Notas iniciais
Eu acho que nunca demorei tanto pra postar. Que decadência. Mas eu nunca abandonaria. Vocês sabem, não sabem? Mas existe vida fora daqui e muitas vezes ela cobra muito de nós. Vocês também sabem disso. Mas essa história é muito importante pra mim e aqui está mais um capítulo dela. São tantoosss! Meu Deus. Leiam, meus amores.

PDV Freddie.

Era segunda. Nunca me vira mais ansioso como naquela de um jeito diferente. Não uma ansiedade de aguardo, mas de esperar que chegasse e passasse tão repentinamente quanto vento em dias de verão. Que aliás, já havia chegado. Dava seus primeiros sinais secos, abafados e ensolarados. Não entendia como a maioria das pessoas conseguia apreciá-lo tanto assim. Certo, era sinônimo de férias. Eis aí um motivo. Mas e todo o suor, a sede constante e as dificuldades para dormir? E particularmente, ainda havia os cuidados extras tomados por minha mãe. A insistência em me fazer usar protetor solar fator sessenta, bonés ou chapéus e óculos escuros quando saíssemos juntos.

Eu me recusaria, é claro, além de evitar que nossos programas juntos fossem todos ao ar livre. Talvez só eu rejeitasse a estação em certos níveis porque só eu tinha esses certos motivos.

Comi a manhã inteira como quem deixaria de ver comida pelo resto do mês. Estava nervoso pelas provas do dia e extrapolar em alguns doces me acalmaria um pouco na teoria.

Porque, na prática...

Cheguei cedo à Ridgeway, quase fui o primeiro a dar as caras. Estava nervoso, sentia minhas mãos soarem, minha perna formigava e minha cabeça latejava junto com meus batimentos cardíacos.

– Calma, filho! — Minha mãe tentava me acalmar uma última vez ao estacionar em frente à escola. — Você é ótimo, estudou bastante. Vai se sair bem.

– Eu sei... mas aquele sábado da festa me tirou o tempo pra estudar química mais a fundo e revisar história.

– Sabia que essa festa não era boa ideia! Aquelas suas amigas não têm o que fazer. — Reclamou. Eu franzi o cenho e ela mudou o rumo da conversa. — Mas você já estudou história o suficiente, não acha?

– É, mas química é amanhã e eu ainda tenho o dia pra estudar. Já história, é hoje. A primeiríssima do dia.

– Não se preocupe, Freddinho! Você é muito inteligente. Nunca precisou recuperar notas, sempre foi o adiantado da turma, o orgulho da mamãe!

– Tudo bem. — Assenti, tentando cortar seu entusiasmo. Afinal, era até divertido. — Vou indo.

– Ok. — Ela sorriu, se inclinando para dar um beijo em minha bochecha. — Tchau, filho.

Fiz o mesmo em seu rosto e saí, acenando ao me virar, perto do portão. Há alguns anos, os garotos do time zombariam de mim. De fato, tiveram poucas oportunidades já que sempre evitei o afeto exagerado de minha mãe em público. Mas já não teriam mais coragem. Me queriam no time depois do surto de puberdade pelo qual passei.

Com as garotas não vinha sendo diferente... eu era um nerd notável. Annie tinha, claramente, uma queda por mim. Tasha e Wendy, embora comprometidas, não mediam esforços para me elogiar vez ou outra. Carly também. Natasha, Amanda e outras ainda faziam o mesmo. E foi incrível como até mesmo essa reflexão me fez pensar na Sam.

Qual era a gravidade de toda essa situação? Esquecer da semana de provas mais aterrorizante para mim por um pensamento totalmente voltado ao demônio loiro não era normal no mesmo nível que vários outros acontecimentos anteriores relacionados a ela também não foram.

Sam não parecia morrer de atração por mim. Não que as outras parecessem, mas explicitavam que tinham ao menos um pouco. Quer dizer, nem isso Puckett fazia. Parecia não dar a mínima. Não me elogiava. Pelo contrário, apenas me insultava. Isso veio mudando nos últimos tempos, mas eu via que estava prestes a voltar depois do nosso afastamento. E nem esse eu estava entendendo mais.

