Anyone Else But You
32 Paradoxal
Notas iniciais
PDV Sam.
Terça-feira sempre vem com um gosto de... infinidade. A semana já não está mais no começo muito menos perto do fim. O dia seguinte ainda seria quarta e ainda traria o dobro de tudo o que se passava em mim naquele momento se não fosse resolvido logo.
Fome.
Sono.
Culpa.
Os dois primeiros casos eu poderia resolver com três dólares e os cinquenta minutos da aula da Briggs. Já o último não me largaria tão cedo.
Por quê?
Porque, quando você se sente culpado de algo que fez, geralmente acaba envolvendo outras pessoas. Logo, não depende só de você dar um fim a isso. Se é que isso chega a ser possível de alguma forma.
No meu caso, essa culpa tinha um gosto. Ainda estava na minha boca. E era amargamente doce.
Paradoxo.
Figura de linguagem. Bem complicada, afinal. Mas agora eu sei o que significa graças ao indivíduo que me colocou em uma. O professor era tão bom que quis que eu aprendesse na prática. E, como se não bastasse, que fosse com ele próprio.
Não estava no roteiro das aulas nem em nenhum outro que eu possa relacionar à minha vida. Não foi planejado e nós mal esperávamos. E eu não sabia o quanto queria até acontecer.
Passei a noite esperando que esses pensamentos não me acompanhassem por mais muito tempo já que, desde aquele sábado à noite (tecnicamente domingo de madrugada) eles só vinham se tornando cada vez mais frequentes.
Esse Freddie Benson me faz pensar mesmo. De todas as maneiras. E sobre qualquer porcaria.
Na segunda, eu e os garotos fizemos uma reunião no Bushwell sobre o webshow e o que faríamos nele sem a Carly. Até que foi bem produtivo apesar da minha ansiedade em conversar com o nerd sobre o que quer que nos aconteceu sábado. Acho que, ao ter sugerido a tal conversa, eu ainda não havia assimilado muito bem a situação porque no dia seguinte, quando abri meus olhos e relembrei o momento, agradeci aos deuses por ainda não termos falado sobre aquilo. O que diríamos, afinal?
Sem palavras, o que nos restou foi o olhar. Uma tensão visual tão grande que até o Stevie Wonder poderia perceber se estivesse no estúdio com a gente.
Conversamos com a Carly, vimos o Spencer e o vovô Shay. Foi bem rápido porque eles tiveram que voltar ao hospital, mas foi o suficiente para matar um pouquinho da saudade e para Freddie sentenciar a própria morte por estar se sentindo tão nervoso e culpado de algo que ninguém — até o momento — sabia além de nós dois.
– Como foi a reunião ontem? — John me perguntou enquanto andávamos pelo estacionamento antes que o sinal anunciasse o começo da primeira aula.
– Foi legal. — Respondi impassível.
– Eu não gostei da ideia de você passar a tarde sozinha com eles três.
– Primeiro: eu te chamei e você não quis vir; segundo: pare de ser louco porque eles são todos comprometidos.
– Exceto um deles. — Terminou ele, estressado.
– Ei! Você está desconfiando de mim?
Me senti ofendida e furiosa. Mas só até me lembrar de que ele estava totalmente certo.
– De você, não. Mas dele, talvez.
– Ele gosta da Carly.
– Mas até hoje não está com ela e ontem fez uma grande insinuação em relação à Melanie.
– Insinuação essa que só leva a sério quem for bem problemático.
– Ei, agora o que você está querendo dizer com isso? — Retrucou furioso.
– Só é incrível como você consegue acreditar no garoto que mais odeia mas não em mim.
Apesar da minha calma ao falar, já estava no meu ápice, pelo menos por aquele momento e daquele assunto. Sai deixando-o sozinho sem ser seguida e entrei na escola.
Dei de ombros e fui atrás de resolver meus outros problemas. Fucei o bolso do meu jeans e achei dois dólares e cinquenta centavos. Fui até a cantina ver o que poderia comprar com aquela quantia e consegui descolar três pacotes de bolo gordo e algumas balas. Bem, só seria suficiente por alguns instantes mas me sustentaria pelo menos até o intervalo.
Sobre o segundo problema: a primeira aula era da Briggs. Só essa afirmação dispensa quaisquer outros comentários.
Agora, o terceiro problema... esse era o pior, o mais difícil de todos. Diferente dos outros, era personificado. Era uma pessoa mesmo, na verdade. E esse era um dos motivos que me impediam de fazer qualquer coisa sobre ele.
– E ai, Pamantha Suckett! — Disse o meu problema, com certo entusiasmo, enquanto vinha até mim acompanhado por Gibby e Shane.
– Oi. – Respondi, não irritada como ficava normalmente ao nos falarmos, mas preocupada com a presença dele, o que vinha acontecendo desde o momento em que nos beijamos.
– Que carinha é essa? — Shane perguntou apertando minhas bochechas.
– Não é nada.
– Cadê o John? — Gibby insistiu.
– Sei lá. Discuti com ele.
– Ai vamos nós... — Freddie comentou, extremamente sarcástico.
– Então... o problema é esse? — Não. Não era, Shane. Não mesmo.
