Notas iniciais
Ah, que saudaaade Felicidade! Eu realmente não esperava tantos comentários pedindo que a fanfic voltasse. Vocês me deram uma inspiração enorme que resulto nesse capítulo gigante. Farei referência a um livro que gosto muito, mas aqui só vou citar o filme mesmo. Vocês têm minha bênção para ler e/ou assistir O Lado bom da vida. ♡ Só pra que se situem, lá vai a sinopse: Por conta de algumas atitudes erradas que deixaram as pessoas de seu trabalho assustadas, Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) perdeu quase tudo na vida: sua casa, o emprego e o casamento. Depois de passar um tempo internado em um sanatório, ele acaba saindo de lá para voltar a morar com os pais. Decidido a reconstruir sua vida, ele acredita ser possível passar por cima de todos os problemas do passado recente e até reconquistar a ex-esposa. Embora seu temperamento ainda inspire cuidados, um casal amigo o convida para jantar e nesta noite ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher também problemática que poderá provocar mudanças significativas em seus planos futuros. Capítulo dedicado à Thais Oliveira pela linda recomendação! Obrigada, querida!! Boa leitura!!!

PDV Freddie.

— Calma... não se mexe. Fica quieto, Freddie. Não vai doer nada. Você tem que confiar em mim. Posso?

Suspirei alto enquanto me escorava no sofá. O corte acima da minha sobrancelha esquerda ardia e o sangue que dele escorreu estava seco até a maçã da minha bochecha. Sam segurava um algodão molhado com uma solução duvidosa que dizia fazer parte do seu kit de primeiros socorros ao mesmo tempo em que me encarava impacientemente, sentada bem em frente. Eu sabia que ia arder, independente do que fosse aquilo, e que ela não teria um pingo de solidariedade com meu sofrimento por mais que eu esperneasse e implorasse por sua piedade.

— Pode. — Concordei finalmente antes que ela aplicasse o produto sem minha autorização de qualquer jeito e tornasse o estrago ainda pior.

Sam sorriu largamente e, antes que eu tivesse tempo de desistir, apertou o algodão contra a minha testa. Dei um grito desesperado enquanto erguia os ombros e segurava seus dois pulsos, o da mão que esfregava o machucado e o da outra que segurava minha cabeça, mas sem conseguir desgrudá-la de mim. Eu não parava de choramingar e ela não parava de me torturar. Ou me curar, como preferia assim dizer.

— Calma, Freddie! Deixa só eu desinfectar, vai, por favor!

— Ah, não! Por favor, para, tá ardendo!

— Fica quietinho que eu já tô acabando e...

— Ah não, Sam, tá arden...

— Fica quieto, seu frouxo! — Ela gritou de volta, me interrompendo, alterada, se levantando da mesinha ao centro da sala. Sem que eu percebesse, colocou um joelho de cada lado das minhas pernas, me empurrou até que encostasse as costas no sofá, juntou minhas mãos no alto da cabeça segurando-as apenas com uma das suas e com a outra continuou esfregando a incisão contra minha vontade.

Parei de me debater, já conformado, enquanto ainda emitia alguns gemidos. Logo ela parou de esfregar o corte e soltou minhas mãos, mas continuou em cima de mim e eu só conseguia pensar no meu padecimento. Não fiz nada a não ser respirar lenta e profundamente enquanto ela se curvava de costas até alcançar outro algodão úmido na mesa de centro.

– Continue parado porque eu ainda não terminei.

Dessa vez, ela o passava desde a minha têmpora até minha bochecha delicadamente, onde uma parte do sangue estava seco, limpando-as. Com a outra mão, empurrou minha cabeça gradativamente até encostar no sofá e continuou segurando-a sem pressiona-la. Sua expressão estava tão suave quanto seu toque e eu já conseguia sentir uma vontade que crescia dentro de mim — que não era só uma vontade.

— Prontinho. — Declarou, saindo de cima de mim com um sorriso e interrompendo a frase que eu ainda nem havia começado. Meu coração deu um pulo pela súbita volta à realidade que acabara de acontecer. Sam caminhava até a cozinha, levando até a lixeira os algodões sujos e revirando a caixa onde os encontrara, enquanto eu me ajeitava no sofá e tentava recuperar minha sanidade.

— Obrigada.

— Mais algum lugar sangrando? — Perguntou.

— Vou dar uma olhada.

O relógio marcava meia noite e quinze. Havíamos acabado de chegar do baile da garota que escolhe. Fomos juntos. Nos beijamos. E foi bom o suficiente para ser interrompido pela última pessoa do globo: John. O carrasco. Meu arqui-inimigo, o vilão dos meus pesadelos.

