Anyone Else But You
41 Tell Me
Notas iniciais
PDV Freddie.
Ela não é a Sam.
Claro. Isso não poderia ser mais óbvio.
É claro que ninguém além da Sam é a Sam.
Afinal, o que eu esperava? Que a Carly se transformasse nela?
Quem sabe.
Talvez, que ela só me fizesse sentir um terço de tudo o que a loira faz comigo em apenas um olhar. No mínimo. Mas eu falhei na tentativa. Não ela. Ela não tem culpa. Eu me precipitei. Mas pelo menos confirmei minhas suspeitas.
Eu realmente não precisava de um beijo para perceber isso. Até porque, quando beijei a Sam, eu já estava praticamente certo. Na verdade, essa atitude se assemelhou mais com um tipo de... vingança. Pela rejeição de mais cedo, talvez? É, pode ser.
Mas de que adiantaria, afinal, se ela não viu? Bom mesmo seria se alguém lhe dissesse só para fazê-la provar do mesmo gosto amargo que eu provei sem que antes me fosse ao menos perguntado. Justo, não? Acontece que aquela não era a maior preocupação do momento. Enquanto minha saliva ainda se misturava com aquele gloss de cereja. Enquanto meus olhos escuros de misturavam com outros mais ainda. A preocupação era que a dona do gloss não era a Sam. E a dona dos olhos também não. E ninguém mais era a Sam. Então só podia ser a Sam. E mais ninguém.
E era a confirmação dessa exclusividade que eu estava procurando. Sua existência. Até que ponto ela iria.
Talvez essa segunda questão nunca tenha uma resposta. O que torna tudo ainda mais intenso.
Carly, você... me desculpa. Me desculpa mesmo.
Freddie... não, tudo bem...
Me desculpa, sério. Eu tenho que ir.
Ela ainda ria, meio incrédula. Eu já estava meio tonto. Minha voz, já meio rouca. Minha sanidade, já meio perdida.
Sai imediatamente daquele apartamento e fui direto para o meu. Minha mãe devia estar pela sala quando ouvi sua voz me invadir os ouvidos, mas preferi não respondê-la. Só corri até meu quarto onde fiquei enfurnado por não sei quantas horas tentando rever o que havia me acontecido não só nos últimos segundos como também nos últimos meses e qual era a relação disso tudo.
Então, eu sinceramente não me lembrava como me ocupei lá dentro durante tanto tempo. Sem comida, sem meus aparelhos eletrônicos ou alguma companhia. Apenas eu e tudo o que explodia de dentro da minha cabeça problemática e extremamente perturbada.
Eu precisava vê-la, mas nem me movi pra isso.
Eu só a vi de dentro de mim mesmo.
Freddie? Freddie! O que tá acontecendo? — Carlos gritou com certo desespero, me tirando do transe. Já era sábado de manhã e eu estava treinando esgrima, novamente, que nem um doido. Eu mal tinha dormido. Eu mal tinha feito qualquer outra coisa além de pensar.
Oi... fala.
Cara, eu quase acertei com a espada na tua cara! — Ele disse enquanto arrancava a máscara do meu rosto. — Parece que você ainda está dormindo.
Não, eu estou acordado. E bem.
Se estiver se sentindo mal, posso te levar até em casa.
Não precisa. — Respondi enquanto me espreguiçava. — Vamos treinar mais um pouco.
E assim nós fizemos até anoitecer. Foi como se de repente eu tivesse tomada uma super dose de energia e não quisesse parar nunca mais. Treinei a balestra, a estocada, a flecha e a reprise. Treinei tudo um milhão de vezes. Treinei até esquecer meu próprio nome, até suar a última gota, até que não sobrasse de mim nem o pó.
Mas também me senti renovado, de certa forma. Talvez já disposto a resolver minhas outras questões que não requirissem meu esforço físico, mas um outro ainda mais complicado.
Assim como na semana passada, Carlos me levou até em casa, o que não foi um enorme sacrifício já que, de qualquer maneira, para ir até a dele, teria que passar pela praça Kennedy, onde fica o Bushwell. Agradeci da forma mais gentil que pude, rindo também ao lembrar do último sábado no qual eu e Sam fingimos ser namorados pelo meu ciúme mais que explícito.
