Anyone Else But You
26 Nowhere Else
Notas iniciais
PDV Sam.
Eu não sou a maior fã de clichês, nunca fui e nunca serei, mas numa dessas madrugadas que inevitavelmente a gente simplesmente para pra analisar nossas vidas, os questionamentos mais ultrapassados vem às nossas mentes.
Não que o meu dilema fosse o pior do mundo, pelo contrário. Eu já havia enfrentado coisas piores. Mas naquele momento eu não conseguia me concentrar em outra coisa.
Se preocupar com algum problema é um clichê? Não. Eu acho. Mas... meio clichê era o que me preocupava. Não era a questão que movia a humanidade, não era nada que tivesse importância para alguém além de mim. Era meio egoísta, na verdade.
É que, quando a gente para pra pensar, coisas assustadoras acontecem. Se não nos controlamos, acabamos virando reféns de nós mesmos e das próprias situações que criamos, e pior, se não tomamos cuidado, acabamos transferindo-as para a vida real.
Eu já não sabia distinguir muito bem o que era realidade ou coisa da minha cabeça. Se tinha acontecido ou se eu queria que tivesse. Alguns flashs de memória — ou de alucinação — acendiam diante de mim. Coisas que eu poderia ter feito ou dito, mas não. Que ironia.
Pode não fazer muito sentido o que eu acabei de dizer, mas minhas frases só são o exato reflexo do que quer que esteja se passando dentro de mim. E eu não sei o que é. Mas juro que te conto quando souber.
Por conta dessa novidade nas minhas noites e madrugadas, não consegui dormir como costumava fazer. Eu, Sam Puckett, dormindo mal. Oh, a ironia de novo. Talvez se eu fosse à aula da Briggs isso passasse rapidinho.
Algo que jamais mudaria era a minha fome. Nada faria com que ela desaparecesse. Talvez apenas aumentasse cada dia mais. Então eu comi até dizer chega antes de ser tomada por uma necessidade descomunal de ir ao Bushwell Plaza imediatamente. E assim eu fiz.
Cheguei depois de alguns minutos caminhando e comendo, tentando pensar no gosto de qualquer comida para evitar as armadilhas que eu pregava em mim mesma. Peguei o elevador e parei no corredor sem saber o que eu tinha ido fazer lá. E, adivinhe só: nada. Mais um minuto ou dois refletindo e eu ficaria louca então, involuntariamente, me enfiei dentro do apartamento 8-D.
A porta já estava aberta, o que me poupou de um grande esforço. Fechei-a rapidamente atrás de mim e olhei para a frente onde Freddie estava, sentado no sofá ainda de pijamas.
– Sam! — Ele sussurrou assustado enquanto levantava.
– Oi?
– O que você está fazendo aqui?
– Eu...
– Shh! — Ele veio até mim e segurou meu braço com uma das mãos enquanto a outra me silenciava. — Fala baixo porque minha mãe está aqui.
– Ok. — Respondi falando tão baixo quanto ele. — Vamos logo pro seu quarto estudar. — Me soltei dele e fui correndo em direção à escada.
– Ei! — Ele veio atrás de mim rápido o suficiente para me alcançar antes que eu subisse o primeiro degrau. — Você sabe que dia é hoje?
– Sei. — Menti.
– Qual? — Ele me soltou e cruzou os braços mas de certa forma eu ainda me sentia presa por seu olhar.
– Hoje é...
– Sábado. — Ele falou impaciente. — A gente não estuda no sábado.
– Sério?
– Sério! Por que você está aqui?
– Eu não sei. — Falei envergonhada tentando evitar que ele me olhasse.
– Melhor você... — Ele começou a frase mas não a concluiu, interrompido pelo barulho da porta do banheiro que se abria. — É a minha mãe!
– O que vamos fazer? — Sussurrei desesperada.
– Sobe! — Depois de um instante de desespero e impotência, estranha e surpreendentemente ele me empurrou escada acima. Fomos até o quarto dele rapidamente onde nos trancamos.
– Freddie? — A mãe dele gritava do andar debaixo.
– Sim, mãe! — Ele respondeu ainda ofegante pelo susto e pela corrida.
– Você não terminou seu café! — Dessa vez, sua voz parecia estar ainda mais próxima.
– Eu não quero mais! — Gritou de volta.
– Tem certeza, Freddie? Você precisa de uma alimentação equilibrada até mesmo por conta do seu intestino, ou...
– Tudo bem, mãe! — Ele corou de vergonha e eu não pude evitar uma risada. — Mas eu não quero mais!