Seu grito espantou Sam e fez meus punhos se fecharem e coçarem para se chocarem contra seu rosto. Algumas ofensas foram proferidas até que meu desejo se realizou. Trocamos alguns socos, que me renderam o corte do qual a loira tratava, até que rolamos no chão. Pelo menos não em cima da horta da tia da merenda. Mas no concreto.

Sam gritava atrás de nós e tentava me puxar de cima de John. Sim, eu estava dominando a briga. Mas quando ele escapou das mãos dela, pôs as dele em mim e eu fui parar no chão. Quando me empurrou, bati a escápula num pedaço velho de madeira e antes que fosse atingido novamente distraído pela dor, Sam o golpeou, que caiu ao meu lado.

No mesmo instante Carly chegou com Gibby, sob o pretexto de que estava atrás do meu agressor que a acompanhara no baile. Enquanto Sam tentava explicar a briga, a morena rapidamente pediu que me levasse até em casa, pois cuidaria do outro. Sem mais questionamentos, nós fomos.

Estava agonizando demais para caminhar até o Bushwell, ainda mais sendo praticamente carregado o trajeto inteiro, então decidimos parar na casa da loira, que ficava um pouco mais perto da Ridgeway. Me joguei no sofá onde permaneci gemendo até Sam iniciar seus tratamentos duvidosos com seus utensílios mais duvidosos ainda.

Enquanto ela ainda estava na cozinha, tirei minha camisa, sabendo que em algum lugar que por ela estava coberto, eu sangrava. Me levantei, sentindo meu músculo vibrar de dor, enquanto ia até um espelho próximo à porta para saber exatamente onde Sam me faria o desfavor de esfregar do mesmo jeito que fizera mais cedo com minha testa.

– Perguntei se você estava sangrando em mais algum lugar além da cabeça, não pedi um strip-tease. — Gritou de longe, de maneira ríspida. Como resposta, apenas revirei os olhos e virei de costas, de modo que ela visse o meu machucado. — Ai! Nossa, deve ter doído. — Disse enquanto eu me virava de frente novamente. — Desculpe.

— Quer cuidar desse aqui também?

— Claro. — Respondeu com uma expressão piedosa. — Senta na mesa.

Rapidamente ela voltou à sala com mais algodão e o pote da sua solução desinfectante para ferimentos. Me sentei de costas para ela, e ela no sofá. Acertei minha postura e respirei fundo antes que tocasse minha omoplata ferida. Ardeu, mas dessa vez as passadas eram mais vagarosas e gentis. Não precisei berrar como da outra vez e Sam também não me xingou. Espalmou a mão livre mais embaixo enquanto a outra habilidosamente cuidava da parte de cima, mais ferida. Minha pele estava quente e pareceu ferver quando senti a dela em contato.

– Está doendo? — Perguntou, quase sussurrando.

— Sim. — Falei, virando um pouco o rosto, vendo-a apenas através da minha visão periférica. — Pelo menos você não está me mutilando como fez na testa.

— Eu precisava tirar o sangue seco. — Defendeu-se com o tom de voz mais alto. — De qualquer forma, desculpe. É que esse aqui parece mais grave.

— É, acho que está mais ferido e...

— Calma aí! — Interrompeu-me, puxando meus ombros para trás e deixando minha postura ereta. — Acho que tem uma lasca de madeira.

— Ah, não! Sam...

— Calma!

— Ai, meu Deus! — Choraminguei. — Como você vai tirar?

— Com uma pinça. — Falou, já com uma em mãos. — Fica quietinho.

— Você vai me machucar?

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Nem infeccio... ai! — Gritei subitamente, sentindo o utensílio beliscar minha ferida. Inclinei meu corpo para frente, mas Sam me puxou de volta pelos ombros.

— Se você não ficar quieto vai se machucar mais! — Advertiu-me, colocando a pinça na ferida mais duas vezes. — Pronto. Morreu?

— Não! — Rosnei, me virando de frente pra ela. — Mas você é má! Muito má!

— E ninguém mandou você sair por aí brigando igual um moleque.

— Brigando igual um moleque por você!

— Tá bom! — Assentiu, virando-me de costas novamente. — Agora fica quietinho aí pra eu fazer seu curativo.

Não mais gentil, Sam esfregou o algodão três vezes no meu machucado. Enquanto meus gemidos denunciavam minha insatisfação, pegou uma gaze e a grudou com esparadrapo em cima dele.

— Pronto?

— Vira de frente. — Pediu e assim o fiz rapidamente.

Sam se aproximou e, no corte acima da sobrancelha esquerda, passou outro algodão levemente e dessa vez não não fez com que parecesse pior. O sangramento já estava estancado e eu tive a impressão de que ela se conteve para não ser rude e reverter a situação positiva. Apenas pegou um band-aid e o grudou bem em cima, embora o ferimento fosse maior que o curativo.

