Anyone Else But You
40 Cornerstone
Notas iniciais
PDV Freddie.
Eu odeio. Eu simplesmente a odeio. Por tudo.
Mas sinto que gosto dela. Apesar de tudo.
Mas, ainda assim, a odeio.
Odeio sua contradição, seu medo, seu orgulho. Mas gosto da sua decisão, da sua perspicácia, da certeza. E tudo isso só faz me imergir cada vez mais na tal contradição que eu condeno. Pior que isso: justamente no momento em que eu já estava certo sobre o que sentia.
Quando eu já tinha aberto todas as minhas portas, comprado uma peça enorme de presunto e deixado que ela explorasse tudo o que estivesse a sua espera.
Mas talvez tenha sido minha culpa, na verdade, e isso me fazia sentir patético e vulnerável. Porque nada disso aconteceria se eu não tivesse permitido.
Eu permiti no dia em que descobri que ela amava John e lhe ofereci ajuda para conquistá-lo. Eu permiti quando ela comprou para mim uma camisa igual a que havia rasgado e considerei como um ato bonito sendo que não era mais que sua obrigação. Eu permiti quando tentei alertá-la sobre o quão errado seu ex-namorado estava em tentar moldá-la à sua preferência. Eu permiti quando ela me beijou e eu correspondi.
Eu permiti quando senti por ela a coisa mais estúpida, mais inédita e mais deliciosa ao mesmo tempo e não fui correspondido.
Mas era incrível como, até o dia anterior, parecia que era.
Não quis considerar a hipótese dela ter sido coagida por alguém para não ser injusto caso estivesse errado, até porque ela já poderia fazer isso por si mesma muito bem, todos os dias que não se satisfazia com algo e todos os dias em que se preocupava mais com o que os outros pensavam do que com o que realmente queria.
Eternos reféns das próprias zonas de conforto. Reféns do "eu te odeio", do "eu não ligo", do "eu não posso." Reféns da linha tênue que sempre nos sustento no pico de duas montanhas enormes e opostas, pré-estabelecidas, baseadas em pré-conceitos compostos por uma grande quantidade de aversão à primeira vista. À segunda também. À terceira, à quarta, à quinta. Porque demorou até demais pra mudar de ideia, lá pela milésima.
O quão difícil, então, seria descer tudo de volta e escolher outro caminho ainda mais perigoso... cheio de obstáculos e repleto de placas anunciando em letras garrafais: cuidado! perigo.
Certo, essa não foi a primeira vez, não é mesmo? Não foi o primeiro "não", a primeira rejeição, o primeiro recuo. Mas tinha algo de diferente, agora. Dessa vez doía. Mas por que doía tanto?
Por que parecia ser uma coisa maior do que já pareceu ser das outras vezes? Por que não tinha aquele gosto de "vou superar mês que vem" e sim um mais amargo de "não vou superar nunca"?
Porque eu nunca iria. Mesmo.
Porque, por mais sem noção, contraditório ou sem importância que pareça, não é, na verdade. Porque, geralmente, as coisas têm essa mania chata de saírem dos rumos que a gente espera. Sempre.
– Bom dia, filho. Lavante-se logo porque já deu seu horário. — Disse minha mãe pela manhã de sexta-feira, confirmando de vez tudo o que eu acabara de explanar. Afinal, meus planos incluíam continuar aninhado na minha cama e na minha própria mente pelo resto do dia. Mas só deitado mesmo já que eu realmente não consegui dormir aquela noite.
Assenti e finalmente comecei a me levantar, já sentindo meu peito pesado, como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. Talvez um sinal para que nem desse as caras na Ridgeway aquele dia? Talvez. E nesse talvez, eu apareci mesmo assim.
Lá estava Carly, encostada na parede enquanto conversava qualquer coisa com mais duas ou três garotas, entre algumas risadas, cochichos e gestos que eu não faço ideia do que significam.
Eu queria me aproximar e implorar por algum conselho que me resgatasse do buraco no qual eu estava imerso. Saber se Sam lhe havia contado algo sobre mim, algo sobre nós. Qualquer coisa que ela tenha percebido, alguma sugestão ou desconfiança.
