Anyone Else But You
48 Prom
Notas iniciais
PDV Sam.
Minha mãe estava na cozinha com o namorado fazendo qualquer coisa entre beija-lo ou agredi-lo enquanto jantavam. Tranquei meu quarto e coloquei algumas músicas para tocar no último volume já que não estava disposta a distinguir se faziam um ou outro. Melanie se arrumava para ir ao cinema com as amigas e já estava quase pronta. O problema era que também havia se trancado e minha solução estava justamente em seu quarto: eu precisava de roupas para o baile.
Esperei no corredor como quem não queria nada. Escorei-me na parede, fingindo roer as unhas que não consegui pintar para ter um atrativo a mais naquela noite. Quando minha gêmea saiu, pareceu não desconfiar tanto quanto deveria.
– O que foi, Sam? — Perguntou, virando-se para o espelho e afrouxando o rabo de cavalo no alto da cabeça.
– Nada. Só estou no corredor.
– Não vai ao baile hoje?
– Como sabe que o baile da minha escola é hoje?
– Também tenho amigos na Ridgeway. — Disse, colocando a bolsa rosa nos ombros enquanto dava um sorriso. — Vai ou não?
– Do que te interessa?
– Nada. Só quero saber.
– Acho que não vou mais. — Menti, simulando uma frustração.
– Por quê?
– Não tem a menor graça. Os únicos bailes que prestam naquela escola são os dos formandos.
– Tudo bem. — Assentiu, sorrindo. — Espero que mude de ideia e vá se distrair um pouco. Tchauzinho, Sam. Bom filme pra mim.
– Bom filme pra você, Melanie. — Respondi, observando-a descer as escadas.
Quando a ouvi bater a porta de entrada da casa e os gritos de minha mãe para o namorado, caminhei a passos lentos até seu quarto. Para minha sorte, como se esperasse que eu fosse até lá, estava aberto. Às vezes ela tranca. Entrei sem me importar com o fato de que odiava a presença alheia em seu santuário durante sua ausência e abri seu guarda roupa sem mais esperar.
Para meu azar, estava arrumado. Impecável. Não que algum dia tivesse chegado a saber o que é estar uma zona, mas daquela vez parecia especialmente organizado. Já não estava com muito tempo e ainda teria que tomar cuidado com a forma como escolheria o que precisava tirar dali sem interferir no que ficaria.
Naquele momento senti como se todos os anos anteriores evitando usar saias ou qualquer coisas do gênero estavam sendo compensados naquela semana. Primeiro, no outro sábado, fora obrigada por Carly a usar uma. Não era tão curta ou enfeitada mas continuava sendo uma das peças que sempre me negara a vestir. Então, enquanto me arrumava para o baile, também não restava alternativa a não ser usar outra, mais uma vez.
Falara no telefone com Carly mais cedo quando se dispôs a me ajudar, mas recusei. Não quis abusar da bondade de minha amiga nem de suas roupas, além de ter decido que, daquela vez, ficar pronta seria um desafio único e pessoal que deveria cumprido sozinha. Mesmo com meus escassos conhecimentos sobre roupas e tendências, mesmo com todo o meu desinteresse em agradar qualquer pessoa.
Voltei à ação. Puxei, amassei e desdobrei algumas peças com minha indelicadeza e pressa. Não tinha mais tempo para me atrapalhar, então escolhi rapidamente o que se enquadrasse num meio termo de beleza, conforto e outras exigências que pesam para mim quando decido entre uma roupa ou outra. "Tomara que dê certo", pensei enquanto voltava ao meu quarto.
Tranquei a porta. Pendurei as peças atrás dela e as deixei ali enquanto socava as minhas bagunçadas de volta num cubículo apelidado de guarda-roupa. Depois de muito empurrar, gastando assim todas as energias que deveriam ser gastas na festa, me joguei na cama, quase desmaiada.
Já tinha tomado banho mas voltara a suar. Meu cabelo estava limpo mas voltou a embaraçar durante a correria do dia. E meus pés já estavam pretos de tanto andar descalça.