Algo estranho acontecera na festa de sábado. Ficamos trancados juntos, de novo. Misteriosamente. A princípio, como sempre, houve resistência. Troca de ofensas, discussões estúpidas, distância. Mas o oposto se concretizou tão repentinamente que fez todo o resto parecer teatro. Uma curta encenação levada apenas até o momento em que conveio. Ou que se tomou coragem para interromper. No caso, ela.

Quando finalmente uma música lenta começou a tocar, inclusive bem mais baixo que as agitadas, tivemos a oportunidade perfeita de gritar por alguém e sair daquele lugar claustrofóbico. Estávamos afastados, praticamente em pólos opostos do cômodo apertado e o cenário já se tornara frustrante. De repente, ela se aproximou e sentou ao meu lado. Toda a atmosfera que trouxe consigo me fez prestar atenção na música, nela e em mim mesmo. Me fez atribuir um motivo para estarmos ali. E se não houvesse nenhum, encontrar mesmo assim. Saber por que, quase tão de repente, ela quis estar mais perto. Saber que eu também quis aquilo quando aconteceu. Mas não aconteceu.

Apenas não pôde se concretizar quando alguém abriu a porta e nos interrompeu. Foi melhor assim, quando caí na real e me dei conta de que não se tratou de nada que pudesse voltar a acontecer. Não tão cedo.

Mas eu estava errado.

Apenas três ou quatro professores já circulavam pelo pátio, sete ou oito alunos roíam as unhas de ansiedade nos corredores. Durante os momentos que refleti sobre a Sam, pareci me acalmar como se ela possuisse essa virtude. Como se algo contido na sua existência aniquilasse meus piores tormentos. Porque cheguei num momento em que ela já não era um. Independente da relação que estabelecessemos, por mais dura que fosse, apenas manter o mais singelo contato com ela me satisfaria. Não era isso que eu queria ou precisava, mas tinha de entender seu tempo e o meu. Ainda mais, o nosso.

Decidi que poderia esperar até as férias para resolver o que ainda estivesse pendente, isso caso ela não surtasse e fugisse novamente. Já não a pressionaria nem exigiria nada. Esperaria e tiraria o tempo que fosse para ter certeza, de uma vez por todas, o que Sam Puckett foi capaz de fazer em quatro meses.

PDV Sam.

Acordei atrasada, como quase sempre. Como uma rotina nada saudável a ser cumprida até o fim dos tempos. Até quando eu ainda estudasse.

Minha mãe já não faz questão de me acordar quando sou eu quem a acorda, apesar da demora. Pedi que ela me levasse já que era o início da semana de provas e eu não poderia chegar atrasada nem se quisesse.

No dia anterior, domingo, estava louca para sair. Queria fazer qualquer coisa ao ar livre. Quem sabe ilegal, o que já não fazia há um bom tempo. O problema era que ninguém queria. Todo mundo estava estudando. Tiveram um surto de nerdisse e desespero, tentando correr atrás em um dia do que deveriam ter se atentado durante o ano inteiro. Não que eu fosse o maior exemplo de inteligência e responsabilidade, mas naquele semestre tive um certo esforço em relação à escola. Por isso, mesmo que no fundo soubesse estar errada, senti que não precisaria revisar nenhuma matéria. Além da preguiça, certa descrença associada ao orgulho. Até porque, dizem que não adianta estudar em véspera de provas. Faz com que nosso cérebro confunda e acabe por esquecer tudo uma vez que se vê sobrecarregado. A gente só se cansa pra nada. Eis aí a desculpa que daria para quem perguntasse.

– Estudou? — Minha mãe perguntou com desdém assim que parou sua carroça em frente à escola. Porque, estacionar, não estacionou. Sua carteira já estava suspensa por infrações que se tornaram multas que se tornaram pontos, não andava com extintor de incêndio e não havia cinto de segurança em nenhum dos bancos. Eu suspeitava se aquilo ao menos era um carro. Nada disso despertava o mínimo de importância em sua cabeça problemática já que ela continuava rodando por aí como os bons motoristas.

– Como sabe que tenho prova hoje? — Franzi o cenho assim como ela fazia por toda a obrigação daquela pergunta.

– Não sei, você deve ter comentado durante a semana. — Inclinou o corpo para trás e olhou para frente. — Afinal, estudou?

– Não. Acho que já sei a matéria.

