Anyone Else But You
17 Bad Blood
Notas iniciais
PDV Sam.
Um dos meus planos para o domingo à noite incluíam sair com John e andar pela cidade na expectativa de esvaziar minha mente de tantos pensamentos conflitantes. Até que não sofri tanto pra manter um diálogo com ele e cada instante foi agradável como sempre, mas era impossível não pensar nas coisas que eu e Freddie havíamos conversado — ou gritado — sexta-feira no apartamento dele. Aquilo não devia me incomodar, certo? Mas me incomodava. E o pior? Eu não sabia por quê. Não era do meu feitio agradar o Benson ou tomar cuidado com o que dizer a ele. Eu não costumava me arrepender das minhas falas. De um modo geral, não me arrependia de nada. Mas eu o odiava, e odiava também o fato dele ter me feito ficar dispersa quase a noite toda me preocupando com seus sentimentozinhos idiotas. Como que se ele se preocupasse com os meus! As acusações dele contra o John eram só algumas artimanhas usadas por alguém com o ego ferido. Tudo bem, adimito... por um instante ou outro de completa insanidade eu analisava minimamente suas palavras que ecoavam na minha mente e às vezes me nasciam algumas dúvidas, até que meu lado são e apaixonado me lembrava do quanto John era maravilhoso. Ou quase isso.
– Quer pipoca doce? — Ele me ofereceu enquanto caminhávamos pela praça de mãos dadas.
– Claro.
Acho que eu conseguia soar mais animada ao aceitar sua pipoca doce do que sua companhia. Ele deu uma risada e pediu uma grande ao pipoqueiro. Eu estava pestes a contestá-lo porque não costumo dividir comida, mas ele estava pagando então seria muita falta de educação e vergonha na cara. Ele me deu o pacote que era bem grande mas mal daria para mim quanto mais para nós dois.
– Que delícia. — Falei com a boca e a mão cheias do doce. Ele me olhou com cara de quem estava estranhando alguma coisa. — O que foi?
– Nada. — Ele falou balançando a cabeça. — A pipoca está ótima mesmo.
Dei de ombros e voltei a falar. Aliás, continuei comendo também, então fiz as duas coisas ao mesmo tempo, o que pareceu incomodar ele em alguns momentos embora disfarçasse bem. Só não tão bem quanto deveria para que eu não percebesse.
– Tem alguma coisa errada? — Perguntei finalmente.
– Não, não Sam. Por que teria?
– Eu não sei, você parece incomodado.
– Eu estou bem. — Ele falou sorrindo. — Você que está falando tanto agora mas antes estava tão calada... aconteceu alguma coisa?
– Não. — Menti. — É que às vezes é bom só ficar ouvindo você.
Sorrimos um para o outro até nos beijarmos. Foi um beijo curto e confortante daqueles que fazem parecer que tudo vai ficar bem.
Mas só faz parecer mesmo.
PDV Freddie.
– Ótima escolha. — Falei enquanto Carly se sentava na cadeira que eu havia puxado para ela.
– Eu amo esse lugar. A gente devia vir mais vezes.
– Com certeza.
– Eles tem a melhor lasanha, a Sam ia adorar.
– Será que ela já não veio aqui com o John? — Falei com cinismo enquanto amaldiçoava o nome dos dois mentalmente.
– Acho que ainda não. A essa hora eles devem estar pela rua.
– Isso não é suburbano demais para alguém tão culto quanto ele? — Falei ainda irritado.
– Para, Freddie. — Ela falou compreensiva.
– Eu simplesmente não suporto mais ele.
– Você está com ciúmes ou o quê?
– Não, eu não estou! Ele só é... esquece, você não vai entender.
Ela assentiu mas não me respondeu nada tentando ser imparcial na situação, embora eu soubesse bem que ela estava inclinada para o lado do John já que quase foi namorada dele e ainda o endeusava com a amiga.
Tivemos um ótimo jantar no Pini's e eu estaria devendo muito à Sam se ela já não tivesse quitado nossa dívida me ofendendo como fizera sexta-feira. Mesmo assim eu ainda sentia que deveria ajuda-la no que me pediu por mais absurdo que fosse. Eu faria isso para ela, não para aquele idiota.
