Anyone Else But You
31 Right Mistake
Notas iniciais
PDV Freddie.
Você já acordou alguma vez se sentindo no corpo de outra pessoas? Como que se você não fosse... você?
Já acordou também achando que o que você viveu antes de acordar foi só um sonho? Sem nem ter dormido, na verdade?
Bem... era mais ou menos assim que eu me sentia. Minhas olheiras despencavam no chão. Eu estava parecendo um zumbi ou alguém internado num manicômio. Meus músculos estavam doendo tanto e doíam mais cada vez que eu tentava me espreguiçar. Não sei. Alguma coisa estava diferente em mim.
Enfiei minha cabeça debaixo da pia e molhei meu rosto até me sentir vivo novamente. Tudo bem que eu só fiz encharcar meu cabelo e minha camiseta mas até que ajudou um pouco.
– Freddie! — Ouvi minha mãe cantarolar meu nome parecendo estar próxima.
– Oi. — Falei voltando ao quarto enquanto enxugava meu rosto.
– Bom dia! — Ela respondeu abrindo as cortinas da janela. — Hoje é domingo!
– Legal.
– O que foi, querido? Que cara horrível é essa? — Falou enquanto se aproximava com preocupação.
– Nada, eu só não dormi direito.
– Você está péssimo... vá tomar um banho enquanto eu preparo o seu café da manhã.
E assim fizemos.
Depois de um século debaixo do chuveiro, me joguei na cama por um instante ainda tentando assimilar os últimos acontecimentos. Minha cabeça estava girando e eu me sentia meio tonto, talvez apenas de pensar ou talvez pela fome mesmo.
Eu não havia esquecido o que tinha acontecido. Talvez só estivesse guardando pra depois. Pra surtar mais tarde. E me sentir culpado por ter deixado que acontecesse.
Só pra constar: não era pra acontecer. Mas isso também não significa que eu não tenha gostado.
Foi tão natural, tão bom e parecia tão necessário. Não foi nada daqueles beijos clichês acidentais. "Ops, tropecei na sua boca!". Não foi. Não mesmo. A gente tropeçou de propósito. E uma boca segurou a outra.
Meu corpo tremia um pouco cada vez que eu me lembrava daquele momento. Ele ainda estava fresco e recente mas nada muito nítido. Tinha um borrão no meio de tudo simbolizando a confusão que aquilo estava causando e causaria mais tarde.
Eu ainda não sabia qual reação Sam teve a não ser a única que eu vi um momento depois de ter acontecido. Ela parecia estar tão assustada quanto eu, o completo oposto de tudo o que nos levou a aquele beijo.
Comecei então a pensar nos prós e nos contras de tudo aquilo. Apesar de ter sido bom, ao mesmo tempo não era. Só para começar — e bem mal, — foi uma traição. Sam traiu John comigo. Isso não precisa fazer sentido uma vez que é errado. E o fato deu odiá-lo não anula isso.
A outra questão acerca desse mal, era que ele só me dividiu mais ainda em relação à Carly. Tantos meses caminhando a curtos passos, tanto progresso conquistado minuciosamente que, em apenas dez segundos, simplesmente desapareceu.
Ou não.
Se eu quiser ser sincero, preciso começar sendo comigo mesmo. E nessa questão, não posso dizer que ter beijado a Sam foi o fator determinante para me sentir dividido. Ela foi, como um todo. Acontece que, durante esse tempo, foi de uma forma que a gente nem percebeu. Foi nas tardes e noites que passamos juntos, as coisas que descobrimos um sobre o outro e as que já sabíamos e aprendemos a aceitar. Foi uma preocupação simultânea, um ciúme recentemente descoberto e uma necessidade que partia dos dois para os dois.
Quer saber? Eu menti de novo.
Esquece essa história de que "tudo veio acontecendo desde que ela quis ficar com John e eu com a Carly." Talvez essas duas coisas só tenham despertado tudo isso que sempre esteve encubado dentro de da gente. Pelo menos, com certeza, de mim.
Então não foi uma parte dela. Foi ela inteira. Sem tirar nem pôr, com suas falhas e acertos. E não foi nada que surgiu sem motivo. Foi um monte de coisa guardada que aos poucos foi surgindo sem que a gente tivesse planejado.
– Freddward! Você não vem?
– Estou indo.
[...]
Na segunda de manhã, eu estava ainda mais sufocado e ansioso porque já fazia um dia que não nos falávamos. Eu não sabia como ela estava, quando a veria novamente. Será que ela havia contado ao John?
Cheio desses pensamentos, fui à escola. Aproveitei que tinha chegado cedo para já separar os livros que usaria naquele dia até Shane e Gibby se aproximarem.
– E ai, Freddward. — Eles me cumprimentaram acenando enquanto não chegavam até mim.
– Bom dia.
– Que cara de defunto que esqueceu de deitar é essa? — Shane comentou.
