Anyone Else But You
25 Fancy
Notas iniciais
PDV Freddie.
– Você vai amar essa filme. — Falei enquanto entrava com Carly na sala de cinema já escura.
– Eu espero mesmo. Nunca mais me convide assim de última hora, sei muito bem que é uma estratégia para você escolher o que vamos assistir. — Ela respondeu rindo.
– Tudo bem, me desculpe. Da próxima vez a senhorita vai escolher o que quiser. — Respondi divertido enquanto nos sentávamos.
– Nós vamos sair assim juntos mais vezes? Quer dizer... só nós dois? — Ela perguntou.
– Não sei você, mas eu quero. Saiba que não estou fazendo isso simplesmente pra não ficarmos sozinhos enquanto a Sam sai com o John.
– Cala a boca aí, eu quero ver o filme! — Alguém gritou atrás de nós, levando embora todo o clima do momento e impedindo-a de falar qualquer coisa.
Depois de nos divertirmos assistindo ao filme, fomos dar uma volta na cidade. Apesar da poluição de uma grande metrópole, conseguíamos ver uns vestígios de estrelas lutando para brilhar ao céu. Paramos tentando encontrar algumas e eu não pude evitar lembrar do dia em que eu havia consolado Sam na festa do Meião e ela também tentava contempla-las. NNão poderia comentar nada com Carly porque assim estragaria todo o trabalho que vinha sendo feito a longo prazo para te-la, já que falar isso iria me fazer falar muitas outras coisas que também prejudicariam Sam e John. Não que fosse algo errado, mas sim algo que ninguém além de nós precisasse saber.
Carly olhava para o céu maravilhada como uma criança curiosa. Estava parecida com a garota pela qual eu era obcecado anos atrás. De repente um outro rosto me veio à mente: o de Sam. Quando olhava o céu, também tinha a mesma expressão de uma garotinha. E no fundo ela ainda era, nem que fosse um pouco. Mesmo com sua pose de durona. Com o vocabulário chulo, as piadas sujas, as agressões constantes e a fixação por comida. Ela ainda era.
Aquilo não era hora para ficar pensando no outro lado da Sam, mas foi simplesmente impossível não ter lembrado. Tentei me concentrar ao máximo na morena mas percebi que não conseguiria fazer mais nada em paz enquanto não descobrisse o que estava se passando comigo.
PDV Sam.
O restaurante em que estávamos era extremamente elegante. John já havia me convidado há um tempo mas eu sempre tinha um certo receio em aceitar porque eu mal me comportava em qualquer lugar público, imagine em um tão chique.
Depois de muito insistir, eu finalmente aceitei. John foi de carro com o pai até minha casa me buscar onde eu havia me arrumado sozinha já que Melanie e minha mãe não serviam para nada e Carly sairia com Freddie.
O luxo já começou no caminho. O modelo do possante era uma Land Rover branca equipada com tudo o que eu pudesse imaginar que um carro tivesse e mais um pouco.
– Sam, esse aqui é o meu pai, Marcos. Ele se separou da minha mãe, foi morar na Itália e está se mudando pra cá de novo.
– Olá, Sr Marcos. — Respondi enquanto cumprimentava-o.
– Pai, essa aqui é a Samantha, minha namorada que eu te falei, a garota mais bonita e educada.
– Eu não teria tanta certeza. — Respondi divertida, os fazendo rir.
Chegamos ao restaurante num instante e gentilmente John puxou a cadeira para que eu sentasse.
– Estou muito feliz que você tenha vindo hoje.
– É, eu também. — Respondi com um sorriso.
– Gostou daqui?
– Sim, mas deve ser um pouco caro, não? — Sussurrei meio constrangida.
– Isso não importa. — Ele disse colocando uma das mãos em cima da mesa para encontrar a minha. — Já faz muito tempo desde que a gente brigou na festa aquele dia e desde que fizemos as pazes, não saímos pra um lugar legal.
– Eu ficaria feliz com um cinema, a gente poderia ir com a Carly e o Freddie e eu não precisaria ficar falando baixo ou usando isso aqui. — Falei puxando as alças do vestido rosa que eu usava.
– A gente não tem que ficar a vida toda só saindo com eles dois. — Respondeu irritado.
– Não, eu não estou dizendo isso... mas você também não acha legal quando saímos nós quatro?
– Não. — Ele disse soltando minha mão bruscamente. — Nada contra a Carly, mas não dá mais pra gente sair tanto assim com eles. Pelo menos não por enquanto já que ainda deve ter um ou outro que pensa que você namora aquele...
– Ei, chega. — Eu o interrompi calmamente. — Se quer saber, parece que o único que ainda pensa assim é você.
– O quê? Eu? — Perguntou perplexo.
– Já faz um século desde aquela festa do Meião e você ainda não superou.
– Como eu poderia superar se vocês ainda andam tão juntos?
– Nós sempre andamos junto e sempre iremos, temos o iCarly pra fazer. Você não tem que ficar se estressando!
– Eu não tenho culpa se ainda me incomoda.
