Notas iniciais
Trancados de novo........................ rs Gente, eu não sei fazer capítulos pequenos. Sério. Isso aqui deve ficar bem cansativo, mas não posso dividir mais ainda. Boa leitura e boa sorte. ♥

PDV Sam.

A batida forte da música estourava em contato com a parede, com os móveis e todos os outros convidados que ali estavam. Estes mesmos que não sei deixavam levar por ela como tanto sentiam a necessidade de demonstrar, mas simplesmente se remexiam de forma limitada, tentando não serem taxados como ridículos.

Meus músculos vibravam com a canção mas eu não movia um músculo sequer para que o resto de mim os acompanhassem. Acho até que respirava um pouco pesado e devagar demais pela blusa justa que salientava o que eu nem imaginava ter; ou pelo menos se fez pensar que tinha. A todo custo tentava esconder meu colo exposto mais do que o costume, curvando-me para frente e apoiando as mãos no joelho, tapando com o braço o que conseguisse tapar.

Meu tédio se confundia com sono vez ou outra, sintetizando assim a insônia que vinha me acometendo há dias. De certo, toda aquela produção não tivera serventia alguma para uma cara pálida como a minha que se portava pior que o defunto mais desanimado do submundo.

Mas não era lá que eu estava e sim no apartamento da minha melhor amiga celebrando o suposto recorde de audiência batido na última edição do nosso web show. Justamente aquele que me pareceu o pior de todos, tornando assim a coisa toda ainda mais esquisita. Errei algumas falas, esqueci outras e ao final não dei a mínima. Talvez o gosto dos nossos telespectadores apenas estivesse piorando junto com meu talento de apresentadora ou o sumiço do meu humor.

Spencer estava deslumbrante com Amy. Pareciam aqueles casais famosos que desfilam em red carpets pelos eventos musicais e cinematográficos. Vez ou outra apareciam para conversar, me chamar para a pista improvisada no meio do sala ou perguntar o que tanto me aquietava, tendo sempre como resposta a desculpa fajuta de que havia comido demais e por esse tal motivo não me sentia disposta a fazer nada.

Gibby, tive que admitir, também estava muito bem comparando suas costumeiras roupas do dia-a-dia. Tasha o acompanhava para onde fosse como se sofresse alguma ameaça grave que a obrigasse a ser tão devota ao namoradinho. Essa seria a única explicação.

Carly apostou no vestido e salto alto. Ainda queria entender, como um dos maiores mistérios da humanidade, de que maneira absurda garotas se equilibram naquela enorme ponta agoniante, desconfortável e dura. Minha amiga se virava muito bem, conseguindo caminhar por toda a casa, receber os convidados e, quando conseguisse, dançar. O que só foi possível quando Rude Boy tocou, o único momento que se viu desocupada de todas essas tarefas, inclusive me motivar a acompanhá-la.

Freddie, então... Freddie. Não estava nada diferente do que sempre fora. Quer dizer, aquela roupa tinha um quê a mais e talvez toda a situação já deixasse qualquer pessoa ali mais atraente, mas tudo que se referia a ele era diferente. Ele era diferente. Ele estava lindo. Ele era lindo. De qualquer lado, de qualquer ângulo; Com qualquer roupa ou qualquer penteado. Uma beleza que perdurava com meus olhos fechados. Uma beleza que eu não apenas via, mas sentia. Uma beleza que me amolecia até o último músculo que ainda assim não se movia pra dançar; nem pra onde precisava. Nem pra ele.

Shane e Wendy chegaram com mais duas ou três pessoas, sendo recepcionados por ele com um sorriso que anula qualquer um dos melhores adjetivos que possa receber. E como eu queria sair só pra chegar de novo e ser recebida do mesmo jeito...

Fiquei observando-o conversar perto da porta com todo o entusiasmo que tirava não sei da onde, conseguindo ser sempre melhor, com a pior pessoa ou no pior dia. Mais do que um encantamento, sentia uma profunda admiração pela sua forma de lidar com tudo de uma forma geral e o quanto aprendi durante todos os anos que se passaram, só me dando conta nos últimos meses.

Eu estava sentada em um dos bancos dispostos no balcão do computador, perto de uma tigela de doces variados, em sua maioria comidos apenas por mim. Ao se despedir brevemente dos amigos, Freddie se virou, e ter sido a primeira coisa encontrada por seus olhos me paralisou. Ele desfez o sorriso que exibia mas mesmo assim parecia satisfeito em ser observado, enquanto eu interrompia o caminho que mais uma bala fazia até minha boca. Permanecemos nesse jogo de pupilas dilatadas até que ele resolvesse colocar as mãos nos bolsos da calça que vestia as pernas que caminharam até mim a passos lentos. Eu ouvi a música parar e vi todo mundo ao nosso redor desaparecer a cada pisada contra o chão. Eu senti meu coração bater na garganta.

– E aí, Puckett. — Me cumprimentou, inclinando-se para frente discretamente.

– Oi. — Eu não senti minha voz atravessar a garganta por todos os efeitos anormais causados por sua proximidade, mas podia ser encoberta pela desculpa de que a música barulhenta não o deixou me ouvir.

– Tudo bem?

– Tudo, sim. — Respondi enquanto me apoiava no balcão. — E com você?

– Bem também. — Ele olhou ao redor e sorriu. Eu me senti péssima por imaginar que, ao contrário de mim, aquele diálogo esganado não lhe era constrangedor em nenhum nível apesar de todas as pendências que escondia... podendo vir a tona a qualquer momento. — Mas você parece meio dispersa. Está bem mesmo?

– Claro. — Forcei um sorriso, gesticulando com a mão. — Eu só não estou muito a fim de dançar, sabe? Comi algumas coisas que não caíram bem.

