Anyone Else But You
50 They Know
Notas iniciais
PDV Sam Puckett.
Eu usava um vestido amarelo de alças finas comprido até os joelhos, um sapato baixo, branco e brega e os cabelos presos num rabo de cavalo mais brega ainda. Estava num campo aberto rodeado por girassóis e cerejeiras. Um sol quente pra cacete queimava minha pele — qual é, eu sou tão branca quanto uma folha de papel -, mas isso parecia não ter a menor importância dados os fatos: eu corria como uma gazela saltitante corre quando foge de uma onça pintada, tinha o sorriso tão largo quanto o de uma pessoa que tinha acabado de fumar um baseado e fazia questão de não procurar uma sombra sequer debaixo de tantas árvores.
Quando aparentemente deixei de agir como um mocinha retardada de filmes toscos, sentei ao pé de uma macieira. Como mágica, ou bruxaria, ou qualquer outra prática sobrenatural, uma maçã vermelinha, madura e suculenta caiu bem em cima do meu colo e eu, é claro, a abocanhei no mesmo instante. Cada mordida parecia ser um passo mais perto do paraíso de tão doce que sentia a fruta em minha boca.
Mas o que parecia bom, poderia ficar ainda melhor. Ao longe, avistei uma imagem que ia se movendo e, conforme o passar dos segundos, se amplificava. Vinha em minha direção, e logo percebi que era Freddie. Sem camisa, sorrindo, com uma calça tão ridícula quanto o meu vestido, jogando o cabelo pro lado e, principalmente: muito gostoso.
Já espevitada, joguei a maçã no chão, me levantei e comecei a caminhar em direção a ele. O que era aquela fruta vermelha em comparação ao que estava pra chegar?
Tudo ia bem até que comecei a sentir um mal estar fodido no abdômen. Será que eu ia ter uma diarreia bem na frente do Benson, correndo pra mim daquele jeito? Quanto mais pensava nisso, pior me sentia. A dor passou para meu peito, depois para as costas e chegou à garganta. Parei de correr, mas Freddie continuava vindo com o mesmo sorriso largo. Passei a sentir minha epiglote fechar e a me sentir sufocada. Por mais límpido que o ar daquele lugar fosse, não conseguia alcançá-lo.
Quando percebeu que eu não estava nada bem, o nerd correu mais rápido, mas não importava o quanto acelerasse, nunca parecia estar perto. Em instantes, eu já estava caída na relva, esganada, esperando pela sua chegada — que nunca chegava. De repente, como uma projeção, John surgiu entre a distância que nos separava e agarrou Freddie. Depois de uma breve luta, os dois sumiram, como pó se dissipando no vento.
Enquanto eu morria feito uma lacraia com espasmos jogada no chão, surge a Marisa fantasiada de bruxa segurando uma cesta de frutas. Não consigo ouvi-la, mas sei que está gargalhando. Começo a perder a noção das dimensões de tempo e espaço, o dia vira noite, as flores morrem, as frutas apodrecem e eu acordo gritando.
Era domingo, e o meu despertador ridiculamente eficiente conseguiu me acordar de um sono de sonhos profundos o suficiente para parecerem reais. Três da tarde. Pensei um "droga" que saiu alto demais. Não dormira bem naquela madrugada, embora os acontecimentos dela enquanto estive acordada não pudessem justificar o fracasso do meu descanso.
– Bom dia! — Gritou minha mãe escandalosamente enquanto eu descia as escadas, indo em direção à cozinha.
— Bom dia. — Respondi, com entusiasmo zero comparado ao dela. Sentei-me à mesa, onde ela almoçava um frango assado. — Onde passou a noite?
— Desde quando eu te devo satisfações, mocinha? — Perguntou, gargalhando em seguida, com a boca aberta e cheia de comida.
— Não acha que tenho o direto de saber por onde minha mamãezinha esteve? — Questionei-a com certo cinismo.
— Passei a noite com meu namorado, se quer saber.
— Hum... tudo bem, então.
— E você? Passou a noite com o seu? — Perguntou de volta num tom presunçoso, que certamente me fizera ficar vermelha.
— Não tenho namorado. Terminei com o John faz tempo.
— Quem disse que eu estou falando dele?
— E está falando de quem, então?
— Naquele projeto de homem sarado que veio aqui ontem te buscar pro seu bailezinho de escola! — Gritou, exaltada, batendo as mãos na mesa.
— Você viu a cara dele? Pensei que estivesse entretida demais brigando com o seu namorado quando ele chegou.
