerdunday. ♥ Terceiro capítulo da semana. Me amem MUITO. "Jogando Pizzas." Eu gosto desse. ♥

PDV Freddie.

Ficar sozinho e em silêncio sempre me incomodou um pouco, exceto nos momentos em que eu devia estudar. É que essas duas coisas sempre fazem a gente pensar e, se não tomamos cuidado, nossas mentes acabam por ultrapassar os limites do bom senso até mesmo dentro do que se pode imaginar de mais absurdo. Confuso, não? Não. Sim, na verdade. Mas nada muito assustador. Apenas um reflexo do que se passava comigo naquele momento e que já vinha se arrastando há um bom tempo.

Sempre fui muito organizado em vários aspectos e certo sobre tudo o que sentia, então simplesmente não havia por que começar a me questionar sobre essas coisas que sempre foram tão claras para mim.

Tudo estava tomando os rumos que eu havia planejado, mas de alguma forma eu não estava satisfeito como pensei que estaria quando tudo acontecesse. Parecia tão certo, tão aguardado, tão conveniente... mas não tão bom quanto deveria.

É esquisito esperar por algo durante tanto tempo e simplesmente se dar conta de que, na verdade, você queria tudo ao contrário. Mais que isso: precisa.

Carly foi para a casa da Wendy fazer o trabalho de história logo depois da aula então eu estava voltando sozinho e pensante para a minha quando uma voz começou a me acompanhar.

– Hey!

– Ei! — Me virei assustado, dando de cara com Sam. Estava impressionado e nervoso, mas fingi não ligar. — Ah, é você.

– Que hostilidade é essa, hein? Mal-humorado. — Respondeu irritada.

– Só não estou muito a fim de conversar hoje.

– Por quê?

– Não sei.

– Como não sabe? — Ela insistia.

– Não sabendo da mesma forma que você há uma semana atrás quando foi parar lá em casa sem motivo nenhum.

–Oh, aquele dia em que eu sumi sem avisar quando sua mãe voltou. — Ela riu. — Agora você também está todo pensativo?

– Sim. — Respondi e como vi que ela não continuaria, continuei. — Cadê o John?

– E você se importa? — Ela riu impressionada.

– Não, é que... sei lá. Pensei que passaria a tarde com ele.

– Não. Ele vai a algum jogo com o pai.

– Desde aquele jantar vocês não saíram mais juntos?

– Não... — Disse ela desanimada. — Mas ele disse que hoje à noite vai lá em casa me fazer um convite.

– Convite?! — Perguntei irritado.

– É. Eu nem sei o que é, mas acho que ele deve me convidar para sair.

Eu não tinha o que responder então fiquei calado. Na verdade, eu tinha sim mas seria ofensivo demais e não poderia condizer com minha simples posição de amigo dela. E era isso o que me impressionava, o modo com que eu estava deixando de ser apenas isso. Eu já não era só mais um amigo. Pior que isso, eu não queria mais ser um amigo. Pelo menos era assim que eu sentia e que eu queria agir algumas vezes mas recuava. Eu estava atravessando uma linha tênue entre o local onde eu estava até o momento e um outro pelo qual parecia estar sendo cada vez mais atraído.

Ficamos calados por mais um tempo enquanto caminhávamos lado a lado. Essa condição de silêncio absoluto surpreendentemente não trazia nenhum desconforto ou constrangimento para nenhum de nós dois. Não havia a obrigação e a cobrança de sempre manter um diálogo para tapear a ausência de intimidade que antes era assustadoramente grande e agora, justamente o contrário. Estávamos isentos dessa distância.

Quando ultrapassamos a rua na qual Sam deveria entrar para continuar o caminho até sua casa, parei e a fiz parar também com minha pergunta.

– Ei! — A chamei enquanto ela continuava andando à minha frente com seis ou sete passos de vantagem.

– Fala. — Ela se virou para mim com cara de poucos amigos.

– Não vai para sua casa agora?

– Mais tarde.

– Então está indo pra onde agora?

– Para a sua. — Respondeu com serenidade.

– Por quê?

– Nós não vamos estudar?