– Estranho. Sempre come tanto e nada acontece. — Observou franzindo o cenho, mas ainda sorrindo. — Mas você não precisa necessariamente dançar. Não tá afim de conversar com ninguém?

– Infelizmente já estou fazendo isso com você. — Mantendo a tradição de repulsa e o riso sarcástico, me defendi como podia. — Além do mais, o que eu vou conversar com eles? Quer dizer, já passou da meia noite e os interessantes devem começar a chegar agora enquanto os nerds já estão ocupando espaço desde cedo e... — Ele pigarreou me fazendo parar, mas mesmo assim não parecia incomodado. Quem sabe, conformado. — Ah, desculpe. Não quis ofender a raça.

– A raça? — Freddie riu. E como eu queria não ter visto ou ouvido o que me pareceu o melhor som ou a melhor visão. Estupidamente confortante e atraente. — Certo. Entendo você, mas ainda acho que não é desculpa.

– Não é você que insiste em me chamar de loira preguiçosa?

– Sim, mas pra questões mais relevantes. Tipo escola, por exemplo. Pra sair ou festejar você não costuma ser tão desanimada.

– Ah, eu acho que os papéis se inverteram esse ano.

– Como assim? — Aquela ruguinha de dúvida saltou no meio de sua testa e só me fez ter mais raiva ainda do quanto conseguia ficar adorável.

– Han. Você sabe. — Falei com obviedade, balançando a cabeça.

– Ahhh. — Ele arregalou os olhos e separou os lábios em surpresa após um longo instante pensativo. — Só pra confirmar, você está se referindo aos nossos estu...

– Shhh! — Eu o silenciei, colocando o dedo indicador em seus lábios e segurando seu queixo com o polegar. — Cala essa boca, Fredonho! Quer que alguém ouça e descubra?

– A música está alta, não vão nos ouvir. — Justificou, irritado, afastando minha mão. — E, pelo que eu vejo, não tem ninguém aqui ao redor interessado na nossa conversa.

– Que seja. As paredes têm ouvidos. E aqui tem um monte de gente que tem também.

– Hey! — Berrou uma voz atrás de mim ao mesmo tempo que um soco era dado no balcão. Gritei pelo susto, me levantando num pulo e cambaleando até ficar ao lado de Freddie.

– Que droga, Spencer! Nunca mais faça isso! — Exigi com raiva, levantando um dedo no ar em direção ao seu rosto.

– Relaxa, Sam. — Respondeu apoiando os cotovelos próximos à tigela de doces enquanto ria.

– Ta aí um ponto fraco dela. — Freddie comentou enquanto me encarava.

– Pois é. Não é vencida na força mas é vencida no susto.

– Ei, vocês dois! Chega. Se eu quiser me vingar de uma forma ainda pior, eu me vingo.

– Tudo bem. — Freddie ergueu as mãos no ar, recuando. — Não tá mais aqui quem falou.

– Pensei que essa festa seria mais animada pra um bando de adolescente na puberdade. — Disse o mais velho da conversa parecendo desolado.

– Não tem mais ninguém aqui na puberdade, o pessoal já está bem grandinho. — Freddie respondeu.

– Exceto pelo amadurecimento tardio de alguns nerds por aqui que continuam baixinhos. — Completei.

– Com licença?! — Ele pigarreou, estufando o peito e me encarando.

– Não me referi a você, Fredduiche. — Justifiquei logo em seguida, só percebendo a associação um segundo depois. E eu realmente não falava dele. Apesar dos seus um metro e setenta centímetros, tivera um desenvolvimento e tanto. E nada tardio. Até porque, mesmo assim, ainda era mais alto que eu. — Eu estava falando de uns coleguinhas seus do clube A.V que ainda nem engrossaram a voz.

– Oh, verdade. Tem uns desse mesmo. — Confirmou, controlando uma risada.

– Gente! — Dessa vez minha amiga berrou enquanto ainda lhe faltavam dois ou três degraus da escada a serem descidos. Ela cambaleou mais alguns passos e finalmente chegou até nós. — Ai! Oi.

– Mana, você tá bem? — Spencer perguntou, vendo a irmã esboçar uma expressão cansada demais para um início de festa.

– Estou sim, eu só... Droga. Não lembrava que tomar conta de festas fosse tão difícil assim. — Reclamou, espalmando a palma da mão na testa.

– Ué, devia saber já que frequenta tantas. Sem falar nas outras que já fez aqui.

– Acontece que faz muito tempo e os objetivos eram outros. Ter que ficar recebendo todos que chegam não me deixou aproveitar nada até agora.

– Deixa o povo entrar e quem quiser te cumprimenta. — Sugeri. — Ninguém merece ter que recepcionar até aqueles nerds.

– E o discurso de ódio não para... — Freddie murmurou para o lado oposto ao meu enquanto cruzava os braços.

– Eu não tenho culpa se você está se ofendendo. — Eu quis rir pelo sentimento nostálgico que aquelas frases trouxeram, mas me restringi a apenas perpetuar a provocação. — Se bem que essa foi mesmo a intenção.

– Enfim. — Carly sobrepôs a voz, também fingindo um resquício de seriedade. Estava se deliciando com a pequena discussão quase iniciada e, mesmo indiretamente, estar interrompendo-a como sempre fizera. — Não dá pra não ficar na porta ou subindo e descendo toda hora pra ver quem chega, quem vai, o que e onde estão fazendo, sabe? Vai que entra alguém estranho sem que a gente saiba...

– Pior que você tem razão... mas, nesse caso, a gente podia revezar, não acha? — Freddie sugeriu, ainda um pouco inseguro, com as mãos no bolso.