– Eu só... tenho dormido bem mal.
– Pare de assistir Doctor Who de madrugada. — Ele me recomendou com autoridade.
– Fez o que esse fim de semana?
"Não vou dizer que dei uma de amigo gay ajudando a Sam a se arrumar para o jantar na casa de John", pensei.
– Nada demais. Por quê?
– É que nós fomos ao boliche com Tasha e Wendy.
– Legal, Gibbs. — Respondi voltando a pegar meus livros.
– Bom dia! — Uma voz bem conhecida surgiu perto de nós e eu estremeci instantaneamente, derrubando os cinco livros que segurava.
Era ela. E talvez eu já sentisse antes mesmo de ouvir aquela "bom dia." Porque era como que se tivéssemos uma conexão assustadoramente sobrenatural, estupidamente forte e maravilhosamente eficiente.
– Droga! — Gritei enquanto me abaixava para pega-los e os outros três me ajudavam.
Enquanto me levantava, já encontrei justamente o par de olhos azuis do qual estava fugindo. Eles me perseguiram até que nos levantássemos por completo. Eles me perseguiram até depois de desaparecerem. Era como que se eles estivessem em cima de mim a todo o momento.
E isso era bom.
– Bom dia. — Respondi enquanto colocava os livros de volta no armário.
– A Sam já chega causando, não é? — Gibby riu.
– Pode ser, mas esse Freddie também está esquisitão hoje.
– O que foi, Freddie? — Sam perguntou enfiando suas bolinhas azuis em mim mais uma vez como se quisesse me perfurar com elas.
– Você REALMENTE não sabe? — Falei batendo a porta do armário bruscamente.
– Oh! Eu já sei! — Gibby falou eufórico porém sério.
– Sabe?! — Eu e Sam questionamos em uníssono enquanto Shane nos olhava com desconfiança.
– É porque a Carly está em Yakima. — Completou ele com a voz alterada de uma forma esquisita tentando insinuar alguma coisa.
– É? — Perguntamos de uma só vez novamente.
– Às vezes eu tenho a impressão de que vocês combinam essas coisas. — Shane falou calmo e curioso, provavelmente se referindo à nossa simultaneidade ao falar e pensar certas coisas.
– É, é isso mesmo, Gibs. — Confirmei encarando a garota à minha frente. — Estou com saudades da Sam.
– O quê?! — Gritaram os três juntos, chamando a atenção de todos no corredor.
– Perai! Freddie, você andou queimando uma ponta, dando uns tapas no beck? Tá doidão? Se drogou? — Shane perguntou eufórico segurando meu rosto próximo ao dele.
– Não! Eu estou com saudades da Carly! E foi esse o nome que eu disse, Carly. CARLY! — Falei segurando-o também.
– Não, você disse...
– Carly. — Sam interrompeu Gibby imediatamente. — Saudades da Carly. Vocês estão surdos ou o quê?
– Não, ele...
– De que importa? — Interrompi-o também enquanto me soltava de Shane. — Ela deve voltar logo.
– Eu espero. A propósito, você tem alguma notícia dela?
– Só nos falamos sábado à noite. Ela e o Spencer estão bem e o vovô também.
– Como vocês farão o iCarly sem ela?
Antes de responder ao meu amigo, encarei a loira e sugeri.
– Vocês dois poderiam ajudar a gente.
– Claro! — Respondeu Shane enquanto os dois riam.
– Certo, hoje faremos a reunião e amanhã ensaiamos à tarde. Quarta às sete da noite faremos o programa. — Sam os alertou.
– Quem diria. — Comentei em seguida.
– O quê?
– Você se interessando pelos ensaios.
– Já que a Carly não está aqui, alguém tem que fazer isso por ela.
[...]
No intervalo, nós quatro resolvemos nos juntar novamente a fim de já começarmos a preparar o que seria apresentado no web show. Tasha e Wendy resolveram não se juntar a nós, mas John não hesitou em se aproximar ao nos avistar.
E lá vinha o encosto.
Com um sorriso sugestivo e aquele andar estúpido.
E eu não sei por que estava tremendo só de vê-lo se aproximar.
Não, não pense que eu estava apaixonado por ele, ok? Mas talvez ele soubesse que eu e Sam havíamos nos beijado.
E isso sim me fazia tremer.
– Ei! — Ele acenou ao nos ver em uma das mesas perto da cantina. Eu e Sam nos entreolhamos imediatamente.
– Oi. — Ela respondeu tentando forçar (e muito mal) um sorriso.
Ele se inclinou para beijá-la nos lábios mas ela se virou discretamente a fim de que ele o fizesse apenas na bochecha. Parecia assustada e incomodada com a presença dele, e o garoto um pouco constrangido pelo fora que tinha acabado de levar.
Se ter gostado disso faz com que eu esteja errado, então não quero estar certo.
– Olá, Gibby, Shane e... Freddie.