Voltei para debaixo do chuveiro com pressa. Não que eu adorasse tomar banho, mas sentia a necessidade. Qual é, dali a alguns minutos estaria no baile!
Alguns minutos mesmo. Em vinte minutos Freddie chegaria.
O tempo voou! Me vesti sem nem ter me secado direito, passei desodorante até os olhos e corri para secar os cabelos com o difusor socado entre as tranqueiras da minha mãe. Ela continuava brigando com o namorado e eu com o relógio. Meus fios, longos, grossos, embaraçados, demoraram para tomar a forma que queria mas ao final foram uma das únicas coisas a me satisfazer.
Estava quase pronta mas senti que algo faltava. Peguei o frasco de perfume. Olhei minha cara no espelho e o relógio na cômoda. Estava pálida e ainda tinha cinco minutos.
Voltei ao quarto de Melanie atrás de maquiagens e, após vasculhar sua penteadeira, lembrei que sempre as levava consigo. Nervosa, fui até o de minha mãe e, sem pedir permissão — até porque ela nem perceberia já que discutia com o namorado -, procurei os pós e sombras e tudo mais que usasse para rebocar a cara quando a campainha tocou.
Em meio a xingamentos e berros, minha audição se apurou o suficiente para perceber. Meu coração deu um pulo. Fiquei desesperada, tremendo com o frasco na mão. Borrifei o líquido em meu rosto, no pescoço, nas axilas, nos braços e nos cabelos. "Deve ser o suficiente", pensei.
– Sam, atende a droga da porta! — Gritou minha mãe após o segundo toque, cessando por um instante o festival de ofensas.
– Já vou! — Gritei com arrogância, passando os dedos pelo cabelo. Peguei o perfume novamente e totalmente descontrolada, tirei a tampa. Queria que saísse numa maior quantidade, virando-o cuidadosamente em minha mão. A campainha tocou mais uma vez e o susto me fez virar o frasco inteiro em mim mesma.
– Sam! — Minha mãe voltou a gritar. Não importava o que houvesse, não abriria a porta. Sabia que não era pra ela. A maioria dos antigos namorados a quem devia dinheiro estavam presos e os amigos traficantes costumavam aparecer mais tarde.
Gritei alguns palavrões em resposta. Precisava dar um jeito no acidente que acontecera, mas não tinha tempo.
– Mãe? — Eu a chamei, saindo do quarto. — Eu já vou, ok?
– Tudo bem. Aproveite antes que fique pelancuda e tenha que se contentar com anões calvos e gordos.
Assenti, erguendo as sobrancelhas e caminhando até a porta. Esperei por um instante, pensando que a longa pausa desde o último toque fora proveniente dos palavrões que Freddie ouvira. "Deve ter ido embora", cheguei a pensar. Girei a maçaneta e a puxei de uma vez. Inesperadamente, ele caiu na mesma hora.
– Desculpe! — Falei enquanto o segurava, já tentando reergue-lo.
– Não se preocupe. — Disse enquanto arrumava o paletó. — É que você demorou, mas pelos gritos eu soube que estava aí, então me escorei na porta enquanto esperava.
– Ah. — Concordei sorrindo.
Ele sorriu de volta e me olhou de cima a baixo, como se o que via o impressionasse. Tive certeza, estava vermelha, tímida. Sentia meu rosto queimar.
– Você... você está... — Freddie ainda me estudava cuidadosamente como se não quisesse perder um centímetro. Seu tom de voz e a certeza do que viria em seguida me devolveram um sorriso no rosto, até que ele torcesse o nariz algumas vezes. Fez um trejeito engraçado, mas desconfiei. Parecia estar prestes a espirrar. — Usando muito perfume.
Fechei a expressão na mesma hora, frustrada. Ele fungou, apertando os olhos e inclinando a cabeça.
– Ah. — O empurrei de volta para fora, saindo também e fechando a porta atrás de mim numa batida estrondosa. — Foi um acidente.
