Anyone Else But You
30 Crawling Back To You
Notas iniciais
PDV Sam.
Enquanto eu me apoiava em Freddie no meio da rua para calçar meus sapatos novamente, a Land Rover branca do pai de John se aproximava.
– O John ali! Se esconde! — Sussurrei apontando para o carro. Ele ficou atrás do poste de luz ao nosso lado e enquanto o automóvel estacionava rente à calçada, me virei para uma última vez e falei. — Depois você vai me explicar isso direito.
– Uau! — John exclamou ao me ver.
– Pois é. — Falei um pouco tímida e ainda nervosa porque com certeza Freddie estava ouvindo tudo.
– Vamos? — Ele perguntou e eu sorri confirmando.
Nos sentamos nos bancos de trás lado a lado onde ele me ofereceu alguns biscoitos. Já me lembrando do que Freddie havia me dito, recusei com muita dificuldade tentando parecer elegante e não faminta como sou realmente.
– Não, obrigada.
– Tudo bem.
Dei um sorriso amarelo, louca para avançar naqueles sequilhos de coco. Novamente na tentativa de me distrair e de ser educada, acabei passando vergonha.
– Olá, sr. Marcos. — Falei tentando fita-lo no banco da frente enquanto dirigia.
– Sam! Não é o meu pai! — John murmurou irritado.
– Desculpe, eu não sabia. Quem é então?
– Ninguém importante, só o chofair.
Naquele momento eu me preocupei e passei a repensar todo o motivo pelo qual eu estava ali. Não, não poderia ser por alguém fútil como John estava se mostrando ser. Não poderia ser por alguém tão cheio de si, engomado e filhinho de papai.
Não há nada de errado em ter alguém para te servir, ser rico e até mesmo um pouco mimado. O que me incomodou foi a forma como ele diminui a existência e a importância daquele homem simplesmente por ele ser seu subordinado. Classificando-o como alguém menos importante, alguém que não precisava ouvir o bom dia, o boa tarde e o boa noite que o pai dele mereceria se estivesse naquele volante.
– E como é o nome dele? — Insisti numa tentativa falha de esconder minha indignação.
– Não sei. — Respondeu com indiferença.
– Com licença, como é o seu nome? — Perguntei ignorando John e sua negligência enquanto me debruça nos bancos da frente do carro.
– Me chamo David, senhorita. — Disse com um pequeno sorriso de lado continuando atento ao tráfego.
– E eu me chamo Samantha. Pode ser Sam também. — Quando o farol fechou, estendi minha mão e ele estendeu a dele para nos cumprimentarmos.
– O que você está fazendo? — John perguntou ao me puxar de volta para trás.
– Sendo gentil e educada, algo que você não foi.
– Sam, você tem que te preocupar com o jantar. Comigo, com a minha família... não quer que eu já te diga algumas coisas sobre eles?
– Não se preocupe com isso.
Sem vontade alguma, tentei esboçar um sorriso, certa da sensação de repugnância que tive ao faze-lo. Eu estava decepcionada com a postura dele de me fazer agrada-lo de todas as maneiras possíveis e agora, à família dele também. Estava decepcionada por ver a cada momento o quanto ele era egoísta e naquele instante, a prova mais clara e recente de sua falta de humildade e arrogância em relação a outra pessoa pelo simples fato de ser seu empregado. Estava decepcionada. Sentia, como nunca, quanto tempo eu havia perdido apenas tentando ser o que ele queria e não o que eu era realmente.
Ignorando essa frustração, tirei meus sapatos e pulei para o banco da frente onde me sentei para conversar com David.
– E então, David, quantos anos você tem?
– Tenho cinquenta. E a senhorita?
– Chegando aos dezoito. — Ele riu parecendo feliz e interessado na conversa, então continuei. — Há quanto tempo você trabalha assim?
– Já fazem mais de dez anos. Fui despedido do meu emprego e precisava arranjar outro o quanto antes, afinal meus três filhos ainda eram pequenos na época e minha esposa estava grávida de mais um.
