Anyone Else But You
35 Cold
Notas iniciais
PDV Sam.
Ficamos imóveis assim que aquela voz nos entrou pelos ouvidos. Mas que burrice foi essa que praticamente me cegou e não permitou que eu visse Carly abrindo a porta?
Bem, já era tarde demais, não?
Depois de um minuto estático, Freddie se virou para ela. Já encarando-a, ficou parado novamente e que droga é essa mania dele de se entregar sem antes mesmo ser suspeito.
Então, ela ainda parecia séria e aquilo começou a me assustar terrivelmente. Talvez tivesse ouvido toda a conversa. Ou apenas um trecho, porém o suficiente para já ter sacado do que se tratava. Independente do que a levou a se expressar daquela forma, estava me desesperando, mas eu e Freddie conseguimos segurar até onde deu.
– Carly...
– Não vão vir me cumprimentar mesmo? — Ela me interrompeu, colocando uma das mãos na cintura. Quando Freddie deu o primeiro passo em direção à porta, eu corri, esbarrei nele, o ultrapassei e cheguei nela primeiro.
– Ai! — Protestou indignado.
– Que saudades! — Falei enquanto apertava minha amiga.
– Eu também, loira. — Respondeu rindo enquanto Freddie pegava sua mala do chão e me lançava um olhar de preocupação.
– Como você está? — Perguntei depois de nos separarmos, enquanto já entrávamos no apartamento.
– Bem, mas ainda está faltando um abraço por aqui. — Falou com um tom sugestivo.
– Vem cá. — Ele a chamou, ela foi, os dois se apertaram e eu senti mil calafrios seguidos correndo dentro de mim ao mesmo tempo.
– Certo, agora quero saber o que tem meu nome. — Ela falou sorridente depois de se soltarem.
Eu e Freddie nos encaramos, um mais perdido que o outro, tentando decifrar os olhares que se lançavam a cada instante. Precisávamos inventar uma desculpa ali mesmo, no improviso, e dar continuidade à ela da maneira mais coerente que pudéssemos. Não foi o nosso melhor, mas até que deu certo.
– O que tem seu nome? — Comecei, ainda esperando que Freddie desse algum sinal de solução.
– Nós só estávamos falando do...
– Da...
– Das.. das comidas que você pediu que a Sam comprasse. — No momento odiei a invenção, mas Carly pareceu se convencer um instante depois.
– O que, exatamente?
– Eu perguntei o que você havia pedido e trouxe também umas outras coisas que talvez possa gostar. — Disse ele entregando uma de suas sacolas à ela.
– Pão integral? — Ela falou indignada, ainda olhando para dentro do pacote. — Mas eu odeio.
– Legal. — Ele disse tomando de volta. — Sem problemas, eu posso ficar com isso.
– Tudo bem. — Ela concordou com um sorriso desconfiado, sentando-se no sofá.
– Como está o Sr. Shay? — Perguntei enquanto eu e Freddie fazíamos o mesmo.
– Melhorou muito. Quando chegamos, ele estava fazendo a cirurgia, manteve repouso desde então e está tomando alguns remédios.
– Legal, mas o que ele tinha afinal? — Freddie perguntou.
– Complicações com a hipertensão. A cirurgia foi para desobstruir uma artéria.
– Aterosclerose? — Falei amistosa.
– É, deve ser isso mesmo e... — Ela parou, como se de repente tivesse se dado conta de algum fato improvável. — Sam! Desde quando você sabe algo sobre biologia? — Perguntou, parecendo impressionada e contente ao mesmo tempo.
– Eu só... — Travei um instante, encarando Freddie. — Só estou prestando mais atenção nas aulas do Sr. Howard.
– O Howard dá aula de história. — Carly declarou, agora com desconfiança.
– Então estou prestando atenção nele também e seja lá em quem dá aula de biologia.
E logo em seguida, ao encarar Freddie, dei de cara com a expressão que eu já imaginava que encontraria ao fitá-lo: ele estampava no rosto um sorriso tão discreto quanto convencido... com certeza, se vangloriando por ser o tal professor que vinha lecionando tão bem e fazendo com que as pessoas se impressionassem com as coisas inteligentes que eu dizia desde então.
– E o Spencer, como ele está? — Freddie continuou.