– Oh. — Concordou enquanto já caminhávamos na calçada. — Mas... você está bem?
– Estou sim. E vo...
– Atchim! — O espirro de Freddie me interrompeu bruscamente. Ele deu um grito assustador ao mesmo tempo. Não soube se fingia para me provocar ou se meu acidente realmente fora tão grave. De qualquer forma, fiquei nervosa.
– Saúde.
– Obrigada. — Falou, ainda meio fanho. — Continuando...
– Eu disse que estou bem e...
– Atchim! — E espirrou de novo.
– Saú...
– Atchim! — Furiosa, resolvi me calar no terceiro. Seu nariz já estava vermelho e ele parecia meio tonto enquanto o fungava. — Desculpe.
– Você tá zombando de mim ou é sério?
– Não tenho culpa se você está tão cheirosa!
– E isso não é bom?
– É! — Disse num tom de indignação. — Na verdade não pra quem é alérgico como eu.
– É simples: não fique me cheirando a noite inteira.
– Não vou! Mas, como somos um par, ficaremos juntos o tempo todo, certo?
– Certo. — Falei. Senti meu rosto enrubescer novamente.
Pelos próximos minutos da lenta caminhada até a Ridgeway, os diálogos regrados não me permitiram expressar o quanto estava encantada com Freddie. Como toda a forma que eu o enxergava ultrapassava as roupas que usava, seu corpo, seu rosto. Havia uma forma particular que ele me fazia perceber. Além disso tudo, mis que qualquer coisa, sentir.
Podia sentir sua timidez limitando toda a eloquência geralmente empregada a o que falava ou fazia. Gaguejava vez ou outra, tropeçando nas palavras ou dando formas ambíguas às frases que dizia. Se desculpa, consertava, refazia todo o discurso ou simplesmente desistia no meio do caminho quando já não via solução para as gafes cometidas. De fato, não me importei com nenhuma. Apenas apreciei todo o charme envolvido em seu nervosismo e me senti aliviada ao saber que não era a única.
Os espaços da escola, já lotados. Provavelmente estávamos entre os últimos a chegar. Percebi que levamos mais tempo que o normal em todo o trajeto, constatando todo o apreço pela companhia e a forma como o tempo desaparecia com o resto num único instante apenas nosso. Mesmo que compartilhado com os asfalto cinza, os prédios sem graça e o os carros convencidos. Pareciam sumir.
– Sam! — Carly acenou de longe ao nos ver. Abrimos caminho em meio às outras pessoas até alcançá-la.
– Oi! — Respondi, cumprimentando-a. Freddie fez o mesmo, sorrindo.
– Vocês estão lindos.
– Você também. — Falei.
– Como conseguiu se arrumar sozinha tão bem?
– Não sei. — Disse, erguendo as mãos. — Só peguei umas roupas da Melanie.
– Não teve tempo de se maquiar?
– Não. Eu nem sei, na verdade.
– O que achou, Freddie? — Minha amiga perguntou, rindo.
– Exagerou no perfume. — Falou, apontando para mim. Revirei os olhos.
– Concordo. — Respondeu ela, fungando o nariz. — Mas e o resto?
– Ah. — O nerd ponderou, novamente travando. Me sentia lisonjeada por ser o motivo de tal feitio improvável. — Está... ótima.
– Ok. — Concordou Carly, virando-se para trás enquanto parecia procurar por alguém.
– O que foi?
– Nada, só estou tentando achar o John. Ele foi buscar bebidas pra gente e ainda não voltou.
– Cuidado. Ele pode dar um gelo em você... Entenderam? Dar gelo em... — Eu e minha amiga encaramos, repreendendo-o. Ele conteve uma risada. — Esquece.
– Piadinhas sem graça a parte, lá vem o meu par. — Respondeu, fazendo um gesto com a cabeça para o lado.
– Aqui está. — Disse ele entregando um copo colorido à minha amiga. Seu sorriso se desfez ao se deparar comigo e com Freddie.