– Vamos?

– Vamos? — Ela perguntou também e nos entreolhamos com desconfiança.

– Vamos. — Ela assentiu com um sorriso enquanto esperava que eu a acompanhasse.

Ao chegarmos, Sam mal esperou que eu abrisse a porta e já entrou com pressa se jogando no sofá e largando a mochila sobre o tapete.

– Hey! — Protestei com autoridade.

– O que foi agora? — Ela grunhiu.

– Você não tirou os tênis. — Respondi enquanto tirava os meus.

– Que porcaria é essa de tirar os tênis? Você não me pediu isso das outras vezes.

– Porque a gente sempre ficava no meu quarto e eu esquecia.

– Mas não precisa.

– Vai logo, Sam, por favor.

– Por que você tem que ficar sempre fazendo tudo tão certinho?

– Sam!

– Okaaaaaay. — Ela se levantou com raiva e tirou os tênis deixando-os ao lado dos meus.

– Já quer almoçar?

– Sim. — Ela respondeu voltando a se sentar no sofá.

– Ok. — Falei enquanto já ia até a cozinha para lavar minhas mãos e começar.

– Quer... ajuda? — Ela se ajoelhou no sofá tentando me ver.

– Sério?

– Posso ser sincera?

– Por favor.

– Nope. — Sam fez um bico e se deitou novamente. Pegou o controle da tv e a ligou enquanto eu voltava à cozinha.

PDV Sam.

Enquanto Freddie se despunha a fazer minha comida sem que eu tivesse pedido, também não me atrevi a recusar. Me deitei no sofá como se estivesse em minha casa e comecei a passar os canais da televisão aleatoriamente sem achar nada que fosse mais interesse que conversar com o nerd.

– O que está fazendo? — Ele gritou da cozinha.

– Nada. — Respondi. — Só está passando coisa ruim na tv agora.

– Está tendo uma maratona de Doctor Who, coloca no...

– Oh, Fredduccini. Eu não sou igual a você. Não entendo esse seriado esquisito.

– O quê? Oh, Gezz. Você não sabe a blasfêmia que acabou de proferir.

– "Você não sabe a blasfêmia que acabou de proferir." — Eu o imitei com uma voz fanha, gargalhando em seguida e irritando-o. — O que você está fazendo ai para mim?

– Nada demais. Já estou acabando.

Voltei a me deitar e colocar no canal que ele havia dito para assistir aquele seriado que dissera. Com certeza ele ouviu e eu podia sentir que estava rindo, triunfante. Alguns instantes depois, me chamou para comer.

– Pronto, Sam.

– Já posso ir?

– Pode. — Me levantei num pulo e fui correndo até a mesa onde me deparei com um prato de macarronada.

– Até enfeitou com um matinho verde, hein? — Falei enquanto me sentava e pegava os talheres.

– Come ai e me diz se está boa.

Assenti e levei um pedaço até minha boca. Estava divina.

– Ai meu Deus! Isso aqui está... urgh! Freddie!

– Valeu.

– Cadê o queijo ralado? — Perguntei tentando mastigar ao mesmo tempo sem me importar com o fato de que ele odiava quando eu fazia isso. Na verdade, acho que ele nem ligou.

– Vou pegar. — Ele abriu o armário e pegou um vasilha com o queijo, colocando-a sobre a mesa.

– Oh, Deus. — Sem parar de comer em nenhum momento, comecei a colocar o queijo em minha refeição até que parei por um instante, desconfiada. — Espera um pouco...

– O que foi? Está ruim?

– Não, é que... você não está comendo. — Me levantei em seguida. — Por acaso você colocou alguma coisa aqui?

– Não! — Ele disse. — Ficou doida? Eu não sou você!

– Então por que não come?

– Porque não quero!

– Só uma garfada, então.

– Tudo bem. — Furioso, ele pegou meu garfo e o enterrou no prato e depois na boca. — Hmm, que delícia! — Falou sarcástica. — Viu? Sua louca! — Ele deu uma pausa enquanto terminava de mastigar. — Cara, por que você põe tanto queijo ralado?