Depois de colocá-lo, ficou alisando por alguns minutos. Se certificando de nada. Apenas para estar ali.

Mais uma vez me frustrando, se levantou de repente. Pegou os utensílios em cima da mesa que estavam ao meu lado e os levou para a cozinha. Lá, escarafunchou a geladeira atrás de comida.

— Quer alguma coisa? — Perguntou, sem tirar a cabeça de dentro do eletrodoméstico.

— O que você tem aí?

— Uma pizza de frango com catupiry de dois dias, presunto, bolo gordo, quesadillas e uma cenoura podre.

— As quesadillas estão podres? — Falei rindo.

— Não.

— Então, por favor, quesadillas.

Ela riu de volta enquanto fechava a geladeira e colocava um prato no micro-ondas. Depois outro. Encheu dois copos de Coca-cola e trouxe tudo de uma só vez.

— Vai mesmo ficar sem camisa?

— Vou. Minha camisa está furada e ensanguentada pelo machucado das costas.

— Coitadinho. — Mordeu a pizza e debochou. — Levou uma surra e ainda perdeu a roupinha de marca.

— Eu levei uma surra? — Falei incrédulo e irritado. — Você viu como o John ficou?

— Não, e você também não.

— Eu soquei a cara dele! Estava por cima até ele me empurrar e me fazer bater com as costas naquele toco de madeira.

— Ok, mas não é como se você tivesse ganhado a briga.

— Aposto que ele está com o olho roxo. — Comentei enquanto desejava internamente que fosse verdade.

— Pelo menos vocês não quebraram nada e...

— Aposto que ele está. — Continuei, novamente ignorando o que Sam dizia.

— Será que dá pra parar com essa obsessão? — Queixou-se de repente, levantando o tom da voz de forma rude.

— Desculpe. — Enunciei em seguida, voltando à realidade. — Pelo menos demos um basta nisso. De uma vez por todas.

— É... — Concordou, acenando com a cabeça e olhando para baixo. — Espero que tenha ficado bem explícito pelo que eu disse.

— Sim. — Falei sem evitar uma risada. — Ele ficou furioso quando viu a gente se beijando, né?

— Se ainda não tinha entendido que terminamos, deve ter entendido agora. — Assentiu, rindo também.

— É. Até agora vocês só estavam "dando um tempo."

— Esse assunto de novo?

— Estou mentindo? — Perguntei de volta, quando Sam descontou toda a sua ira pela retomada da questão dando uma extensa mordida em uma das minhas quesadillas. — Ei!

— Só come e cala a boca.

Não deveria ficar zangado com aquilo. Já estava acostumado. Era praticamente uma tradição, dada a frequência e a regularidade com que acontecia. Enquanto pensava nisso, não pude evitar uma risada.

— Onde está a Melanie?

— Foi ao cinema. Saiu antes de nós. Estranho ainda não ter voltado.

— E sua mãe?

— Deve estar por aí com o namorado barrigudo e careca. E cachaceiro.

— Você gosta deles juntos? — Perguntei curioso.

— Não tenho que gostar de nada. Sempre odiei todos os casos dela. Mas ele pelo menos libera o cartão pra mim de vez em quando.

— Ah, sim... — Concordei, já não sabendo quais outros assuntos poderia trazer à tona. Permaneci com o olhar fixado para frente quando percebi Sam me olhando pelos instantes seguintes até finalmente falar alguma coisa.

— E sua mãe?

— O que tem ela?

— Desde que você nasceu ela nunca teve ninguém? — Perguntou de maneira receosa.

— Não. — Respondi com certa estranheza. — Ela teve aqueles encontros com o Lewbert há uns anos, sabe...

— Ah, eu lembro! — Disse com certo entusiasmo, gargalhando em seguida.

— Pois é. — Falei enquanto ria também, um pouco constrangido. Não era nada agradável pensar que um dia minha mãe tocou naquela verrugona.

— Só ele?

— Que eu saiba, sim. — Conclui, quando voltei a ficar sério novamente. Sam se levantou da poltrona e se sentou ao meu lado, onde permaneceu em silêncio por alguns segundos até que eu voltasse a falar novamente. — Deve ter sido algum trauma desde que...

— O seu pai foi embora? Sei bem. — Completou minha frase, com certo tom compreensivo. — Quer dizer, com a minha mãe foi o efeito contrário. Ela se relaciona com pessoas demais. Já perdi a conta de quantos namorados ela já teve desde que eu existo.

— Ah, entendi...

— Como é mesmo o nome do seu pai?