Mas eu não podia.
Porque pedir isso implicaria em ter que dar em troca muito mais. Explicar todos aqueles meses que nos levaram aos rumos mais adversos sem que ela ao menos soubesse e o porquê de tanta omissão.
Explicar, sem nem saber muito bem, como fazemos certas coisas movidos por um objetivo mas no final acabamos em outro.
Voltei para o pátio após desistir dessas hipóteses, me conformando de que não havia a quem recorrer. Continuei pensando, mesmo assim, na melhor parte daquilo tudo embora ela também desembocasse na pior no final das contas.
Eu me sentia um tolo, o verdadeiro Freddiota como sempre fora caracterizado. O Freddiestúpido, Freddork, Freduccini. Eu sentia o timbre da voz dela fazendo meus tímpanos vibrarem ao dizer tudo isso, mas mesmo assim parecia tão bom. Era como se ela ainda estivesse ali e nunca tivesse saído.
– Freddie! — Eu já sabia a quem pertencia tamanho entusiasmo e gentileza na voz. Carly Shay. Afinal, não era dessa ai que eu deveria gostar?
– Oi. — Forcei um sorriso por dois segundos, sabendo que não o sustentaria por mais tempo que isso. Ela então se aproximou, provavelmente já percebendo minha decepção.
– Que carinha é essa, hein? — Perguntou logo de cara, cruzando os braços e colocando uma das pernas mais à frente, procurando por uma pose mais autoritária.
– Nada. — Imitei seu timbre de voz, fazendo-a rir. — Só um pouco cansado. E você, como vai?
– Bem. Mas sei lá, você e a Sam andam tão esquisitos.
– Por quê?
– Estão assim, pra baixo, desde ontem. Vocês têm que se animar. Sabe, não é nem pelo iCarly de hoje, mas... vocês não costumam ficar assim. Ainda mais os dois, de uma só vez.
– O caso dela eu não sei — menti -, mas o meu é puro cansaço. — Menti de novo.
– Ah, claro. Cansado de não fazer nada? — Ela riu. — Ficou sabendo que ela e o John deram um tempo?
– Deram um tempo? — Repeti intrigado, ainda tentando absorver a informação. — Ela me disse que terminaram.
– Sério? — Carly se afastou, com os olhos arregalados de surpresa. — Mas eu tenho quase certeza de que ontem ela me disse que não foi nada muito definitivo.
– Ah. — Suspirei encarando o chão, mas ainda boquiaberto, tentando resgatar um pouco do ar que estava me faltando depois de ter ouvido aquilo. — Talvez eu tenha entendido errado.
É. Eu entendi errado.
Eu entendi errado não só o que ela disse, mas também o que ela fez. Eu entendi errado quando ela me beijou, não foi? Afinal, por que infernos ela faria isso comigo, não é mesmo?
Foi um alívio saber que Sam não estaria em minha turma na primeira aula. Eu jamais saberia como reagir caso tivéssemos que interagir de alguma forma, pelo menos naquele momento. Quando finalmente a vi zanzando pelo pátio durante o intervalo, tentei evitá-la do mesmo jeito que senti que ela faria caso tivesse me visto também. Preferi ficar perto de Shane e Gibby até o final do dia.
Mas ainda não iríamos nos livrar um do outro tão cedo assim.
Aquela noite era noite do iCarly. Consequentemente, a tarde seria de ensaios. De qualquer forma, voltei para casa sozinho. Fui até o apartamento de Carly bem mais tarde do que deveria, depois de um bom tempo inquieto, como se eu estivesse prestes a levar uma surra quando entrasse lá.
E eu realmente levei. Uma surra de palavras.
– Finalmente! — A morena reclamou e comemorou ao mesmo tempo ao me ver.
– Foi mal, eu estava conversando com os garotos do clube A.V.
– Você perdeu grande parte do ensaio, Benson. — Sam comentou enquanto se desapoiava do balcão e vinha para mais perto.
– Eu não preciso ensaiar tanto quanto vocês.