– Oi. — Ousei cumprimenta-lo.
– Oi. — Respondeu, mais educadamente do que eu esperava, dessa vez encarando apenas a mim. Pude sentir o olhar reprovador do nerd ao meu lado.
– Vamos procurar o pessoal pra conversarmos um pouco? — Intrometeu-se Carly, agarrando o braço de John e tentando afastar o clima pesado.
– Vamos. — Freddie assentiu, puxando meu braço levemente, cumprimentando meu ex-quase-namorado com um movimento imperceptível de cabeça.
Chegamos a outra mesa na qual estavam Wendy e Shane. Gibby e Tasha chegarem alguns minutos depois, juntando-se a nós.
– Freddie! Encontrou um par? — Gibby perguntou impressionado.
– É. — Respondeu num tom de repreensão.
– Olha aqui, baleia fora d'água, não fale como se eu não estivesse aqui.
– Calma, gente! — Carly interferiu. — Esse ano não vai ter aquela palhaçada de rei e rainha do baile, vai?
– Espero que não. — Falei.
– Pensei que sim.
– Só lá na sua antiga escolinha sem graça, Tasha.
– Até que não seria tão ruim assim. — Falou John, me encarando. — A concorrência seria fortíssima.
Algo entre uma hora e meia foi gasta em conversas vazias. Puro falatório. No caso, gritos também. A música estava absurdamente alta e nossas vozes mal conseguiam ser ouvidas. Os assuntos variavam entre a vida alheia e os acontecimentos mais irrelevantes das nossas próprias. Alguns momentos realmente me arrancaram gargalhadas, outros fizeram com que eu desejasse nem ter levantado da cama.
Estava irritada. Percebi, entre um devaneio e outro enquanto um dos meus amigos tagarelava, o motivo não tão implícito assim que me levou a aceitar o pedido que Carly fizera para que eu convidasse Freddie. Não me impôs nada, não ofereceu qualquer outra opção. Não teve que insistir muito. No final, eu realmente queria. Precisava de um pretexto, mesmo que não muito bem colocado, para passar algum tempo com ele e, quem sabe, finalizar tudo o que fora iniciado há quase cinco meses. Ou então continuar o que estava estagnado desde algumas semanas.
Mas, definitivamente, naquele barulho, com aquela falação, nada que aguardasse por uma solução minha poderia ser resolvido tão cedo. Por mais que ele também quisesse, tendo aceitado o convite de bom tom. Por mais que talvez esperasse o que tão cedo eu não faria, mas desde sempre queria.
– Qual é, a gente vai mesmo ficar aqui conversando a noite inteira? — Shane perguntou quando se deu conta do desânimo que pairava entre nós.
– Tem razão, vamos dançar. — Wendy falou, puxando-o. Gibby e a namorada foram logo atrás.
– E vocês dois? — Perguntei à minha amiga.
– Vamos? — John a convidou. Ela me olhou com um sorriso, eu assenti e ela concordou. Ele me deu uma última olhada e saiu em direção à pista.
– Sam... — Freddie começou.
– Não.
Tive que responder imediatamente, por mais difícil que fosse. Não em tom de desprezo, mas desânimo. Quem sabe, timidez. Estava nervosa e percebi que ele também não se sentiria muito confortável dançando comigo em frente à escola inteira. Não ainda. Perceber que ele compreendeu a situação me deixou mais segura.
– Tudo bem, e o que vamos fazer a noite inteira?
– Mais tarde a gente até pode dançar, quem sabe. Mas agora não.
– Por que não?
– Porque eu não quero.
– Mas eu quero!
– Então vá arranjar outro par!
– Ótimo. — Concordou, batendo a mão na mesa e os pés no chão, saindo, marchando com raiva.
Indignada, me levantei e o segui.
– Sério mesmo que você vai chamar outra garota pra dançar sendo que eu te convidei pra droga desse baile? — Gritei, tentando fazer minha voz mais presente
que a música estrondosa depois de te-lo alcançado em meio à multidão.