Nosso diálogo não durou muito porque a casa de John era bem perto da minha mas mesmo assim conseguimos nos divertir bastante. David era um homem dedicado, gentil e bem divertido apesar da dificuldade de falar sobre algumas coisas na presença do filho da patroa, provavelmente por sempre ter sido reprimido e censurado no que quer que fizesse.
David era empregado da família há mais de dez anos como ele mesmo havia dito. Presenciou as brigas constantes entre os pais de John até que se separassem. Desde então, continuou a trabalhar para a mãe já que o pai se mudara para a Itália. Agora ele voltou e está trazendo consigo mais anos de péssimos hábitos para com seus funcionários.
Chegamos finalmente àquela enorme residência com uma área repleta de árvores, arbustos e flores por todos os lados. Havia ali mais carros de luxo estacionados, provavelmente da mãe, porque o que havia nos levado até lá pertencia ao pai. Pelo lado de fora já era possível notar que a casa era enorme e bem iluminada. Contava com uma bela varanda e uma piscina maravilhosa.
Ao descermos, o pai médico, autoritário e elegante já começou a disparar seus ataques contra o proletariado.
– Boa noite, Samantha! — Ele disse enquanto caminhava até nós com os braços e um sorriso abertos.
– Olá. — Tentei soar gentil mas acabei soltando de mim uma voz ridiculamente enjoada. Ele me cumprimentou calorosamente e logo em seguida desfez o sorriso ao olhar para o motorista.
– David, você já pode se retirar.
– Sim, senhor. — Respondeu ele retornando ao carro até que o ex-patrão voltasse a chama-lo.
– Espere. — Sua voz estrondosa e grave imobilizou o homem imediatamente, fazendo-o se virar um segundo depois.
Ele foi analisado e avaliado milimetricamente sob o olhar atento do magnata a sua frente. Foi rodeado apenas uma vez, mas de maneira suficiente a ter ressaltadas algumas coisas desagradáveis.
– Há tanta terra debaixo da sua unha que dá para fazer uma reforma agrária. Que imundície. — Comentou o pai de John como um general do exército.
– Eu vou dar um jeito nisto, Senhor. — Respondeu David convicto, sem sequer piscar os olhos.
– Então vá logo antes que você seja despedido.
– Sim, senhor.
Olhei para John em busca de algum olhar tão indignado quanto o meu diante daquela situação mas o que encontrei foi justamente o contrário. Ele exibia um sorriso discreto porém satisfeito, como se concordasse com o que via.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa que não me rebaixasse a tal nível, David saiu de cabeça erguida, não abalado como pensei que estaria. Ele sorriu, entrou no carro e o estacionou mais a frente.
– Vamos entrar, queridos?
– Claro, pai. — John já ia o seguindo quando eu o parei.
– O que foi aquilo?!
– O que foi aquilo digo eu! Você preferindo conversar com o motorista do que comigo?
– Isso não vem ao caso! O seu pai foi extremamente arrogante com ele e você não fez nada.
– Ué, o que eu posso fazer se meu pai é assim?
– Você pode discordar até porque ele não mora mais aqui.
– Sam, nem o tal do David se incomoda com isso. Relaxa. — Me pegando desprevenida, ele me deu um selinho e saiu a frente sem me esperar. Depois de um momento imobilizada e enfurecida, o segui.
John me esperou na porta e, assim que cheguei, ela foi aberta. A primeira visão que se tinha era de uma enorme escada em espiral dando acesso aos cômodos de cima, e no debaixo, uma fileira de quatro funcionários próximos a uma mesa cheia de bebidas, uma obra de arte exuberante pendurada na parede e algumas orquídeas ao redor.
Mais ao fundo, avistei um casal de idosos, uma garotinha e uma mulher que parecia ser a versão do John com cabelos.
– Sam, esta é a minha casa.
