Anyone Else But You
44 Miss You
Notas iniciais
PDV Sam.
Os dias parecem virar eternos quando a gente simplesmente não tem razão alguma para estar passando por eles. Essa não é uma visão depressiva ou suicida porque eu realmente nunca estive em uma situação ou cogitei a outra, mas apenas não conseguia encontrar algo relevante a ponto de me escancarar um sorriso. Talvez fazê-lo não seja tão difícil considerando que sou completamente apaixonada por todo tipo de comida, mas também não sou superficial a esse ponto. Essa não é a única coisa que me mantém, embora seja uma das mais importantes em vários sentidos.
Eu já tinha o meu motivo. Mas o meu motivo já não me tinha mais. Na verdade, eu propiciei tudo isso por ser tão medrosa. Justamente eu, sempre dita tão forte, tão superestimada, de modo que ninguém reconheça que também posso me sentir assim. Também posso errar assim e ser afetada de uma forma tão abrangente. Desse jeito chato que ninguém espera, por também achar que sou boa demais pra isso.
E a maçante eternidade se faria presente até que um de nós dois tomasse vergonha na cara ou um gole de bom senso. Talvez, no mínimo, de educação... para escrever um novo parágrafo nisso tudo ou quem sabe dar um ponto final caso a conclusão tirada a respeito seja de uma relação doentia para a cabeça, o coração, os rins, os pulmões e o fígado. É, nós só temos um. É bem óbvio, mas eu não sabia já que os dois anteriores são assim, no plural. E foi ele quem me ensinou. Então talvez não seja tão doentio assim, certo?
Na verdade, é sim.
Meu cérebro deixa de ser irrigado pelo sangue que deveria nutri-lo a todo instante. Eu tenho uma séria arritmia cardíaca. Minha respiração fica irregular e minhas pernas bambeiam como se fossem me derrubar. Só por lembrar da sua sua existência. Isso, definitivamente, não é saudável.
Mas é muito bom.
É muito melhor do que sentir seu coração morto. Não há graça nenhuma em ter, todos os dias, cem batimentos cardíacos por minuto. Não tem a menor emoção ser sempre tão rígido e firme com tudo ao redor, sem se deixar amolecer por nada. E qual é a diversão em não se sentir, ao menos uma vez, meio entorpecido por alguém?
Eu não sabia e nem pretendia saber tão cedo quando simplesmente me vi obrigada por ninguém mais ninguém menos que eu mesma. Por tudo que meu consciente impôs a o que quer que estivesse regendo minhas emoções que englobavam a situação na qual estava inserida.
Todo santo dia daquela maldita semana — o que soa bem paradoxal, assim como tudo mais que se refere aos meus sentimentos — pareceu ser cinza. O sol estava cinza. O céu estava cinza também. Não aquele sun glow ou um sereno azul celeste; cinza. Os prédios, cinzas. As horas, cinzas. Os olhos, cinzas.
Castanhos.
Continuavam tendo a mesma cor quando eu os via. Mesmo de longe. Não tão perto quanto pareceu que eu iria me acostumar há pouco tempo atrás. Continuavam me lembrando enormes almôndegas mesmo sendo tão pequenos em comparação à comida que me levavam a imaginar... mas já não brilhavam tanto. Se acinzentaram assim como os meus. Praticamente na mesma intensidade, quase instantaneamente. Perdendo o brilho que um refletia no outro e um motivo para se dilatar, fosse como fosse.
Mas continuavam castanhos.
Na escola, de segunda à sexta, tudo se resumiu a revisões. Nada de inédito, apenas repetições de tudo o que fora visto durante o semestre mais esquisito da minha vida, no qual cheguei a estudar e a me relacionar de uma forma completamente oposta com a última pessoa que me passava pela cabeça.
E entre uma aula e outra eu pude entender que não entendia nada. Não com aqueles professores. Nada da vida. Não tão bem quanto deveria com eles, muito menos do que com um outro mestre que, coincidentemente ou não, é a mesma pessoa que tem me motivado a expressar tudo isso dessa forma.