– Está bem, com saudades da Amy mas conseguindo manter o meu avô sempre contente.
– Imagino.
– Mas me digam, como foi a escola essa semana?
– A mesma porcaria de sempre. — Falei.
– E aquele trabalho do professor Howard? Ele já pediu para entregarmos?
– Só na terça.
– Que alívio. Pelo menos o meu já está pronto. — Carly falou despreocupada.
– Você fez com quem? — Perguntei.
– Com a Wendy, e você?
– Eu...
Eu... travei. Porque eu ainda não tinha feito. E já havia mentido uma vez sobre isso. Na última sexta, quando John me chamou para jantar na casa dele, eu o contei que já havia feito com Annie. Mas não fiz, na verdade.
– Não fiz ainda. — Falei finalmente.
– E você, Freddie? Fez com quem?
– Acho que vou fazer com o Shane mas até agora ele não me disse nada.
– Façam logo porque esse trabalho vai contar muito na nota da matéria dele. — Ela nos alertou.
Depois de ficarmos até a meia noite colocando os assuntos em dia — exceto aquele mais importante e mais secreto que acontecera há exatamente uma semana atrás, — o sono começou a bater por todos os lados. Se um bocejasse, o outro bocejava e fazia o outro bocejar e assim por diante como num ciclo vicioso. A arte de dormir nos chamava.
– Vai dormir aqui, Sam?
– Acho melhor, já está muito tarde para ir para casa.
– Então eu já vou tomar o meu rumo. — Freddie falou pegando do chão suas sacolas. — Boa noite, señoritas.
– Tchau, Freddie. — Carly riu.
– Adiós, muchacho. — Freddie sorriu uma última vez e saiu porta afora.
– Me ajuda com as malas, loira?
– Claro. — Falei, mais prestativa que o comum e a ajudei a subir com a bagagem escada acima.
– Ah, que cansaço. — Ela lamentou enquanto subíamos.
– Só porque essa mala está bem pesadinha para quem foi passar apenas uma semana de última hora na cidade vizinha. — Reclamei com rispidez.
– Mas também tem algumas coisinhas que eu compro sempre que vou lá, você sabe.
– Sei. — Resmunguei enquanto subíamos os últimos degraus. — Interessante, Carlotta Shay. Você tem um elevador dentro de casa e me fez subir essas escadas carregando o seu boi?
– Sam! — Ela reclamou mais uma vez com mais uma risada, bagunçando meu cabelo. — Vou tomar um banho.
Concordei e, enquanto ela sumia para dentro do banheiro, eu peguei uma daquelas coisas curtas e rosas que ela chama de pijama e a vesti. Até que era confortável, mas rosas demais para o meu gosto.
Um tempo depois ela reapareceu já trocada e ao me ver com sua roupa riu e torceu o nariz. Dei de ombros e fui até a cama dela em seguida quando me chamou.
– E ai, coisinha.
– O que foi? — Falei me sentando.
– Você não acha que está se esquecendo de me contar alguma coisa? — Gelei instantaneamente, pensando que ela estivesse se referindo justamente à única coisa que não poderia.
– Me dá uma dica. — Pedi cautelosa.
– Namorado.
– John?
– Isso.
– O que tem ele?
– Você me diz.
– Nada. — Falei um pouco nervosa.
– Calma! Eu só quero saber como foi o jantar na casa dele. É que você ainda não me contou.
– Ah, o jantar? — Falei aliviada. — Foi ótimo. A família dele é muito legal.
– E quando foi que ele te chamou?
– Na escola, sexta, antes da segunda aula. Você já tinha ido embora.
– Como você soube que eu já tinha ido?
– É, na verdade o Freddie que me disse mesmo. Ele me falou depois que as aulas acabaram.
– E ai, o que vocês fizeram?
– Viemos até aqui atrás de você porque não sabíamos ao certo para onde tinha ido.
– Acharam meu bilhete?
– Sim, srta. da macumba. — Falei divertida. — Você adivinhou tudo naquele papelzinho.
– Claro. — Ela disse rindo. — Mas por que você chamou o Freddie para te ajudar no meu lugar e não a Wendy ou qualquer outra garota?
– Na verdade, ele que se ofereceu. — Admiti sem rodeios, só percebendo a porcaria que havia feito quando Carly usou da expressão insatisfeita que só aparecia em casos muito específicos.