– Olá, John. Como tem passado? — Falei sorrindo enquanto estendia minha mão para cumprimenta-lo.
A princípio, ele me fitou com certa rejeição enquanto os outros três pares de olhos não desgrudavam de cima de mim, já preparando-se para o que quer que pudesse acontecer dali em diante uma vez que a aversão que nutríamos um pelo outro era exorbitante.
– Bem... — Ele finalmente correspondeu o aperto. — E você?
– Bem também. — Respondi soltando-o, escorando meu cotovelo na mesa e o rosto na mão.
– Certo. — Ele me deu uma última olhada e se voltou para Sam de novo. — Não te vejo desde sábado quando jantou lá em casa.
– Calma, foi só um dia.
– Mas você também não ligou.
– Sabe que é complicado já que estou sem celular.
– Mas você sempre liga pelo da Melanie.
– Falando na Mel, como ela está? — Me introduzi na conversa e para ser sincero nem eu mesmo sabia aonde chegaria fazendo o que me vinha à mente sem antes pensar.
– Ela está bem... não que seja da sua conta. Mas está.
– Quem sabe eu não apareça lá um dia para vê-la...
– Ei, ei! — Exclamou ela alterada. — Qual é a sua, Benson?
– Segura a onda ai, minha filha. É que ela sempre foi muito legal comigo. Diferente de certas pessoas...
– Ela anda muito ocupada para ficar recebendo suas visitinhas de novo.
– De novo? Quando ele esteve lá? — John questionou irritado.
– Nunca! Na verdade, a Melanie que o viu algumas vezes no Bushwell. No... no apartamento da Carly. — Ela respondeu, contornando a situação com certa dificuldade.
– Que confusão. — Gibby comentou.
– Que seja. Quer fazer alguma coisa hoje à tarde?
– Não dá, John. — Ela disse em tom de lamento. — Temos reunião do iCarly.
– E amanhã?
– Também...
– Então que tal quarta?
– Piorou. Vamos quinta.
– Vou sair com meu pai.
– Que pena.
– Certo... — Ele assentiu, um pouco constrangido. — Então depois combinamos em algum dia que os dois possam.
– Também conhecido como: nunca. — Murmurei para Shane mas também acabei sendo ouvido por Sam.
– Desde quando você tem alguma coisa a ver com isso?
– Calma, Sam! — Meu amigo respondeu em minha defesa. — Foi só uma brincadeira. Ele também anda meio empacado com a Carly.
– Oh, a ironia. — Continuou, agora rindo e fazendo com que a provocação voltasse para mim.
[...]
Ao término da aula, já estávamos todos prontos para ir ao Bushwell começar os trabalhos.
Ou quase.
Sam, apenas por conveniência e obviamente tentando tapear alguma coisa, — no caso, o nosso beijo -, quis convidar John para nos acompanhar. Enquanto isso, eu estava rezando mentalmente para todas as divindades possíveis para que ele recusasse.
– Você quer vir ao ensaio hoje à tarde? — Sam perguntou a John.
– Eu? Não. — Respondeu com certo deboche.
– Mas você sempre adorou o programa! — Ela insistiu.
– É que... não vai dar.
– Certo. — Ela concordou, o beijou e veio até nós.
Eu sentia como se fogos de artifício fossem sair de dentro me mim, mas continuava irritado com as atitudes surpreendentes de certa pessoa durante o caminho, então decidi não me inteirar dos assuntos de Shane e Gibby. A certa pessoa também ficou de fora por um momento, até que, depois de alguns minutos a me fitar, iniciou uma conversa.
– Que cara é essa?
– Tenho outra por acaso?
– Já teve melhores.
– Assim como você também já teve um gosto mais apurado.
– A o que você está se referindo agora?
– A o que você quiser.
Ela não respondeu e eu não a olhei mas sabia exatamente como estava. Essa onisciência, às vezes, era até legal. Como se nos conhecêssemos há mais tempo do que soubéssemos. E, de fato, não precisávamos de grandes acontecimentos para perceber isso. Só de saber que ela estava bufando de raiva ao meu lado por causa de meia dúzia de palavras, eu já tinha certeza.
– Você não acha que temos uma coisinha para conversar a respeito? — Ela sussurrou.
– Não. — Falei já me sentindo um pouco trêmulo.
– Por que não?
– Quando essas coisas acontecem, você é sempre a primeira a dizer que nunca vamos tocar no assunto.
– Você está falando como se fosse algo que acontecesse todos os dias.
E acontecia.
Eu sabia que sim.
E ela também.
O que foi aquele beijo comparado a todo o resto que se passou antes dele?
Só um detalhe.
Bem importante, a propósito.
E delicioso.
– Tudo bem... mas depois. agora não é a hora certa.
E tinha hora certa?
Nunca teria.
Foi um erro do início ao fim...
Mas quer saber?
Foi um erro muito bem acertado.
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