Notas iniciais
Não que a minha vida interesse a vocês, mas... Eu realmente iria postar mais rápido dessa vez, prometi a mim mesma. Acontece que a semana de provas foi extinta na minha escola e de alguma maneira isso é ruim. Porque meus professores resolveram nos testar mesmo assim, ainda com avaliações, mas avisando apenas um dia antes. Essa repentinidade não vai se tornar padrão, mas como eles precisam adiantar vários conteúdos atrasados do ano passado, foi compreensível dessa vez. Logo, tive que estudar loucamente e não pude aparecer por aqui. Perdão! Quero agradecer pela recomendação linda da Liv. ♥ E vou tentar não me entristecer com o fato de que o número de comentários caiu pela metade mesmo sendo uma pessoa que leva isso em conta mais do que deveria. Sou meio chantagista. Voltando à ordem de dedicação de capítulos, esse aqui vai para a Chasedresm que me deixou mais que feliz. Obrigada, querida! Aproveite "Firescape" ♥ * Atenção! Esse aqui é quase a continuação do anterior. É no ponto de vista da Sam + a conversa que ficou pendente entre ela e Freduardo. Gostaria que comparassem os sentimentos dos dois que foram expostos na mesma situação. Boa leitura!

PDV Sam.

É sempre difícil falar sobre algo que nem você mesmo sabe direito o que é. É difícil porque você sabe que tem algo ali, entranhado na sua garganta, escorrendo por todos os lados. Mas é complexo demais para que as palavras deem conta de explicar. Que corresponda ao que você espera, ao que você quer, ao que você precisa.

Melhor dizendo: o que os outros esperam. O que os outros querem. O que os outros precisam.

Porque, quando você os contraria, acaba querendo isso. Mas tem que aprender a não querer, o que é, eu diria, praticamente impossível.

Porque ninguém se lança à abstinência de uma hora para a outra ou, simplesmente, abre espaço parra qualquer vontade exceto à própria. Somos naturalmente egoístas e egocêntricos. Não que seja algo imutável.

E não que eu seja realmente a pessoa que mais liga para o que é certo ou errado, para a opinião dos outros ou se tal atitude não seja, ao menos, ilegal. Qual é, eu sou Sam Puckett.

Certo. Isso deveria ser uma grande contradição. Uma desculpa a ser usada para questionar tudo isso.

Mas na verdade é o principal motivo. E Freddie tinha uma relação direta nessas questões.

Eu sempre me fiz acreditar que ele fosse o garoto mais sem graça do mundo todo. Porque ninguém simplesmente anda por aí com as cuecas certas pra cada dia da semana. Ninguém penteia o cabelo e o mantém milimetricamente alinhado. Ninguém participa de clubes nerds como o A.V, frequentados, geralmente, por perdedores, assim como eu achava que ele fosse. Ninguém fala espanhol aleatoriamente tantas vezes no dia, na semana, no mês.

Mas ele sim. E isso é tão sem graça. Mas ao mesmo tempo, conseguiu fazer com que todo mundo fosse sem graça. Exceto por ele.

E ele vinha sendo o motivo de tudo. Pra tudo. Por tudo. Com tudo.

Ele vinha sendo tudo.

Tudo o que há de melhor e de mais desprezível na face da terra. Fora de órbita. Fora de mim. Mas junto a mim ao mesmo tempo.

Porque isso tudo ultrapassar apenas uma mera vaidade adolescente ou uma necessidade. É alguma forma de complementação que simplesmente me falta definição.

Porque ela se faz desnecessária. Porque ele é uma síntese não sintetizada de tudo isso. Ele é uma partícula de um todo, sendo ele mesmo esse todo.

Mas talvez isso já não importasse, afinal. Eu já o havia dispensado, não?

Não.

Não de dentro de mim. Porque isso eu jamais conseguiria fazer. Ele teria que sair por conta própria, se preferisse. Mas acho que esse não era o caso.

Então, essa era a pior parte. Tão ruim que chegava a doer. Porque eu não queria que ele saísse. E o nerd realmente não deveria achar isso uma boa ideia também, ainda mais depois do que me disse quarta à noite em seu apartamento.

Com certeza eu havia errado quando não soube esclarecer para Freddie o que realmente se decidiu entre mim e John. Fiz com que ele alimentasse com mais intensidade ainda algo que eu também vinha sentindo mas, ao contrário dele, ignorava. E fiz ainda pior quando ignorei todo o resto. Agi de forma covarde, o tratando como não aceitaria ser tratada na mesma situação.