– Freddie? — Ela deu dois toques na porta. — Está tudo bem ai?
– Sim, por que não estaria?
– Porque você subiu correndo e se trancou ai dentro. Deixe-me entrar!
– Só um minuto. — Ele respondeu fazendo um sinal para que eu entrasse no banheiro e assim fiz. — Pois não? — Ouvi Freddie dizer depois de ouvir também o barulho da fechadura se abrindo.
– Você não quer vir hoje ao treino de esgrima? Já é daqui a pouco. — Marisa o convidou enquanto entrava no quarto.
– Não, mãe. Hoje não.
– Por que não, Freddward? — Questionou ela com a voz docemente decepcionada.
– Já vou começar a estudar para as provas, sabe, é o último bimestre e está mais complicado que os outros.
– Tudo bem, mas depois dos testes quero que volte a ir comigo.
– Sim, mãe. — Ele a garantiu, com certeza abraçando-a em seguida.
– Acho que já sei por que você não quer terminar seu café.
– Por quê?
– Eu tenho notado que, ultimamente, você têm comido por dois. — Marisa respondeu rindo.
– O quê?
– Principalmente bacon e presunto, coisas que eu já não gosto muito de comprar mas que você têm comido demais. — Continuou ela, provavelmente se referindo à comida que, na verdade, quem vinha comendo era eu.
– Oh! Claro. Você tem razão. — Ele admitiu, porém mentindo, com a voz falha devido à risada que forçava. — Eu gosto muito, mas a senhora compra tão pouco.
– Você têm que se controlar, Freddie. Estou de olho no que anda comendo. — Ela disse seriamente mas em seguida ouvi o som de mais risadas.
– Tudo bem, Sra Benson. Eu vou me controlar. — Freddie terminou, abrindo a porta para que sua mãe saísse e trancando-a logo depois. — Pode sair. — Ele falou se aproximando do banheiro.
– Então quer dizer que alguém aqui tem alguns problemas intestinais? — Falei indo em direção a ele e esfregando sua barriga.
– Não! — Ele disse fugindo das minhas mãos. — É que eu procuro me alimentar de uma forma saudável.
– Sei. — Falei me jogando em sua cama. Eu já comentei o quanto ela é magnífica? Se não, agora o faço. Que cama maravilhosa.
– Ela está achando que estou comendo por dois porque não sabe que você está aqui também quase todo dia acabando com quase tudo o que há no nosso armário.
– Relaxa, acho que você conseguiu enrolar ela direitinho. Sem ofensas.
– Não gosto desses termos. É a minha mãe. — Ele se sentou na cama próximo aos meus pés. — Se ela descobrir, vai me matar, mas por enquanto não parece estar tão desconfiada. Acho que as piores ameaças seriam Carly e John. Será que eles não acham estranho quando a gente some e reaparece juntos toda hora?
– Também não quero que eles descubram, mas se isso acabar acontecendo, não pode ser tão grave. Estamos apenas estudando, certo?
– Você tem razão. — Ele parou por um momento até se voltar a mim novamente com uma expressão curiosa. — Mas se a gente está só estudando e no sábado a gente não estuda, o que você está fazendo aqui hoje?
Por um instante, mergulhei no mais profundo do meu ser em busca de uma resposta para a pergunta que me fizera, mas sem precisar de muito esforço, me dei conta de que nem eu mesma sabia. Eu não tinha um único motivo plausível para ter me enfiado naquele apartamento às dez horas da manhã de um sábado. Eu poderia estar beijando meu namorado, conversando com minha melhor amiga ou fazendo algo ilegal com minha mãe como toda família normal. Mas não. Eu estava foragida no apartamento de uma pessoa cuja existência fora completamente irrelevante para mim há um bom tempo e me custava acreditar que vinha se tornando alguém importante. Sem ao menos tentar; sem que quisesse; sem que pedisse; ou sem que eu soubesse. Apenas tinha.
– Eu não sei.
– Han. — Ele arfou com um belo sorriso confuso. — Você simplesmente não tinha mais o que fazer?
– Talvez eu tivesse.
– E por que não foi fazer?
– Você preferia que eu fosse?
– Não sei, eu só não te esperava aqui hoje.
– Eu também não me esperava aqui hoje. — Ele não me respondeu, apenas me olhou fixamente como que tentava traduzir minhas palavras através de minha expressão.
– A Carly não está em casa? — Perguntou um instante depois como quem acabara de sair de um transe.
– Não. — Respondi com convicção mas não sabia realmente, uma vez que não tinha ao menos me dado ao trabalho de verificar, já entrando direto no 8-D.