– É linda. — Falei ainda contemplando o que estava ao alcance dos meus olhos.
– Venha conhecer o resto da minha família. — Ele disse me levando até as quatro pessoas que aguardavam por nós meio distantes e sorridentes enquanto o pai dele permanecia próximo à porta.
– Vô, Vó, mãe, Leslie, essa aqui é a Samantha, minha namorada.
– Prazer em conhece-los.
– Sam, esses são meus avós maternos Marcia e George, essa é minha mãe Alexia e essa aqui a peste da minha irmã Leslie. — Ele disse apontando para cada um e fazendo-os me cumprimentar.
– Então, Sam, como vocês começaram a sair juntos? — Perguntou a mãe dele.
Enquanto nos encaminhávamos até a sala de jantar, eu e John contamos tudo desde o momento na festa da Wendy na qual ele acabou conhecendo a garota errada, até nosso último encontro juntos naquele restaurante francês. Eles estavam se divertindo com a história e gostando da maneira como eu forçava ser meiga mas acabava sempre sendo... eu.
– A conversa está muito boa mas eu já estou faminta.
– Vovó!
– Cale a boca, John. Eu aposto que essa moça seja tão boa de boca quanto eu.
Finalmente começamos a comer e, como eu já esperava, teve aquela palhaçada de prato de entrada, prato principal e acompanhamento. Na verdade, nem procurei saber o que era cada um, apenas fui engolindo tudo conforme me era servido. Ao menos parecia ser bem melhor que aquele galo ao vinho que comemos outro dia.
– Sam, você gostou do Coq Au Vin que comeu com John?
– Sim, sr. Howard. — Menti.
– Parece que a garota tem bom gosto. — Disse Alexia olhando para o ex-marido. — Diferente de mim.
– Vocês não vão começar agora na frente da Sam, vão?
– Você viu que sua mãe está afim de me atacar.
– Cale essa boca, Marcos! Você nem mora mais aqui!
– Ei! — Gritou o sr George enquanto batia os talheres contra os pratos e calava a todos. — Eu quero mais vinho.
Depois de comer, conversamos mais um pouco na sala de estar. Salvo a histeria da mãe, a caduquice dos avós e a pentelhice da irmã, eram boas pessoas. John realmente havia herdado os genes ruins do pai.
Falamos sobre muitas coisas aleatórias, algumas constrangedoras e outras um pouco mais complicadas. Consegui me sair bem nos assuntos que há alguns meses atrás me pareciam clichês, complicados e e entediantes. Que só gente chata falava a respeito. Que eu nunca tocaria no assunto. Mas Freddie, ao longo daquele tempo, me ensinou que não. E mais importante, me mostrou.
Em nenhum momento eu conseguia parar de pensar nele. Sua ajuda estava surtindo um ótimo efeito, mas eu já não queria que tivesse utilidade alguma. Porque eu estava finalmente me dando conta de que, se eu tivesse que agradá-lo, ele não era o certo. Eu tinha simplesmente que ser aceita. E uma certa pessoa já vinha fazendo isso há tanto tempo que eu mal me dei conta.
Às onze da noite resolvi ir embora mesmo que todos insistissem para que eu ficasse. Estavam eufóricos mas foram dóceis até o final.
– Eu preciso ir, não quero preocupar minha mãe. — Piada. Como que se ela ligasse.
– Tudo bem, querida. Volte mais vezes. — Pediu Alexia.
– Você ainda tem que me ensinar como fazer a meia de manteiga. — Falou Leslie.
– Claro. — A respondi com o sorriso tão grande quanto o dela.
Me despedi de todos com uma gentileza que nem eu mesma sabia que tinha. Não era a maneira com que eu costumava agir, mas também não significou algo ruim. Não foi forçado como nos momentos que eu passava apenas com John. Foi espontâneo. Como se eles tivessem despertado algo bom em mim.
– Gostou deles? — John me perguntou enquanto caminhávamos de volta até o carro.