– Já que o meu par não quer, sim.
– Vá em frente! — Gritei. Meu sangue borbulhava, minha garganta arranhava. — Ninguém vai aceitar mesmo! Todos já estão acompanhados.
Sai em seguida, sem esperar por uma resposta, deixando-o incrédulo e sozinho.
Voltei à mesa onde estávamos e me sentei, tomando num gole a bebida do copo cheio que Carly deixara quando fora dançar. Nem sabia o que era. Bati o copo. Ao levantar o rosto novamente, lá estava o de Freddie me encarando.
– Você tinha razão.
– Quantos foras levou? — Perguntei, sorrindo presunçosamente.
– Nenhum. Nem pedi.
– Porque eu estava certa.
– Eu já disse que estava. — Falou escorando os cotovelos na mesa enquanto massageava as têmporas.
– Vai dançar sozinho, então.
– Não tem graça.
– Faça o que quiser. — Dei de ombros, dissimulando um certo descaso.
– O que você quer fazer? — Enfatizou ele ao se dirigir a mim, me olhando fixamente.
– Nada.
– Você ao menos queria estar aqui?
– Não.
– Onde, então?
– Na minha cama, comendo bolo gordo, assistindo algum seriado de comédia.
– Mas o que você quer fazer aqui?
– A mesma coisa. A única diferença é que, aqui, o seriado de comédia pode ser substituído pela imagem do Gibby dançando. — Ri, apontando na direção de nosso amigo. — É ainda mais engraçado.
– Mas não tem o bolo gordo.
– Posso arranjar com meus contatos...
– Nada disso. — Respondeu num tom de autoridade. — Não tem nenhuma ideia melhor?
– Sim, eu...
– Que não seja ilegal.
– Não. — Torci o nariz, frustrada.
– Tudo bem. Quer apenas conversar até a gente arranjar algo melhor pra fazer?
– Pode ser.
– Certo. — Ele se ajeitou na cadeira pegando o outro copo que estava na mesa e sugando um pouco do líquido através do canudo. — Como se sente vendo que sua melhor amiga veio ao baile acompanhada do seu ex?
– Você sabe que esse copo era do John, não sabe? — Respondi, ignorando sua provocação. Freddie fez a mais divertida expressão de repulsa de todos os tempos e cuspiu imediatamente.
– Por que não avisou antes?
– Por que não perguntou antes? — Rebati enquanto ele passava a mão pela boca, ainda enojado e eu ria.
– Voltando ao assunto... qual sua resposta?
– Por que não cuida da sua vida?
– Ué, só estou conversando já que você não quis fazer nada melhor.
– Acontece que há uma pequena contradição na sua perguntinha infame. Você insiste em afirmar que até hoje não dei um fim ao meu relacionamento com John, mas agora disse que ele é meu ex.
– Por que, vai dizer que vocês realmente ainda estão juntos?
– Se eu quiser...
– E quer?
– E você? Quer ver a Carly assim, próxima dele?
– Não sei quantos neurônios a menos levaram ela a convida-lo, muito menos você pra achar que ainda me importo com isso.
– E o que te faz pensar que eu ainda me importaria? — Discuti.
– Não sei. — Respondeu, sem condições de faze-lo efetivamente.
– Então pronto. Ninguém mais toca nesse assunto como se o outro ligasse.
– Ótimo.
Sua decisão ao concordar me afetou da maneira que eu esperava que não fizesse. Porque esse conflito não envolvia a mim e ao John e ele e Carly de forma particular; envolvia, principalmente, Sam e Freddie. Nós dois. Nós, apenas nós dois, éramos os protagonistas primordiais. Encerrar as discussões assim, não apenas evitando usá-las como motivos de zombaria, mas também nos aspectos mais relevantes, continuaria deixando pra depois a incógnita que ainda nos rodeava. Como já vinha se arrastando mais do que poderia. Continuaríamos adiando a resolução de todo o conflito, evitando encarar suas últimas consequências. Talvez já temendo, inconscientemente, que voltasse a dar errado como das últimas vezes.
