Anyone Else But You
53 Anyone else but you
Notas iniciais
Freddie Benson.
Ao dizer à Sam o que precisava e pouco do que realmente queria, não senti uma sensação de alívio apoderar-se de mim como esperava. Me senti culpado e, vez ou outra, inconscientemente, me culpava também por tudo que não fizera, como se justificasse a indiferença dela comigo em diversos momentos.
Eu não sou difícil de agradar, e ela havia feito muito mais que isso, daí minha decepção. Esperava que, se fosse desistir, o fizesse de uma maneira digna: me encarando, dizendo na minha cara o que quisesse.
Pensei em ir até ela e me desculpar, mesmo que isso significasse não ser seguramente desculpado. Queria, ao menos, num momento mais racional e distante, ter certeza de que ela estava bem apesar do que ouvira.
"Como se eu importasse o suficiente pra deixa-la mal por qualquer coisa que dissesse", imaginei mais tarde, em oposição ao arrependimento de mais cedo, reduzindo minha significância na vida de Sam a zero. Como era ruim acreditar em mim mesmo.
Resolvi também não procurar Carly que, apesar de estar chateada, certamente surtaria ao saber do meu "discurso de término do que nunca havia começado" para a melhor amiga. Sentia sua confiança traída, mas mesmo assim contribuíra muito para tudo que acontecera entre nós dois e ainda contribuiria caso permitíssemos.
"Acontece que não vai dar certo", eu pensava. "Já deveria ter percebido apenas baseado nas nossas personalidades. Um relacionamento seria insustentável. Nossos pensamentos e desejos iriam divergir sempre, iríamos brigar e terminar na primeira oportunidade. Esse negócio de que os opostos se atraem só vale na aula de química e nós estamos na vida real."
E quem diria que o resto da minha vida seria uma aula de química.
No dia seguinte ao meu desabafo, decidi ir à escola resolver o mal entendido da minha suposta recuperação em história. Preferi falar diretamente com o diretor Franklin, então tive que aparecer por lá depois dos alunos retidos para as aulas. Além do mais, não queria encontrar Sam.
— Ei, Ted! Tem um minuto? — Gritei ao avista-lo no corredor a caminho de sua sala.
— Para ouvir a palavra de Deus? Claro. — Brincou, sem parar de andar, dando dois tapinhas nas minhas costas e me fazendo acompanha-lo.
— Não exatamente.
— Então o que traz aqui o meu mais brilhante aluno?
— Uma coisa não muito brilhante.
— Ah, é? — Disse, fazendo menção para que eu me sentasse na cadeira em frente à mesa. — O que andou aprontando com a Sam?
— Com a Sam?! — Repeti, gaguejando.
— Eu os vi juntos no baile da garota que escolhe e vi que você brigou com um outro aluno do colégio.
— Uau, eu sinto muito...
— Sente mesmo ao que me parece pelo curativo na sua testa.
— O senhor vai me punir por isso?
— Não. Ninguém viu e não era dia letivo.
— E como ficou sabendo?
— Eu sou o diretor dessa escola. Sei de tudo. Tenho meus contatos.
— Sei. — Falei, contendo uma vontade enorme de rir dos momentos em que tentava ser descolado.
— E então, no que posso ajudar?
— Por um mal entendido o meu nome está na lista dos reprovados em história, mas eu fui aprovado.
— Como sabe que foi aprovado?
— Porque obtive nota suficiente.
— Então por que está de recuperação? — Pensei por um instante em todo o trabalho que tivera há dois dias para, em dois minutos, invadir a secretaria, procurar a lista de alunos da minha série naquele ano e marcar o meu como reprovado em história, imprimir a folha e colar em cima da verdadeira no mural junto às outras. Se essa história por si só já é complicada, imaginei que explicar o porquê dela seria mais ainda.
— Talvez um erro de digitação.
— Vou consultar as listas e pedir que retirem o seu nome. Só espere um pouco lá fora pra eu te avisar se vai dar certo porque preciso resolver outros assuntos antes.
— Ok, Ted. Obrigada.
Atendendo ao seu pedido, saí da sala e aguardei em um dos bancos no corredor. Ciente da demora, caminhei pela escola, fui à cantina, andei pela quadra, fugi dos alunos da recuperação que já estavam no horário de saída... E voltei. Com uma péssima notícia.
— Freddie, eu tenho uma péssima notícia. — Não disse? Ele tinha uma péssima notícia. — Você vai ter que cumprir os horários da recuperação.