— Já o vi outras vezes, você sabe. — Explicou, voltando a dar atenção para a comida e depois para mim de novo. — E então? Não tem nada entre vocês?
— Por que de repente se interessou pela minha vida amorosa?
— Então isso é um sim?
— Não!
— Calma aí, Samantha! Você anda muito estressada pra uma adolescente da sua idade. Não posso tentar ser uma mãe mais participativa que você já quer reclamar?
— Participativa ao ponto de dormir fora de casa e nem avisar a filha?
— Desde quando você liga pra isso? — Disse, finalmente assumindo o típico tom de discussão que usa comigo.
— Desde que você não ligou. — Falei, voltando meu olhar para o saco de pães ao lado da panela do frango. Peguei um e o abocanhei.
— Me desculpe. — Murmurou, cabisbaixa, enquanto remexia o prato com os telhares, mas não os levava até a boca com a comida.
— Tudo bem. — Consenti, lançando-lhe um sorriso tímido quando se encorajou a me olhar de volta.
Quando Pam terminou sua refeição e eu o meu pão, recordei-me da conversa que tivera com Freddie na noite anterior. Sobre nossos pais fugitivos, nós abandonados e, principalmente, nossas mães. Fragilizadas pelo peso de ser dois em um, assumir sozinhas uma responsabilidade que deveria ser compartilhada. No caso da minha mãe, que veio dobrada.
Seu passado não muito lícito também tinha forte contribuição para o que era — como mãe, como parceira, como qualquer coisa. Não poderia culpa-la, ou culpar apenas ela, embora fosse a única coisa que eu soubesse fazer desde pequena.
Como costumava dizer devotamente quase todo o santo dia, ela era meu futuro. Irresponsável, marginal, leviana. Sua revolta me fora transferida pela placenta, creio eu. Não a toa temos o gênio forte, a teimosia e o cinismo em comum. Éramos realmente mãe e filha, não importava se algum dia qualquer teste de DNA dissesse o contrário.
Com essa reflexão, passei a considerar ser um pouco mais flexível com minha mãe. Tentar compreende-la e permitir que pudesse ser pra mim o que nunca conseguiu plenamente, não exatamente por não querer. Mostrar, com minhas próprias atitudes, que ela poderia se quisesse. Se eu aceitasse.
– Aquela sua amiga ligou de manhã perguntando por você. — Declarou minha mãe, enquanto nos sentávamos no sofá.
— A Carly?
— É.
— Ela deixou algum recado?
— Só pediu que você ligasse de volta. Ou fosse até lá.
— Ah, ok. Valeu.
Aquela altura eu já estava louca para correr até o Bushwell, falar com Carly ou ver Freddie, mas tudo indicava que minha mãe passaria aquela tarde em casa e talvez fosse uma oportunidade para começar a mudança que mais cedo eu havia planejado em mente. Ela estava estirada no sofá, com as pernas arreganhadas de uma maneira engraçada, enquanto mudava os canais da televisão. Sua expressão desleixada me fez rir internamente, então decidi ficar.
– Não vão lá visitar sua amiga ou ao menos ligar?
— Depois eu faço isso.
— Tem certeza? Daqui a pouco ela baixa aqui atrás de você.
— Tenho, Pam. Não se preocupe, mais tarde eu vou lá.
Ela assentiu, indiferente, quando finalmente parou de mudar os canais e deixou um filme passando na tela da nossa tv. Era uma daquelas comédias de fim de noite, mas as risadas que nos arrancou foram realmente proveitosas para a nossa proximidade. Vencemos aquela tarde sem trocar mais um insulto ou precisar aumentar o tom da voz para se comunicar e perceber isso me deixou extremamente satisfeita.
Quando o relógio marcava seis da tarde, deixei-a na sala entretida em seus seriados e fui até o Bushwell antes que Carly já me desse por desaparecida, uma vez que não retornei sua ligação nem fui até sua casa imediatamente. No caminho, a passos lentos como sempre, recordei a noite anterior com Freddie.
Admiti a mim mesma como ainda era divertido vê-lo agonizar vez ou outra, mas também a maneira como suas feridas pareceram se projetar em mim. Senti certa compaixão em relação ao seu sofrimento, ainda mais por, de certa forma, ter sido provocado por mim. Depois de discutirmos com John, ele e o nerd se atracaram numa briga que o rendeu machucados nas costas e na testa e eu não poderia ficar alheia a isso. Tomar conta de suas lesões foi o mínimo que pude fazer pelo seu bem e pelo meu próprio.
