Anyone Else But You
43 Long Day
Notas iniciais
PDV Freddie.
Nós tínhamos mais que um compromisso.
Nós tínhamos algo muito mais importante: um sentimento. Se é que possa ser classificado assim apenas por ser tão sublime. Quando aceito, cultivado e liberto, o compromisso viria logo em seguida, como deve ser... como as coisas normalmente funcionam.
Mas talvez nós dois não sejamos tão normais assim. Ainda mais, nós dois juntos.
É, tudo bem. Eu posso tê-la deixado sozinha naquela noite, mas não mais do que ela me deixou antes. Porque acho que tudo se torna ainda pior quando feito do jeito que ela fez. Estar perto, estar ao lado, todos os dias, mas abandonar mesmo assim. Não um "ir embora". Mas um "estar lá", não estando. Simplesmente ignorar tudo que fora dito ou feito antes sem considerar as consequências, ao final se importando apenas com aquelas que deveriam ter sido levadas em conta desde o início. Mas não foram, tornando assim sua crise moral extremamente desnecessária.
Antes da nossa conversa, até cheguei a pensar que pudesse estar errado. E talvez eu estivesse mesmo, mas não fui o único. Ela começou a exigir de mim algo que deveria exigir de si mesma antes de qualquer coisa, antes de qualquer outra pessoa.
Não que essa seja uma questão de orgulho, mas de justiça. Se eu reconheci, significa que ela é capaz de fazer o mesmo. Até porque, minha atitude foi apenas reflexo da dela. Não que isso tenha sido certo, o único motivo ou minha atual e descarada justificativa, mas o que ela fez me deu a entender que eu pudesse fazer o que fiz.
"Chumbo trocado não dói."
Talvez doa. E se não dói, deixa ao menos um pequeno incomodo. Porque esse pensamento remete inexoravelmente à vingança que é um ciclo vicioso. Inevitavelmente. Conforme um revida, o outro se afeta e quer fazer o mesmo. E assim por diante. Até que alguém canse, ou até sempre. Até que um fim não coloque fim a tudo.
À princípio, um alívio se seguiu em mim sobre ter esclarecido o que eu pensava e como me sentia naquele instante, sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer. Senti como se a tivesse feito pensar e repensar à respeito de seus argumentos, suas justificativas e suas alternativas não muito coerentes. Mas essa sensação não foi suficiente para me conformar durante um dia inteiro.
Porque logo em seguida veio a abstinência. A urgência em suprir a carência que sua falta fazia e trazia a cada instante em que esteve longe. Cada vez mais longe. Algo além da vontade, beirando à necessidade de ir ao seu encontro e fazer qualquer coisa que dissesse tudo o que fosse preciso para que a gente simplesmente se perdoasse. Esquecesse de tudo e se relembrasse. E se achasse. E se recompletasse.
Do jeito que sempre foi. Ao nosso próprio jeito. O nosso próprio "ser."
Porque sem ela eu deixo de ser. Deixo de ser eu mesmo, deixo de ser o meu melhor. Deixo de viver para apenas... existir. E sobreviver.
Mas o quanto a vida é especial para ser apenas assistida. O quanto ela é sublime para depender de um outro... Chega a ser uma ofensa considerar essa hipótese quando existem outras bem melhores e mais apropriadas.
Eu só não sabia ainda como conseguiria colocar em prática sem ela.
Pelo menos o ano letivo já estava acabando e de alguma maneira nós poderíamos aproveitar as férias de verão no tão esperado mês de julho. Só faltavam quatorze dias até lá e os temidos testes. Não me preocupei — assim como nunca precisei em todos os outros anos, — mas me atentei mais ainda às aulas de história já que minha nota no trabalho também não havia sido das melhores. Apenas um deslize e eu correria o sério risco de ficar pendurado.