E como eu sentia sua falta. Não apenas em meu favor, mas em ao menos estar em sua presença. Saber que estar na minha o causaria a mesma sensação do mais puro, simples e ingênuo prazer.
A sexta-feira chegou como o penúltimo dia antes da semana de provas, se aproximando cada vez mais do fim do ano levito. Eu poderia dar graças a Deus como sempre costumava fazer a cada série avançada, mas senti que queria retardar o passar do tempo pelo simples fato de que ir à escola era meu último pretexto para ver Freddie. Era uma obrigação de ambos e estar no mesmo ambiente era uma feliz consequência. Uma feliz coincidência.
Porque, durante as férias, se continuássemos assim, sem nos falar, Carly seria nossa única intersecção. O único meio de ver um ao outro sem dizer que essa era a real intensão. E quem poderia saber o momento que ela decidiria nos unir inconscientemente, em meio a tantas outras coisas com as quais deveria se preocupar ou ao menos saber a respeito?.. o que não era o caso. Seria insuportável depender de alguns golpes de sorte como idas ao Groovy Smoothie ou ao cinema, ensaios e apresentações de web show e uma festa ou outra para simplesmente ver a única pessoa que parecia me prender mais que qualquer uma dessas coisas. Mesmo que não interagíssemos da maneira que eu esperava, mas somente vê-lo.
– Hoje vamos cortar o iCarly pela metade por causa das provas na semana que vem, ok? — Carly comentou entre um gole e outro de uma das vitaminas que buscamos após o término das aulas. Ela caminhava entre mim e Freddie em passos largos, quase numa recomendação indireta de que nos envolvêssemos da maneira que fosse.
– O que isso tem a ver? — Perguntei franzindo a testa.
– Não vamos ficar nos ocupando tanto assim com o programa sendo que precisamos estudar. — Freddie assentiu com a cabeça, mesmo parecendo tão disperso. — Foco, Sam! Depois das provas estaremos de férias. Falta pouco! O que custa se sacrificar um pouquinho, só por enquanto?
– Tudo bem. — Rolei os olhos e concordei também. Eu realmente não via problema algum, mas precisava manter minha usual postura quanto às questões escolares: descaso, preguiça, repúdio, um pseudo-cansaço e despreocupação.
– Meia hora de programa hoje deve ser o suficiente, não é? Aí eu disponibilizo os vídeos de uns Random Debates, e outros de iHave a Question que já temos gravados há um tempo mas nunca exibimos, que tal? — Freddie sugeriu, aguardando por nossas respostas com o olhar baixo.
– Ótimo! Vai nos poupar muito mais tempo. Então, vamos logo.
Após alguns minutos de caminhada, chegamos ao Bushwell Plaza, o tal prédio no qual eu passava mais tempo do que na minha própria casa. Como de costume, arremessamos nossas mochilas em qualquer canto antes de nos jogarmos também no sofá ou nas poltronas dispostas pela sala.
– Hey. — Spencer nos cumprimentou ao surgiu na sala, vindo de seu quarto
– Oi. — Dissemos praticamente em uníssono ou acenando com a cabeça.
– Como foi a aula hoje? — Perguntou, sentando-se também. — Não que eu me importe realmente.
– Legal.
– Produtiva.
– Entediante.
– Como sempre. — Completou ele depois de nos ouvir. — E o iCarly?
– Hoje vamos fazer só meia hora e rodar alguns vídeos.
– Por quê?
– Semana que vem teremos as provas finais e a Carly inventou que precisamos de tempo pra estudar. — Reclamei, naquele momento realmente percebendo que uma hora a mais ou a menos não faria a menor diferença caso fossem utilizadas com a finalidade de revisar as matérias dadas.
A não ser que isso tudo acontecesse com Freddie.