– E o John?
– Não sei. — Respondi dando de ombros.
– Vocês não marcaram nada pra hoje?
– Não.
– Por quê?
– Porque eu não quis.
– Por quê?
– Ei! Quantas perguntas. — Protestei.
– Tudo bem. — Ele respirou fundo. — O que quer fazer então ao invés de me responder?
– Nada.
– Nada? Não quer comer alguma coisa, dar uma volta por ai... nada?
– Nada. — Falei de imediato, não me importando com o que era. Apenas dizia as palavras na medida com que iam surgindo.
– Então você veio aqui pra nada?
– Eu não sei para que eu vim.
– Certo. — Ele se ajeitou na cama, cruzando as pernas. — Eu acho que você não está muito bem.
– Como você sabe?
– Não é preciso ser nenhum gênio pra perceber que, pra você ter vindo num sábado de manhã pra casa da pessoa que mais detesta, deve estar muito mal mesmo.
– Que seja. — Fiquei irritada porque 1. Ele tinha razão e 2. Mesmo sendo fácil ver que eu não estava bem, ele o fazia de um modo particular e cauteloso que me encorajava para tentar descobrir o que me incomodava já que de alguma forma eu teria a garantia de sua ajuda
– Esse semana você só veio três dias e estava meio avoada. Aconteceu alguma coisa?
– Eu não sei.
– Caramba, você realmente não sabe de nada. — Ele riu um pouco. — Tudo bem... por que não começa falando um pouco dessa última semana que se passou?
– Tudo bem. — Assenti. — Bom... semana passada eu fui a um restaurante francês com o John e...
– Ai vamos nós. — Ele me interrompeu.
– O que foi?
– Você começou a ficar assim depois desse dia. Não deu as caras lá na Carly domingo, segunda faltou na escola e só veio aqui em casa terça, quarta e sexta.
– E dai?
– E daí que você também não parece estar num mar de rosas com o John mesmo que ele não saia do seu pé. — Ele cruzou os braços. — O que foi dessa vez?
– Eu não sei. Se eu soubesse, já tinha resolvido, até porque, qual foi a última vez que você me viu assim?
– Acho que... nunca.
– Isso ai.
– Então me diz como foi o jantar. Talvez eu possa te ajudar.
Levantei meus olhos rapidamente ao ouvir sua última sentença. Meu coração estava num certo descompasso cada vez que continuávamos a nos encarar sem cessar.
Eu não estava rejeitando sua ajuda, pelo contrário, me impressionei tanto com a ideia que fiquei sem ter o que responder.
– Tudo bem. — Fitei o chão por um instante perguntando a mim mesma "que diabos você está fazendo?" na tentativa falha de evitar que ele me visse, assustada pela intensidade que vinha notando naquele par de olhos. — O pai dele foi me buscar lá em casa de carro e nós jantamos em um restaurante francês.
– Francês? — Perguntou debochado.
– Sim, e era um lugar muito chique e caro.
– E você estava vestida com...?
– Um vestido.
– Um vestido. — Ele repetiu com uma risada.
– Não estou vendo a graça.
– Freddward! — O grito estrondoso de Marisa o fez dar um pulo da cama alarmado. — Eu já vou! Volto às cinco da tarde.
– Ok, mãe. Tchau! — Ele gritou de volta permanecendo imóvel até ter certeza de que ela havia saído realmente.
– Continuando. — Falei ainda estressada enquanto ele se sentava na cama novamente. — Nós chegamos lá e eu não sabia nem que o restaurante era francês.
– Sim. — Ele assentiu, tentando não rir.
– Então... — Hesitei por um instante e me senti ridícula por estar ali, contando aquilo justamente para ele. — Quer saber, eu não sei o que eu estou fazendo aqui nem por que eu estou te contando isso. — Me levantei indo em direção à porta.
– Você que sabe. — Sem se levantar, apenas se virou para me olhar.
Fiquei surpresa pela rejeição que eu tinha acabado de sofrer. Ele não havia se movido de forma alguma ou dito qualquer coisa para impedir minha partida e aquilo me parecia algo pior do que qualquer outra coisa que me afligisse. Naquele momento eu era uma aflita rejeitada.
Voltei a odiá-lo por ter sido tão negligente num momento que sabia que mais ninguém além dele poderia me ajudar, então resolvi ir embora de uma vez como havia insinuado, não sem antes dar um grunhido e bater a porta de seu quarto com todas as forças que eu pudesse reunir.
PFV Freddie.