Apesar disso, já estava começando a ser ridícula a forma com que agíamos como um casal sem ser um. Um cuidando do outro, assistindo filminhos românticos e se agarrando no sofá. Mais ridículo ainda era o quanto eu gostava disso, mas continuava sem saber onde ia dar. De fato, nunca tivera um namoro realmente sério. Coisa de duas semanas, no máximo. Freddie também, e isso me bloqueava. Ainda mais, porque ele passou anos declaradamente apaixonado pela minha melhor amiga e chegou a namora-la, também por pouco tempo, mas o suficiente para me despertar o menor resquício de ciúmes e de receio.
Não temia que ainda amasse Carly — se é que um dia a amou -, mas que, talvez, sua obsessão pudesse voltar a qualquer chance. Não deveria pensar assim, uma vez que recentemente eles haviam se beijado e ele mesmo admitiu que o fato apenas o ajudou a confirmar que já tinha superado tudo que sentia por ela, mas era como se meu subconsciente me fizesse crer que deveria por segurança. Para garantir que eu não me machucasse, mesmo sem realmente estar correndo risco.
Não conseguia parar de pensar nele. No quanto estivemos próximos naquela madrugada. Estabelecendo-se no âmago um do outro, na intimidade, na particularidade. Como me sentia especial, protegida e compreendida quando estávamos juntos. Em contrapartida, pensava em como o meu medo me impedia de começar, por mais medo ainda de um dia acabar. Sensação essa que se expandiu por conta do meu sonho mais recente no qual eu Freddie não conseguíamos alcançar um ao outro, porque John desapareceu com ele e a Marisa me envenenou com uma maçã. Minha paranoia era grande o suficiente para considerar que a situação pudesse se projetar para a realidade.
– Finalmente! — Carly berrou no momento em que colocou os olhos raivosos em cima de mim e eu caminhava até ela, próxima ao balcão da cozinha.
— e aí, Carlotta?
— Por que demorou tanto? E nem ao menos me ligou de volta pra avisar?
— Desculpa, não achei que fosse necessário. Acordei tarde e fiquei um pouco com minha mãe.
— Oh... — Murmurou ela, envergonhada, provavelmente constatando a raridade do acontecimento que eu acabara de mencionar. — É bom que estejam interagindo.
— É, comecei a tentar hoje. — Assenti, contente com sua compreensão. — Mas qual a urgência, senhora?
— Será que não posso convidar minha camarada pra passar a tarde aqui? Embora já seja noite... — Disse com um sorriso amarelo.
— Pode. — Ri enquanto me sentava no sofá e ela também.
— Ok. E foi por isso. Mas também porque queria saber como Freddie está.
— Ele voltou pra casa, você não o viu?
— Só hoje de manhã no corredor, mas não consegui falar com ele porque a Marisa estava levando ele pro hospital forçado.
— E ainda não voltaram?
— Não. Por isso quero saber o quão grave é o estado dele pra ter passado o dia inteiro lá.
— Não tem nada de grave, a mãe dele que é surtada.
— É, eu sei disso. Mas como ele ficou por causa dessa briga? Está muito machucado?
— Teve um corte na cabeça, sabe, em cima da sobrancelha e... um machucado feio nas costas. Não muito grave, mas estava bem dolorido. Fiz uns curativos e coloquei uma solução desinfectante e natural que minha mãe arranjou com uns amigos.
— Ah. — Suspirou Carly, com certo alívio. — Dos males, o menor.
— E o John? Como ele está?
— Acho que um pouco pior que o Freddie. — Riu, meio hesitante. — Ficou com um olho roxo e as costelas doendo. Disse que hoje iria tirar um raio-x pra saber se alguma coisa mais grave aconteceu.
— Você cuidou dele?
— Não. — Respondeu direta, como se minha pergunta a ofendesse. — Só fiquei com ele até o pai aparecer para buscá-lo.
— Ah, sim. Espero que ele esteja bem apesar de tudo.
Carly não me respondeu de imediato e não esboçou nenhum expressão decifrável depois da última coisa que dissera. Desde o início, percebi que um clima esquisito pesava mais a cada avanço em nossa conversa, mas não pensei que chegaríamos tão rápido no assunto que eu vinha evitando há mais tempo que pudesse perceber.
– Sam, eu e o John conversamos um pouco... enquanto o pai dele não chegava pra buscá-lo.
— E..? — Falei, desinteressada.
— E ele me contou que brigou com o Freddie porque viu vocês dois se beijando.
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