O que passou a me intrigar, então, foi o que ele quis na noite anterior quando decidiu ficar no apartamento de Carly até mais tarde. Depois deu já ter ido. Sozinhos. Alguma vingança, talvez? Quem sabe falar de vez tudo o que vinhamos escondendo?

Eu já estava exausta disso, de tudo. Desse vai e volta, chove não molha, fica ou vai. E no final não optar nem por um nem por outro.

Sentia a enorme necessidade de contar para alguém, mas a falta de opções me amedrontava de tal forma que eu preferi simplesmente tentar esquecer sozinha.

Em busca de alguma distração naquele fim de tarde de sábado, fiz meu costumeiro caminho até o apartamento de Carly. Eu não planejava contar a ela nada do que vinha acontecendo, é claro, mas sim tentar ao menos esquecer.

O dia estava meio dublado e entre as nuvens do céu eu conseguia enxergar algumas formas ou forçá-las, apertando meus olhos ou virando a cabeça de um ângulo a outro. Uma garoa fina caía também com intervalos curtos, o que não encarei como um incômodo tendo uma alma que precisava ser lavada por ela.

Não teria muito tempo no corredor para ensaiar meu costumeiro sorriso indiferente, então já o fiz enquanto subia as escadas. Corri para o apartamento 8-c, evitando ao máximo qualquer encontro casual e coincidente com o nerd.

— Ei! — Gritei enquanto caminhava pela sala ao não avistar Carly assim que entrei.

— Sam? — Soltou um grito de volta, vindo da cozinha.

— O que você está fazendo aí? — Falei enquanto ia até ela, encontrando-a penteada num rabo de cavalo bem presso.

— Eu estava fazendo um bolo de cenoura porque o Spencer vai chegar faminto daqui a pouco. — Disse sorridente enquanto vestia aquelas luvas enormes e coloridas que as mães cozinheiras usam.

— Finalmente o doido vai voltar. Demorou tanto que até pensei que fosse morar lá em Yakima.

— Nem me fale. — Carly reclamou, enquanto tirava uma travessa enorme de dentro do forno. — Mas e você, por que não apareceu antes?

— Estava meio ocupada, mas... aqui estou agora. Como sempre.

— É, mas antes que a senhora ataque o bolo eu já aviso que vamos esperar o Spencer.

— Tudo bem. Eu nem estou tão faminta assim.

E realmente não estava desesperada por comida. Não fazia a mínima questão de uma refeição. E isso provou que eu só podia estar péssima para chegar a esse ponto.

— Outro que também sumiu por hoje foi o Freddie.

— Sério?

— É... o apartamento esteve trancado e silencioso o dia todo.

— Talvez ele esteja na esgrima.

— Esgrima? Hum. — Respondeu minha amiga, empregando seu tom malicioso.

— Qual é, ele faz essa droga desde que o conhecemos. — Tentei desconversar. — Acabei decorando o dia.

— Eu sei. — Concordou, compreensiva, enquanto tentava desenformar o bolo.

O assunto Freddie havia chegado bem antes do que eu imaginava. Minha mente mirabolante já vinha preparando o terreno e mil estratégias para abordar a questão que me intrigava sem parecer suspeita. Mas, como a oportunidade veio de bandeja, aproveite-a sem pensar duas vezes.

— Falando nisso... o que vocês ficaram fazendo aqui ontem, sabe... depois que eu fui embora?

— Sam Puckett, você não vai acreditar. — Despertando a histeria de lei quando vai falar sobre algo polêmico/confidencial/incomum, Carly me puxou pelo braço e arrastou algumas cadeiras para que nos sentássemos.

— O que foi? — Perguntei, já preocupada.

— Ele estava bem esquisito ontem enquanto conversávamos sobre algumas... coisas aleatórias e, do nada, começou a falar sobre vida amorosa e essas coisas.

— Vida amorosa?! — Meu coração e meus olhos quase pularam para fora de mim, tamanho fora meu espanto.

— É, a minha vida amorosa. — Ela disse, e meu coração voltou ao seu lugar original quando suspirei alto. — E, cara... do nada ele me beijou!

— O quê?! — Eu gritei. Como nunca, jamais me vi gritar antes. Como meu aparelho fonador jamais trabalhou para formar uma fala. Não o grito mais alto que já dei, mas o mais engasgado, esganiçado, desesperado, que mais exigiu minha preocupada expressão como complemento. E meu coração voltou a pular para fora de mim quando me levantei.