– Ah, eu agradeceria! — Concordou com um longo suspiro. — Certo, quem vai ficar agora da meia noite até... uma hora?

Eu, o Benson e Spencer revezamos nossos olhares entre o chão, a pista de dança improvisada e os rostos um do outro. O silêncio entre a nossa roda deixou a música mais alta enquanto Carly aguardava por um voluntário que afinal não se manifestou.

– Ninguém? — Perguntou, ainda tendo nosso silêncio como resposta. — Certo. Eu realmente ia me ferrar nos jogos vorazes com amigos e parentes como vocês.

– Vamos tirar na sorte. — Freddie sugeriu quando eu lhe dei um peteleco na orelha. — Droga, Sam! O que eu fiz?

– Se eu perder, você vai ver. — O ameacei, apontando um dedo em seu rosto.

– Só estamos fazendo justiça. — Respondeu, tapando o ouvido com uma das mãos. — Não seria legal a Carly ficar a noite inteira recebendo o pessoal enquanto a gente só coça.

– Tudo bem, vamos acabar logo com isso. — Spencer falou impaciente.

– Ei, ei, ei! Espera aí. Não seria injusto se a capivara do Gibby ficasse de fora? — Interrompi a resolução do problema enquanto o procurava em meio a multidão.

– Seria, mas deixa pra lá. Ele já bebeu muito energético e não vai parar de dançar tão cedo. — Minha amiga respondeu enquanto apontava para o local onde ele estava, já sem camisa, rodeado por pessoas gargalhando enquanto dançava Pump It.

– Certo, nada deve ser pior que isso. — Comentei, obrigando Freddie a engolir de volta a risada que se formava dentro dele.

– Tudo bem, vamos decidir no pedra, papel, tesoura, lagarto, Spock. — Ele disse.

– Ei, Sheldon Cooper. Não sei como esse negócio funciona. — Carly declarou.

– É o seguinte: tesoura corta papel e papel cobre pedra. Pedra esmaga lagarto, lagarto envenena Spock. Spock esmaga tesoura, tesoura decapita o lagarto. O lagarto come papel, papel refuta Spock. Spock vaporiza pedra... e como sempre, pedra quebra tesoura.

– Uau, é tão simples! — Falei sarcástica.

– Por que o Spock esmaga a tesoura?

– Porque...

– Que seja, vamos logo. — O interrompi, impaciente.

Freddie nos ensinou a representar cada um com as mãos e, como era de se esperar, venceu. Carly e Spencer, surpreendentemente, também. Recepcionar quem chegasse pela próxima hora sobrou pra mim.

– A tesoura deveria cortar o pulso do Spock. — Reclamei enquanto apertava o braço do nerd e ele revirava os olhos.

– Vai logo pra porta, Sam. — Ele tripudiou com um riso.

– Olha só, alguém acabou de chegar. — Carly disse enquanto olhava o celular e já caminhava em direção à entrada.

– Espera... Não sou eu quem tem que atender? — Perguntei, fazendo-a parar.

– Sim, mas... é melhor eu atender essa pessoinha.

Minha amiga voltou a caminhar sem esperar por mim mas eu a acompanhei de qualquer forma enquanto Spencer e Freddie apenas observavam de longe.

Ao abrir a porta rapidamente, demos de cara com John. Depois de muito tempo sem vê-lo pela escola nem se quer de relance ou em qualquer outro lugar que frequentássemos em comum, ele me parecia um pouco desconhecido. Carly sorriu indiferente, eu espantada e ele curioso.

Vestia suas costumeiras roupas de marca, dessa vez ainda mais elegantes pela ocasião que pedia. Estava acompanhado de mais dois amigos que eu realmente não sabia quem eram ou apenas não me recordava da existência.

– Olá, meninas. — Disse num tom simpático, abraçando-nos em seguida. Carly respondeu com certo entusiasmo e eu num sussurro constrangido. — Esses aqui são Kevin e Albert.

– Oi. — Minha amiga disse num tom de encantamento — provavelmente em relação ao que lhe parecia mais bad boy — enquanto os garotos acenavam.

– Podem entrar. — Falei, tentando recepciona-los. Eles assentiram, sorrindo, entrando no apartamento.

Enquanto fechava a porta, Carly e eu nos entreolhamos. Movi meus lábios perguntando por que fizera tanta questão de recepcionar John mas sua resposta na ponta da língua fora interrompida quando ele se virou após sussurrar qualquer coisa com os amigos, provavelmente pedindo que o deixassem sozinho, uma vez que já tinham desaparecido entre o resto dos convidados.

– Parabéns pelo web show. Assisti essa última edição e foi incrível.

– Valeu. Mas nem foi lá essas coisas, teve apenas metade do tempo habitual. — Respondi cética.

– O que prova ainda mais que vocês são ótimas. — Respondeu. Eu o olhei estranho e Carly dissimulou uma risada.

– Valeu mesmo, mas cadê seus amigos? — Minha amiga perguntou e, definitivamente, entendi que queria um deles.

– Ah, eu pedi que fizessem outras coisas por enquanto porque agora eu queria falar com vocês.

– Falar o quê? — Perguntei já em estado de atenção.

– Você dá só um minutinho pra gente? — Sem esperar resposta alguma, Carly o deixou perto da escada e me arrastou de volta até a porta.

– O que foi? — Perguntei enquanto ela ainda segurava meu pulso.

– Eu posso dar conta disso.

– Como assim? Ele quer falar comigo também.

– Mas e você, Sam? Quer mesmo falar sobre o namoro de vocês? Ele vai pedir pra voltar.

– Como você sabe?