– Vai ficar calado a noite toda? — Eu o chamei certo tempo depois, temendo que continuasse silencioso até o final do baile depois de termos nos proibido de falar sobre Carly e John.
– Pensei que você fosse.
– Não. Quer dizer, se você quiser conversar...
– Você quer? — Confirmei num movimento tímido de cabeça. — Tudo bem, mas nesse barulho não dá. Vamos pra outro lugar?
– Onde?
– Você não conhece nenhum lugar reservado que te abrigue quando cabula as aulas? — Perguntou.
– Não. Às vezes eu volto pra casa, onde posso dormir e comer. — Freddie apertou os olhos pequenos tentando entender o que ouvira enquanto eu finalmente me colocava para pensar. — Tudo bem... talvez eu saiba de um lugar.
Sorrimos, nos levantamos e ele me seguiu. Abrimos caminho em meio à multidão e a preocupação de todos ali em impressionar até os tijolos das paredes não os dava espaço para se preocupar com o nerd bonitão e a valentona mau-humorada saindo juntos e sozinhos pra um lugar longe do convívio comum. Mesmo que alguém tivesse se atentado a isso, eu já não dava a mínima.
O lugar, ao final, não era exatamente um lugar. Não como algo abandonado e romântico da forma que se esperava. No estacionamento do colégio, rodeando o prédio por trás, havia um espaço com uma pequena horta. A única pessoa que pisava naquele local era a tia da merenda pra regar a plantação de vez em nunca. Não era nada muito agradável aos olhos mas também não chegava a ser insuportável. As plantinhas quase bem cultivadas conferiam um bom odor, só não davam conta de tornar tudo perfeito. A melhor coisa era a privacidade. O silêncio que substituía o barulho das músicas do baile. A vista incrível para um céu que pareceu deixar de ser poluído nos instantes em que o olhamos só pra exibir a noite estrelada que abrigava.
– Sério mesmo que o lugar é esse? — Freddie reclamou, ainda em pé, enquanto eu já me sentava num banquinho.
– Daqui não dá pra ouvir o barulho do pátio, você vai poder olhar pras plantas e falar curiosidades sobre botânica e fingir que sabe algo de astrologia ou caçar constelações no céu. — Ele bufou, como se eu estivesse falando alguma mentira. — Não reclame já que não tem ideia melhor.
– Então seria melhor sairmos daqui, não acha?
– Não. — Falei enquanto ele se sentava ao meu lado. — Mais tarde temos que dar as caras de novo pro pessoal não achar que sumimos.
– Tudo bem. — Concordou.
Estirei minhas pernas até meus pés alcançarem a terra úmida e começarem a cavar. Pela minha visão periférica, percebi que Freddie assitia a tudo com sua costumeira cara de curiosidade.
– Belas botas. — Falou admirado. Podia sentir um tom de deboche no fundo de sua voz ou quem sabe uma risada contida que maldosamente me fez entender isso.
– Obrigada. — Agradeci enquanto voltava a me sentar direito e me virava um pouco, a fim de que ficássemos frente a frente.
– É sério. Eu gostei delas.
– Certo. — Assenti. — Só não entendi a preocupação em reafirmar.
– Ué. Pensei que entendesse do assunto mais que eu.
– Em que sentido?
– No sentido de esclarecer que me odeia tanto.
– Você já percebeu a forma obsessiva como consegue trazer qualquer assunto pra esse assunto?
– E você já percebeu a forma descarada como sempre foge? — Rebateu, decisivo. Estremeci mas não cedi.
– Simplesmente porque não convém? — Afirmei, soando mais como uma pergunta.
– O que não convém é fugir sempre.
– Parece que você está pedindo pra eu te irritar essa noite.
– Não. Só quero entender por que não irrita mais. Não pelo mesmo motivo de antes. Não como antes.
– Certo, do que exatamente você quer tratar?