— Calma! — Carly parecia espantada, tentando me enfiar novamente naquela cdeira. De fato, só aceitei porque ouvir aquilo me deixou meio tonta. Não me fez nada bem. — Mas essa não foi a parte mais esquisita. Depois, ele se se desculpou todo assustado e saiu correndo.

— Por quê?! Como assim?

— Sam, eu não estou te entendendo. — Ela apertou os olhos em minha direção.

— Não, eu não... — Engoli em seco, tentando controlar tudo de ruim que senti naquele instante subindo pela minha garganta, quase pronto pra sair. — Pode continuar.

— Certo. — Ela afastou alguns fios da franja que caiam pela testa como uma cascata. Lisa. Mas que droga... Por que ele quis aquela franja depois da minha? Por que ele quis aquela franja de novo? Por que não a minha franja? Loira. — Eu falei que não ficava com ninguém há meses quando, de alguma forma, ele conduziu a conversa até esse ponto. Aí, ele disse que isso poderia mudar então eu perguntei se ele me arranjaria alguém por acaso. Aí, perguntei se ele se importava com isso e ele disse "quem sabe" e quando vi estávamos nos beijando! — Deus, como ela falava rápido. Como ela respirou pesado depois de perder o fôlego sem se dar o direito de usar ao menos um vírgula nisso tudo. E como essa mesma respiração foi em cima dele do mesmo jeito que a minha.

— E você fez o que em seguida? — Meu cérebro ainda estava meio flutuante pelo minha caixa craniana enquanto tentava imaginar toda a situação descrita. Mal soube o que perguntei. Fiz que me importava. Fiz que não, ao mesmo tempo.

— Ele ficou todo assustado e eu comecei a rir porque foi engraçado. E esquisito. Sabe, eu não sei o que ele quis com isso. Só sei que ficou assustado e saiu correndo depois.

— Vocês se viram de novo desde que isso aconteceu?

— Não. Como você disse, ele deve estar na esgrima agora e não sei se vai aparecer depois.

— Oh. — Mas aquilo doía. Tanto. E não fazia o menor sentido. Porque eu não deveria ter motivos para me importar. E ele não deveria ter motivos para beijá-la. Entre os quais, talvez, amá-la. Mas ele não pode amar duas pessoas ao mesmo tempo. Ou talvez nenhuma. — Mas... você sentiu, sabe... alguma coisa?

— Pra ser sincera, não. — Ela confessou, mas não foi um alívio. Eu queria saber dele. — Sabe, foi bom. Ele beija bem! Ele melhorou desde que namoramos, além de estar bonito, entende? Mas... sei lá. Somos amigos, não sei o que significou.

— Entendi. — Assenti, tentando acreditar naquilo. Tentando aceitar que fosse o menor dos males. Mas continuava sendo um. — Então, você pretende tirar satisfações com ele ou algo assim?

— Ah, tanto faz. Se ele quiser se desculpar ou algo assim... mas prefiro não falar nada se for preciso. — Exatamente o que eu fazia. O que eu vinha fazendo com mais frequência durante quatro meses do que o permitido por uma vida toda. Fugir dos assuntos, deixar pra depois. Esperar que eles se resolvam sem solução. Que sejam esquecidos, sendo tão sempre lembrados.

— Melhor assim, não? — Forcei um sorriso, mas minhas sobrancelhas não disfarçavam o que aquilo significou para mim.

— É... quem sabe daqui a pouco ele não aparece por ai e tudo volta ao normal. — Ela sorriu de volta, com mais verdade que eu, enquanto se levantava.

— Pois é. — Assenti. — Eu acho que já vou... — Continuei, quando o celular de Carly tocou?

— Alô? — Ela atendeu, depois de pegá-lo em cima do balcão. — Oi! Mas já? Que ótimo! Certo. Ok, tudo bem. Até mais.

— Quem era?

— O Spencer. Disse que já deve estar chegando.

— Que ótimo. — Respondi, tendo que adiar meus planos que incluíam ir embora logo depois daquele assunto.

Passamos os próximos vinte e cinco minutos entre a cozinha, o computador, a televisão e outras conversas às quais não dei um terço da minha atenção, mesmo que não tivéssemos mais tocado em nada relacionado à história que me fez ficar daquele jeito.