– Sim, muito.
– Espero que você volte mais vezes, então.
– Claro.
Paramos frente a frente e substituímos nossos sorrisos por um beijo.
– Tchau.
Eu acenei enquanto entrava no carro novamente. Ele continuou a me observar até David manobrar o carro e desaparecer de vista comigo.
– E então, Sam... — Ele começou a conversa já enquanto virávamos a primeira esquina. — O que achou da família?
– São legais.
– Sim, eu os adoro. O problema é apenas John e o pai. — Falou impassivo. — Oh, meu Deus, me desculpe! Me esqueci que vocês namoram.
– Sem problemas. — Respondi um pouco constrangida, mas rindo. — Sei bem. Eu o conheço.
Ou não.
Alguns minutos depois, chegamos à frente da minha casa. Ainda conversávamos sobre a família do John e como o pai havia perpetuado nele tudo o que tinha de ruim. A arrogância não só com os próprios empregados mas com os dos outros também, com a ex-mulher e ex-sogros.
– Está tarde então eu já vou. Obrigada por ter me trazido.
– Sem problemas. — Ele disse enquanto desativava as travas das portas do carro.
Antes que eu colocasse meus dois pés na calçada, avistei minha mãe no fim da rua se aproximando, acompanhada visivelmente de alguém tão bêbado quanto ela. Eu sabia muito bem o inferno que presenciaria naquela casa pelo início da madrugada se ficasse, então resolvi mudar meu rumo pelo menos aquela noite.
– David... você sabe onde fica o Bushwell Plaza?
– Sim, senhorita.
– Pode me levar até lá?
Sem mais questionamentos, ele aceitou prontamente dirigir até lá. Chegamos bem rápido mais uma vez e eu não precisei implorar que não comentasse nada com ninguém porque sabia que poderia contar com o sigilo do meu mais novo amigo.
De alguma maneira desconhecida e tosca, eu me sentia atraída aquele lugar naquela noite. Claro que, primeiramente, eu estava fugindo da oportunidade de presenciar as relações amorosas da minha mãe, mas sempre que o fazia, acabava parando no apartamento 8-C. Acontece que aquela semana ele estaria vazio. Já o 8-D estaria cheio.
Driblei o Lewbert na portaria, não me pergunte como, e arranjei a chave reserva do apartamento que parecia estar me chamando pelo nome. Era a única forma de entrar lá já que eu não tinha nada no meu cabelo pudesse usar para abri-lo. Fiquei descalça segurando meus sapatos e pisando o mais cuidadosamente a cada passo que dava escada acima.
Sabia que Marisa dormia cedo a não ser que ficasse de plantão no hospital, mas Freddie sempre permanecia acordado até tarde especialmente nos fins de semana. Enfiei a chave no buraco da porta e ao entrar já não o vi no sofá cochilando como poderia em outro momento. Ainda segurando meus sapatos em uma das mãos, subi as escadas até o corredor que daria acesso ao lugar onde eu o encontraria provavelmente.
Cheguei ilesa ao andar de cima. Aliviada, respirei e inspirei tão fundo que até fiz um certo barulho ameaçador em comparação a tamanho silêncio.
Dei mais alguns passos em direção ao quarto que eu conhecia tão bem quanto o dono. Já naquele corredor, ele exalava um cheiro convidativo de paz. Com a mão livre, dei passagem a mim mesma e entrei. As luzes estavam apagadas e o notebook em cima da cama estava ligado mas não avistei o que eu realmente queria. Me virei para fechar a porta com tanto cuidado quanto havia tido para abri-la, e antes que me virasse de volta, uma voz invadiu o cômodo.
– Sam? — Murmurou ele.
– Oi. — Me virei num susto tentando encontra-lo, localizando apenas suas silhueta marcada pela luz que saía do banheiro entreaberto.
– Eu vi muitos filmes de terror hoje à noite ou você está aqui mesmo?