– Vamos falar de nós.
– O que tem nós?
– O que não tem nós. — Disse num tom de correção. Eu suspirei alto e forte. Não debochada, mas preocupada.
– Como assim?
– Você vai perguntar tudo e eu vou responder tudo?
– Já que você iniciou o assunto...
– Porque planejava que eu perguntasse.
– Tudo bem, fala logo o que você quer falar.
– E se eu simplesmente não quiser falar?
– Vai fazer o quê?
– A boca tem outros usos. — Disse, dando um sorriso de canto.
– Sério mesmo que você começou esse assunto chato pra no final dizer que vai dar outro uso pra sua boca?
– Só estou construindo a conversa.
– Ou acabando com ela.
– Acabando com o que nem começou? — Freddie rebateu.
– O que está insinuando?
– O que você acha que estou?
– Será que dá pra calar essa boca?
– Vem calar!
– Argh!
Bufei de raiva, bati os dois pés no chão, me virei de volta pra frente e cruzei os braços em cima da barriga.
Freddie não respondeu. Embora não quisesse, estranhei a demora. Estava furiosa, não tinha para onde correr ou o que fazer e a pessoa que me deixara nesse estado, provavelmente, estava me encarando naquele instante, podendo ter apenas dois pensamentos muito distintos sobre o que via.
Minha raiva se dissipou na primeira brisa que estapeou minha cara porque minha vontade de que ele falasse qualquer coisa se sobressaiu. Não me ocorria sequer virar para vê-lo embora quisesse, muito menos perguntar por que se calara. O que me restou foi esperar.
– Essa é a parte que você me beija? — Sua afirmação soou como uma dúvida. Bem longe de estar seguro, sua voz parecia falhar. Mas só por ser Freddie e por eu ser uma Sam furiosa, fora corajoso demais para tal.
– Eu não vou. — Respondi, soando três vezes mais amedrontada. Será que ele não percebia que o medo era mútuo em âmbitos diferentes? Se percebia, fez aquilo tudo de propósito.
– Eu já esperava por isso. — Disse, virando-se para frente também. Eu o olhei. — Foi só um teste. Obrigada.
– Teste?
– É... — Começou, gaguejando entre um pigarro e outro. Antes de prosseguir, levantou-se. Meu olhar o acompanhou, como se tivesse poder para faze-lo sentar de novo. — Eu vou... testar com outra pessoa agora.
– Para de ser ridículo.
– Você não sabe calar minha boca, Sam. Talvez outra pessoa saiba.
– Não posso estar ouvindo isso... — Murmurei pra mim mesma.
– O que você não pode é ser tão ruim assim nessas referências clichês.
– Como eu poderia imaginar que você queria ser beijado no meio de uma discussão? — Me levantei, eufórica. — Comigo?!
– Justamente porque todo mundo sabe que é isso que as pessoas fazem quando estão discutindo, quando uma das duas diz isso e quando se gostam.
Quando se gostam. Isso ecoou até o meu coração. Fez caminho por todas as minhas terminações nervosas, abriu espaço em cada pedaço meu. Exerceu um certo poder hipnótico que simplesmente me fizeram falar aquilo de novo e de novo e não parar de pensar nem por um instante.
– Que se gostam? — Repeti para mim, para ele, para nós. Com voz ou sem. Repeti na minha cabeça. Repeti sem querer, só porque gostei de ouvir. Só porque gostei de saber que era verdade.
– Não que seja o nosso caso. — Tentou corrigir, mas já estava corado demais para faze-lo. Suas palavras jamais anulariam sua expressão por mais convincentes que soassem ao atravessar sua garganta.
– E por que não seria?
– Não sei... — Murmurou, conferindo à voz uma rouquidão gostosa de sentir arranhando os ouvidos. — É?
– Não sei. — Respondi, tão medrosa quanto Freddie. Querendo mata-lo por ser assim, querendo morrer por ser igual.
– Você acha que é? — Perguntou.
– Você acha?