– O queijo não tem nada a ver com isso.

– O que você quer dizer então? — Ele perguntou impaciente.

– Já falei. Você não está comendo.

– Porque eu não quero. — Respondeu dando de ombros.

– Que pessoa em sã consciência não quer um desse aqui? — Perguntei levantando o prato até a altura de nossos olhos.

– Qualquer um que queira manter um abdômen definido. — Disse ele com sarcasmo enquanto passava a mão pela própria barriga.

– Você nunca precisou deixar de comer para ter um.

– O que não é o seu caso. Se continuar comendo assim, vai ficar enorme de gorda.

– Freddie! — O repreendi da mesma maneira que sempre fizera comigo tantas vezes.

– Tudo bem, tudo bem! — Ele deu um longo suspiro e se rendeu. — É que minha mãe acha que eu estou comendo o dobro sendo que na verdade você que está comendo aqui comigo todas as tardes há um tempão, então para ela não desconfiar, eu vou deixar de comer quando você estiver aqui.

– Então... você fez essa comida só para mim?

– Err... — Ele hesitou ao falar, se limitando a apenas fazer um movimento com a cabeça de forma que eu visse a panela vazia dentro da pia.

– E ai você simplesmente não vai comer quando eu estiver aqui?

– Parece que sim.

– Freddie, isso não tem nada a ver!

– Mas ai minha mãe vai saber que alguém anda comendo aqui comigo.

– Eu posso comer na Carly.

– Então você vai pra lá todo o dia almoçar e depois sumir? Ela vai descobrir que você vem pra cá!

– Eu almoço em casa.

– Até você ir pra lá e depois voltar já ficou tarde demais.

– Então, eu... e agora? — Falei confusa. Como resposta ele apenas balançou a cabeça negativamente.

– Não tem problema. — Falou um tempo depois.

Eu o encarei intrigada um instante antes de falar.

– Essa foi a coisa mais linda que alguém já fez por mim.

Eu também não estava acreditando no que tinha acabado de dizer e não há uma alma viva que concorde comigo, a não ser alguém que ame comida tanto quanto eu... mas para mim era isso que o gesto dele havia significado. Não há nada no mundo melhor que comida e têm muitas coisas das quais eu abriria mão por uma refeição e Freddie com certeza sabia disso.

"Ah, comida. Grande coisa."

Não. Por favor, não estejam certos disso. Se vocês pensam assim, saibam que estão equivocados. Saibam que comida é grande coisa sim. Para mim, é uma das maiores coisas. E é melhor que sempre reconheçam isso antes que eu os coma também.

– O quê? — Perguntou ele com incredulidade.

– Ei, não se anime. É que você sabe o quanto eu amo comida. — Falei enquanto me sentava novamente na cadeira e pegava meu talher. — Nesse caso, para agradecer... você pode dividir comigo.

Ele me encarou desconfiado por um instante antes de responder.

– Tem certe... Ah. Que se dane.

Ele pegou outro garfo e se sentou também para começarmos nossa refeição.

Tudo bem que eu sugeri que dividíssemos, mas não significava que seria igualmente. Comi a maior parte mas a porção era enorme então acho que foi suficiente para ele. Porque, para mim, jamais seria.

– Você comeu mais que eu. — Protestou ele.

– Se não fosse por mim, você não comeria nada.

– Você fez só para mim porque quis. — Ele fez uma cara esquisita. — Mas deu pra ficar satisfeito, não deu?

– Deu.

– Não pra mim. — Ele parecia bravo, mas logo em seguida me acompanhou na risada.

Voltamos à sala onde ficamos durante toda a tarde e nem percebemos o tempo passar. Jogamos vídeo game, ouvimos músicas, assistimos a um filme e conversamos sobre tanta coisa idiota que eu até perdi a noção do tempo.

– Oh, meu Deus, olha a hora! — Falei enquanto ia atrás dos meu tênis para calça-los e ir embora.

– E a gente nem estudou hoje.

– Falando nisso... eu já sei como podemos resolver aquele problema.

– Como?

– A gente pode começar a estudar lá em casa.

– Por quê?