– Os dois, talvez.
– Você sabe que horas são?
– Quase meia noite.
– Sério? Pensei que fosse mais tarde ainda.
– Você já estava indo dormir?
– Eu gostaria de tentar pelo menos, mas vi uns filmes esquisitos agora há pouco...
– Você tem medo? — Falei com certo deboche.
– Não. — Ele desdenhou com uma risada enquanto vinha até mim acender a luz. — O que você veio fazer aqui agora?
– Vim saber da... da Carly. — Na verdade não, mas eu precisava sustentar um pretexto pelo menos durante aquele instante e realmente arranjar alguma notícia da minha amiga sumida.
– Quando voltei da sua casa nós nos falamos por vídeo-mensagem. O vovô Shay voltou a ser internado então vão cuidar dele esses dias. A Carly já volta semana que vem por causa da escola mas mesmo assim vamos fazer um programa sem ela.
– O que ele tem, afinal?
– Algumas complicações por causa da hipertensão, mas está bem. A Carly e o Spencer também.
– Ótimo. — Falei aliviada.
– Tem certeza que você veio aqui só pra isso? — Ele cruzou os braços e pesou sobre mim um olhar de certa desconfiança e um sorriso de quem já sabia a resposta para o que havia perguntado.
– Não, na verdade. — Admiti envergonhada, me sentido observada por mil pessoas.
– Então... esse é o momento em que você diz. — Ele insistiu depois de um momento de silêncio.
– Quando eu estava voltando da casa do John, vi minha mãe chegar bêbada com o namorado e, você sabe... eu não ia ficar lá passando a noite em claro com eles dois...
– É, eu já entendi. — Disse ele desprezando o término da frase. — Mas será que é só isso?
– Não. — Falei convencida e confiante apesar do tom sugestivo que ele usava.
– Já vi que essa conversa vai demorar. — Ele riu abafado e foi até a cama, onde se deitou por cima das mãos para poder levantar a cabeça e me enxergar.
– Lembra que a gente tinha um assunto pendente? — Falei colocando meus sapatos no chão e indo até ele.
– Tinha? — Perguntou assustado.
– Sim. Alguma coisa sobre a Melanie ter gritado quando estávamos indo embora da minha casa e você sair correndo e me arrastar junto. — Enquanto eu falava, ele ia se sentando.
– Bem, você viu como ela deu em cima de mim o dia inteiro. — Respondeu sem jeito.
– Sim, mas parecia que ela estava brava com alguma coisa e você com medo.
– Você sabe, ela é insistente.
– E você é muito dissimulado.
– Eu?! — Perguntou ele com cinismo.
– Vocês por acaso se beijaram quando eu estava no banho?
– Quase.
– O quê?! — Exclamei enquanto me atirava com fúria para perto daquela expressão apreensiva que ele estampava.
– Quase. — Ele enfatizou.
– Por quê?!
– É que... — Ele deu um suspiro e se ajeitou para continuar. — Eu prometi que, se ela maquiasse e arrumasse você, eu a beijaria.
– Eu?!
– Não! Ela! Eu beijaria a Melanie! — Frisou ele com certo desespero.
– Oh, sim. — Falei calmamente, me sentindo irritada e aliviada ao mesmo tempo. — Mas isso não deixa de ser ridículo da sua parte.
– Foi pelo seu próprio bem.
– Ou será que você estava só afim de se aproveitar dela?
– É mais fácil que o contrário aconteça, afinal ela já me beijou uma vez.
– Será mesmo?
– Oh, meu Deus. — Ele suspirou, indignado, enquanto se sentava na cama. — Nós não nos beijamos. Não se preocupe, ok?
– Por que eu me preocuparia?
– Bem... você surtou quando viu a gente quase se beijando na sala, eu não sei o que aconteceria se soubesse que a gente se beijaria mesmo ainda mais por você.
– Por mim? Não! — Respondi um pouco nervosa, com o sangue quase fervendo.