E como eu queria não apenas fingir. Como eu queria parar de esconder o que já estava escorrendo por todos os cantos.
E eu esperava que ela estivesse lá, do outro lado do corredor. Talvez falando do nosso web show, de comida, de MMA ou quem sabe de mim. Nem que fosse pra me insultar, sem que eu soubesse ou não.
Quase não te reconheci fora do meu sofá. — Spencer exclamou entusiasmado ao surgir no corredor onde eu já estava parado por alguns instantes encarando a porta em frente, mas não pelo mesmo motivo de cinco anos atrás.
Ei, cara! Finalmente! — Respondi enquanto nos abraçávamos. — Tudo bem?
Estou esgotado. — Realmente. Até estava de barba e seu cabelo maior ainda. — Meu avô deu um certo trabalho mas já melhorou.
Que bom. A Amy já deve estar morrendo de saudades de você.
Isso se ela ainda quiser ser minha namorada. — Lamentou ele, com um bico.
Claro que vai! — Falei rindo. — A Carly já sabe que você está aqui?
Sabe sim, liguei para ela quando estava chegando. A Sam chegou aí agora a pouco também. Não quer entrar?
Claro, mas antes vou lá em casa tomar um banho porque acabei de chegar do treino de esgrima.
Tá legal, Freddito. Até mais. — Disse ele já entrando em seu apartamento enquanto eu acenava com um sorriso.
Mas eu já tinha que correr lá pra dentro o quanto antes. Precisava, no mínimo, olhar para aquele rosto, persegui-lo, como ele fez comigo tantas outras vezes.
Nós ainda tínhamos muitas coisas para acertar e eu ainda tinha uma para entender.
Mas a única que eu precisava era também a única que não conseguia.
Por quê?
Eu ainda queria saber por que em um dia ela me beijava e no outro só faltava me jogar de um penhasco. Na verdade, não seria tão esquisito se eu soubesse que ela realmente não queria fazer isso mas sim apenas tentar manter a nossa costumeira relação paradoxal.
Mas não.
Ela o fez de uma maneira fria. Como se jamais tivesse considerado os instantes bons ou ruins nos quais estivemos. Como se não tivesse considerado tudo o que eu havia dito a ela, tudo o que ela havia me dito. E isso meio que... doía. E eu precisei me sentir assim para me dar conta do quanto ela havia me enlouquecido.
Aquelas palavras ainda ecoavam na minha cabeça, como se tivessem sido gravadas em algum aparelhinho que fora enfiado dentro do meu ouvido. Eu podia me lembrar com mais precisão dela me dando mais gelo que a Antártida inteira conseguiria do que das coisas poucas — porém bonitas — que havia dito em cima do meu sofá naquela quarta à noite.
Porque sempre, sempre será mais fácil lembrar do pior.
Acontece que o pior dela fazia com que o melhor também fosse pior. Porque se tornava uma mentira. E eu ainda não conseguia aceitar essa parte. Porque aqueles olhos praticamente me juraram que aquilo tudo era verdade.
Tudo.
Desde o que ela disse até o que ela fez. Acontece que ela continuava sendo ela e eu já tinha me conformado o quanto isso é inquestionável e imutável.
E eu ainda precisava vê-la.
Meus músculos já estavam exaustos àquela altura mas consegui forçá-los de alguma maneira a tirar um pouquinho que fosse de energia de não sei da onde para me apressar em tudo que precisasse antes de atravessar o corredor e todos os meus medos. Tentei ficar o mais apresentável possível e corri até lá pouco tempo depois do meu encontro com Spencer no corredor.
Ei! — Exclamei já fitando-o estirado no sofá assim que entrei.
Demorou, hein?
Onde estão as meninas? — Perguntei.
Aqui, senhor beijoqueiro! — Carly gritou da cozinha. Eu estremeci na hora.
Senhor beijoqueiro? — O irmão dela repetiu em estado de alerta.
Ela só está brincando. — Desconversei.
Vem logo! — Ela voltou a me chamar enquanto Spencer parecia se despreocupar.