– Se não tivesse ido àquela festa poderia ter estudado pra ter certeza. — Reclamou.

– Era só eu ter estudado ontem no domingo.

– Mas não estudou.

– Porque eu não quis! — Insisti. Ela continou a me encarar com o olhar desafiador mas não disse nada. — É melhor eu ir logo, já vai bater o sinal.

– Tchau... coisinha. — Disse numa tentativa falha de ser gentil quando eu já fechava a porta.

– Tchau... mãe. — Sorri desconfiada e acenei. Ela deu partida antes que eu entrasse.

Assim que pisei no pátio, o sinal tocou. Meus olhos procuraram em meio aos corredores lotados pelas minhas companhias de sempre. Como eu os conhecia, já deveriam ter chegado há bastante tempo. Infelizmente, a prova de história era a primeira e eu não estaria na turma deles. Não que planejasse colar... mas era sempre bom garantir.

Avistei Carly e a reconheci mesmo estando de costas. Parecia inquieta enquanto segurava um caderno que usara provavelmente para estudar. Fui até ela e quando chegava mais perto, vi com quem conversava e no mesmo instante um tipo de flashback na sua versão mais tosca passou pela minha cabeça.

Vi a Ridgeway se tornar o pequeno cômodo no fundo do estúdio do iCarly, Freddie vestir novamente a roupa que usara no sábado e eu também. Os livros sumiram. Carly sumiu. Os armários e os funcionários também. Estávamos frente à frente e não havia mais nada entre nós a não ser uma pequena distância de dois passos. Éramos dois e um. Éramos eu e ele. Éramos nós. Minha visão fantasiosa continuou. Eu senti como se minhas pernas se movimentassem em direção a ele. Eu senti como se tivesse dado os dois passos que nos separavam. Eu senti como se estivesse prestes a fazer o que não fora feito no sábado.

– Sam! — Que mais uma vez fora interrompido. O grito de Carly me tirou do transe completamente. Foi como uma bofetada que me fez arregalar os olhos. E ao foca-los novamente no que estava em frente, eu vi o nerd. Eu vi que não estávamos mais separados por aqueles dois passos que transferi para minha fantasia. Ele estava bem perto, tão perto que eu já conseguia sentir seu cheiro e temia que numa audição apurada conseguisse ouvir as marteladas do meu coração contra meu peito. — Sam, você tá me ouvindo?

– Oi, Carls. — Balancei a cabeça e dei dois passos para trás. Carly e os funcionários reapareceram. Os armários e os livros também. Eu realmente havia caminhando os dois passos em direção ao Freddie e ignorado tudo em volta quando quase fiz o que não deveria fazer. Novamente, minha amiga interrompeu tudo. Cabia a mim dizer se isso era sinônimo de sorte ou azar.

– É uma pena que você não esteja na nossa turma agora na prova de história, senão te passaríamos as questões que precisasse.

– Eu não quero. — Falei convencida, erguendo uma das sobrancelhas. Freddie pareceu satisfeito. — Acho que vou me sair bem.

– Você e o Freddie têm que ir bem — frizou minha amiga — já que não foram muito bem no trabalho que terá mais peso no final que a própria prova.

– Para de me apavorar! — Reclamei, balançando-a pelos ombros.

– Tudo bem. — Concordou, sorrindo. Um inspetor apareceu, fazendo gestos para que fôssemos para a sala. Assim fizemos bem devagar para ganhar tempo. — Mas vocês sabem que hoje vão anunciar algo bem importante, não é?

– O quê? — Perguntou o Benson.

– Entrem logo! — Briggs gritou ao nos ver.

– Daqui a pouco vocês descobrem. Até lá, boa sorte na prova.

Ela deu uma piscadela e entrou na sala. Eu e Freddie nos entreolhamos e fizemos o mesmo.

O monitor colocou a prova à minha frente e já lançou aquele olhar desconfiado que só eu recebia. O encarei de volta, revoltada com sua desconfiança. Em resposta, ele apenas revirou os olhos e continuou a distribuir as folhas para o resto dos alunos. Decidi então que o melhor seria me comportar o máximo que pudesse e tirar a melhor nota que conseguisse.