Spencer chegou, finalmente, com toda a sua excentricidade e histeria. Parecia ter passado um mês pela selva com a barba a fazer e o cabelo maior do que o costume, além de estar bem cansado. Ao menos, continuava animado como sempre.

— Eu estou tão cansado. — Reclamou enquanto se jogava no sofá vermelho e estirava as pernas sobre a mesa de centro.

— Fiz um bolo pra você.

— Sério? — Perguntou em alerta. — Me dá logo, mana! Eu tô faminto!

— Agora não. Antes você vai tomar um banho.

— Carly...

— Banho antes! — Ela o interrompeu com autoridade enquanto apontava em direção a seu quarto. Ele bufou, com um bico, mas obedeceu, levando sua bagagem junto, com pressa.

— Às vezes eu tenho a impressão de que você o criou. — Comentei enquanto me sentava.

— Só pode ser mesmo. — Ela concordou gargalhando em seguida.

Spencer tomou o banho mais rápido de sua vida, marcou uma ida ao cabeleireiro e fez a barba por si só. Ao voltar, finalmente provamos do bolo magnífico de minha melhor amiga além do usual suco que sempre nos prepara para acompanhar o que quer que estivermos comendo.

— Só não vou comer mais agora porque quero que sobre pra mais tarde. — Ele disse, se estirando no sofá.

— Guloso. — Carly reclamou enquanto levávamos a louça suja de volta para a cozinha.

— Mais do que justo para alguém que ficou uma semana a mais em Yakima.

— Pior que é verdade. — Ela concordou, revirando os olhos.

Mas eu ainda não conseguia parar de pensar no que havia descoberto mais cedo. Que me confundiu em cinco minutos muito mais do que qualquer outra coisa que me confundiu durante quatro meses. E se eu ainda conseguiria saber o porquê, naquele mesmo dia.

— Ei!

E pareceu que sim, no mesmo instante que aquela voz invadiu o cômodo.

— Olha o Freddie aí. — Carly comentou enquanto eu me virava para vê-lo conversar com Spencer.

— Onde estão as meninas?

— Aqui, senhor beijoqueiro! — Carly gritou.

— Você não disse que não iria conversar com ele sobre isso? — Perguntei, me voltando para ela novamente.

— Relaxa. — Respondeu calmamente. — Vem logo!

— Estou indo! — Gritou de volta com a voz falha enquanto se aproximava.

Ao chegar, finalmente, parecia preocupado. Quem sabe, com o fato deu possivelmente querer matá-lo com a faca em cima da pia que estava bem perto da minha mão? Mas como ele poderia saber? Como ele poderia temer se evitava me olhar a todo custo?

— Onde esteve o dia inteiro?

— Eu... eu estava treinando esgrima.

— Mas que droga. — Deixei escapar, com raiva. Por que era tão ruim assim saber que foi exatamente isso que ele fez o dia inteiro e, pior, saber por que ele fez isso? Por que era tão assustador decifrá-lo tão bem?

— Para, Sam. Ele é ótimo no que faz.

— É, ele é ótimo em tudo. Ele é um santo, não é mesmo?

— Sam...

— Deixa ela. — Freddie a interrompeu, como se não se importasse.

— Que dia você vai participar de algum campeonato que a gente possa assistir? — Carly mudou de assunto, então.

— Eles não gostam de interferir no meu ensino fazendo competições enquanto estudo, então talvez... depois do fim do ano letivo.

— O que por sinal já está chegando. — Comemorei.

— Pois é! Não vejo a hora de fazer logo essas provas finais.

— É, Carls... concordo com você. Mas acho que já deu minha hora. — Menti. Porque ainda não tinha dado. Estava bem longe de dar.

— Tem certeza, amiga?

— Tenho. — Respondi, encarando Freddie, afim de fazê-lo entender que estaria a sua espera.

— Tudo bem, então.

— Amanhã eu apareço aí. — Comecei a caminhar em direção à saída, calmamente. — Tchau, Spencer.

— Mas já? — Confirmei com a cabeça. — Tudo bem. Tchauzinho.

E lá estava o último olhar de confusão de Freddie, me atravessando a alma antes que eu fechasse a porta. Talvez não tivesse entendido que realmente lhe estaria esperando, mas provavelmente viria, uma hora ou outra.

E veio.