— Leonard. — Respondi rápido, sentindo um sentimento ruim se apoderar de mim. Era como se as lembranças que eu não tinha voltassem sem jamais terem ido. Não sabia como era seu rosto e depois de um bom tempo preocupado com isso considerando minha pouca idade, ter desistido e de repente tocar no assunto que se referia a ele não me fez bem.

— Nunca chegou a ver ele, né?

— Não. — Falei ainda sério, pensando que Sam não percebia meu incômodo com o assunto, uma vez que continuava a insistir. — Ele deve ter ido embora quando eu ainda estava na barriga... quando recém-nascido ou sei lá. Tanto faz. Não me importo.

— Eu cheguei a... conhecer o meu. — Comentou, assumindo uma expressão aflita ao mesmo tempo em que sorria discretamente. — Ele era menor que minha mãe, tinha o cabelo escuro e os olhos claros. Se chamava Jeremy. Eles brigavam muito. Gritavam o dia todo. Um dia, ele saiu de casa e me disse que voltaria. Eu acreditei.

— Uau... sinto muito. — Falei, solidário. Realmente de coração partido e imaginando de que forma esse acontecimento poderia tê-la afetado em tantos aspectos.

— O pior é que você sente mesmo. — Sorriu, voltando a olhar diretamente para mim. — Todo mundo diz isso quando explico por que não tenho um pai, mas só você pode.

— É, Samantha... aqui rola uma empatia forte. — Confortei-a, virando-me de lado e ficando de frente para ela. Encostei um braço nas costas do sofá, encolhi as pernas e apoiei a cabeça no outro, que se apoiava no joelho. — Você já teve vontade de ir atrás dele? Saber pra onde foi, se está vivo ou morto?

— Sim, muita. — Confessou, ficando na mesma posição que eu. Nossa proximidade permitia que a conversa fosse sussurrada e mesmo assim ouvida muito bem. Nossas testas estavam quase se encostando e eu conseguia sentir seu perfume de novo. — Ele foi embora quando eu tinha quase três anos. Sentimos falta dele até os quatro, eu, Melanie e minha mãe. Eu perguntava por ele, mas ela dizia que não sabia onde estava. Aí, eu mesma quis descobrir. Até os oito anos, já tinha desaparecido três vezes saindo por aí sozinha atrás dele. Desde então eu desisti e não me importo. Se ele aparecesse aqui, agora mesmo, eu o mandaria embora.

— Sinto muito por isso, Sam. — Lamentei, sem saber ao certo o que dizer.

Era esquisito e inédito vê-la se abrir sobre esse assunto, de repente, e revelar, mesmo que timidamente, como se sentiu e como ainda se sentia a respeito. Era triste e compreensível ao mesmo tempo. A dor do abandono é sempre descomunal para quem a sente, ainda mais quando se refere a um de seus pais. A gente se pergunta "por que eu?" e se culpa por algo que não fez. E talvez a culpa continue, até que outro motivo para o tal sumiço seja atribuído comprovadamente no lugar da nossa singela existência.

— Será que as nossas mães são tão chatas assim para terem sido abandonadas? Ou foi a gente mesmo? "Nossa, que bebê feio! Não vou assumir a paternidade disso aqui!" — Brincou, arrancando de mim uma gargalhada em meio ao desalento daquele assunto.

— Ah, eu acho que não. Sabe, nós dois brigamos muito com elas, mas... sei lá. Elas têm gênio forte. Só por terem nos criado sozinhas, já são incríveis. Quem poderia abandonar uma mulher que é disposta a fazer isso?

— Ou que se viu obrigada a isso. — Disse seriamente, sem medir as palavras. Um momento de silêncio se seguiu até que ela continuasse, soando arrependida. — Olha, eu não sei. — Sentou-se no sofá, virada para frente novamente. — Quer dizer... a gente não sabe o que aconteceu. E é triste pensar nos motivos quando elas mesmas não querem falar.

— Eu prefiro não culpa-las, sabe? Já deve ter sido difícil o suficiente criar a gente sem os pais. Ainda mais sua mãe, com a Melanie também.

— Não estou culpando elas, mas poderiam ao menos se abrir mais sobre isso. — Argumentou, parecendo calma e decidida. Madura. Naquele momento, eu a admirei. Compreendia tudo o que era e como eu gostava, sem tirar nem pôr. Do jeito que era. Só por ser.

— Eu sei que é difícil entender. Já desisti. Não vou martirizar minha mãe e a mim mesmo com esse assunto. — Tranquilizei-a, fazendo-a voltar à posição anterior, igual a minha. — Até agora, nós vivemos muito bem sem eles, não foi? Vai ser assim a nossa vida toda.