Ao final do teste, estava positiva com esse pensamento. Já imaginava que não acertara todas mas ao menos tiraria pontos suficientes para não ficar pendurada na disciplina. Foram vinte e cinco perguntas com conteúdos dos últimos dois bimestres, tendo o último com peso maior. Não era do meu feitio ter esforços na escola, mas reconhecia a necessidade que tinha em terminar o que havia começado para um fim inimaginável àquela altura.

Teríamos um longo intervalo até as próximas provas então, antes de procurar por meus amigos, fui até a cantina comprar um hambúrguer farto para me saciar. Encontrei minha amiga perto das mesas conversando com Annie e mais algumas garotas. Ao me ver, acenou, fez um gesto para que saíssem e outro para que eu me aproximasse. Freddie surgiu atrás de mim e me acompanhou.

– Demorou, hein Sam? — Comentou Carly. — Foi uma das últimas a sair. Acha que foi bem?

– Não por isso. — Respondi. — Mas sim. Não posso ficar na recuperação.

– No final, a recuperação acaba se tornando uma forma atenuada da detenção. — Observou Freddie. — Não recupera ninguém.

– Como as penitenciárias da nossa América. — Falei. — Mas mesmo assim. Não estou afim de ficar a semana que vem inteira quando nerds como você já vão estar livres mas não aproveitarão nada.

Ele ergueu as sobrancelhas, um pouco ofendido. Me senti mal pelo tom que usara, mas esperei minha amiga espantar o clima.

– As notas saem segunda à tarde. Vocês vem ver comigo?

– Claro. Vou estar ansioso pra saber.

– Enquanto isso, vamos estudar matemática. — Sugeriu ela.

Realmente tentamos, mas eu cochilei como sempre. Ao voltar para sala, finalmente anunciaram o tal negócio importante que Carly comentara.

– Pessoal, ao final dessa semana de provas, no sábado, haverá o baile da garota que escolhe. — Todos atrás de mim comemoraram. Eu rejeitei a ideia na mesma hora. — Vocês já sabem como funciona. Não será nada muito extravagante, mas será interessante que todos compareçam. Horário e mais informações estarão em cartazes espalhados pela escola.

Dei de ombros com o pensamento certo de que não compareceria. Após conversar com John, o que provavelmente não aconteceria naquela semana de provas, já não teria namorado nem nada do gênero. Convidar qualquer outra pessoa nem me ocorria, até porque quem quisesse teria que pagar com bacon. Ou talvez nem assim. Eu não estava no clima.

Fiz minha prova e dessa vez eu soube que teria de contar com muita sorte. Não só nela, como também nas que se seguiram durante o resto da semana.

*

A quinta-feira chegou e quase todo mundo já tinha seu par. Até mesmo os nerds desengonçados do clube A.V. Só faltavam eu, Carly e Freddie. Estranhamente, minha amiga ainda não tinha ninguém, justamente ela, sempre uma das primeiras a arranjar alguém. O nerd também vinha fazendo sucesso entre as garotas que brotavam atrás dele na medida em que músculos se evidenciavam em seu corpo. Com certeza, àquela altura, já deveria ter vários convites.

– E aí, já chamaram alguém?

– Não. — Carly respondeu, desolada. — Eu até tinha algumas ideias mas enrolei tanto que eles já devem ter arranjado outra pessoa.

– Eu não vou então não faz diferença. — Disse eu.

– Eu já disse que você vai sim. — Falou minha amiga. — E você, Freddie? Já foi convidado?

– Não. — Franziu as sobrancelhas e cerrou os lábios. Fiquei feliz e desconfiada ao mesmo tempo. — Ninguém me chamou até agora. Ano passado recebi quatro convites!

– Talvez os gostos estejam mais apurados. — Comentei num tom de provocação.

– Háháhá. — Ironizou com certo nervosismo. — Mas não vou me preocupar com isso agora. Temos mais provas pela frente.

– Qualquer coisa eu arranjo alguns pares pra gente depois. Não podemos formar nada entre nós pra coisa não ficar injusta. — Sugeriu Carly.

Naquele momento, percebi que não aceitaria a possibilidade dela ir com Freddie. O sinal tocou e eu segui para a sala de aula pensativa.