— Ai! — Gritou ao surgir no corredor também, dois minutos depois, enquanto eu o jogava contra a parede. Ele não resistiu à minha investida, talvez por ter sido pego de surpresa, talvez por já ter entendido que eu não estava no meu melhor dia, ainda mais depois do que havia descoberto. — Estava me esperando? — Perguntou, enquanto eu o encarava até o mais fundo que conseguia.

— Eu sabia que viria logo atrás de mim. — Respondi com mais certeza ainda do que tive ao imaginar que tudo isso aconteceria. E aconteceu. Porque nos conhecemos bem demais para já termos planejado isso sem dizer uma palavra.

— Como pôde ter tanta certeza?

— E por acaso eu errei?

— Parece que não.

— Certo. — Falei, deixando de depositar tanta pressão contra sua garganta, ao mesmo tempo que ainda queria passar uma faca afiada por ela. — O que você quer comigo?

— O que você quer comigo? — Ele respondeu, aumentando o tom de voz significativamente, parecendo já não ter mais tanto medo ao fazê-lo.

— Já que faz tanta questão... — Assenti e, num movimento não tão pensado assim, fiquei na ponta dos pés e alcancei a boca dele com a minha. — Você vai me explicar agora mesmo por que infernos beijou a Carly ontem à noite.

— Como você soube? — Perguntou de volta, novamente assustado, me obrigando a pressioná-lo com força novamente.

— Ela me contou. Por quê? Não queria que eu soubesse?

— Queria que soubesse por mim.

— Que diferença faz?

— Você saber que eu não quis esconder nada.

— E você planejava fazer isso quando? Saber de você por acaso vai amenizar alguma coisa?

— Não! Eu sei que não. Mas você não tem o direto de me exigir qualquer arrependimento.

— Então você não está arrependido? — Minhas mãos amoleceram quando concluí sua pergunta. Senti como se tivesse levado uma paulada nos braços e o soltei lentamente.

— Não é isso. — Respondeu com certo desespero. Ele inclinou a cabeça de um lado e de outro antes de sussurrar. — Vamos conversar em outro lugar.

— Tudo bem. — Assenti, tentando pensar num local propício. — Já sei onde podemos ir.

Ele assentiu e veio logo atrás de mim, até chegarmos aonde eu havia imaginado. Bem, ninguém nos encontraria, assim como da última vez em que estivemos lá juntos e sozinhos.

A saída de incêndio.

Aquele lugar trazia lembranças demais para um único acontecimento. Algo entre assustador e nostálgico. Uma visão... sistemática. Continuava sendo encantador.

Encantador.

E o quão difícil era imaginar que ele teria voltado a fazer aquela mesma coisa com minha melhor amiga logo depois de mim. E que talvez eu tivesse uma mínima parcela de culpa. Ou ao menos feito com que ele entendesse isso e tomasse como motivo.

De qualquer forma, preferi não pensar nas razões, mas nos acontecimentos. Não nos meios, mas nos fins. E o quanto aquilo poderia machucar... desde o começo.

— Ah, a escada de incêndio. — Ele comentou, logo após estufar o peito e deixá-lo se pendurar pelos ombros de novo ao suspirar, enquanto se sentava exatamente no mesmo lugar onde o encontrei da última vez em que estivemos lá juntos. Por um instante me fez pensar naquilo como uma sugestão, refazer tudo aquilo.

— Algum problema? — Eu tinha grandes alternativas entre me iludir ou não. A primeira, ao meu ver problemático, remeteria a também sentar no mesmo exato lugar, do mesmo maldito jeito. Mas eu não poderia, então permaneci em pé. Como se fosse demonstrar uma fortaleza que, na verdade, me fugia naquele momento.

— Não, é só que... — Começou mas não terminou. Como tantas outras coisas sempre deixadas pairando no ar. Começos não concluídos. — Ah. Deixa pra lá.

"...eu só ia dizer que..."

— Tudo bem. — Assenti, sabendo exatamente no que ele estava pensando. Do que estava se lembrando. Do que deveria esquecer.

"... a gente deveria se beijar?"

— Certo... — Ele concordou também. Concordou com o meu concordar. Frustrado. — Antes de qualquer coisa, eu quero dizer que não tenho e nem vou ter nada com a Carly. — Como se ter dito aquilo me acalmasse. Pelo contrário.

— Eu sei. — Me senti ridícula naquele momento. Com menos prestígio que a pior pessoa do mundo. Afinal, qual o direito eu tinha em exigir qualquer explicação sendo que não estabelecemos entre nós nenhum vínculo que exigisse esse tipo de confiança? Beije quem quiser. Goste de quem gostar. Ame sem amar. Não era realmente da minha conta. Mas também não era realmente justo.