– Sam, chega. Já está decidido, ok? E você trate de se esforçar. — Me advertiu, apontando em minha direção. — Aliás, você tem melhorado mesmo em questão de notas. Continua desaforada e faladeira, mas me pareceu mais dedicada. O que aconteceu?
– Nada. — Respondi amedrontada, após encarar Freddie da mesma maneira caso a pergunta de nossa amiga significasse que estava ciente sobre o nosso acordo que, na real, não havia sido concluído. — Eu sou inteligente ao meu modo, sabe? E esse semestre resolvi usufruir disso um pouco mais a fundo...
– Você não nos engana, Sam. — Spencer riu, fingindo estar situado na conversa.
– Não acha que ela tá escondendo alguma coisa, Freddie? — Carly perguntou com um tom e um sorriso sugestivos. Ele arregalou os olhos no mesmo instante, enquanto se recostava no sofá.
– Eu... ah, eu não sei. Ela realmente é inteligente. Isso não deve ser nenhuma novidade.
– Você deveria ser o primeiro a contrariar isso. — Disse nosso amigo adulto enquanto ia até a cozinha.
– Embora ela pegue muito no meu pé com ofensas e palavras duras, não posso negar isso. Ela só é preguiçosa. — Continuou a me defender. A nos defender, de fato.
– Mas isso também não tem acontecido muuuuito, não é? — Voltou a insistir, não com uma pulga atrás da orelha quanto à essa mudança repentina de hábitos, mas sim um elefante.
– Isso o quê? — Desconversei, ainda imaginando que ela pudesse saber de algo.
– Você não tem mais pegado no pé do Freddie. Quer dizer, não muito. Não tanto quanto costumava antes.
– Concordo! — Spencer brotou novamente na conversa, enquanto retornava segurando alguns refrigerantes e salgados; provavelmente nossa refeição. — Estou achando que você foi substituída, Sam. Ou será que posso dizer... Melanie?
– HA HA HA, muito engraçado. — Retruquei irritada, enquanto Freddie forçava um sorriso e os irmãos gargalhavam.
– Pra estar boazinha com o Freddie, só pode ser a Melanie mesmo.
– Chega! — Berrei tentando interromper os deboches, sem sucesso. — Me passa essa comida aí.
Após horas oscilando entre conversas que deveriam ser engraçadas mas que só deixaram a mim e o Benson em alerta e alguns seriados na Netflix, chegou o horário de fazermos nosso webshow. Ensaiamos brevemente alguns instantes antes de entrar ao vivo, juntamente com Spencer, que nos ajudou para que nos cansássemos o mínimo possível — o que, realmente, continuava sendo desnecessário.
Ao final, o resultado foi satisfatório apesar do tempo curto para realizar o programa. Logo após o término, Freddie disponibilizou dois vídeos do quadro iHave a Question e dois Random Debates que já havíamos gravado antes que Carly viajasse para cuidar de seu avô.
– Vamos descer porque já estou com fome de novo. — Falei enquanto posicionava meu controle entre os equipamentos do nerd novamente.
– Você é um saco sem fundo. — Carly riu enquanto caminhávamos em direção à porta.
Desci as escadas rapidamente, pulando alguns degraus e correndo até a comida armazenada na geladeira como se fosse uma fugitiva. No trajeto até o andar debaixo, ia murmurando algumas coisas, imaginando que três ouvintes estivessem logo atrás de mim, reclamando da minha fome insaciável ou simplesmente da minha pressa em reverter esse quadro.
Porém, não.
Ao finalmente pisar os dois pés na sala novamente e me virar para trás, me deparei com apenas um.
Ele ainda tinha alguns degraus a desafiar, me enxergando bem do alto deles. Mesmo assim, nossos olhos continuavam a se encontrar numa perfeita sincronia, numa perfeita atração. Como se não houvesse mais nada a ser visto por ali.