Sam me fitou por alguns instantes, hesitante, até abrir um largo sorriso sem dentes. Suas sobrancelhas ainda estavam cerradas e eu sabia que seu coração palpitava pelos pensamentos que rondavam sua mente. Se perguntava, internamente, se conseguiria fazer tudo o que eu dizia e isso era mais que óbvio através da sua expressão. Eu conseguia interpretá-la como a coisa que mais sabia fazer na vida. Não como se fosse previsível — Sam, definitivamente, não é. Mas como se a conhecesse bem o suficiente para tanto.

— Vamos ver um filme? — Sugeriu num sussurro, com a voz lânguida.

— Vamos. — Concordei, sorrindo, tentando contagia-la. Conseguindo.

Ela se levantou, pegou os pratos e copos sujos e os levou até a cozinha. Ao voltar, revirou uma gaveta na estante da sala até encontrar o controle remoto, ligou a televisão e apagou a luz. Entrou no quarto da mãe e voltou de lá com cinco almofadas fofinhas. Deu-me duas para as costas e colocou as outras três entre nós dois, onde ficou escorada com o braço e alcançou meu ombro com a cabeça. O relógio da TV marcava uma e dezenove da manhã e, embora muita coisa me preocupasse, naquele momento, eu não queria estar em qualquer outro lugar senão ali.

De repente, ouvimos o barulho da chave em contato com a fechadura da porta. Antes que ela tivesse qualquer reação além de me olhar apavorada, Melanie entrou na casa.

— Não acende a luz! — Gritou Sam erguendo o braço, tirando minhas pernas de cima da mesa de centro e deitando-me em seu colo.

— Por que não? — Perguntou sua irmã.

— Tô aqui há muito tempo com ela apagada. E você já vai subir de qualquer forma.

— Ok.

— Aliás, onde esteve até agora? — Questionou de forma autoritária, enquanto colocava uma das mãos na minha boca para evitar que eu falasse alguma coisa e fosse descoberto.

— No cinema. Depois eu e o pessoal fomos pra uma festinha. Relaxa, porque eu avisei a mamãe.

— Onde a Pam se meteu?

— Não sei, mas deve estar com o namorado. — Disse, incerta. — Como foi o baile?

— Legal.

— Pra já estar aí vendo filminho sozinha, deve ter chegado cedo. Então significa que...

— Ah, garota! Vai dormir! — Ordenou, irada, atirando uma das almofadas na irmã. Em resposta, ela apenas riu e provavelmente seguiu escada acima logo em seguida, visto que poucos segundos depois Sam me permitiu sentar novamente.

Ela se levantou sem dizer nada e pegou a almofada que há pouco arremessara na própria gêmea. Logo, já estávamos naquela mesma posição de antes da Melanie chegar.

— Tem certeza que ela não vai aparecer aqui de novo e me ver?

— Duvido. Deve estar bem cansada e vai cair morta na cama sem fazer um lanchinho se quer antes. — Certificou-me, enquanto rolava o controle pela lista de filmes da Netflix. — Tudo bem que dormir é sagrado, mas comer também é. Não sei como conseguem.

— Espero que não apareça mesmo...

— Não pense que só porque está sem camisa ela vai te ver e cair em cima de você feito leão atrás de carne, garanhão.

— Tem certeza? — Repeti. — Se quiser, eu vou embora.

— Não vou deixar você ir embora assim. — Falou decidida.

— Então como e quando eu vou?

— Vamos assistir um filme. Se minha mãe não chegar pra te levar até o final, a gente liga pra sua e ela vem te buscar.

— Ela já deve estar louca uma hora dessas...

— Relaxa! Ela ainda deve pensar que você está na festa.

— Tem noção da bronca que eu vou levar quando aparecer assim, todo ferrado em casa?

— Tenho. — Confirmou, contendo um riso cínico. — É uma pena, mas foi por uma boa causa. — Após um segundo ainda segurando os dentes dentro da boca, perguntou: — Filme?

Assenti, preocupado, enquanto Sam escolhia o filme sozinha. Ela não me consultou, nem ao menos perguntando uma sugestão de gênero e isso me irritou no começo, mas por pouco tempo, uma vez que não tive tempo de protestar até achar sua autoridade engraçada. Porque era assim que ela iria agir. A casa era dela, a televisão também e a Netflix mais ainda. Eu só tinha que sentar e concordar.

— Antes que você reclame, não pedi sua opinião porque sabia que só ia querer ver coisas nerds.

— Já me conformei disso.

— Muito bem. Não quero nenhum filme daqui, vou dar uma olhada na televisão.

Sam passava os canais rapidamente sem nem mesmo esperar para ver a programação, até que parou em um de repente. O filme se chamava "Silver Linings Playbook" (BR: O Lado Bom da Vida), um romance meio cômico e meio dramático, que havia acabado de começar. Ela não falou nada e eu também não, embora quisesse comentar que fora inspirado em um livro só pra parecer que sabia alguma coisa.