– Certo, agora... — Carly começou mas não terminou quando seu celular tocou. — É o Spencer. — Falou entusiasmada depois de sacá-lo do bolso. — Vou atender lá em cima. Sam, fica de olho no macarrão!
Carly correu para as escadas e Sam para a cozinha. Acontece que só eu vi, pela primeira vez, o quanto ela não estava dando a mínimo para a comida no fogo.
– Gosta de macarrão com queijo branco, Freddork? — Ela perguntou enquanto abaixava a temperatura do fogão.
– Do mesmo jeito que você gosta de me enganar? Com certeza. — Respondi, o mais próximo que pude, apoiando uma das mãos no balcão.
– Como assim? — Ela me encarou de volta, praticamente numa atuação.
– Então quer dizer que vocês só deram... um tempo? — Perguntei cruzando os braços e cerrando as sobrancelhas.
– Eu já te disse isso. — Respondeu, voltando o olhar para a panela à sua frente.
– Não. Você me disse que já tinham terminado. Eu pensei que já fosse algo definitivo e "dar um tempo", com certeza, em lugar algum É algo definitivo. — Eu continuei a encará-la, ofegante pelo esforço feito para gritar baixo. Sim, eu tentei. E eu cansei. De tudo e de todas as formas. Só não da única coisa que deveria: aquele par de olhos que ainda me encaravam com espanto. Como se fossem donos do mais belo tom de azul, sem precisar de enfeite algum para que fossem as coisas mais linda que já vi em toda a minha vida. Porque, acima de tudo, eram uma passagem cativante que me motivava a enxergar algo mais fundo que suas cores; Algo como outras cores; as da sua alma. — Parece que você ainda não sabe o que quer.
– Eu realmente não sei. Quer dizer, eu sei! Mas eu preci...
– Poxa, a ligação do Spencer caiu. — Carly a interrompeu no mesmo instante enquanto se aproximava. — Hum, parece que os dois estavam de conversinha, hein? Interrompi alguma coisa?
– Pode ir parando, Shay. — Sam disse, reclamando da insinuação. "Como ela sabe mentir", pense. Já mudando rapidamente a expressão que eu recebia há dez segundos atrás. Que profissional.
– Eu só estava brincando, Puckett. — Ela riu. — Agora vamos ensaiar.
E nós fomos.
Não que um de nós tivesse conseguido, mas ao menos tentamos e cada segundo parecia ser mais agoniante que o outro já que estavam realmente se resumindo a puro fingimento.
Finalmente o horário do web show chegou e eu não podia estar mais aliviado em saber que aquilo tudo estava acabando. Pelo menos durante aquele dia.
Realmente não notei se o programa foi engraçado, se eu deixei de rodar algum vídeo ou se elas erraram alguma fala em qualquer um dos quadros. Eu só conseguia pensar em alguma maneira de arrancar aquela garota da minha cabeça e provocar nela algo parecido com tudo o que ela vinha provocando em mim.
Eu não tive muitas ideias e não queria envolver Carly nessa situação por mais um motivo, mas de alguma forma ela apareceu em meus pensamentos de uma maneira instigante, trazendo uma dúvida crucial.
Por que eu deixei de gostar dela? Será que eu realmente gostei dela em algum momento? Se sim, por que não mais? O que a Sam tinha que tanto faltava nela para que esse sentimento se perpetuasse?
– Ah, que alívio. — A loira disse se espreguiçando após o término do web show.
– Cansados?
– Um pouco. — Concordei tentando forçar um sorriso enquanto posicionava minha câmera perto do notebook novamente.
– Por isso mesmo eu já vou.
– Ah, Sammy. — A morena lamentou enquanto a abraçava de lado. — Mas já?
– Relaxa, Carls. Amanhã eu apareço aqui.
– Tudo bem. — Ela suspirou. — Já vai também, Freddie?
– Não, eu... eu ainda preciso conversar uma coisinha com você.
Sam arregalou os olhos em alerta no mesmo minuto e naquele instante eu soube o porquê de tudo o que ela havia feito antes.