– Eu não disse? — Falou ele apontando para mim, confirmando sua tese diante da minha postura que só a reforçou.
– Você poderia ter me avisado.
– Você iria me matar e não aceitaria que ela te ajudasse se soubesse que foi minha promessa que a motivou.
– Não mesmo.
– Está vendo aí? É disso que eu estou falando! Você não a contestou na hora, mas agora quer tirar satisfações justo comigo?
– Ela pode ficar dando em cima dos meus amigos e eu não posso me indignar por ela ficar se oferecendo às minhas custas? Isso é aceitável?
– Amigos? — Ele disse disparando aquele sorriso de canto de boca.
– Essa foi realmente a única parte que você ouviu de tudo o que eu disse? — Perguntei com cara de poucos amigos.
– Não. — Ele riu e caminhou por um instante ao redor do quarto. — Eu sei que isso foi terrível, mas... você não acha que está bem estressada com algo que, de certa forma, te ajudou?
Minha reposta, mentalmente, era não. Porque além de ter sido motivada por algo ridículo, aquela ajuda me empurrou mais ainda para algo que estava me adoecendo. Algo que vinha me incomodando e me prendendo embora eu já estivesse quase no ápice do meu desejo de ser liberta. Algo que, naquela mesma noite, eu descobri que havia sido uma enorme mentira, uma grande ilusão e uma tentativa falha de tapear uma outra grande verdade. Bem insana, a propósito.
– Pode ser... — Falei finalmente, me contradizendo, depois de um instante a encara-lo.
– Pois é. O John deve ter gostado da sua arrumação.
– Mas você não precisa ficar prometendo que vai beijar meio mundo só pra me ajudar. — E de certa forma, essa frase se fez o meu "obrigada."
– Pior que isso eu já fiz: estudar com você.
– Estudar comigo é pior do que sair beijando qualquer pessoa sem motivo algum?
– Primeiro, a Melanie não é qualquer pessoa, é sua irmã. E, a propósito, ela beija muito bem. — Ele disse no tom que sempre empregava à voz quando queria me irritar e a forma com que estava se tornando cada vez mais frequente me impressionava de uma maneira esquisita.
– Não importa, você pensava que era eu. — Respondi tentando fazer o mesmo mas só conseguindo soar mais refém ainda daquela situação que me desfavorecia.
– Não se preocupe, até que você também beija bem. — Exclamou ele inesperadamente, me deixando sem palavras e cheia de raiva.
– Pois saiba que se você melhorou muito desde aquele dia ainda não é suficiente porque foi simplesmente horrível.
– Foi nojento. — Ele disse rindo.
– Você que sugeriu!
– E você que aceitou. — Falou ele dando um fim à discussão.
– Chega disso, ok?
– Ok. A gente prometeu nunca falar a respeito, lembra?
– Sim. Então essa foi a última vez. Ok?
– Ok.
A pausa na conversa não me deu tempo suficiente para distinguir tudo o que estava acontecendo dentro de mim. Por que eu estava ali, por que estávamos conversando tudo aquilo e por que eu estava me sentindo tão diferente. Por que eu me sentia tão atraída a continuar ali, quando o extremo oposto acontecia com John. Até onde aquilo era normal para nós dois? Até onde eu sabia, ao menos, o que era normal?
– Já que supostamente você veio até aqui uma hora dessas só para isso, aproveita e fala logo como foi lá na casa do John. — Ele perguntou um instante depois, fingindo que se importava. — Foi bom?
– É, foi normal.
– Normal?
– Você esperava que fosse o quê?
– É que você estava toda produzida, maquiada, de vestido, salto alto e, quem sabe, calcinha. Então teria que ser mais que apenas bom.
– Certo. — Falei, não conseguindo evitar uma risada. — Mas você queria que fosse tudo isso?
– Sinceramente? Não. Pra mim esse namoro é uma farsa. Mas, você sabe, tenho que te ajudar, então...