– Poderia pelo menos fingir enquanto a gente está aqui.
– Me desculpe se eu não consigo fingir que me importo com você. — Ele respondeu desolado.
Eu o olhei da mesma forma, triste por estarmos discutindo tanto, então resolvi não responde-lo da maneira que gostaria já que ele estava totalmente errado. Queria que pelo menos aquela noite fosse de paz e que eu não precisasse ficar falando no Freddie mas sim aproveitar para usufruir da ajuda que vinha me dando há um bom tempo.
– Me desculpe. — Falei calma tentando controlar a raiva que sentia por ter que dizer aquilo sabendo que não havia necessidade mas seria a única maneira de encerrar a discussão pelo menos naquele momento.
– Me desculpe por estar tão neurótico. Mas sabe, é porque eu te amo.
– Você o quê? — Respondi quase gritando depois de um instante de espanto.
– Eu te amo! — Ele repetiu com um sorriso mas logo o desfez ao me ver assustada. — Por que, você não me ama?
– Não! — Falei imediatamente com a voz vacilante. — Quer dizer, sim! Eu amo você sim!
– Oh, Sammy! — Ele respondeu com a voz melodiosa e um sorriso enorme que eu retribuí muito mal.
Finalmente o garçom nos trouxe os cardápios. Eu não quis demonstrar para não passar por mal educada, mas já estava faminta e John parecia despreocupado, só jogando conversa fora enquanto eu já ia correndo meus olhos pelo menu em busca de alguma coisa que eu conhecesse mas só via uns nomes estranhos que nunca tinha ouvido, visto ou imaginado na minha vida.
– Já podemos pedir alguma coisa? — Perguntei impaciente na esperança de que ele me dissesse do que aqueles nomes esquisitos se tratavam.
– Você já escolheu?
– Você pode escolher pra gente.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Ok, então. — Ele passou os olhos pelo cardápio sorrindo e demorou um instante até continuar. — Que tal um... Coq Au Vin Bourguignon?
– Coque o quê?
– Coq Au Vin Bourguignon. — Ele repetiu pausadamente, irritado.
– O que é isso?
– Um prato francês!
– Esse restaurante aqui é francês?
– Sim! — Ele berrou mais alterado ainda. — Você não achou muita coincidência o nome de todos os pratos ser em francês?
– Não porque eu não sei essa língua.
– Como não? — Ele perguntou esnobe e repreensivo.
– Não temos na escola então eu não sou obrigada a saber. — Respondi com raiva.
– Ok. — Ele disse dando fim à discussão mas eu sabia que ainda estava irritado com algo.
– Então... — Falei um tempo depois. — O que era mesmo que você queria pedir?
– Coq Au Vin Bourguignon. Dá uma olhada ai na página três.
– John, isso aqui custa...
– Shhhh! — Ele me silenciou colocando o dedo indicador em frente à minha boca.
– Isso aqui custa os olhos da cara! — Sussurrei me inclinando sobre a mesa.
– Nem tanto. É que você está acostumada com frango frito, presunto... essas coisas comuns e baratas. Comigo vai ser diferente.
– Mas eu amo frango frito e presunto!
– Não depois que você aprender comigo o que é bom de verdade.
Apenas acenei com a cabeça concordando mas permaneci pensativa enquanto John conversava com o garçom. Tudo bem que ele queria que eu comesse do melhor, mas pra mim não faz diferença custar dez ou cem dólares, sendo gostoso, — e em grande quantidade, diga-se de passagem, — é o suficiente. Além do mais, por melhor que essa comida fosse, eu jamais abandonaria meu bacon, presunto e uns bons pedaços de frango frito.
– Aqui tem aquelas frescuras de prato de entrada? — Perguntei ao garçom.
– Sim, senhorita. — Respondeu com uma cara de desprezo.
– O que você sugere? — Disse John a ele.
– Temos um Steak Tartare delicioso.
– Pode ser isso por enquanto. — John falou sorrindo enquanto entregava o cardápio. — E traga também um vinho.
– Da melhor safra. — O funcionário respondeu gentilmente diferente do que fizera comigo, saindo em seguida.
Esperei que o narizinho empinado saísse para expor minha indignação.
– Vinho?!
– Algum problema?
– Você já acha que é adulto o suficiente pra beber isso? É pelo menos permitido?
– Eu já tenho 18. Vai dizer que você vai comer uma entrada dessas com refrigerante?
– Seria bom.
– Sam, se você não quiser, bebe só uma taça.
– Tudo bem. — Concordei mas ainda estava irritada.
Apesar de ter pedido que ele escolhesse o que iríamos comer, fiquei receosa não só com a possibilidade dele pedir algo que eu não iria gostar, mas também a maneira com que estava claramente tentando me forçar a ser e comer de uma maneira mais sofisticada. De certa forma, também fiquei chateada já que, como meu namorado, ele deveria saber que eu não sou muito seletiva em relação a isso e estou bem longe de ser chique porque não consigo e não quero.