– É obvio! Ele tá atrás de um par pro baile da garota que escolhe e como vocês estão separados, veio aqui te reconquistar.

– E eu vou convida-lo se quiser porque não tenho mais ninguém. — Respondi irritada e com obviedade, franzindo o cenho.

– Mas... vocês vão ter que ficar falando coisas de relacionamento, você não odeia isso?

– Não tenho lições muito boas sobre fugir desses assuntos. Se tiver que falar, vou falar.

– Tudo bem. — Ela suspirou com um olhar compreensivo. — Daqui uma hora vocês se falam porque seu turno acabou de começar. Eu vou dando conta do seu namoradinho e depois ele é todo seu.

– Ok. Mas estamos separados, ok? Se qualquer coisa acontecer, vai ser esse baile e pronto. — Assenti com um sorriso enquanto ela acenava e voltava à companhia de John. Para sua evidente felicidade, um dos amigos voltaram e os três subiram.

Puxei um banquinho, uma tigela de doces e me sentei próxima à porta. Estar desse jeito não tornou minha noite nada diferente do que havia sido até o momento, exceto pela chegada de John. Não que sua presença me acometesse de qualquer forma, mas sim as estranhas pendências que haviam restado acerca do nosso término não propriamente dito, mas daquela história do "dar um tempo". Precisávamos dar um fim definitivo a tudo que ainda nos limitasse um ao outro.

Quarenta minutos já haviam se passado e só mais três pessoas haviam aparecido. A última delas, que eu desconhecia, nem sequer me levantei para receber. Já estava mau humorada e meus doces estavam no fim. Resolvi, então, talvez não fosse mais necessário vigiar a entrada já que todos os convidados pareciam ter chegado, me levantando e indo até a cozinha. No meu caminho até lá, perto do balcão, Freddie conversava com John, Wendy e mais duas garotas. Meu coração deu um estralo na hora e meu senso investigativo apurou minha visão e audição. Ele tinha em mãos um copo, na boca um sorriso e do lado esquerdo uma cretina a observá-lo da maneira que um carnívoro faminto observa um pedaço de carne. Do outro lado, mais uma. No caso, eu mesma.

Eu sabia que ele estava aproveitando aquele momento e não poderia estar tentando me fazer ciúmes sem a garantia de que presenciaria a cena. A não ser que me conhecesse tão bem a ponto de saber que mais cedo ou mais tarde eu abandonaria meu posto de porteira em busca de mais doces e o veria entretido com quem quer que fosse.

Continuei a observar sua improvável provocação e mais nítida desimportância a tudo que, na verdade, eu não tinha direto de exigir, até que John, Wendy e a garota que não parecia interessada nele seguissem escada a cima e os deixassem sozinhos. Freddie assumiu uma expressão aflita que provavelmente ela não soube decifrar já que continuou a tagarelar qualquer porcaria sem dar importância até que ele a interrompesse. Balançou o copo vazia no ar, apontou com um polegar para a geladeira e com o indicador da outra mão direcionou-a até dois bancos vazios próximos à entrada do quarto de Spencer. Ela assentiu e ao se virar para seguir caminho, eu vi que era Annie. A que assumidamente tem uma queda — ou melhor dizendo, um abismo — por ele.

Ele caminhou até a geladeira a procura de sua bebida e eu fiz o mesmo sob pretexto de que estava a procura do meu doce.

No final das contas, dava no mesmo.

– Ei! — Reclamou quando eu o afastei do refrigerador pela gola da camisa e me enfiei lá dentro em seu lugar, pegando um saco cheio de chocolates variados. — O que é isso?!

– Essa sou eu com fome. — Falei ríspida, novamente ao alcance do seu rosto. O encarei por um instante e voltei à mesa onde estava minha tigela.

– Acha mesmo que vai se saciar com tabletes de chocolate? — Ele perguntou enquanto eu rasgava o pacote grosso com os dentes e despejava o conteúdo em meu recipiente.

– Até agora tem dado certo. — Levei um à minha boca e só parei de encarar o nerd até tê-lo engolido por inteiro. Como deveria fazer com seu coração. Como ele estava fazendo com o meu. — Curtindo a festa?

– Por que essa pergunta agora? — Franziu o cenho, apoiando a mão na mesa. Já havia largado o copo na pia.

Já havia esquecido da bebida e da garota.

– Só pra saber, ué. — Comi outro chocolate. Falei enquanto mastiga. Sua expressão de reprovação não era apenas por esse motivo. — Ser simpática.

– Mas você não é.

– Por isso mesmo. — Insisti, irritada com sua desconfiança. Ele revirou olhos impacientemente mas não me respondeu. — Se você não diz, eu digo. E essa festa só está servindo pra me entupir de chocolates.

– Tem outras coisas pra fazer. Vai dançar.

– Já falei que não vou. — Ele ergueu as sobrancelhas. — Isso aqui está parecendo um safari. — Reclamei. Passei a língua pelos meus dentes, tentando eliminar os vestígios de chocolate. Ainda não era com isso que ele se irritava.

– Safari?

– Safari. — Repeti com sarcasmo. — Está cheio de vaca, galinha, piranha...

– Mas você sabe que geralmente não são esses animas que...

– Eu sei, seu idiota! — O interrompi com um berro. Ele arregalou os olhos e inclinou a cabeça para trás com o susto. — Você realmente não entendeu minha crítica?

– Sua cri... — Interrompido pelos próprios pensamentos, Freddie apertou os olhos e os arregalou novamente após um instante raciocinando. — Oh, sim. Entendi. Você não gosta das garotas que estão aqui?

– Pensei que fosse mais inteligente pra um nerd. — Cruzei os braços e o metralhei de cima a baixo.