— Que cara é essa? — Disse com assombro. À sombra da dúvida. À mercê de uma sobra de demonstração singular e tímida que remetesse ao meu importar. Porque talvez fosse esse o seu objetivo ao fazê-lo... mas eu tenho e prezo, com fervor, o meu tão deturpado orgulho. Àquela altura, já havia mudado de ideia quanto a dar a mínima. Ou, ao menos, deixar perceber.

— Você esperava alguma outra? Que, talvez, meus olhos e cabelos escurecessem para então você me beijar? — Confesso que não o prezei tanto quanto esperava, mas não resisti. Não me expressaria melhor se não tivesse sido assim.

— Não. — Ele bufou. — É que você pareceu... indiferente.

— Só fiquei confusa. Afinal, não foi aquela minha dúvida. Pensei que, quando as pessoas se beijavam, elas realmente tivessem algo.

— Você tá falando sério? — Ele acertou a postura e a voz se fez mais presente. Da maneira que havia me ensinado quando me ajudou a arranjar qualquer trapo elegante para conhecer a família do John. E eu quase senti uma das mãos dele à minha volta novamente, mas fiquei assustada na mesma intensidade.

— Argh... — Revirei os olhos, evitando que chegassem a ele novamente tão cedo.

— Puxa! É uma super coincidência mesmo! Eu pensei a mesma coisa quando você me dispensou há alguns dias na escola, tá lembrada? — Ele cruzou os braços, como se quisesse ser notado. Como eu observei tantas vezes. E, dessa vez, realmente queria. — Eu pensei que na noite anterior a gente tivesse feito exatamente isso: se beijado.

— Sim, mas nesse caso tem uma diferença.

— Qual diferença, Sam? Eu não vejo nenhuma! A não ser o fato de que eu não magoei a Carly!

— É diferente porque você não pode simplesmente sair por aí beijando todo mundo.

— E você também não pode sair por aí dizendo às pessoas que fez uma coisa tendo feito outro completamente diferente.

— Eu não sei do que você está falando. — Talvez eu soubesse, mas ninguém admite um erro assim, de cara. De graça. Ainda mais porque esse era o meu. A gente sempre se dissimula, finge, mente e engana. Mas no final, de que adianta? Vale à pena por quem? Vale à pena por quê?

— Vamos refrescar sua memória diferenciando o que as pessoas querem dizer quando usam o "vamos terminar" ou o "vamos dar um tempo." — Ele juntou as mãos, como se estivesse segurando cada expressão com as duas e fosse esfregá-las na minha cara. Mas apenas colocou-as lado a lado, apontando para cada uma com as mãos ainda coladas.

— Eu sei muito bem a diferença. Será que você poderia ser um pouco menos estúpido e não discutir isso agora?

— Bem, eu acredito que "vamos terminar" significa que as pessoas realmente querem dar um fim ao relacionamento em que estavam. Geralmente, alguém errou, o sentimento morreu ou nunca existiu. — Ele cruzou os braços novamente, estufando o peito e jogando uma boa dose de sarcasmo junto com as palavras que proferia enquanto encarava o que quer que estivesse à sua frente. — Já o tal do "dar um tempo", deve ser apenas uma pausa na qual as pessoas realmente ainda se gostam mas vão apenas se afastar durante um tempo, ainda mantendo o compromisso que estabeleceram no início.

— Como se eu não soubesse...

— Parece que não. — Agora sim, ele me olhava. E cobria o meu sussurro um milésimo depois, quase interrompendo-o. — Porque você me disse que decidiu por um, mas decidiu pelo outro. Será que custava, sei lá... esclarecer isso?

— Independente disso, eu quero saber por que você beijou a Carly. Não haja como se pudesse me exigir algo sem estar em débito comigo também.

— Chumbo trocado não dói.

— Ah, não? — Falei me aproximando, como se fosse um grande desafio, como se fosse amedrontá-lo. Mas, ao final, só deixei minha fraqueza transparecer um pouco mais. — Então você vai me dizer que só a beijou porque eu não terminei definitivamente com o John?

— Estou feliz por isso já ter ficado tão claro. — Ele ironizou, com um sorriso. Roubando meus trejeitos e meus artifícios. Roubando o que houvesse de bom em mim. Para o bem, também. — Na verdade, não foi exatamente por isso. Você só deu um empurrãozinho.