– Sim. — Menti. Porque brigar com John já havia deixado de ser o problema há muito tempo. Talvez, na verdade, nunca tenha sido. O problema era o que nos levava a isso. E ele estava bem ali ao meu lado. Mas, se eu quisesse, poderia fazer com que ele fosse a solução.
Mas eu não poderia simplesmente sair dizendo bem na frente dele, não é?
– Sinto muito.
– Mudando drasticamente de assunto... — Freddie falou aborrecido. — Vamos logo porque temos um longo ensaio pela frente.
Não vi John antes de irmos e para ser sincera, eu nem queria. Eles também não sugeriram que eu o fizesse porque 1. Poderíamos voltar a brigar, ou 2. Iniciaríamos uma longa (ou não) reconciliação. Já da parte exclusiva de Freddie, ambos os casos o irritaria com o bônus de que ele odiava o meu "namorado" em questão.
Assim que chegamos ao Bushwell, fiz o mesmo procedimento do dia anterior: confisquei as chaves que ficavam sob o domínio de Lewbert para entrarmos no apartamento da Shay de uma forma decente e também porque não há grampos de cabelos nem habilidades familiares que deem conta da fechadura daquela porta todos os dias.
Saímos colocando as mochilas em qualquer canto e eu fui a primeira a me jogar no sofá. Freddie se direcionou para o computador, Gibby para a cozinha atrás de água e Shane correu para o banheiro.
– Vai fazer o que, Benson? — Gibby perguntou enquanto servia um copo para si em cima do balcão.
– Vou tentar falar com a Carly.
Tentei me controlar até o último fio de cabelo, mas não consegui não me irritar com aquilo. Era incrível como uma hora parecia que o conhecia como a palma da minha mão e em outra ele simplesmente contrariava todas as minhas expectativas. Pensei que ele estivesse desistindo da Carly e só a mencionasse para me provocar, buscando-a como uma espécie de válvula de escape para fugir de alguma coisa.
Ou alguém.
E, querendo ou não, eu sabia quem.
– Por que não vamos simplesmente ensaiar logo? — Falei indo até o balcão também.
– Antes eu queria falar com ela e pedir algumas dicas. Eu nem sempre faço parte do processo criativo, estou meio confuso.
– Você pode perguntar para mim. Sou tão importante quanto ela para o programa.
– Sim, mas você sempre recusa tudo o que eu sugiro.
– Isso não é verdade! Ontem eu acatei várias ideias suas!
– Você quer dizer: acabei com várias ideias suas. — Ele respondeu com cinismo.
– Você que se acha o dono da verdade, o inteligente e quer que as coisas sejam só do seu jeito.
– De todas as piadas e quadros escolhidos para amanhã, metade foram sugestões suas. — Continuou, parecendo alterado, mas não mais que eu.
– Eu não tenho culpa por você ser tão sem graça. — Falei tentando irrita-lo.
– Olha aqui... Oi, Carly! — Ele se interrompeu virando-se para o computador e cumprimentando minha amiga, esboçando um humor completamente oposto ao que usava comigo há dois segundos antes.
Irritada e ignorada, resolvi subir para o estúdio onde permaneceria sozinha por alguns minutos antes que eles resolvessem aparecer também em seguida.
Eu me sentia mal e extremamente incomodada, sem motivo nenhum, e assustada comigo mesma. Queria pular no pescoço daquele garoto ao mesmo tempo em que queria também olhar no fundo dos olhos dele e perguntar "o que está acontecendo com a gente?"
Paradoxo. Lá vinha ele novamente atravessando a porta do estúdio sem pudor algum.
Eu não entendia como ele conseguia ser tão cínico e atraente ao mesmo tempo, como conseguia me irritar sendo que a ordem natural das coisas sempre foi ao contrário e como conseguia me tirar do sério como ninguém jamais conseguiu.
– Vamos ir começando por aqui? O Shane e o Gibby já vem.
– Certo. — Falei me levantando do puff roxo no qual estava sentada.
– Por que você “fugiu” aqui pra cima quando eu fui falar com a Carly? Ela queria falar com você. Tive que inventar uma desculpa.
– Não tem problemas, depois nos falamos.
– Você não respondeu minha pergunta. – Ele insistiu, curioso e paciente.
– Vai ficar me monitorando agora? – Perguntei, andando de um lado a outro do estúdio.
– Não, eu só... – Ele suspirou, colocando as mãos no bolso um pouco preocupado. – Tudo bem, então... vamos começar aqui?
– Tudo bem. – “Mas ainda não,” pensei. “Não antes deu saber o que você fez com a minha sanidade.” Eu precisava saber o que estava acontecendo de verdade entre nós dois. Por que era algo tão bom e tão ruim. E se aquele recente e estranho acontecimento tinha uma relação tão direta com tudo isso. — Mas antes eu queria conversar com você.
– Sobre o quê? — Perguntou intranquilo e sério.
– Sábado. — Falei sem hesitar, com o coração já na mão e os sentimentos explodindo de dentro dele.
– Vamos lá, pessoal! — Shane gritou animado entrando junto com o amigo.
– Freddie, prepare a câmera. — Gibby falou.
– Agora não vai dar. — O nerd sussurrou para mim.
– Sem problemas. De amanhã não passa.
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