Já cheguei à Ridgeway pela segunda de manhã focado no que quer que o careca do Howard fosse dizer nas duas aulas dele que eu assistiria. Decidi não reivindicar minha nota do trabalho porque ele realmente nunca volta atrás nas sentenças que dá, além do mais, eu precisaria da ajuda da minha dupla para isso, mas como aparentemente não estávamos nos falando, também não poderia contar com suas quase sempre eficazes ameaças.
E lá estava ela. Parada no corredor com as mãos no bolso da calça larga. Encostada na parede, contemplando o teto. Pressionando um lábio contra o outro, mal piscando os olhos. E por mais que quisesse interromper toda essa pose, não consegui. Assim como ela, eu fugi.
– Hey!
Tentei fugir de uma para ser encontrado pela outra. Carly surgiu no caminho que eu fazia até a sala dez, com toda a sua curiosidade e entusiasmo.
– Oi, Carly. — Respondi, um pouco espantado pelo susto ao mesmo tempo em que não conseguia disfarçar meu desânimo.
– O que foi? — E realmente não consegui, visto que logo fui percebido. Talvez pela minha voz, talvez pela minha expressão. Talvez por tudo.
– É que... sei lá, você surgiu do nada. — Respondi, esperando que se referisse, primeiramente, ao meu suposto susto.
– Isso só reforça ainda mais minha tese de que você tá muito, muito esquisito esses dias.
– E o que te faz pensar assim? — Perguntei enquanto voltávamos a caminhar pelo corredor.
– Você anda muito pra baixo, você não tem paquerado ninguém... — Ela parou de falar e eu tentei andar mais rápido. — A Sam também tá assim. É alguma doença contagiante? A próxima serei eu? — Ela voltou a falar e eu desacelerei meus passos, refletindo.
– Para de drama, Carlotta. Eu só estou preocupado com as provas finais que teremos semana que vem.
– Você realmente não precisa se preocupar. Sempre se sai bem em todas. Aliás, você sabe o que é tirar uma nota ruim? Já sentiu o cheiro de uma nota F? Eu duvido.
– Já senti o de um D.
– Sério? — Carly se virou para mim, com certo espanto. — Em que matéria?
– Na porcaria do trabalho de história do Howard.
– Que você fez pelo skype com a Sam? — Perguntou num certo tom de sarcasmo. Como se soubesse que alguma coisa nessa frase não fosse verdade. Como se esperasse que eu admitisse.
– Esse mesmo. — Engoli em seco, tentando encara-la com seriedade e não confirmar o que quer que eu suspeitasse que ela suspeitava. Bem suspeito.
– Eu fiz com a Wendy e nós tiramos A. — Se vangloriou em seguida, o que deveria me irritar até a raiz dos cabelos. Mas me aliviou, na verdade, mostrando que, pelo menos naquele momento, o foco não seria posto em cima do suposto trabalho de história que supostamente eu teria feito com uma suposta garota chamada Sam. Suposições. Desconfianças. Muitas incertezas.
– Parabéns. — Fingi um primeiro tom de inveja, enquanto sorria e a olhava de lado.
– Mas voltando à onda de depressão coletiva... — Ela continuou, me fazendo parar um pouco afastado das demais pessoas que circulavam pelo ambiente. — Você acha que a Sam tá assim na bad porque terminou com o John?
– Sei lá. — É, eu sabia o motivo. Mas definitivamente não era esse. Como disfarce, deveria dizer que sim. Mas não cometeria aquele erro outra vez, atribuindo qualquer sentimento positivo ou negativo que Sam tivesse ao meu quase-inimigo. Talvez esse fosse o meu trabalho há muito mais tempo do que pudesse imaginar. — Eu acho que não, senão ela estaria assim desde que terminaram.
– Sério?
– Sério. Por quê?
– É que eu também não acho que seja isso mas não tenho nenhuma outra ideia do que possa ser.
– Se você sendo a melhor amiga não sabe, imagine eu. — Comentei, com uma risada de deboche. E medo. Péssimo ator.
– Então é melhor que eu mesma pergunte à ela, não?
– Concordo. Vai lá. Boa sorte. Tchau. — Respondi cético, programado, assustado, segurando-a por trás pelos ombros dando um empurrão de leve ao direcioná-la para o lado oposto do corredor.