Eu realmente não esperava que Sam saísse daquela maneira. Ter aparecido no meu apartamento daquele jeito já era uma grande coisa, então qualquer coisa que me dissesse ali não poderia ser mais grave que isso, apenas consequência.
Resolvi descer as escadas e continuar assistindo à televisão. Continuei pensando no que Sam diria que aconteceu naquele jantar e se a contribuição de John para a forma com que ela estava se sentindo era enorme ou gigantesca. Consegui segurar minha curiosidade porque sabia que dentro de dez minutos ou menos eu já estaria por dentro de tudo.
Dito e feito: Ela abriu a porta de meu apartamento bruscamente apenas quatro minutos depois de ter ido embora, berrando o comecinho de um discurso de ódio contra mim a minha última atitude.
– Olha aqui, seu nerdzinho idiota, se você está pensan...
– Sabia que você quase acabou com a porta do meu quarto? Eu poderia cobrar uma nova.
– E isso é tudo com o que você se importa agora?
– Também me importo com os 7 minutos que você demorou pra voltar aqui. — Fui até a direção dela e me aproveitando da sua falta de reação, a puxei para dentro do apartamento e tranquei a porta. — Surpreendente.
– Surpreendente é a surra que você está merecendo.
– Eu não sei por que você está tão brava se quem quase ficou sem porta fui eu.
– Você age como um idiota ignorando o que eu digo e não posso estar brava?
– Pode. — Me sentei no braço do sofá ficando de frente para a loira ainda em pé, próxima à porta.
– Posso?! — Ela perguntou indignada.
– Você disse que ia embora. Quem sou eu pra impedir?
– Você deveria pelo menos insistir.
– Então você só fez uma ceninha?
– Não! — Ela enrubesceu. — Eu só...
– Eu sabia que você ia voltar.
Minha frase poderia ser interpretada das maneiras mais variadas, mas eu não me importava em esclarece-la, e pra ser sincero, mesmo que eu quisesse, não saberia o que fazer já que nem eu mesmo conhecia minhas próprias intenções.
Ela me olhou, permanecendo estática e com os lábios meio abertos, provavelmente assustada.
– Já que você previu que eu voltaria, talvez possa prever também que agora eu vou embora de vez. — Ela se virou para a porta e começou a forçar a maçaneta.
– Eu já a tranquei justamente para essa segunda profecia não se cumprir. — Falei calmamente enquanto ainda a observava quase acabar com a fechadura.
Ela cessou os movimentos finalmente e suspirou ainda de costas para mim.
– Sam, eu sei que você não está bem e, estando lúcida ou não, veio parar aqui porque de alguma maneira sabe que eu posso te ajudar. — Minhas palavras foram como um puxão que a fizeram se virar de volta para mim imediatamente.
– Eu posso resolver isso sozinha.
– Já que está aqui, talvez não possa.
– E como você vai me ajudar?
– Comece me contando o que aconteceu sábado.
– Já que você faz tanta questão. — Sam deu um sorriso amarelo e se sentou no sofá, onde também me sentei de frente para ela. — Bom... eu já contei a parte que o restaurante era francês e eu nem sabia?
– Sim, mas isso foi relevante de alguma forma pra você ficar assim?
– Não. O problema foi a indignação do John sobre isso. Ele ficou bem irritado.
– Idiota.
Após ouvir a ofensa contra seu até então imaculado namorado, Sam poderia reagir da forma que sempre fazia: defende-lo disparando um xingamento pior sobre mim. Já era de praxe. Mas, estranhamente, não o fez. Não pareceu se incomodar e nem se esforçou para rebater. Simplesmente continuou a história como se assentisse.
– Ele achou um absurdo eu não saber francês. Passou a noite toda me fazendo comer coisas nojentas que eu não queria.
– E por que você deixou? Por acaso ele manda em você?
– Isso nunca! Eu aceitei porque gosto de comida e não queria dar uma sentença sobre os pratos antes de provar. — Ela deu uma pausa, me olhando. — O problema é que ele não queria só provar comidas diferentes. Ele queria uma pessoa difente.
– Em que sentido? — Perguntei cauteloso enquanto me aproximava dela.
– Ele queria que eu fosse mais sofisticada, que eu falasse mais baixo, que eu me comportasse melhor e fosse uma poliglota... e eu não sou.
E talvez o que John censurava na Sam, fizesse dela o que ela é. Seu excentrismo, sua diversão, suas maneiras e a falta delas. Não seria a Sam se não fosse assim. Isso era o que ela era.