– Tudo bem. Agora, se você me dá licença, eu vou conversar com a Annie. — Após um infeliz suspiro, ele se virou de volta para a geladeira. Eu me posicionei bem em frente à ela, impedindo que a abrisse e voltando ao seu campo de visão.

– Justamente com a rainha do bando?

– Ahhh. — Freddie arqueou uma das sobrancelhas e riu. Eu queria espancá-lo por isso. — Agora sim eu entendi.

– Lerdo.

– Se está tão irritada assim, vá atrás do seu namoradinho John com quem você não terminou o namoro mas apenas "deu um tempo." — Respondeu, representando as aspas com as mãos.

– Por acaso me viu conversando com ele?

– Vi você recepcionando ele como uma boa anfitriã e sei que com certeza vai quando seu turno acabar. Aliás, por que não está lá agora?

– Porque...

– Freddie! — Carly gritou enquanto se aproximava de nós dois.

– Oi, Carls. — Respondeu virando-se para ela, provavelmente agoniado com a interrupção da minha resposta.

– Preciso que você venha aqui em cima rapidinho. Estou conversando com um cara e ele quer saber algumas coisas sobre seus equipamentos.

– Mas agora eu...

– A Annie pode esperar. — Falou autoritária, calando-o. Ele parecia relutante quando minha amiga recorreu ao seu golpe mais baixo eficiente. — Por favor... por mim.

– Tudo bem. — Após revirar os olhos em derrota, o submisso assentiu e se deixou ser arrastado pelo pulso.

Freddie olhou para trás várias vezes até que virassem em direção à escada, não me deixando decifrar seu olhar. De qualquer forma, me sentia internamente grata à Shay por ter aparecido na melhor hora com a melhor desculpa.

Peguei minha tigela e voltei ao posto de vigia que só durou mais dez minutos. Logo Freddie e Spencer teriam que tirar na sorte novamente para ver quem seria o próximo uma vez que Carly também já havia cumprido com o seu.

Procurei pelos três no andar debaixo mas não os vi, também não evitando uma risada ao ver Annie ainda sentada à espera de Freddie enquanto eu subia as escadas para verificar nos outros cômodos. Cheguei ao estúdio e vi que muitos se concentravam ali ao som de Do I Wanna Know? que estava bem mais alto do que o debaixo.

– Sam! — Spencer acenou com o braço. Lá estava ele, Amy, Carly e um dos amigos de John próximos ao carro decorativo do web show.

– Seu turno já acabou?

– Já. — "Se bem que não faz muita diferença já que não tenho nada pra fazer nessa festa além de comer", pensei.

– O próximo é meu. — Comentou, abraçado à namorada com um bico.

– Eu fico com você, amorzinho. — Respondeu Amy, dando-lhe um beijo de esquimó.

– Que nojo. — Carly reclamou.

– Cadê o John, hein? — Perguntei.

– Ah, é verdade. — Minha amiga me arrastou para longe do irmão, da cunhada e do amigo de John, sussurrando. — Como aqui está muito barulhento, ele está te esperando lá atrás. — Disse, apontando para o pequeno cômodo atrás do estúdio. Nos servia como camarim, um local onde os convidados do programa aguardavam até serem chamados ou onde guardávamos os equipamentos.

Assenti com um sorriso e caminhei até lá. Subi os dois degraus e virei a direita, chegando até a porta minúscula. Apenas a empurrei um pouco, a luz já estava acessa. Por ser um local bem apertado, logo percebi que o garoto agachado do outro lado vasculhando uma pilha de CD's não era o John.

– Freddie? — Perguntei. Ele se virou num susto e me encarou espantado.

– Que foi?

– Cadê o John?

– É da minha conta?

– Não, mas a Carly disse que ele estaria aqui me esperando.

– Seja lá o que vocês forem fazer aqui, não se preocupem porque eu já vou sair. — Ela franziu o cenho para mim e adotou um tom rude à voz enquanto se voltava à pilha. — Só estou procurando um CD do Spencer.

– Qual?

– Doo Woops and Hooligans.

– Tudo bem. Vou esperar lá fora. — Respondi tão friamente quanto ele enquanto me virava para a porta. Seu silêncio como resposta me fez esquecer da música impregnada nas paredes e querer jogar na cabeça dele a primeira coisa que estivesse à frente.

Puxei a maçaneta e a porta não abriu. Forcei mais uma vez e nada. Me inclinei para ver se estava trancada e a confirmação foi positiva. Sem querer acreditar, tentei mais uma vez. Sem sucesso, dei um murro forte na madeira.

Não, de novo não.

– O que foi? — Freddie perguntou vindo até mim.

Parei por um instante até respondê-lo, não ofegante por meu esforço, mas pela constatação que se seguiu.

– Estamos trancados.

Ele arregalou os olhos e permaneceu estático até o momento em que pareceu finalmente se dar conta do que ouvira. Talvez, entre um momento e outro, lembrando que essa não seria a primeira vez.

– Droga. — Murmurou um instante depois, também tendo forçar a maçaneta. Também sem sucesso.

– Qual a parte do "trancados" você não entendeu? — Ele apertou a teste contra a madeira ao me ouvir.

– Vamos gritar pra ver se alguém nos escuta.

– Fique à vontade. — Respondi me sentando no chão. Não tomando aquele cuidado normalmente tomado por estar usando uma saia.

– Eu disse "vamos."

– E eu ouvi. Acontece que eles não vão. Já percebeu que a música está alta demais?

– Se nós dois gritarmos bem alto e juntos...

– Não adianta. — Insisti.