Estou indo! — Respondi com a voz esganiçada enquanto dava um passo após o outro, vendo meu corpo reagir como se, ao encontrá-las, minha morte fosse ser sentenciada.
Onde esteve o dia inteiro? — A morena perguntou ao me ver.
Eu estava treinando esgrima. — Respondi com a voz falha enquanto tentava evitar qualquer tipo de contato com Sam.
Mas que droga. — Ela falou logo em seguida com desprezo enquanto me olhava dos pés a cabeça. Naquela momento eu soube que ela já sabia. E que droga era isso realmente! Porque eu já havia desistido da ideia de vingança. Eu mesmo planejava dizer à ela que aquele beijo fora algo positivo para ter certeza do que eu sentia. Mas sabendo de outra maneira a não ser por mim, seria difícil convence-la disso.
Para, Sam. — A amiga a repreendeu. — Ele é ótimo no que faz.
É, ele é ótimo em tudo. Ele é um santo, não é mesmo?
Sam...
Deixa ela. — Respondi forçando um sorriso, como se não me importasse.
Que dia você vai participar de algum campeonato que a gente possa assistir? — Carly perguntou tentando desviar os rumos da conversa.
Eles não gostam de interferir no meu ensino fazendo competições enquanto estudo, então talvez... depois do fim do ano letivo.
O que por sinal já está chegando. — A loira comemorou.
Pois é! Não vejo a hora de fazer logo essas provas finais.
É, Carls... concordo com você. Mas acho que já deu minha hora. — Sam murmurou, cabisbaixa.
Tem certeza, amiga?
Tenho. — Respondeu cética, me encarando um instante depois e confirmando o que eu imaginava: estava indo embora por minha causa.
Tudo bem, então.
Amanhã eu apareço aí. — Ela começou a caminhar. Carly acenou. Eu apenas a observei. — Tchau, Spencer.
Mas já? — Ele se desencostou do sofá enquanto ela já passava pela sala e respondia apenas balançando a cabeça. — Tudo bem. Tchauzinho.
Ela abriu a porta. Se virou. Estava furiosa. Bateu a porta.
Nossa... por que a Sam ficou assim esquisita do nada? Há cinco minutos atrás ela...
Espera aí! — Eu a interrompi. — Acho que ouvi minha mãe me chamar. — Eu menti.
Não chamou, não. Qual é, Benson, anda ouvindo vozes?
Shhh... — Eu fingi. — Ela me chamou, sim. — Eu corri.
Freddie! Freddie, volta aqui!
É, nesse momento eu soube que não havia a convencido tendo aqueles gritos como resposta, mas já nem me importava com isso.
"Talvez ainda dê tempo de alcançar a Sam na portaria se eu me apressar só mais um pouco", pensei.
Acontece que ela mesma se deixou ser alcançada.
Ai! — Deixei um pequeno grito escapar da garganta quando, assim que bati a porta do apartamento dos Shay, fui imprensado contra a parede do corredor.
Ela me puxou pela gola da camisa e num segundo me jogou contra o concreto, apertando o braço em cima da minha garganta.
Seus olhos, mesmo assim, tão próximos aos meus, pareciam instigantes quando notei que transbordavam de um azul diferente do que eu estava acostumado a ver dentro deles. Era como se tivessem tomado uma nova forma, o que me preocupou e me atraiu ao mesmo tempo, se isso ao menos for possível.
Estava me esperando? — Perguntei com a voz engasgada, antes que ela me pressionasse ainda mais.
Eu sabia que viria logo atrás de mim. — Sussurrou de volta, um pouco rouca, ainda séria.
Como pôde ter tanta certeza?
E por acaso eu errei?
Parece que não. — Respondi, um pouco hesitante.
Certo. — Ela afrouxou o braço, mais calma, porém ainda dominando meus movimentos. — O que você quer comigo?
O que você quer comigo? — Repeti com ainda mais ênfase.
Já que faz tanta questão... — Continuou, antes de ficar na ponta dos pés até alcançar meu rosto e sussurrar bem em frente à minha boca. — Você vai me explicar agora mesmo por que infernos beijou a Carly ontem à noite.
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