– Você não precisa ser nada disso. — Tentei me manter calmo ao dizer para contrastar com a raiva que sentia realmente das atitudes ridículas que John tivera.
– Eu sei, mas... e se a gente acabar terminando?
– Então terminem. — Falei de imediato. — Se ele quer que seja o que não é, então ele não gosta de você de verdade.
Sam que me desculpasse, mas essa era a verdade e se ela não pensasse o mesmo, não teria tido a reação de conformismo que tivera. Mesmo que ainda insistisse mais por um tempo, eu sabia que concordava. Não havia uma linha de expressão em seu rosto que pudesse me provar o contrário. Nem um piscar de olhos. Eu sabia porque seu jeito me dizia. Eu sabia porque silenciosamente, ela gritava para mim. E eu não a deixaria sem resposta.
– Mas eu gosto dele. — Respondeu ela, sem a menor firmeza e convicção.
– Mas você não pode aceitar a forma com que ele censura todas as coisas que fazem você ser quem é. Talvez ele não goste da sua preguiça ou da sua fome exacerbada, mas isso não é tudo. Você é uma grande amiga, você é leal, você é bonita e... — Travei de repente no auge da frase que, de qualquer forma, já me faria resgatar mais oxigênio em breve por conta da euforia com que eu falava. Assustado com minhas próprias palavras, ofegante e começando a me arrepender, encarei a garota a minha frente que reagia da mesma forma, franzindo o cenho e arregalando os olhos.
– Bem, eu...
Ela travou assim como eu. Levei ainda algum tempo para afastar minhas últimas afirmações com outra coisa que fugisse totalmente delas.
– Você... você quer comer alguma coisa?
– Comer? Sim. Quer dizer... não, não quero nada. — Mentiu e pelo visto, muito mal.
– Tem certeza? Você nunca recusa comida.
– Sim. — Ela engoliu em seco e segurou a pose por mais um ou dois segundos. — Certo... vamos comer.
Me levantei rindo da recusa mentirosa de Sam à minha proposta que havia sido feita apenas com o objetivo de desviar a atenção do que eu acabara de dizer sobre ela. Aquilo evidentemente constrangeu não só a ela mas a mim também porque de forma alguma eu poderia imaginar que involuntariamente eu a caracterizaria daquele jeito. Foi uma surpresa para ela e uma maior ainda para mim. Quando na minha vida eu iria me imaginar adjetivando o demônio loiro daquele jeito? Nunca.
Mas parece que o nunca havia acabado de chegar. E eu não tinha dúvidas disso.
Na cozinha, enquanto preparava algo para comermos e Sam não aguentava esperar já abocanhando uma maçã, comecei a pensar em alguma maneira de contornar os efeitos do que eu havia dito já que ignorar seria impossível. Pensei também em outros assuntos pendentes sobre o John e quais outras coisas estúpidas ele teria feito com Sam no dia em que jantaram.
Como eu nunca consegui nada facilmente desde que me entendo por gente, também não seria dessa vez que em meia hora eu colocaria em questão anos de uma relação conturbada com uma garota extremamente diferente de mim e analisaria o que realmente sempre quisemos expressar em cada "eu te odeio."
Naquele momento, até sobre isso me vinham dúvidas, uma vez que eu tinha descoberto que não sabia nem o que pensava dela. E o que nos impediu de continuar? Minha mãe reaparecendo de repente.
– Sobe lá pro meu quarto e entra no banheiro! — Cochichei para Sam antes que minha mãe terminasse de abrir a porta e a visse comigo.
A loira saiu correndo escada acima numa rapidez impressionante junto com sua maçã.
– Por que voltou, Dona Marisa? — Perguntei ao vê-la, tentando esconder o susto que seu retorno me causara.
– Esqueci o documento do carro. — Ela disse, pegando-o de cima de uma das poltronas. — Tchau, filho.
Eu acenei com um sorriso e quando tive certeza de que ela já estava relativamente longe, subi até meu quarto atrás da Sam.
– Ei, já pode sair. — Falei enquanto ia até o banheiro mas não a vi lá dentro. — Puckett? — Voltei a olhar em meu quarto no corredor mas nada da garota.
Ela já tinha ido. Novamente me deixou sozinho com minhas dúvidas e com as dela também. E quanto mais demorasse para resolver essas confusões internas, mais intensas e bagunçadas elas ficariam.
Mas o único palpite que eu já nutria de forma inconsciente sobre a raiz desses problemas, dizia respeito a única pessoa que eu pensei que fosse me ajudar a resolve-los: Sam Puckett.
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