Apenas assistimos, rindo ou comentando qualquer coisa vez ou outra, com minha pernas estiradas na mesa de centro e as dela num espacinho do sofá. Com sua cabeça tocando meu ombro e a minha tocando a dela. Como se fosse algo recorrente, mas não era. E a gente poderia se sentir culpado, mas não se sentia.

Perto do final do filme, com aquela típica incerteza envolvendo o casal central da trama, já não falávamos mais nada há um bom tempo. Sam estava concentrada na cena.

"Eu amo você", disse Bradley Cooper, cujo nome do personagem não me lembro. "Soube no minuto em que conheci você. Desculpe se demorou muito para eu perceber." ♡

Era uma boa obra. Não a toa fora indicada ao Oscar e tivera sucesso nas bilheterias por todo o mundo. Mas mais do que isso, me fez pensar na pessoa com quem eu a assitia, bem ao meu lado.

Os protagonistas tinham alguns problemas psicológicos, e um entendia ao outro. Não que eu e Sam tivéssemos, mas nossa compreensão, também mútua, me parecia tão especial quanto a das personagens.

Quase três da manhã. Ainda estávamos estirados no sofá, calados, meio entretidos com os comerciais da televisão. Sam abaixou o volume e se sentou do mesmo jeito que eu fazia.

— Gostou do filme? — Perguntei de início, falando baixo para não chamar atenção de Melanie caso ainda estivesse acordada.

— Sim. — Ela sorriu. — E você?

— Também. — Admiti, virando-me para ela e observando-a até que me correspondesse e eu pudesse continuar. — Obrigada pelos curativos.

— Oh... — Disse com certo espanto, meio encolhida. — Era o mínimo que eu poderia fazer.

— Pelo quê?

— Pela briga. — Mais um momento de silêncio se seguiu, durante o qual Sam parecia selecionar com cuidado a próxima coisa que diria. Quando voltou a falar, reconheci que o fez muito bem. — Por ter me protegido.

— Ah, sim... — Expressei, pigarreando, orgulhoso e envergonhado ao mesmo tempo. — Você também... meio que me protegeu. Sabe, cuidando de mim. Mesmo que ainda de uma forma meio agressiva.

— É. — Concordou enquanto ríamos ao mesmo tempo. Um segundo depois, já estava séria de novo. — Acho que é isso que a gente faz. Protege um ao outro.

— Parece que sim. — Assenti, movendo os ombros e as sobrancelhas para cima. Os lábios também, formando um sorriso. — Como será que o John está agora? Aposto que deixei um dos olhos dele roxo.

— Não quero pensar nisso. — Enunciou, aflita. — Freddie, querendo ou não, eu o traí. Não é certo, por pior que ele tenha sido pra mim.

— É como se vocês ficassem... quites? — Comentei, tentando aliviar a situação.

— Não. — Respondeu nervosa. — É como se eu tivesse feito tão mal pra ele quanto ele fez pra mim.

— Não pense assim. Ele não tentaria mudar você se gostasse realmente. Então, não tem direito de se zangar com a gente por... você sabe.

— Ok. — Murmurou como se concordasse, mas eu sabia o quanto ainda pensaria nisso pelos próximos dias. Alguns instantes depois, ela voltou a me olhar com a expressão mais suave. — É, você ainda está semi-nu. Vou buscar uma camiseta.

Sam correu até o quarto da mãe e eu para a cozinha. Estava com fome de novo, mas não queria as comidas adormecidas da geladeira dela, então fui fuçar outros lugares. Queria encontrar alguma coisa antes que a Puckett voltasse e me impedisse, quando minha pressa se voltou contra mim e eu bati com a testa em uma das portas do armário. Mais especificamente, bem em cima do corte acima da sobrancelha.

— Droga! — Gritei enquanto colocava uma mão na cabeça e com a outra me escorava na mesa.

— O que foi? — Perguntou a loira, alarmada, já de volta ao cômodo com a camiseta.

— Eu bati a testa no armário.

— Mas é um Freddiota mesmo. — Vociferou, colocando a peça de roupa no ombro e tirando minha mão da testa para vê-la. -Está sangrando.

— Ah, não. — Choraminguei enquanto ela pegava seu kit em uma gaveta e já me puxava de volta para o sofá da sala, onde nos sentamos frente a frente.

— Calma. — Pediu enquanto puxava o band-aid ensanguentado e eu gemia de dor. — Eu vou amordaçar você se não calar a boca! A Melanie pode acordar e vir aqui.

— Tudo bem, mas você também poderia ser menos agressiva!

— E você, menos curioso.