Talvez eu devesse me importar em saber onde estavam minha amiga e seu irmão, por que não estavam descendo também ou se tudo isso era apenas resultado da intenção que tinham em me deixar sozinha com Freddie. Mesmo assim, a única coisa que me acometia era que eu realmente estava sozinha com Freddie. Mesmo que por um instante. Depois de uma semana sem que trocássemos uma palavra sequer a sós. Mesmo ainda não trocando, estávamos sozinhos. E estava sendo realmente proveitoso poder enxergá-lo da maneira que não se pode evitar, sem me preocupar com uma terceira pessoa percebendo tudo ou desconfiando, tentando imaginar até que ponto esse simples fato poderia ser considerado normal no que se refere a nós dois.
– O que foi? — Ousou sussurrar de repente enquanto ainda estávamos sozinhos.
– Nada. — Respondi dando de ombros, voltando a caminhar ao redor do sofá.
Ele desceu os degraus que lhe faltavam, com passadas fortes e lentas. Eu estremeci em saber que estava mais perto.
– Se você estiver se perguntando onde estão Carly e Spencer, eles ficaram lá em cima porque o celular dela tocou. Provavelmente deve ser o avô. — Respondeu vindo próximo a mim, sabendo, como sempre, adivinhar o que se passava apenas ao estudar minha expressão ou minhas frases.
– Ah, tudo bem. — Falei num certo tom de agradecimento e frustração ao mesmo tempo.
Um pouco constrangida, parei perto da poltrona preta de couro, grudando o olhar no chão e as mãos trêmulas no bolso da bermuda larga. "Se eu não escondê-las, estou perdida", pensei.
– Não vai fazer seu lanche? — Após uns quarenta e cinco maçantes segundos num silêncio embaraçoso, Freddie ousou novamente dizer qualquer coisa que pudesse nos manter em contato. Eu sorri por dentro, percebendo que ele não dava a mínima para minha refeição — a não ser para o fato de que fazê-la me deixaria extremamente feliz e satisfeita -, mas sim em dizer qualquer coisa para mim e ser respondido da mesma forma.
– Eu vou, sim. Acho que a Carly não vai se importar caso já comece sem ela, não? — Ele riu, assentindo. Quase fazendo com que eu quisesse correr até a Pear Store, comprar um celular novo e gravar aquele som, reproduzindo-o em meus fones de ouvido até dormir. E, quando acordasse, fazer a mesma coisa. O que soa bem solitário, mas representa o máximo que me permitiria fazer considerando nosso afastamento e a forma como eu não teria o privilégio de ouvir aquilo ao vivo, todos os dias, sempre que quisesse. — Você vai comer também?
– Sim... então, vamos?
– Vamos. — Ele sorriu novamente e esperou que eu passasse primeiro para então vir logo atrás. Atitudes peculiarmente educadas que só aparecem quando há um indiscutível clima esquisito ou quando tudo está da maneira íntima e de certa forma amorosa que nunca imaginamos desejar.
– O que você quer? — Perguntei enquanto mergulhava metade do corpo dentro da geladeira.
– Conversar com você.
– O quê? — Perguntei surpresa, voltando a olhá-lo, ainda escorada no refrigerador.
– Mas por enquanto, só um sanduíche.
– Tudo bem. — Ainda espantada e sem a mínima coragem para exigir alguma explicação, voltei a fuçar naquela cozinha o que pudesse haver de comida.
Reservei o queijo, presunto, salame, bacon, alface, tomates, maionese, alguns refrigerantes e pães sobre a mesa. Freddie pegou os pratos, copos, colheres, facas e guardanapos enquanto distribuímos os recheios preferidos de cada um de nós quatro conforme a quantidade que nos satisfazia.
– Ok, eu realmente quero falar com você. — Novamente assustada com sua frase repentina, eu derrubei a faca que segurava e mais alguns talhares, transparecendo toda a minha aflição.
– Pode dizer. — Respondi enquanto nos abaixávamos para recolher os utensílios caídos pelo chão e eu tentava não fazer daquela proximidade algo grave.