Enquanto eu pensava sobre isso, ele olhava o meu cardápio já que tinha entregado o outro ao garçom e não notou que algo me incomodava mesmo que demonstrasse nem que fosse um pouquinho. Quando percebi que as entradas estavam chegando, tentei esquecer por um momento.
– Finalmente, eu estou faminta. — Exclamei tentando quebrar o silêncio mas John não me respondeu.
O garçom depositou os pratos na nossa frente enquanto servia as taças com um pouco de vinho. John sorriu para mim, ansioso com a primeira garfada que já ia dando enquanto me olhava mas eu interrompi curiosa com o aspecto daquela comida.
– John, não come ainda.
– Por que não?
– Está cru. — Me virei para o garçom. — Isso aqui está cru, será que dá pra levar de volta? — Conclui suspendendo o prato no ar de modo que o funcionário pudesse pega-lo.
– Não, Sam. — John riu constrangido pegando o prato da minha mão e colocando-o sobre a mesa novamente. — É assim mesmo. — Ele se voltou para o garçom que ainda permanecia em pé próximo a nós e fez um sinal para que saísse.
– Sério? Filé cru e gema de ovo crua? — Perguntei apontando para a refeição à minha frente.
– Você nem provou ainda!
– Mas já não gostei.
– Se não fosse gostosa, não seria tão cara.
– Dez bolos gordos iriam me satisfazer mais e não custariam tanto.
– Você pode pelo menos comer um pouco antes de criticar?
Ele estava tão nervoso quanto eu mas optei por me controlar pelo menos por um instante. Até que estava certo, afinal eu nunca havia provado então não sabia se era bom ou não, além do mais estava pagando bem caro por aquela noite e eu não queria estragar tudo.
Relutei um pouco diante de seu pedido mas resolvi ceder por mais que não quisesse.
– E então? — Ele perguntou ansioso enquanto me fitava mastigando.
– É bom, muito bom mesmo. — Menti ainda com a boca cheia sem entusiasmo algum.
– Sério? — Perguntou desconfiado.
– Claro! É... diferente, sabe? A minha ignorância estava me impedindo de ver isso, mas muito obrigada pelo seu bom gosto. — Tentei ser gentil, mas só depois de terminar percebi que tinha soado extremamente sarcástica. De qualquer forma, John apenas sorriu e continuamos a comer.
Depois de um tempo relativamente em paz, John pediu o prato principal que me soava tão estranho quanto a entrada havia sido, o tal do Coq Au Vin, mas pelo menos me certifiquei de que não era cru então concordei que fosse nossa refeição.
– Acho que você vai gostar mais desse.
– Oh, claro... — Falei encarando-o de forma curiosa.
– O que foi agora?
– Não sei, esse negócio está com uma cara esquisita. Por que você pediu isso?
– Porque você deixou!
– Tudo bem. — Assenti e peguei meus talheres. Dei uma garfada e levei até minha boca. Forçadamente, mastiguei e engoli sem vontade alguma já que era ainda pior do que o que havíamos comido antes. — É ótimo.
– Bom que você tenha gostado. — Ele respondeu carinhosamente.
Não quis continuar a comer mas ainda estava faminta. "Que se dane", pensei, "não estou podendo recusar comida."
Ao terminarmos, conversamos um pouco enquanto eu já ansiava pela sobremesa que com certeza seria melhor.
– Vou querer um Petit Gateu. — Finalmente algo que eu gostava, um bolinho de chocolate quente com sorvete de creme tão simples me satisfaria mais do que tudo que havíamos comido até então.
– Não, Sam.
– O que foi agora? — Rebati mais alto do que deveria e mais estressada do que queria.
– É muito comum. Vamos variar um pouco.
– Mas eu não quero!
– Você confia em mim?
– Que confiança o quê! Isso aqui é gosto. E eu quero o meu...
– S mais dessa vez me deixa escolher. Você vai gostar.
Balancei a cabeça positivamente embora não quisesse. Ele pediu e eu acabei não ouvindo o que era, mas logo o garçom retornou com duas tigelas cheias de um creme esbranquiçado e se retirou no mesmo instante.
– O que é isso?
– Ovos nevados.
– Você gosta mesmo de coisa crua, hein?
– Come logo. — Ele disse dando uma risada. — Você vai gostar.
Levei a sobremesa à minha boca e a engoli. Até que não era tão ruim, mas não poderia dizer que era boa de forma alguma. Para não decepciona-lo novamente, fingi que havia gostado com um sorriso forçado.
John pagou a conta nada barata e esperamos o pai dele do lado de fora do restaurante. Em alguns minutos ele chegou com seu carro e os dois me deixaram em casa. Como sempre, me despedi de John com um sorriso e um beijo, tentando ficar feliz sobre aquela noite. Na realidade, eu estava triste pelo simples fato de saber que eu jamais conseguiria ser moldada às preferências dele, deixando de ser a garota mal educada e agressiva que gostava de bacon, presunto e frango frito. Então, se essa Sam não o agradasse, nenhuma outra iria. E eu teria que acabar com isso.
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