Depois de um jantar agradável com Carly no domingo, levantar segunda de manhã nem foi tão difícil com a disposição que eu sentia. O dia na escola tinha sido produtivo, mas acabei me esquecendo de um detalhe importante que Sam também acabou por não me alertar: nossos estudos lá em casa.
– Hey, Freddaluppe. — Ela disse radiante enquanto se aproximava.
– Oi. — Respondi revirando os olhos, indignado com sua negligência sobre a discussão que havia acontecido há alguns dias atrás entre nós dois.
– O que foi? — Respondeu ela já impaciente, percebendo de cara minha insatisfação.
– Nada.
– Não vou ficar insistindo pra que você desabafe, porque eu estou muito bem hoje. Se quiser falar, fale. Se não...
– Você não tem motivo algum para já estar assumindo que eu esteja chateado com alguma coisa. — Respondi tentando escancarar um sorriso e disfarçar a raiva que estava sentindo.
– Da água para vinho em menos de um minuto, hein? — Ela riu. — O que a minha presença não faz pelas pessoas, não é Benson? — Ela deu dois tapas de leve em minha bochecha.
– Hey, humildade em pessoa! — Agarrei o braço da loira e o abaixei. — Quem disse que é por sua causa que eu estou feliz?
– É por que, então? Ou por quem? — Perguntou se escorando nos armários, mais séria.
– Eu fui ao Pini's ontem com a Carly.
– Sério? — Falou um instante depois com a expressão mais contida.
– Pois é. — Cruzei os braços e levantei as sobrancelhas tentando compor uma pose que a irritasse ainda mais, além do que eu dizia. — Deus, que lasanha é aquela?!
– Como foi? — Disse ela surpreendentemente ignorando meu comentário sobre a comida.
– Foi legal. — Respondi desconfiado. — E você, fez alguma coisa com o John?
– Sim.
– O quê?
– Nós fomos... à praça. — Respondeu um pouco tímida.
– Uau, que encontro emocionante. — Falei rindo.
– Pelo menos eu já posso beijá-lo, diferente de você.
– Que frase ordinária, hein? Ficou parecendo que eu quero beijar o John.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
– Sim, mas você está equivocada porque eu já beijei a Carly sim.
– Já?! — Ela disse alarmada, se desencostando dos armários.
– Hey, calma! — Falei recuando. — Eu a beijei... você sabe... quando nós namoramos.
– Ah, sim. — Ela disse parecendo aliviada. — Já faz três anos. Supere.
– Mas em breve nós vamos voltar, com ou sem a sua ajuda. — Rebati determinado.
– Falando em ajuda... já vamos começar hoje aquele negócio que combinamos? — Ela sussurrou, chegando mais perto.
– Depois de você ter sido super grossa comigo? Claro! — Devolvi com sarcasmo.
– Eu sempre fui, não sei por que está se importando agora. — Respondeu parecendo um pouco abalada. — Você não supera nada mesmo, hein?
– Não. — Falei dando de ombros. — Aparece lá em casa umas duas horas.
Depois do término das aulas, cada um rumou para sua casa. Enquanto eu almoçava, já ansiava pela chegada da loira. Não sabia como ela entraria, por onde e quando já que, se fosse pela porta da frente, seria arriscado afinal correríamos o risco de sermos vistos. A qualquer instante ela poderia cair do telhado, arrombar a porta ou explodir minhas janelas. Eu esperava tudo.
Enquanto isso, fui lavar a louça que havia sujado depois de comer.
– Freddieee! — Uma voz vinda do andar de cima me assustou tanto que me fez derrubar o copo que lavava e cortar o dedo.
– Que droga! — Gritei pela dor e pela raiva.
– O que foi? — Ela gritou mais alto.
– Eu cortei meu dedo!
– Seu idiota! — Nesta frase eu já conseguia ouvir sua voz mais próxima e ao olhar pra trás, lá estava ela descendo as escadas rápida e habilidosamente.