Fiquei preocupada com o maldito baile. Quando disse que não iria, dei a oportunidade aos dois de irem juntos. Isso não podia acontecer. Mesmo que eu confiasse em minha amiga, não excluía a possibilidade do Benson ter uma recaída. Até porque, não estava certa sobre tudo que acontecera entre nós. O fato de não termos conversado sobre os acontecimentos da festa parecia nos distanciar mais ainda.

Decidi que não poderia convida-lo. Assim, evidenciaria nossa relação como nunca. Além do mais, me faltava coragem. Eu já dava como certa sua resposta negativa, mesmo hipoteticamente. O que me restava então era convidar John.

Como desculpa, o chamaria para conversar o que não conversamos na festa e, se tudo se resolvesse, o convidaria. Do jeito que ainda parecia interessado em mim, confiei que aceitaria.

Terminei a prova sem prestar muita atenção no que escrevera. Era incrível como o nerd ainda conseguia me tirar do sério e me obrigava a fazer esse tipo de coisa, mesmo de forma indireta.

Procurei por John em todo canto, já no intervalo, até avistar minha amiga. Decidi ir até ela para avisar sobre minha mudança de planos e pedir uma ajuda.

– Carly! — Chamei-a, enquanto corria em sua direção. — Mudei de ideia. Vou ao baile.

– Eu sabia! — Comemorou, sorrindo. — Quem vai chamar?

– Resolvi dar uma trégua e... — Ela me olhava curiosa diante do mistério que tentei fazer. — Vou chamar o John.

– Não! — Ela gritou de repente. — Não, Sam!

– Por quê?

– Nós estávamos na mesma sala e... ele ainda não tinha par. Lembrei que você não queria ir, então... eu o chamei.

Estava espantada. Não enciumada ou furiosa, mas intrigada. Observei seu rosto apreensivo e não encontrei, naquele instante em silêncio, mais algum motivo plausível para esse acontecimento.

– Eu juro que não o convidaria, mesmo que vocês já estejam separados. — Explicou, sentindo-se culpada. — Sabe, eu queria aquele amigo dele que apareceu na festa, mas ele já tem acompanhante.

– Tudo bem, Carls. — Eu a tranquilizei com um sorriso amarelo. — Nesse caso, então, é melhor que eu não vá.

– Não! — Gritou novamente, no mesmo tom e desespero de antes. — Ainda tem uma pessoa que você pode convidar.

– Quem?

Carly inclinou a cabeça, erguendo uma das sobrancelhas.

– O Freddie.

*

Eu estava nervosa. Minhas mãos suavam mais que um gordo quando caminha um quilômetro. Meu coração batia mais rápido que o de um recém nascido. Mal conseguia controlar minha respiração.

Os mesmos sintomas, pelo mesmo motivo.

O dia letivo já acabara e Carly me obrigou a estar ali mas fora embora. Tentou me convencer e deixou algumas ameaças no ar antes de ir. Eu era a única na escola. Um faxineiro, dois ou três professores. E Freddie.

Esperava pelos garotos do clube do trem para o o encontro que teriam mais tarde. Minha amiga disse que ele preferiu não passar em casa antes. Estava triste por não receber nenhum convite para o baile. Não sabia que eu seria a solução. Ou ao menos tentaria.

No fundo, era o que eu queria. Cheguei a sugerir a Carly que fosse com ele e eu com o John mas depois da primeira recusa não insisti mais. Mesmo assim, continuava nervosa.

Ele poderia dizer não, e nada no mundo todo, naquela situação, poderia ser pior que isso. Já bastava ter que convidá-lo. Ser dispensada seria o fim.

– Sam? — Depois de abrir a porta da sala, me bati na primeira mesa à frente. Gemi pela dor no quadril com um grito e Freddie virou-se assustado para me ver na hora.

– Droga! — Falei, ignorando seu chamado. Massageei o local dolorido enquanto ele vinha até mim, preocupado.

– Você está bem?

– Acho que sim. — Ele estava próximo e eu preferi não olha-lo, ciente do que poderia acontecer quando nos deparamos nessa situação. Fingi que toda a minha importância continuava voltada à pancada em meu corpo mas com certeza ele não se convenceu.

– Pode olhar pra mim, sabia?

Pelo seu tom, eu sabia que ria. Não falei nada nem fiz qualquer movimento em resposta. Quando percebeu meu constrangimento, afastou-se e sentou na mesa mais próxima com os braços cruzados.