Cruzei os braços e encarei minhas pernas estiradas no chão. Sabia que ele ainda estava me olhando e como não adiantaria de nada tentar não ficar nervosa por isso. Até que ele frustrou totalmente meu ego inflado ao se virar de volta e começar a gritar e esmurrar a madeira.

– Não vai adiantar! — Tentei gritar ainda mais alto que ele.

– Você não pode saber sem ao menos tentar.

Ele gritou de volta e por mais alto que a música estrondasse todos os cantos do apartamento, eu não ouvia. Sua frase ecoou nos meus pensamentos como uma resposta a tudo que eu me negava a fazer. A cada hora, soando mais nítido e fazendo mais sentido. E tendo mais significado. E mais relação com tudo, inclusive com o fato de estarmos trancados lá dentro.

Quando ele se virou pra mim com as mãos para trás e a cabeça encostada na porta, a música voltou a tocar e meu coração voltou à inércia que lhe era concedida pelo medo. Exceto pelo fato de que toda aquela expressão que compunha um Freddie desolado me provocava a mais potente arritmia.

– É, Sam... Você tinha razão. — Forçou um sorriso e caminhou até se sentar encostado na parede oposta à minha, entre as minhas pernas.

– Pelo menos você tentou. — Disse, a fim de amenizar meu pessimismo esmagado por sua insistência.

– Mas olha a altura que deixaram essa droga de música. — Freddie apoiou o cotovelo no joelho e espalmou a mão no rosto. — Você acha que foi algo armado?

– Não. — Respondi de imediato, sem antes ter ao menos pensado. Afinal, que motivo alguém teria para o feito? — Talvez a Carly realmente pensasse que o John estivesse aqui dentro e não você. — Conclui, num tom de defesa.

– E por que o Spencer não desmentiu dizendo que eu estava aqui procurando um CD pra ele?

– Talvez não tenha ouvido quando a Shay me disse pra vir até aqui.

– Assim como não ouviram nossos gritos. — Falou desolado, virando o rosto para o outro lado.

– Os seus. — Falei sorrindo.

– Tanto faz. — Ele riu e abaixou a cabeça. — Já estou conformado.

– Quando eu subi, vi que a Annie ainda estava te esperando....

– Oh. — Freddie ergueu as sobrancelhas, simulando um espanto. — Talvez agora ela já tenha percebido que eu sumi.

– Mas por que você estava procurando um CD pro Spencer se foi a Carly quem te chamou aqui em cima?

– Ah, eu vim pra cá procurar um dos dispositivos que uso pra fazer os efeitos especiais dos vídeos do iCarly aí o Spencer pediu que eu aproveitasse e pegasse o CD pra ele.

– Que pena. Esses favores vão te custar caro.

Ele riu.

– Por quê?

– Vai ter que me aturar aqui sabe-se lá por quanto tempo.

– Digo o mesmo.

– Contanto que você fique beeeem calado, não será problema.

– Tudo bem. — Ele cruzou as pernas e se inclinou um pouco para frente. — Quando o John reaparecer e a Carly perceber que você está aqui há muito tempo, virá ver o que aconteceu.

– Ou quando lembrar que você veio buscar uma parafernalha e não voltou mais... e o Spencer lembrar do CD.

– É. — Concordou, esperançoso. Mas não no sentido mais positivo da palavra. — Mas você não acha isso esquisito demais?

– Isso o quê?

– Quando você entrou, deixou a porta aberta, certo? — Eu assentiu com um aceno de cabeça. — Então não estamos trancados por acaso. Alguém veio até aqui e o fez de propósito.

– Spencer sabia que você estava aqui e Carly deve imaginar que agora eu estou, mas um não sabe o que o outro pensa. Além do mais, não quero acusá-los de...

– Calma. Eu não os acusei. — Freddie me interrompeu, erguendo as mãos em defesa. — Só estou imaginando o motivo de tudo isso.

– Talvez alguém tirando uma com a nossa cara por causa da vez em que ficamos presos na escola. — Falei hesitante, encarei o chão. Ele concordou com a cabeça enquanto seus dedos inquietos desenhavam algumas formas sem significado, pensando numa resposta.

– Foi engraçado. — Ele apoiou o braço no joelho e o rosto nas mãos enquanto me olhava com um sorriso.

– Você ainda lembra? — Tentei evitar, mas sua expressão era sobrenaturalmente contagiante.

– Claro. Você até rasgou minha camisa.

– Mas comprei outra.

– Até hoje quero saber com que dinheiro. — Freddie cruzou os braços e sua pergunta indireta somada à sua pose e expressão me irritaram.

– Que pergunta mais deselegante!

– Não perguntei o preço, só os meios. Diga se quiser.

– Eu usei o cartão do meu padrasto. — Admiti, naturalmente. — No mês seguinte ele ficou inadimplente.

– Sam!

– Calma aí, estressadinho! A camisa que comprei pra você não foi nem a ponta do iceberg. Todo mês ele acha que pode usar um monte de marcas de gente rica.

– Isso não justifica. Amanhã mesmo vou te dar o dinheiro e você devolve pra ele.

– Se quiser, vá você mesmo lá em casa entregar pessoalmente. Ele é baixinho, provavelmente vai estar bêbedo. E só aparece à noite.

– É, talvez eu vá mesmo. Tenho algumas pendências por lá. — Disse, num tom sugestivo.

– Tipo?

– A sua irmã gêmea.

– Olha aqui, esse seu meio baixo de me provocar já tá bem ultrapassado, ok?

– Nem tanto. — Disse, me olhando fixamente. — Ainda faz efeito.

– O efeito contrário. — Rebati. — Só me faz ter mais ódio.

– Mas o ódio não necessariamente contrasta com o...

– Hey. — Eu o interrompi, mais assutada do que irritada. — Já deu.