– Você me fez cortar o dedo, a idiota aqui é você. — Falei indignado enquanto repousava minha mão debaixo da torneira aberta.
– Me dá isso aqui. — Ela pegou minha mão bruscamente e grudou os olhos nela. Analisou por um tempo e me encarou depois enquanto ainda a segurava. — Você está choramingando por isso?
– Olha só o tamanho desse- ai!
Enquanto eu falava, ela puxou meu dedo até sua boca e o chupou. Não sei se ela queria melhorar a dor ou piorar. Se era pra melhorar, não conseguiu. Se era pra piorar, o fez bem até demais.
– Você está louca?! Sua nojenta! — Falei depois dela já ter me soltado após uma sessão de gritos agoniantes. — Você é muito, MUITO nojenta e você NUNCA mais vai fazer isso! NUNCA MAIS!
– Acho que vai ter que amputar. — Ela falou, em seguida soltando uma gargalhada estrondosa.
– Eu espero que você não fique por ai sugando o sangue alheio. — Respondi ainda irritado, tentando estancar o fluxo.
– Para de ser frouxo, Benson! Não tem mais sangue nenhum saindo daí. E não se preocupe, eu só sugo o seu.
[...]
– Sério que você não ouviu NADA do que eu disse?
Lá estava ela esparramada pela minha cama. Tinha um livro em cima dela, outros embaixo e um tapando seu rosto já que ela não tinha vergonha na cara para fazer isso. Já eu estava sentado num cantinho que mal me cabia enquanto me aborrecia com sua falta de comprometimento.
– Eu ouvi algumas coisas sim. — Ela tirou o livro da cara, deitou- se de lado virada para mim e apoiou a cabeça com o cotovelo. — Mas você fala, e fala e fala e ai quando eu tento me lembrar da primeira frase, você já está na décima.
– Então me fala pelo menos uma coisa de tudo o que a gente viu hoje.
– Teve aqueles negócios do sangue que vão cair na prova.
– Que negócios?
– Você acabou de dizer, lembra ai! — Ela falou com cinismo.
– Eu já sei, quem tem que lembrar é você.
– Tem... as placas.
– Plaquetas.
– É, isso ai.
– E o que mais?
– Tem também... espera um pouco. — Ela fechou os olhos por um instante e os apertou enquanto pensava depois os abriu novamente girando-os por todos os lados até que encontrassem o livro de biologia aberto do qual tentou colar descaradamente.
– Sam! — Falei pegando o livro e fechando-o.
– Tá bom, eu não lembro! — Ela disse se sentando.
– Você deveria saber, já que é expert em sugar o dos outros.
– Hey, espera ai, estressadinho. Desencana. — Ela disse voltando a rir.
– Eu não vou perder minhas tardes trancado aqui se for pra você não aprender nada.
– Tudo bem, eu prometo que vou prestar atenção. — Ela falou séria. — Por mais... chato que seja.
– Não é chato. — Falei ofendido.
– Não se a gente pudesse pelo menos comer um pouco.
– Verdade, me esqueci do nosso lanche. — Falei me levantando.
Descemos as escadas e atacamos as geladeiras e os armários. Sam me ajudou a preparar tudo já que ansiava tanto por sua refeição que demorara mais do que ela podia suportar.
– Eu não aprendi nada porque estava com fome. — Ela falou de enquanto mastigava.
– Então quando você terminar ai vamos voltar lá e estudar mais.
– Não, não. Já chega.
– Tudo bem. — Assenti rindo.
Ela terminou de comer e, de repente, pareceu se dar conta de algo que a preocupou.
– O que foi?
Ela puxou meu pulso para si e apertou os olhos para ver o horário em meu relógio.
– Seis e meia? Tenho que sair com minha mãe. — Ela se levantou apressada pegando uma maçã e correndo em direção a porta.
– Tudo bem. — Falei enquanto ia atrás dela.
– Tchau, nerd. Valeu. — Ela gritou do corredor.
Tentei observa-la descer as escadas mas ela ia tão rápido que não deu cinco segundos até que sumisse. E lá ia ela... a garota que sugava minhas forças, minha paciência e meu sangue.
Samantha Puckett.
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