– Obrigada. — Disse, finalmente olhando-o.

Freddie apenas fez um gesto com a cabeça, esperando que eu continuasse. Fiquei paralisada durante alguns segundos e ele se viu obrigado a falar.

– Então... — Começou um pouco sem jeito, colocando as mãos no bolso. -Como acha que foi nas provas?

– Mal. — Confessei. Ele pareceu impressionado. — Mas acho que consigo passar.

– Então parece que eu não fui um professor tão bom assim. — Lamentou, fazendo um trejeito divertido com os lábios.

– Foi sim. Mas, você sabe... — Dei uma pausa com certa timidez. — Talvez eu não tenha me esforçado tanto.

– Nada de sofrer por antecipação. Só segunda veremos as notas.

– É, você tem razão. — Ele riu, agradecendo, quando puxei uma mesa para me sentar também à sua frente.

– O que veio fazer aqui? — Perguntou finalmente.

– Eu... eu só vim conversar. — Respondi com a voz trêmula.

– Sobre?

– Sei lá. — Falei ríspida.

– Sam...

– Tá bom. — Falei mais alto do que deveria, decidindo não resistir. — Você já tem par para o baile?

– Não. — Admitiu envergonhado. — Algo muito estranho aconteceu. Sempre sou convidado.

– Não ter sido convidado por ninguém consegue ser pior do que a vez em que teve que ir com aquela bruxinha?

– E você com o Gibby? — Rebateu.

– No final ele ainda preferiu passar a noite com a namorada. — Falei, revirando os olhos.

– Dessa vez a situação ficou ainda pior já que agora ela estuda aqui e deve ir com ele.

– Como se eu fosse convida-lo...

– E vai convidar quem então? — Perguntou apreensivo.

– Você tem par ou não?

– Já disse que não.

– Certo. — Decidi falar de uma vez. Minha voz falhou umas três antes que conseguisse de fato. No final, saiu engasgada. Ele quase não entendeu. Pelo tom e pelo motivo. — Você... você quer ir comigo?

Freddie cerrou os lábios, as sobrancelhas e toda a expressão que carregava. Fora um convite inesperado que, sem dúvidas, o deixou desconfiado.

– O quê?

– Eu não vou repetir.

– Não, eu entendi. — Explicou, dessa vez mais sereno. Ainda assim, confuso. — Só quero saber se é sério mesmo.

– Por que eu brincaria com isso?

– Comigo você já brincou com coisas mais sérias. — Ele se levantou e veio até mim com as mãos para trás. — Então?

– É sério. Nós dois estamos sem par e parece que você quer muito ir.

Sua expressão suavizou. Foi como ver um céu limpo. Água pura. Flores brotando. Sentir o cheiro de molho de almôndegas, um gosto de carne ou ver a comida do restaurante chegando.

Quando sorriu, foi como sentir tudo isso de uma vez só.

– É claro. — Concordou, movimentando os ombros. Percebi que suas bochechas ganharam a cor de duas maçãs. Num efeito dominó, eu deveria estar igual.

– Sabe que horas começa?

– Às nove.

– Te pego às oito e meia?

– Pode ser.

Nos calamos pelo próximo instante, evitando qualquer contato direto. Principalmente o visual, já que nos levava a todos os outros.

Mal podia ouvir o barulho dos carros na rua ou das conversas no corredor quando eu mesma já fazia estrondo suficiente por dentro. Por todos os sentimentos ambíguos e incertos que se apoderavam de mim sem distinção. Por todo o silêncio entre mim e Freddie que fazia um perfeito contraste com o interno.

– Acho que já vou. — Falei enquanto fingia ajustar as alças da minha mochila para não ter que encara-lo.

– Então... até amanhã.

Acenei e sorri em resposta, caminhando até a porta sem olhar pra trás.

Não estava no meu juízo certo. Na verdade, nunca estive. Mas assumi, mais do que em qualquer outro momento, todos os riscos que o baile na companhia de Freddie traria: decidir, de uma vez por todas, o que estava acontecendo entre nós dois.

Notas finais
Ahhh, eu gosto desses pensamentos finais da Sam. O que acham do envolvimento da Carly com tudo isso? O que acham do baile? Certo, eu vou tentar postar rápido. Eu vou tentar muito, gente. Até mais!