– Tudo bem.

Ficamos em silêncio pelos próximos instantes. No meu caso, não necessariamente.

Freddie me fez pensar. Sempre fazia. Mas dessa vez percebi que havia interrompido um questionamento crucial para tudo que poderia ser explicado através dele. "O ódio não necessariamente contrasta com o..."

Não consegui continuar, nem mesmo em pensamento. Talvez já soubesse exatamente do que se tratava, o que se explicitou apenas pela minha reação. Talvez ele tivesse a audácia se eu não fosse amedrontada demais por tê-lo interrompido, mas nem ouvir eu conseguiria. Talvez por ser uma certeza já evitada.

Talvez. A zona de conforto. Até quando deixaria que ela me confortasse?

Ele parecia sedento em ultrapassá-la. Mesmo que tivesse diminuído o ritmo nos dias anteriores, sua vontade ainda não havia sido aniquilada. A minha também não. Nosso diferencial era saber lidar com ela.

Me levantei de súbito, como se o cômodo abrigasse todos os meus devaneios e os voltasse contra mim. Me senti sufocada, minha pele estava quente e minha respiração pesou. Não vi porque cobri meu rosto com as mãos, mas Freddie devia me olhar intrigado.

– Você está bem?

– Estou, eu só... — Me escorei na parede. — Não sei, estou meio claustrofóbica. Queria sair daqui.

– Eu também. — Disse. — Vamos passar o tempo tentando conversar. Quando a música abaixar ou tocar uma mais lenta, a gente chama por alguém.

Hesitei, encarando-o de volta até que um sorriso de lado e duas batidinhas no chão a me chamar amolecessem qualquer vestígio de resistência.

– Se a gente saísse daqui agora eu até dançava. — Falei enquanto me sentava ao lado dele, bem próxima.

– É tão grave assim ficar trancada comigo?

– Nesse cubículo, tendo uma festa lá fora bombando e sem comida nenhuma? Sim.

– Oh! — Exclamou, estralando os dedos e se arrastando de volta até a pilha de CD's. — O Spencer tinha uma pizza. Dividiu entre mim, Amy, Carly, Shane e Gibby. — Disse, se virando com um prato de acrílico na mão. — Ainda tenho esse pedaço.

– Ooo...pa. — Comecei entusiasmada, até pega-lo em minhas mãos.

– O que foi? — Eu o encarei de volta até que encontrasse a resposta por si só. E encontrou. — Ah! Esqueci que você não gosta de pizza em formato retangular.

– Não tem proble.. — Tentei iniciar mais uma frase, até Freddie começar a morder todo o pedaço, apenas nos arredores.

– Pronto. — Ainda de boca cheia, ele estendeu a pizza para mim. Havia esculpido nela um formato triangular.

– Sério? — Falei gargalhando.

– Ué, por que não? — Ele riu de volta, ainda mastigando.

– Só porque estou com muita fome. — Peguei a pizza e a enfiei na boca de uma vez. O pedaço já estava minúsculo, mas ele se impressionou mesmo assim.

– Tá boa?

– Deliciosa.

– É. Mesmo estando fria.

– Como se a gente estivesse podendo escolher.

– Pois é. — Ele se encostou na parede com a cabeça para trás. — Nem as companhias a gente escolheu, não é?

– Hm. — Concordei, irritada com a frase. Soou como uma rejeição.

– Eu estaria com a Annie e você com o John...

– Quem disse que eu estaria com o John?

– Não sei. Acho que vocês têm muito o que conversar. Até porque não terminaram o namoro, não é mesmo? Apenas deram um tempo.

– Até quando você vai jogar isso na minha cara? — Inclinei meu corpo para frente tentando enxergá-lo melhor.

– Não falei nenhuma mentira que possa te ofender.

– Também não falou nada da sua conta.

– Assim como minha conversa com a Annie também não era mas você teve que se intrometer. — Rebateu, também se ajeitando para melhor discutir. Parecia engajado e isso encobriu toda a minha raiva com uma fina camada de admiração.

– Eu não tenho mais nada com ele! — Gritei mesmo assim, tentando fazer minha voz mais presente que a dele, que a música e minha sensação ambígua.

– Então vamos arrombar essa porta agora mesmo pra você esclarecer tudo.

– Por que tanta preocupação?

– Talvez eu tenha preocupação por dois. — Freddie me olhou repreensivo. — A minha e a sua. Porque você não tem nenhuma.

– Eu resolvo o que eu quiser quando eu quiser.

– A regra não se aplica a casos que envolvam outras pessoas, senhora egoísta. — Disse, ainda mais duro. Exatamente o que eu precisa ouvir.

– Você não pode exigir nada quando tinha planos de se engraçar com a Annie hoje.

– Esse é o seu problema: além de hiperbolizar uma simples conversa, espera que eu esteja sempre à sua mercê.

– Chega. — Joguei minha cabeça para trás, encostando-a na parede. Meus movimentos ignoraram o bom senso de quem usa uma saia. — Eu só quero sair daqui.

Freddie me encarou por mais um tempo, percebi, até decidir se afastar. Estava chateado e a culpa não poderia ser de mais ninguém senão minha. Como sempre vinha sendo. E o mais interessante de tudo era ver que, mesmo assim, ele mantinha viva, como a chama de uma vela quase no fim, sua vontade de ultrapassar o talvez. De não mais se confortar, mas arriscar.

E até quando o que se espera além dela me assustaria tanto? Até quando o desconhecido seria sinônimo do temor?

Ate quando eu deixasse. Mas não queria. Mas não sabia como expressar.