– Você é muito falso, isso sim. Me ajudou até a escolher o que vestir, fechou os botões pra mim... — Falei sem dar muita importância para os efeitos que causaria, apenas esperando por eles de forma curiosa. Freddie enrubesceu na hora e sua garganta travou umas duas vezes antes que voltasse a falar qualquer coisa.
– Bem, eu... eu também não entendi essa parte. Você poderia ter chamado a Melanie pra fazer aquilo.
– Esqueceu que ela só faz as coisas por mim se você beijar ela?
– Ou pelo menos pensar que eu vou. — Ele falou e eu ri. — Mas... o que você achou da família dele?
– São legais. Exceto por aquela pai arrogante...
– Ele foi arrogante com você? — Perguntou alarmado.
– Não, mas com todo mundo.
– Eu só o vi uma vez mas também não foi a pessoa mais gentil do universo.
– E está anos luz longe de ser.
Freddie riu e não respondeu de imediato. Apenas me encarou até ficar um pouco mais sério porém tranquilo para então continuar.
– E quanto ao filho dele?
– O quê? — Perguntei impassiva.
– Ele ainda é a pessoa mais gentil do universo?
Parei antes de responder sentindo várias repostas se formando dentro de mim, a maioria delas, contradizendo o que eu sentia há algum tempo atrás.
– Não sei.
Antes que eu terminasse de responder, ele se virou de costas, parecendo nervoso e se virou de volta para mim de novo. Assim que o fez, estudei a expressão que ele estampava, cheia de indecisão, de expectativa e de confusão. Era como me olhar num espelho.
– Até hoje você ainda não sabe?
– O que eu realmente não sei é por que você é tão contra o meu namoro mas me ajudou hoje. — Falei enquanto marchava até ele com raiva.
– Eu já te alertei como pude, agora cabe a você decidir isso sozinha.
– Então muito obrigada, já pode parar.
– Posso até tentar, mas parece que tem alguém esperando pra quebrar a cara antes de me dar ouvidos.
– Quer saber? Não vim aqui pra ouvir sermão. — Falei indo até a porta.
Tentei acelerar o passo como pude, mas antes que eu percebesse ele me alcançou.
Como sempre iria.
Não importava para que lado eu fugisse, ele sempre chegava até mim. Em todos os sentidos.
– Será que você poderia me dar licença, por favor? — Pedi tentando não encara-lo.
– Não.
– Mas eu não vou atrapalhar você pra dormir? — Perguntei sarcasticamente, olhando-o da mesma forma que ele fazia.
– Acho que você iria me atrapalhar de qualquer jeito.
E aquele foi o último sussurro que me entrou pelos ouvidos antes que nossas bocas se juntassem.
É. De alguma forma, isso aconteceu.
Pela segunda vez.
Da primeira, eu jurei por tudo que houvesse de mais sagrado que não se repetiria. Então, pelo visto, tudo o que houver de divindade nesse mundo vai me cobrar por isso mais cedo ou mais tarde.
Pra ser sincera, eu nem sei quem de nós se atreveu. A única coisa que eu sei é que cerrei meus olhos e puxei o pescoço dele até sentir aqueles lábios quentes nos meus. Não foi nada encaixado, certinho, colado um no outro. Foi meio desconcertado. Um selinho, no começo. Ai outro, um pouco mais longo e apertado, até ter certeza de que não seria o suficiente. De que eu poderia esquecer aquele juramento, que por si só me dava a certeza de que nunca seria quebrado. Mas acabou sendo.
As mãos dele seguraram minha cintura no início. Eu o segurei pela nuca até te-lo bem firme junto a mim para depois poder sentir seus braços e o que mais eu quisesse enquanto nossas bocas iam se resolvendo.