Fiz a expressão e o silêncio de uma criança birrenta e apenas esperei que Sam terminasse com aquilo de uma vez. O machucado voltou a arder e doía tanto que conseguia sentir meu coração pulsar através dele. Ela limpou com mais cuidado que da outra vez, mas dessa trocou o band-aid por uma gaze com esparadrapo, então deduzi que o corte aumentara.

— Pronto. — Avisou-me enquanto sorria e guardava as coisas na caixa em cima da mesa de centro da sala.

— Obrigada. De novo. — Agradeci, encantado com a forma como ela conseguiu ser tão cuidadosa. Duas vezes. Num mesmo dia.

— Eu nunca imaginei que um dia você fosse brigar na escola, como um bad boy. Ainda mais por mim. — Comentou, num certo tom de deboche.

— Nem eu. — Tive de admitir. — Mas o que eu não faço por você, não é? Apanhar por quem um dia já me bateu.

— Muito nobre da sua parte, Fredward.

— É bom que reconheça, Samantha.

— Seria até estranho se não aproveitasse sua atual forma física.

— Como assim? — Perguntei num tom presunçoso.

— Você tem feito umas atividades físicas, né? Parece forte agora. Não mais que eu, mas parece.

— Só tenho feito uns abdominais, levantado uns sacos de arroz... nada demais. — Falei enquanto flexionava o braço e fazia umas expressões cômicas.

— Engraçadinho. — Sam deu uma risada junto a mim antes que nos calássemos de novo. Continuei com os olhos em cima dela como se os tivesse perdido ali, enquanto percebia que ela evitava fazer o mesmo.

O silêncio que fazia não era constrangedor, mas acolhedor. Não havia pressão alguma para falar qualquer coisa — pelo contrário. Eu poderia virar o dia ali, apenas contemplando-a. Mesmo que eu fosse o único.

Certo tempo depois, decidi que já era o suficiente. Se até aquele momento nenhum avanço fora feito, era hora de ir embora. Eu entendia o meu tempo e o dela, mas acima de tudo, o nosso. Uma combinação dos dois. Lento e duradouro.

Até que Sam decidiu que a urgência também fazia parte.

— Bom, acho que eu vou nessa. — Falei, já de pé, quando Sam se levantou com certa afobação. Senti que ela queria me impedir, mas só percebi um instante depois que não seria através de palavras.

— Espera. Eu só...

O restante das suas palavras engasgaram no meio da garganta, e ela pareceu tê-las engolido. Meu coração já batia desconforme pela nossa proximidade, quando o senti parar de vez no momento em que Sam ergueu as mãos para segurar meu rosto. Ela me puxou para perto, e conforme o fazia, consegui sentir a mansidão que emanava de seus movimentos. Como ansiei desdo o início da noite, ela grudou os lábios nos meus, pressionando-os delicadamente.

A princípio não soube o que fazer. Estava extasiado. Quando consegui voltar a mim — ou sair de uma vez por todas -, as pontas dos meus dedos peregrinaram desde as suas bochechas até a nuca. Instintivamente, ela agarrou minha cintura e nos deixou próximos o suficiente para sentirmos o calor um do outro. Mais uma vez unimos nossas bocas, dessa vez num beijo nada casto. Sam chupava minha língua vigorosamente enquanto eu ditava um ritmo lento e intenso. Suas mãos percorrendo meu tórax exposto me faziam estremecer enquanto eu mordia seu lábio inferior e o beijava ligeiramente, lhe arrancando um gemido baixo, mas que não passou despercebido.

As luzes ainda estavam apagadas e a única coisa que iluminava o cômodo era a televisão ligada. De qualquer forma, conseguia distinguir o sorriso tímido que saía pela boca de Sam e seus olhos vigilantes aos meus. Só precisávamos disso.

Ela se sentou, encostando-se no braço do sofá. Me tomou pelos quadris, colocando-me entre suas pernas. Apoiei-me com as mãos também no braço do sofá e me abaixei para alcançá-la. Sentia seu perfume exagerado, sua respiração descompassada e som prazeroso da sua falta de palavras. Lhe dei um selinhos e fiz uma trilha, passando por seu pescoço até sua clavícula saliente. Ela tremia, ria e sentia cócegas ao mesmo tempo, se contorcendo de prazer e gargalhada. A encarei por mais um instante, até que voltasse a ficar séria. Ela segurava meus pulsos e, quando eu quase a alcançava novamente, me empurrou para baixo. Dessa vez, ela ficou por cima.

Sam estava ofegante, mas a convicção do que fazia estampava seus olhos. Afastou os cabelos colocando-os para trás, acariciou os meus e mais um beijo se seguiu. Ao final desse, meus lábios foram mordidos. Quando soltei um "ai" pela dor, ela riu como se isso a satisfizesse. Em seguida, suspirou na curva do meu pescoço, onde escondeu o rosto. Seu corpo roçava no meu ao mesmo tempo em que ela cheirava minha nuca e eu a segurava pela cintura.