– Certo, já faz tanto tempo que não nos falamos que até esqueço o que já falei ou não... é esquisito também porque faz com que eu me sinta... enfim, isso não vem ao caso. — Após um tropeço e outro a cada frase, pude perceber que os talhares que segurava tremiam em sua mão tanto quanto os meus e consegui completar mentalmente o que não terminou de dizer; O que só me fez tremer mais ainda. — Segunda a Carly veio conversar comigo, perguntando por que eu a beijei e se sabia o que estava te deixando tão pra baixo.
– E você respondeu o quê?
– Eu disse que a beijei porque queria... enfim, não tem importância. — Ele suspirou forte, revirou os olhos e bateu de leve na mesa. — O que foi uma mentira, mas me salvou pelo menos durante essa semana.
– Já até imagino qual foi a lorota. — Respondi enquanto cruzava os braços, debochada e com um fiapo de ciúmes.
– Eu acabei de dizer que foi uma mentira, caso você não tenha ouvido. — Defendeu-se, indignado. — Claro que não sou nenhum tarado descontrolado.
– Certo, se não foi por isso, foi por que então?
– Você sabe.
– Não, eu não sei.
– Como assim não sabe?!
– Não sabendo. Porque não conheço ninguém igual a você, que beija uma amiga, namora a outra, beija a outra e depois a ex mais uma vez.
– Vai dizer que não se lembra de nada dito na conversa que tivemos sábado?
– Muito embora não queira e tente muito, eu lembro sim e ainda não encontrei uma resposta.
– Que seja. — Ele estufou o peito que caiu inclinado novamente logo em seguida, acompanhado de um tom de voz mais baixo que antes. — Consegui convencê-la durante esses dias com essa desculpa, mas ela também me perguntou se eu sabia por que você parecia tão chateada.
– O que você disse?
– Que não sabia.
– Mas ela tem alguma hipótese?
– Pensou que talvez pudesse ser pelo John.
– E por que você não disse que é por isso, seu tonto? — Falei, dando um peteleco em sua orelha direita.
– Ai! — Reclamou enquanto esfregava a mão no local dolorido. — Eu não vou ficar atribuindo todas as suas fossas a ele, tá bom? A Carly pode pensar que ainda se gostam e tentar reaproximá-los e você não poderia negar senão entregaria nossa cabeça de bandeja.
– Como assim?
– Ela desconfiaria ainda mais de... você sabe... nós dois. — Respondeu quase num sussurro, fazendo com que minhas bochechas queimassem.
– Nós dóis? O que tem entre nós dois?
– Sonsa. — Ele reclamou, numa mescla de desolação e raiva.
– Não sou você. — Respondi, quase a ponto de agredi-lo novamente.
– Enfim. — Ele sobrepôs a voz novamente, retornando ao foco da conversa. — Ela comentou algo com você durante a semana?
– Não que eu me lembre. Quer dizer, apenas uma vez, aí respondi que estava com fome e ela pareceu se convencer. — Terminei de falar mas Freddie continuou a me encarar, como se esperasse que eu ainda rezasse uma missa. — Para com essa cara de baiacu pra mim, falou? Não se preocupe, isso é tudo. E se quiser saber, ela também não comentou nada do beijo de vocês.
– Eu sei.
– Pra sua infelicidade. — Murmurei enquanto pegava uma fatia de presunto e a enfiava inteira na boca logo em seguida.
– Por que "pra minha infelicidade"?
– Porque seu amor de infância não deu a mínima para esse beijo. — Respondi ainda mastigando, tentando não encará-lo de volta.
– E eu não queria mesmo que desse. Estou dando graças a Deus, se quer saber.
– Que bom. — Respondi realmente satisfeita, vendo que minha provocação não havia levado a lugar nenhum. — Então você a superou, ao que tudo indica?