– Mais tarde eu vou porque antes preciso te perguntar uma coisa. — Disse se desfazendo de mim mas voltando a me olhar de qualquer forma.
– Diga. — Eu realmente não imaginava o que pudesse ser, mas já temia por saber que, querendo ou não, era algo relacionado à minha relação com a Sam. Tudo vinha sendo.
– Por que você me beijou na sexta depois do iCarly? — Bingo. Dito e feito. Pensado e acertado, na verdade. Mas não mais tão amedrontar assim. Eu conseguia dizer, finalmente, de modo a perceber que havia esquecido Carly Shay. Se é que algum dia me lembrei dela da forma como vinha lembrando de Sam Puckett tão afetivamente.
– Por nada. — Desse vez eu realmente ri. Eu realmente tive um motivo pra isso, em meio a tanta coisa. Eu confirmei, pela milésima vez, meu maior tormento. Mas finalmente o pontuei como deveria. Com um ponto. Final.
– Como assim "por nada"?
– Por que, Carlotta? Tá achando que eu tô te querendo?
– Não! — Negou, um pouco acanhada. — Porque você sabe que nós nunca...
– É, eu sei. Nós somos só amigos. Eu só estava... checando o gosto do seu gloss. E, sabe, deu até vontade de ser menina só pra usar esse treco também. — É, isso soou meio ridículo. Desesperado também, eu diria. Mas já havia feito coisa pior. Eu estava satisfeito e aliviado demais para me importar com o que saia da minha boca naquela hora, fazendo algum sentido ou nenhum.
– Freddie, você tá bem? Quer algum remédio, quer que eu ligue pra sua mãe?
– Não! Não mesmo. Eu estou ótimo. — Dei uma gargalhada antes de continuar. — Não sei por que você está tão preocupada. Que sexismo é esse? Homem não pode usar maquiagem também se quiser? Um gloss ou um batom pelo menos?
– Claro que pode, — Respondeu com certo espanto — eu só estranhei esse seu novo interesse.
– Não se preocupe com a minha sexualidade. Ela está muito bem resolvida. Aliás, quanto à minha paixão por você, fique tranquila porque eu a larguei já faz muito, mas muito tempo.
– Ótimo, então. — Ela concordou, como se realmente estivesse tão satisfeita quanto eu. — Agora, não mais estranhando seu novo gosto, eu... estranhei seus meios de expressá-los. Precisava chegar tão longe?
– Oh. — Forcei uma expressão de espanto quando já esperava por tudo que vinha sendo perguntado. — É, foi bem esquisito mesmo... Eu poderia simplesmente ter te pedido emprestado, não é?
– Freddie, você tá gozando com a minha cara, né? — Ela reclamou parecendo exausta, trazendo a preocupação que até então vinha se fazendo ausente.
– Carly, não foi por nada! É sério, não se preocupe. Sei que você gosta de mim como amigo e saiba que o mesmo ocorre comigo. Diferente do que eu possa ter feito durante longos passados anos, não vou forçar nada. Até porque, não existe nada. Não é?
– É. — Concordou, pensativa. Perdeu os olhos por ai e os encontrou mais tarde em mim de novo. — Tudo bem, você não gosta de mim. Mas mesmo assim, Freddie... me dê um único motivo coerente pra isso. Qualquer um que seja, está bem? Não precisa mentir. — Nós paramos num canto enquanto ela tentava direcionar a mim um olhar mais persuasivo que qualquer "Por favor, por mim!" já tenha me soado aos ouvidos a vida inteira. — Não precisa ter medo, saiba que pode se abrir pra falar sobre qualquer coisa. Qualquer... coisa.
Eu a fitei durante alguns segundos após sua última frase, imaginando o que ela quis dizer com aquilo. O que eu diria com aquilo. O que eu ou ela sabíamos ou se ao menos estávamos nos referindo à mesma coisa.
– Foi só...