— Você queria o quê? Me fazer ciúmes?

— Você poderia deixar de ser convencida pelo menos agora?

— Foi pra que, então? Pra se achar o garanhão? O que pega todas?

— Não, Sam. Eu não sou os outros garotos da Ridgeway e ninguém além de nós três sabe disso.

— Ciúmes... — Murmurei para o nada, me encostando na parede novamente.

— Não. Mesmo. — Ele respondeu, mesmo assim. Eu o olhei novamente. — Você bem que merece, mas não.

— Vingança?

— A princípio, sim. Mas a questão ultrapassou algo tão vazio quanto essa motivação que você enxerga em mim.

— O que então, Freddie? — Insisti, entediada, intrigada. Refém de qualquer que fosse seu motivo.

— Eu queria ter certeza do que eu sinto. — Confessou finalmente, já não me olhando. Talvez, já não precisando. Sem mais obrigações, apenas por esclarecer. Por não querer. — Pensei que você não quisesse nada depois daquilo que falou na quinta e fiquei confuso porque... não é injusto que eu esteja nisso sozinho? Não é injusto que isso parta de apenas um dos lados?

— Mas sempre foi exatamente desse jeito quando você gostava da Carly. Por que só passou a ser injusto quando foi comigo? — E nesse momento, a razão esteve do meu lado. Ou talvez tivesse ido embora definitivamente. Não sei se o interrompi, tirando seu tempo de concluir o que quer que tenha começado, mas senti o erro em sua percepção. Senti novamente o perdão sendo concedido à ela e negado à mim.

— Acontece que sempre foi um... achar. — Tentou explicar, sem parecer ter se ofendido com minha frase ou a negado de alguma forma. — Com ela, eu nunca estive certo sobre nada.

— Eu ainda não vi diferença alguma. — Falei, sem antes sentir o que ele realmente quis dizer da segunda vez.

— Talvez a diferença seja simples. — Ele se ajeitou novamente, com sua segurança de sempre. Só não esperei que ela fosse aparecer naquele momento no qual nem eu mesma a teria. — Ela sempre deixou tudo bem claro embora eu insistisse. Ela não me prendeu pra uma hora me soltar. Eu sempre soube que teria trabalho se a quisesse. Já você deixou tudo claro pra depois confundir. — Ele parou de novo, como se a próxima frase fosse doer. De se dizer e de se ouvir. E foi, de fato. — Você me deu uma certeza distorcida.

— Que certeza é essa se eu nunca cheguei a confirmar nada? — Perguntei de volta, já sentindo as sequelas e veracidade de tudo dito antes.

— Se você nunca confirmou, então por que se importa tanto em saber o meu motivo pra ter beijado a Carly? Bem, eu também nunca confirmei nada. Sendo assim, nossa conversa não faz sentido algum.

— É que antes você me beijou, então não fez sentido algum já ter ido beijá-la também. Ainda mais sendo a minha melhor amiga.

— Assim como não fez sentido você ter me beijado e no dia seguinte ter me dispensado, concorda?

— Mas nós não tínhamos um compromisso.

— Não. Você tem razão. Isso era o que você tinha com o John. — Respondeu com um sorriso decepcionado, enquanto já começava a se levantar. E a partir. E a não esperar por mim.

— Freddie, espera...

— Nós não tínhamos um compromisso, Sam. — Ele se virou uma última vez, antes de sair de vez. Me dando uma confirmação e tirando-a de mim logo em seguida. Tendo sido a minha fortaleza desde sempre, mas se fazendo, em cinco palavras, a minha fraqueza. — Nós tínhamos mais que isso.

Notas finais
Esse é um dos meus preferidos porque acho que nunca escrevi nada tão bom no ponto de vista da Sam. Gostaram do diálogo dos dois apesar do drama? Saibam que ele foi necessário nesse momento. Daqui em diante, tudo volta a progredir da maneira que se espera. Bem, já postei a one que havia comentado... mas ela acabou virando short. Aqui está o link pra quem quiser acompanhar http://fanfiction.com.br/historia/602731/Confession/ e antes que me matem, vou atualizá-la amanhã. Lembrem-se que os reviews adiantam minhas postagens (quando não sou pega de surpresa na escola) porque sou chantagista mesmo. Até o dia em que o número de comentários me deixar feliz (parei) ♥