– Ah, ok. — Concordou. — Eu só vou levar a Sam até lá embaixo, ok?
– Eu desço com vocês. — Respondi tentando ser prestativo e principalmente acompanhar cada reação que Sam pudesse esboçar.
Descemos a escada calmamente, a cada degrau percebendo o quanto ela cerrava os punhos tentando não levá-los à minha cara. E isso era bom, no final das contas. Mas também doía. Não da maneira que eu esperava.
– Tchau, Sam. — Carly de despediu enquanto eu apenas acenava.
– Tchau. — Ela respondeu com o olhar perdido, como se quisesse mantê-lo ali mesmo depois que a porta já estivesse fechada.
E naquele momento eu tive que mantê-la do outro lado. Por mais que não quisesse.
Eu precisava daquele instante. Eu precisava, sobretudo, de uma única confirmação que dissesse o que aquilo representava para mim.
– E ai, o que você quer falar comigo? — Perguntou sorridente enquanto nos sentávamos no sofá frente a frente.
– Nada em especial. — Respondi sorrindo. — Só quero conversar um pouco.
– Ok, então. — Ela concordou. — Então talvez seja útil dizer que o Spencer volta amanhã.
– Oh, que legal. Finalmente, hein? Mas e o seu avô, como está?
– Ele não pôde dizer porque a ligação caiu, mas pra já estar voltando, deve estar bem melhor.
– Tomara. — Concordei, mas Carly suspirou com o olhar meio perdido.
– Às vezes é tão difícil cuidar dele estando longe... — Lamentou, enquanto olhava para baixo. — Seria melhor se pudéssemos traze-lo pra cá.
– Não se preocupe, Carls. — Falei enquanto segurava uma de suas mãos. Ela não reagiu ao toque. Mesmo assim, continuei. — Ele é forte e, como você sabe, não quer sair de Yakima.
– Mas ele já está muito debilitado e...
– Hey. — Eu a silenciei. — Ele melhorou. Você já pode se preocupar com outras coisas, não acha?
– Tipo o que? — Ela deu um sorriso, tentando se convencer por mim.
– Ah, não sei... quem sabe com a sua vida amorosa?
– Ah, Freddie. — Ela riu outra vez, estapeando meu braço com a mão que eu segurava há alguns segundos. — Até que você têm razão. Não fico com um cara há meses. Mas que cabeça eu tive pra pensar nisso com meu avô doente?
– Realmente. Você está certa, mas agora tudo já passou. — Concordei, me aproximando. — Mas... quem sabe isso não possa mudar agora?
– Por quê? Você por acaso vai me arranjar alguém?
– Quem sabe.
– E você realmente se importa com isso? — Debochou, agora cruzando os braços.
– Só depende de você.
Eu a encarei de forma intensa até que nossos sorrisos fossem apagados pela tensão que forcei no cômodo. Ela não reagiu, então eu mesmo me dei ao trabalho de tomar alguma atitude.
Afinal, qual era o defeito da boca rosada pelo gloss de cereja? Qual era o defeito daquelas bochechas como duas maçãs avermelhas? Qual era o defeito do cabelo escuro que lhe caía tão bem pelos ombros? Da voz doce, da gentileza e do perfume suave? Por que eles já não me pareciam tão convidativos, tão especiais ou únicos? O que havia acontecido com eles?
E para descobrir, eu a beijei. Não que fosse exatamente necessário. Mas assim, pude sentir o gosto do gloss, eu pude sentir as bochechas meio gélidas e os cabelos por entre meus dedos. Ela correspondeu timidamente, mas não me sentiu de volta.
Ninguém nunca me sentiu de volta. Exceto por uma única pessoa.
Separei nossas bocas lentamente, ainda um pouco atônito, mal ouvindo meu nome ser pronunciado em meio a uma risada.
Só me concentrei em tentar ouvir o que aquela atitude me respondeu.
Mas não ouvi nada.
E então, encarando aqueles olhos tão escuros quanto os meus, eu encontrei o único defeito da Carly.
Ela não é a Sam.
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