Ele parou. Não que já não estivesse parado, mas congelou. Os olhos arregalados, a boca fechada, os músculos rígidos. Tudo isso desapareceu cinco segundos depois.
– Acho.
Achamos. Que sorte acha-lo ali. Que sorte ele me achar também. Naquela horta, naquela hora, naquela volta. Depois de tantas outras. Depois de tantos tantos. Depois de dez poréns. Depois de tudo e de nada. De todos e de ninguém. Calando a boca um do outro.
Eu segurei seu rosto como se dali à primeira falta de ar ele não fosse mais voltar. Já não o sentia tão aflito quanto antes, mas sim tão suave quanto seus lábios nos meus ou sua mão na minha bochecha.
Éramos nós dois novamente, depois de um tempo relativamente longo. Comprovadamente longo para quem ansiou tanto pelo que fazíamos. Para sentir o quão próximos poderíamos voltar a ficar por mais esquisito que tivesse parecido das últimas vezes. Por menos esquisito que dessa vez parecesse. Porque não era necessariamente certo, mas necessariamente necessário. Redundantemente do nosso querer, da nossa vaidade mais egoísta... que se tornava boa no sentido de se fazer mútua. No momento em que nutria os dois.
Não houve tempo para sentir o choque das pontas dos narizes ou o arrepio do toque dos lábios, muito menos a timidez das mãos trêmulas. A primeira e principal lembrança foi o avanço sem pudor que provavelmente poderia resultar num hematoma sei lá aonde. Foi repentino e demorado. Quem se importava, afinal, àquela altura? Quem sabe não estávamos realmente atrás de alguns...
A falta do ar jamais pareceu tão atrativa quanto a presença dele e uma junção quase improvável com alguém de quem sempre mantive distância já não soava tão esquisita assim numa descrição. Não era normal. Eu não queria que fosse. Todo o normal se torna chato, maçante e rotineiro. Nós não éramos.
Sentir que estávamos no máximo para o momento me fez querer estabelecer um novo limite. Nunca parecia o suficiente, talvez nunca fosse. Freddie parecia saber disso tanto quanto eu; ao me apertar contra si, ao me segurar com o braço, ao se inclinar para mim. Cada vez mais.
Logo tudo terminou de forma oposta como começou. Sem na verdade terminar realmente. Apenas uma pausa. Lenta e gradual, como se não quisesse se desfazer. Um reencontro poderia durar mais que aquilo, mas Freddie se cansa rápido demais. Sofria de alguma insuficiência pulmonar por minha causa? Ou eu de uma cardíaca por ele?
Tinha o gosto da bebida esquisita que mais cedo havíamos roubado de John e Carly. Se mais tarde parecesse errado, poderíamos culpar o conteúdo dos copos coloridos. Curiosamente, senti que não. Não mais tarde. Na verdade, não precisaria de nenhuma desculpa.
A última opção se adequou melhor que as outras. Eu pude perceber que sim quando nos soltamos, mas os olhos não. Eles continuaram tão abertos e tão presos uns aos outros quanto estiveram antes de termos feito o que fizemos anteriormente. Os dele jamais pareceram tão vivos. Tão atentos. Sempre pareciam mais. Sempre parecia a primeira vez.
Freddie inclinou a cabeça para baixo de modo que minha testa alcançasse a dele. Era a única parte de nós em contato. Eu mal conseguia piscar. Eu não queria piscar. Não queria perder mais nada. Não queria me limitar mais uma vez. Se tivesse que faze-lo, me limitaria a estar ali.
Empurrei a cabeça dele com a minha na lentidão que meu coração desconhecia. Ele não resistiu, talvez percebendo o que eu pretendia com isso. Nossos narizes se tocaram e foi bom sentir o choque das coisas sendo feitas mais devagar antes de alcançar o queixo dele com os lábios. E depois a boca. A urgência por um contato maior estava prestes a nos obrigar a tornar tudo tão rápido quanto antes, até que uma voz nos interrompesse.
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