Não sabia o que viria em seguida, — se avançaríamos mais -, e acho que ela também não. Continuar, segundo nossos instintos e desejos, nos faria descobrir. Não sabia o quanto queria aquele momento até que ele acontecesse, enquanto nos desvendávamos. Enquanto éramos, finalmente, eu e ela. Nós dois. Dando significado a todos os acontecimentos precedentes a este. Confirmando o que eles nutriram por tanto tempo.

Até que fomos interrompidos. Mais uma vez, como sempre. Qual é, Deus? Por que sempre a gente? Será que as pessoas adivinham que estamos nos entendendo e resolvem atrapalhar só pra ter o gosto da nossa insatisfação?

Praticamente empurrei Sam de cima de mim quando nos levantamos, assustados. Alguém buzinava incessantemente em frente à casa e, antes que trocássemos uma palavra, ouvimos batidas na porta.

— Quem será? — Sussurrei para a garota assustada a minha frente.

— Eu não sei! — Vociferou de volta, estendendo a camiseta que pegara para mim mais cedo. — Veste.

Assim que peguei a peça e a coloquei, Sam acendeu a luz e abriu a porta.

— Cadê o Freddie? Cadê meu filho?! Eu sei que ele está aqui! — E essa era a minha mãe, perturbada e histérica, segurando sua bolsa colada ao corpo enquanto passava por cima da Puckett, invadindo sua casa.

— Oi pra você também, Marisa. — Disse fechando a porta. — Pensei que fosse mais educada.

— São quase quatro da manhã, meu filho desaparece e você espera que eu seja educada? — Proferia ela, ainda abalada, com trejeitos de um desvairado. — Onde ele está?

— Aqui, mãe. — Falei erguendo o braço, quando seus olhos arregalados quase saltaram da órbita ao me ver e veio até mim com a expressão de quem acabara de presenciar um milagre.

— Oh, meu Deus, você está vivo! — Emocionava-se enquanto me abraçava forte e eu não podia evitar uma risada ao corresponde-la. — Pode dizer, Freddinho. Essa menor infratora sequestrou você, não foi?

— Não...

— Te deu uma surra? Que curativo é esse, Fredward Benson?

— Não, mãe! Calma. Eu bati a testa no armário, foi só isso.

— E por que não foi pra casa?

— Estava no baile, chegamos agora há pouco. Já estava indo.

— Ao menos desse notícias! — Reclamou num tom desesperado, batendo o pé no chão.

— Estou sem celular, você sabe.

— Cadê sua camisa? Que trapos são esses?

— Eu... er, eu... manchei ela com poncho e a Sam colocou pra lavar.

— Como você sabia que ele estava aqui? — Perguntou a Puckett.

— Esqueceu que ele tem um chip implantado na cabeça que me permite localiza-lo em qualquer lugar?

— Prefiro acreditar que você é uma bruxa.

— Sam! — Eu a repreendi antes que minha mãe respondesse.

— Vamos logo pra casa, filinho. Lá eu farei um curativo melhor para o seu machucado. — Disse enquanto me arrastava pela mão em direção à porta.

Sem escolha, eu apenas segui logo atrás dela pelo cômodo, enquanto tentava decifrar a expressão indiferente da garota parada no meio dele. Quando já estávamos fora da casa, apenas um sorriso meu, de longe, a fez mudar o semblante. Eu sorria e ela também. Por fora e por dentro. Sentado no carro da minha mãe enquanto ela ligava o motor, dava partida e tagarelava broncas e insultos, eu só conseguia pensar no filme que havíamos assistido e o golpe de sorte que tivemos em vê-lo aquela noite.

Nós dois, assim como as personagens, nos entendiamos nas nossas loucuras e nos nossos traumas. Também brigávamos e nos reconciliávamos, tentávamos fugir do que estava em todo o lugar, não importava onde estivéssemos, porque estava dentro da gente. Também levamos, portanto, tempo demais para perceber algo que já acontecia desde que nos conhecíamos.

Amor.

"Eu amo você. Soube no minuto em que conheci você. Desculpe se demorou muito para eu perceber." ♡ (Silver Linings Playbook)

Notas finais
Percebem que essa é a PRIMEIRA vez que o FREDDIE admite pra si mesmo que AMA a SAM? Que não é só mais uma INCÓGNITA? Pois é. Sempre quis tocar nesse assunto dos pais deles e como um pode entender o outro sobre isso. Gostei. Gostaram? Não tenho previsões para os próximos porque ainda nem comecei a escrever dhfhjdgk Se tudo continuar tranquilo e favorável, eu posto logo. 5.000 palavras não foi mole não, meus irmão!