– Como assim "se ofereceu"?
– Se oferecendo. — Falei com obviedade, já que negar não adiantaria mais de nada.
– Ele, tipo, pediu? — Instituiu ela, ainda incrédula e eu tentando entender por quê.
– Não pediu, mas, sabe, sugeriu... se disponibilizou.
– Você não o obrigou, não é?
– Não! — Berrei. — Ele quis vir e eu não neguei porque mais ninguém me ajudaria.
– Você tem certeza disso? — Com uma das sobrancelhas arqueadas, ela pedia minha confirmação.
– Sim. — Naquele momento percebi que ela estava incomodada com o fato de Freddie ter me ajudado na arrumação de (quase) tudo o que eu precisava para ficar apresentável ao jantar com os parentes daquele que eu devia amar. — Por quê?
– Nada. — Ela balançou a cabeça, expulsando a carranca da desconfiança e forçando uma mais amigável. — Mas como foi, vocês brigaram muito?
– Nem tanto. — Falei dando de ombros.
– Tipo, nada? — Perguntou, como se quisesse que minha resposta fosse outra.
Mas ai apareceu um dos erros mais comuns que as pessoas insistem em relacionar a mim e ao Freddie... Por não termos brigado, também não significa que estamos nos dando bem. Por brigarmos, não significa que estamos nos dando mal. Tanto uma situação quanto a outra pode remeter tanto a um acontecimento quanto ao outro.
Se estamos mal, brigamos.
Se estamos bem, também.
E talvez essa seja uma das únicas coisas que nunca vai mudar entre nós. Independente do estágio dos nossos sentimentos — que estavam, inclusive, evoluindo -, talvez fosse sempre assim.
– Nada. Uma ofensa ou outra no máximo.
– Oh. — Ela deu uma pausa, absorveu a frase e continuou. — Esquisito.
– Você deveria estar feliz com essa, Madre Teresa de Calcutá. — Brinquei, tentando destruir a tensão que se instalara.
– Certo. — Ela mostrou os dentes. Porque, sorrir, não sorriu. — Mas e na casa do John, foi legal?
– Foi sim. Ele me buscou na avenida com o motorista...
– Motorista? Uau, que chique!
– Pois é. — Concordei, impressionada com seu entusiasmo. — Jantei com os pais dele, os avós e a irmã.
– Mas os pais dele não são separados?
– São, a casa agora é só da mãe.
– Certo. — Ela se ajeitou na cama e continuou. — Mas e vocês?
– O que tem a gente?
– Como está o namoro? Sabe... fervendo ou esfriando?
– Bem... dei uma risada nervosa. — Está indo.
– Vocês estão se afastando ou algo assim?
– Não! — Mentira. — Está tudo ótimo. — Mas que mentira. — Por que está perguntando dessa forma? — Retruquei, pensando que ela tivesse ao menos uma pontinha de desconfiança sobre eu ter beijado Freddie, sendo essa a motivação da conversa que sustentava.
– Nada, é que fiquei uma semana fora, talvez algo possa ter acontecido.
– Não se preocupe, está tudo igual.
– Que bom. — Ela deu um suspiro de alívio e encarou os travesseiros. — Estou tão cansada, amiga... acho que só aguento comer o que você trouxe amanhã.
– Beleza, Carlotta. — Falei me levantando. — Vamos dormir, então.
– Até amanhã, Joyzinha.
– Até amanhã, Shayzinha.
Desci até a sala e me joguei no sofá, sem me preocupar com travesseiros ou cobertores porque sabia que não iria dormir, apenas pensar.
Pensar.
Pensar na estranheza daquela conversa com a Carly, tudo o que ela havia perguntando, insinuado ou ouviu e de alguma forma se ofendeu.
E em uma certa parte em especial que estava dormindo do outro lado do corredor. E que eu quase corri para ir lá me certificar de que era real. E estava perto, tão perto. E fazia com que eu me sentisse bem de uma forma como ninguém jamais conseguiu.
"Como está o namoro? Sabe... fervendo ou esfriando?" Nem fervendo. Nem quente. Nem morno. Muito menos frio. Estava congelando. Aliás... já estava.
Há muito tempo.
Fale com o autor