– Sim. — Exclamou, com um sorriso de lado, realmente sincero e convencido. — Há muuuuuito mais tempo do que você pensa.
– Ah, então eu não fui o pivô?
Ele arfou, escancarando os dentes enquanto se preparava para me retrucar quando uma Carly surgiu entre nós interrompendo qualquer que fosse sua mais elaborada resposta.
– Cheguei! Finalmente!
Eu e Freddie nos posicionamos lado a lado pelo susto, arquejando, com dois corações pulsando em suas respectivas gargantas e têmporas num descompasso doentio. Mais uma vez imaginando que pudéssemos ter sigo pegos no pulo, flagrados quando se menos (ou mais) esperava pela última (ou primeira) pessoa que poderia.
Nossa amiga sempre fora uma das mais histéricas e entusiasmadas que pessoas que já viramos, mas aquela frase soou extremamente exagerada, até mesmo para ela. Seus olhos negros pareciam ainda maiores, sua voz ainda mais alta que o normal sem motivo algum, seu sorriso estreitamente forçado e o corpo todo parecendo tremer de leve.
– Oi! — Respondi tentando atingir o mesmo nível de sua suposta animação. — Cadê o Spencer?
– Está lá em cima falando com meu avô, mas já vai descer. — Disse enquanto se apoiava no balcão, em frente ao computador, e se sentava em um dos bancos. — E vocês, o que fazem aí? Segurando duas facas e não tentando se matar. Há há há!
– Ei, Carlotta! — Repreendi sua estranha gargalhada tentando forçar uma também. — Se você não chegasse logo, provavelmente já estaríamos mortos.
– Pois é. — Freddie finalmente se manifestou diante daquele estranho diálogo, simulando algumas facadas em meu ombro com uma risada. Eu fiz o mesmo e nossa amiga riu. — Estamos fazendo alguns sanduíches. Vai querer um também?
– Vou querer, sim.
– Tudo bem, então. Salame?
– Tudo que preferirem colocar aí dentro.
– Certo.
Ela se calou enquanto mexia no computador e eu e Freddie voltávamos a preparar os lanches fartos. Vez ou outra nos encarávamos com certa desconfiança, sem poder dizer nada, apenas demonstrando o quanto concordávamos com a tese de que algo ali estava bem errado.
– Pessoal, vocês não vão acreditar! — Ela voltou a gritar de repente, enquanto já dispúnhamos os pratos e copos cheios sobre a mesinha de centro da sala de estar.
– O que foi? — Eu e o nerd nos aproximamos do balcão onde estava, mas Carly se virou rapidamente no banco giratório para encontrar nossos rostos.
– O iCarly da semana passada e o de hoje bateram os recordes de audiência... dos últimos dez meses! — Respondeu um pouco incerta, mas igualmente animada.
– Que ótimo! — Respondi abraçando-a brevemente.
– Sério? — Freddie perguntou com uma ponta de desconfiança por um lado e um sorriso por outro.
– Seríssimo, meu caro Benson. E eu acho que isso merece uma comemoração.
– Aqueles lanches estão aqui pra isso. — Falei enquanto passava a língua pelos lábios e apontava para o meio da sala onde se localizavam.
– Não, Sam! Isso a gente já faz depois de todo programa. Aliás, até quando não é dia de webshow. Precisamos de uma comemoração diferente, não acham?
– Tipo o quê? — O nerd cruzou os braços e nos encarou com curiosidade.
– Uma festa! Que tal?
– Pode ser. Mas quem vamos chamar?
– Todo mundo da escola. — Respondeu de imediato.
– Pode ser sábado que vem, ai teremos mais dias pra divulgar e planejar tudo.
– Não! — Carly berrou com autoridade. — Semana que vem está muito longe e não vamos ficar a semana de provas pensando nisso.
– Então quando vai ser? Na outra semana?
– Não...
– Mês que vem?
– Não!
– Quando, então?
– Amanhã.
Fale com o autor