Conforme avançamos, ele subiu as mãos de volta para o meu rosto. Eu estava tremendo. Eu estava completamente extasiada, como se aquele não fosse meu corpo e eu nunca tivesse sentido nada daquilo que estava sentindo. E não tinha, de fato. Porque ele vinha me proporcionando tudo o que pudesse haver de inédito e dessa vez não foi diferente.
O ritmo foi lento até o final e eu não sei quanto tempo durou. Apenas não foi o suficiente. Mas em algum momento a gente teria que se soltar de qualquer forma.
Ele abriu os olhos e os colocou em mim imediatamente. Nossas respirações ainda estavam tão próximas, tudo ali estava quente e abafado demais. O perfume dele era tão suave e envolvente ao mesmo tempo que eu já estava começando a duvidar que isso fosse normal. Porque me faltam palavras para descrever qual a sensação de senti-lo impregnado em mim. Porque não havia nada que pudesse me atrair ainda mais naquele instante.
Nos soltamos de uma vez estranhando o que víamos. Estranhando, na verdade, termos feito o que fizemos com quem víamos.
Eu ainda estava pasma com a qualidade e a vontade que me consumia de nunca ter parado aquele beijo. Era, até mesmo, assustador. Ainda dava pra sentir o hálito bom que ele estava porque tinha acabado de escovar os dentes. Ainda dava pra sentir um gosto quase igual ao que eu senti quando havíamos feito a mesma coisa de forma mais inocente na saída de incêndio há alguns anos. Era como ter voltada aquele mesmo lugar de forma mais madura.
O silêncio não tinha outro lugar para se instalar além daquele quarto. Porque era tamanho e até chegava a me assustar. Vez ou outra ele se mesclava com o barulho quase inaudível da respiração pesada que tentávamos controlar quase eficientemente. Diferente das nossas bocas.
– Você pode... abrir a... a...
– A porta?
– É, eu... preciso ir.
– Claro.
Muito sem jeito e depois de um bom tempo em calados, tomei a coragem de pedir e depois da resposta, me abaixei e peguei meus sapatos. Ele saiu à minha frente corredor a fora, desceu as escadas e, com certa pressa, pegou o telefone em cima da estante.
– Boa noite, você poderia mandar um táxi aqui para o Bushwell Plaza? Agora. Certo, obrigada.
Ele desligou o aparelho e o encarou por um instante antes de me olhar novamente. Eu ainda conseguia ver suas mãos tremendo e quase senti-las. Mesmo de longe. E era tão esquisito como eu queria que elas voltassem até a minha cintura.
– Eles chegam em uns cinco minutos. Você quer esperar aqui ou...
– Não, eu posso ficar lá embaixo.
– Eu vou com você.
Calcei meus sapatos já no corredor e ele trancou o apartamento. Dentro do elevador, a tensão não poderia ser maior. Eu não ousaria, naqueles trinta segundos, fita-lo nem de relance. Parecia que se eu o olhasse e ele correspondesse, veria estampado na minha cara um filminho do beijo que havia acabado de acontecer. E, por Deus, a última coisa que eu queria era que ele visse como eu estava atacada com aquilo.
Dentro de cinco minutos o táxi chegou. Freddie deu o endereço da minha casa ao motorista, o que me impressionou já que nem eu mesma sabia de cór. Ele pagou ao homem, abriu a porta de trás para mim e eu entrei.
– Espera! — Ele gritou ao homem antes que desse partida no automóvel. — Sam, eu... — Começou ele, um pouco hesitante, apertando os olhos. — Me desculpe.
– Não, eu... não foi só você que... sabe, eu também estava errada.
– Agora nós só precisamos não falar sobre isso. Certo?
– E não deixar que aconteça de novo. — Falei tentando quebrar o gelo daquela conversa.
– Como se houvesse a possibilidade. — Respondeu um pouco debochado, me proporcionando a mesma sensação que eu teria se tivesse enfiado uma faca no meu peito.
– Ok. -Assenti um pouco engasgada, sem conseguir corresponder o mesmo sorriso cínico. — Tchau.
Fale com o autor