– A Melanie vai para a escola à tarde e minha mãe quase nunca aparece esse horário. E mesmo que apareça, não tem problema.

– Você acha melhor?

– Com certeza! Aqui eu tenho que ficar me escondendo e lá sempre tem alguma comida gostosa, exceto quando já tem mofo nela.

– Tudo bem. Mas quando sua mãe não cozinhar, você tem que se comprometer a fazer o nosso almoço.

– Ei, moço. Você também.

– Certo. — Ele riu. — Mas se você quiser continuar aqui mesmo...

– Não, vamos para lá sim. Você não pode deixar de comer.

– Não estou "deixando de comer." Qual é, não é grande coisa.

– Talvez não para você, mas para mim, sim. — Ele me encarou até não aguentar mais, rir e desviar o olhar. — Se bem que você também já desistiu de uma outra coisa por mim que era muito importante.

– O quê?

– Aquele cruzeiro de seis meses que você deu para a Missy.

– O quê? — Insistiu ele, dando alguns passos para trás, preocupado.

– Eu sei que você ganhou mas deu para a Missy ir embora. — Hesitei um pouco porque ele parecia assustado, mas continuei um instante depois. — Eu tinha pedido a sua ajuda pela primeira vez mas não pensei que fosse fazer nada. Especialmente aquilo.

– E como você soube que fui eu?

– A Carly me contou um tempo depois. — Eu sorri e e Freddie corou de vergonha. Ele continuou dando alguns passos para trás. Eu continuei a dar alguns para frente.

– Eu nem queria tanto assim. — Ele sorriu amarelo e engoliu em seco, cada vez se esquivando mais.

– Sem essa, Freddalupe. Você devia estar amando aquela viagem tanto quanto eu amo comida. — Ele apertou os olhos e virou o rosto quando aquela expressão envergonhada dava lugar a um sorriso sugestivo.

– Você também já se esqueceu da coisa "mais importante da sua vida" por mim. — Com a voz mais ousada, parou e estufou o peito diante de mim me fazendo recuar.

– Com certeza não. Quando foi isso? — Dei uma risada tentando negar mas eu já sabia do que ele estava falando.

– O Spencer me contou que, quando você foi dizer a ele que eu tinha sido atropelado, jogou a pizza dele no chão. — Respondeu com um ar triunfante.

– Eu jamais faria isso com uma pizza!

– Mas você fez sim, e o melhor: por mim. — Ele cruzou os braços como sempre fazia quando estava convencido de algo.

– Para, Freddie.

– Pois é, Samantha. Acho que estamos quites. — Ele disse chegando cada vez mais perto e me deixando cada vez mais irritada.

Abaixei minha cabeça, enrubescida, pensando no que havíamos dito. Não esperava que ele ainda estivesse me encarando, mas ao levantar meus olhos dei de cara com os dele e seus lábios formando um sorriso torto. Estávamos muito próximos sem motivo algum e aquilo não parecia incômodo para ele. Eu era a única a parecer preocupada, mas depois de alguns segundos o fitando de volta, aquela situação já não parecia ser uma péssima ideia.

– Eu preciso ir. — Falei me distanciando. — O John deve aparecer lá em casa daqui a pouco pra me dizer alguma coisa.

– Tudo bem. Tchau. — Ele se sentou no sofá me deixando sair sem cerimônia mas continuou me olhando e sorrindo até que eu fechasse a porta atrás de mim.

Permaneci no corredor por alguns instantes sendo tomada por ideias que há algum tempo me pareceriam absurdas mas agora já não eram. Estava impressionada com os fatos que eu e Freddie havíamos colocado em questão sobre nós dois e percebi o quanto ele era importante.

E eu amava comida. Tipo, muito.

E eu amava pizza.

Mas, por ele, eu jogaria no chão quantas fossem necessárias.

Notas finais
A parte da comida foi meio inspirada em iOMG (quando o Freddie desconfia que a Sam colocou alguma coisa na guacamole) e em iDate Sam and Freddie (quando a Sam coloca muito queijo na lasanha e ele reclama). Gostaram? ♥