Mais umas quatro músicas invadiriam nossos tímpanos enquanto estivemos calados e em cantos opostos. Já não dava a mínima para descobrir quem e por que nos trancaram lá dentro; me preocupava realmente com tudo o que aquela situação trouxera e exigia mais progresso do que eu vinha conseguindo dar. Percebi que Freddie não voltaria a falar tão cedo ou ao menos me olhar, então decidi que eu o faria.

Tinha uma perna esticada. Na que estava dobrada para cima, o braço repousava no joelho. Olhava para cima e a outra mão se apoiava na pilha de discos. Parecia pensativo, e não requer muito esforço perceber que realmente estava. O motivo, sem egocentrismo algum, provavelmente me envolvia.

Vez ou outra passava a língua pelo lábio inferior ou o mordia. Nesses momentos imaginei se ele realmente não sabia que eu o olhava.

Estava lindo, insisto em reforçar. Uma beleza que transpassa os anos e qualquer outra imposição. Era como enxergar algo muito maior do que os olhos podem captar.

Quando começou a se movimentar, desviei meus olhos. Fingi brincar com a barra da saia para parecer despreocupada caso me procurasse com os olhos. E me achou.

Uma música lenta começou a tocar e toda a atmosfera da canção me invadiu a alma como uma brisa que vem suave e repentina. Quase um afago, uma dádiva aos ouvidos. Todos lá fora pareciam ter silenciado tanto quanto nós dois mas a oportunidade que esse fato trouxera já não tinha a menor importância.

– Tá tocando uma música lenta... — Observou ele, enquanto eu o olhava. — Não quer chamar por alguém?

Me senti em outra dimensão com o timbre de sua voz. Com a da cantora. Com as diferentes palavras que diziam, com a igual relação que faziam.

Dei a ponta de um sorriso.

– Não. Sabe... eu já não faço tanta questão em sair daqui.

Freddie não esboçou nenhuma reação, apenas respirando mais profundo. Mais forte, mais pesado. Me respondendo tudo.

Me arrastei até ele, me sentando ao seu lado. Ele continuou estático, como se descrente de qualquer atitude que eu pudesse tomar naquele instante. Como se me desafiasse com o olhar a resistir a todo o cenário. Por mais tosco que fosse imaginar, por mais fácil que fosse desfaze-lo.

Como por instinto, me inclinei um pouco em sua direção quase no ritmo da música. Estávamos longe de encerrar uma distância, mas já inseridos no espaço pessoal. Então, senti seu cheiro. Sempre igual, sempre melhor. Depois, senti sua respiração. Se confundia com a minha, inutilmente tentando se controlar.

Eu não sabia o que estava fazendo. Nem queria. A canção me guiava como um fantoche. Ele me atraía da mesma forma.

Só não tive muito tempo para encarar seus lábios ou fazer qualquer outra coisa com eles quando ouvi o trinco da porta ser invadido por uma chave.

Me levantei num pulo e ele também. Meu coração saltava como se não tivesse mais espaço para se acomodar dentro do peito. Freddie me olhou rapidamente, provavelmente no mesmo estado.

– Sam?! — Era a voz de Carly do outro lado. Parecia conversar com outra pessoa. — Você vai ver que a Sam está aqui.

– O Freddie que está! — Spencer respondeu. Os dois entraram de uma vez, encarando-nos com estranheza.

– Que demora! — Falei, fingindo uma revolta.

– Gritamos há mais de uma hora por vocês e ninguém veio. — Disse o nerd.

– Eu tinha mandado o Freddie vir pegar um CD pra mim.

– E eu falei pra Sam vir até aqui encontrar o John. Pensei que ela estivesse aqui esse tempo todo conversando, até que desci pra pegar um refri e encontrei ele lá embaixo.

– Mas por que alguém nos trancaria aqui?

– Não sei. Encontramos a chave agora na janela. — Spencer respondeu.

– O importante é que nós chegamos e resgatamos vocês. — Nossa amiga disse, puxando-nos para fora do cômodo e trancando-o em seguida. — Deve ter sido só uma pegadinha.

– De muito mal gosto.

– Mas ainda dá pra aproveitar. — Tentou nos animar. — John e Annie ainda estão por aí se quiserem...

– Ah. — Freddie se manifestou, com mais desânimo que um defunto. — Não estou mais afim. Acho que vou pra casa.

Nós assentimos e ele acenou enquanto caminhava até a porta do estúdio. Tentei disfarçar toda a minha frustração quando ele deu uma última olhada para trás que só eu pude capturar mas não responder como gostaria.

– E você, Puckett? — Carly se voltou para mim antes do que eu imaginava. — Vai conversar com o John?

– Vou. Acho..

– Ele está lá na cozinha. — Ela sorriu de volta e eu concordei com a cabeça, deixando-a logo em seguida.

Desci as escadas com uma preocupação a mais a cada degrau. Ao chegar no último, avistei John escorado na mesa à minha espera. Caminhei para o lado oposto.

Pedi o celular de Shane, chamei minha mãe. Surpreendentemente, ela chegou rápido em seu velho automóvel. Fomos para casa depois da minha decisão de não conversar com John. Depois das minhas oportunidades perdidas de conversar com Freddie.

Depois de decidir que não cometeria o mesmo erro da próxima vez.

Notas finais
Eu tenha a leve impressão de que o fim se aproxima :( Às vezes penso se AEBY não foi além do que deveria ir ou se o sumiço de tantos leitores se deu porque a história ficou cansativa... mas mesmo assim sou grata a todos que permaneceram e estou muito satisfeita com o apoio de vocês atualmente. Além disso, venho pensando em uma nova história. É uma U.A e, meu Deus, jamais pensei que um dia chegasse a fazer uma. Em breve compartilho a ideia com vocês. Até mais ♥