– Não me venha com essa de hormônios, ok? Não trate sua falta de vergonha na cara como algo normal, ago que faz parte da biologia masculina. Porque não faz!
– Eu não ia dizer isso, feminista surtada. — "Não que todas sejam", me redimi em pensamento. "E não que Carly seja uma. Não que eu saiba."
– Certo... Só vamos esquecer isso. — Ela disse balançando a cabeça e os ombros em seguida.
– É. Porque você também me beijou de repente quando eu estava todo quebrando depois de ter te salvado. — Respondi relembrando o quase início do nosso quase namoro.
– Que seja, Fredu... Fred... Que seja! — De alguma forma, tentou me apelidar como Sam fazia tão espontaneamente. E não conseguiu. O que me remeteu ainda mais à exclusividade dela. E me entristecia pela distância que nos era estabelecida. — Vamos logo pra aula.
E assim fizemos. Ainda cheio de preocupações, mas com uma a menos. Ou, quem sabe, uma a mais.
O dia letivo chegou ao fim e com ele veio o meu tédio. Porque eu estudaria finalmente para as temidas provas como sempre fiz muito bem sozinho, mas tinha aprendido a fazer de outra maneira durante o começo do semestre: acompanhado. Não por uma companhia qualquer. Não por alguém que acrescentasse grandemente algum planejamento de estudos que complementasse o meu, que me explicasse o que eu não soubesse — o que é realmente complicado, — mas, sim, justamente o contrário. Alguém a quem eu acrescentei alguma coisa em relação aos estudos e expliquei o que não sabia, mas não exatamente em troca me proporcionou algo muito mais relevante; me deu um motivo para me importar, um coração para bater por alguma razão e, da mesma forma, uma cabeça para ser perdida tentando se desacostumar com a rotina que havia me ajudado a criar.
Me conformei de que seria trabalhoso não mais tê-la comigo todas as manhãs e tardes, quase sempre noites também, ainda mais quando as aulas acabassem e, quem sabe, alguém viajasse ou simplesmente não planejasse qualquer forma de se ver, o que parecia ser o nosso futuro próximo. Era assustador já sentir tanto a sua falta mesmo tendo a visto nos dias anteriores, mesmo sabendo que ela estava em algum lugar do mesmo corredor da sala onde eu estava sentado bem no fundo, sozinho e disperso justamente na aula que mais deveria prestar atenção. Era realmente uma pena ver tudo o que estava se perdendo em meio a uma dose considerável de orgulho, não apenas, na verdade, mas medo também. Desconfiança do próprio potencial em relação a tudo de mais importante que dissesse respeito às questões não tão simples do coração.
Talvez elas sejam. Mas a gente gosta de complicar. Ela gosta de complicar. E eu gosto de tentar entender, só não sabendo ainda muito bem por onde começar.
Me restaria, então, superar. Ou apenas superar o fato de que não superaria — o que me pareceu bem mais convincente levando em conta a dorzinha aguda que aparecia à cada pulsação do meu coração surrado, dorzinha essa que não passaria a não ser que eu conseguisse o que mais queria. O que mais precisava. Que era, ao mesmo tempo, o que mais me intrigava.
As aulas terminaram finalmente e a agonia pareceu ser atenuada, mas meu trajeto até o Bushwell provou justamente o contrário.
– Vai agora pra casa, Freddie? — Carly me abordou perto dos armários, chegando de braços dados com Sam. — Ou será que seus hormônios não deixam.
– Engraçadinha. — Reclamei, sentindo minhas bochechas pegando fogo. — Vou sim. — Respondi atônito, enquanto não sabia muito bem onde focar meus olhos. Pregando peças em mim, querendo se pregar a uma única pessoa. Não que isso fosse uma novidade. Apenas precisava se tornar uma raridade, o que vinha sendo bem difícil.
– Então nós vamos com você. A Sam vai lá pra casa também. — Eu assenti. Elas sorriram — ou tentaram — e saímos. E, pelo jeito, aquela seria uma longa e difícil tarde.
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