— O quê?! Por quê?! — Nesse momento, senti falta de Sam pelo costume que tínhamos de falar essa frase em uníssono. E porque, com uma notícia daquela, eu precisava de apoio.
— Não duvido que tenha atingido nota suficiente para ser aprovado, mas conversei com Howard e ele já arquivou as listas. Não há como muda-las. Ou você cumpre, ou não passa na matéria dele.
— Mas eu passei! Isso é injusto!
— Eu sei, Freddie, mas veja por outro lado. Você é inteligente, certamente já sabe tudo que ele vai passar nas aulas. Apenas venha pelos próximos quatro dias e pronto.
— Tudo bem. — Apesar da revolta, não dei mais rodeios por saber que aquilo era culpa minha e eu me odiava por isso.
Concordei, frustrado, sabendo que estaria comprometendo meu histórico impecável a troco de nada. Resolvi voltar pra casa, certamente sem comentar com minha mãe o ocorrido e talvez para mais ninguém. O que me levou a tudo aquilo soava ridículo demais para que alguém além de mim e Sam soubesse.
Acontece que essa havia sido a primeira surpresa do dia. E a segunda também a envolvia.
No caminho de volta para casa, enquanto divagava em meus próprios pensamentos, não prestava atenção no tráfego ou em qualquer outro pedestre ao redor. Aos poucos, no entanto, ouvi um som, como de um megafone, que tocava aquelas músicas românticas de saxofone sem letra tipo Kenny G se tornar mais alto a cada instante. Até que, mais surpreendentemente ainda, escutei meu nome ser chamado por ele.
– Fredward Benson, alguém tem uma coisa muito importante pra te dizer! — Ouvi dizer uma voz, como de um locutor de rádio bem amador, com um sotaque forçado e um tom galante que não lhe pertencia naturalmente.
Virei-me de costas e avistei o automóvel. Era uma caminhonete velha e branca cheia de adesivos de corações cor-de-rosa já bastante desgastados. Havia uma enorme caixa de som na parte de cima, as rodas não tinha calotas, o capô estava amassado e a fumaça que saia do escapamento poderia ser a única responsável pelo aquecimento global.
— Só pode ser brincadeira. — Comentei comigo mesmo, com o coração voando pela boca, continuando meu trajeto como se nada houvesse.
Mas o carro continuou me seguindo até me ultrapassar. Assim, consegui ver que, na caçamba, estava Sam, em pé, num vestido azul listrado, segurando um microfone e toda a insegurança que eu poderia mensurar apenas fitando-a. Se isso não me fizesse parar, mais nada iria.
— O que você está fazendo aí? — Perguntei, olhando-a com dificuldade pelo sol forte da tarde. Eu gaguejava e tremia, mal concluindo a frase, enquanto o moço dentro do carro, dono da voz que me chamou pela primeira vez, abaixou o volume da melancolia do som e parou encostado no meio fio.
— O que acha que estou fazendo aqui? — Gritou de volta, ríspida, num tom suficiente para não precisar do microfone.
— Não sei, por isso perguntei. — Mais ríspido ainda, tentei soar indiferente apesar do que parecia estar prestes a acontecer. Era insano, era constrangedor, mas aparentava ser o jeito que Sam havia encontrado de se redimir pelo dia anterior e por todos os outros em que, de certa forma, me fez de idiota.
Ela não respondeu e percebi que não iria tão cedo apenas pela expressão estampada em seu rosto. Sentir sua insegurança de longe ainda me irritava, então voltei a caminhar rápido, como se o carro não conseguisse me alcançar.
— Segue ele, seu idiota! — Sam gritou no microfone para o motorista, que a obedeceu, mas a xingou de volta pelo megafone, pra rua inteira ouvir.
— Não adianta! — Falei, ainda caminhando rápido.
— Você vai me ouvir querendo ou não! — Disse, quando as pessoas ao redor já começavam a se aglomerar em montinhos para rir da nossa cara.
— Tá bom, o que você quer? — Parei de repente. O cara brecou, Sam tropeçou e quase caiu dentro da caçamba, me arrancando uma risada.
— Eu... — Começou, enquanto se recompunha, quando a música do Kenny G ficou bem alta de novo. — Abaixa essa merda!
— Você não quer uma música romântica?
— Eu quero que você vá se foder!
— Enquanto não pagar os meus cinquenta dólares, não pode me xingar!
— Não estou te xingando, mas dando instruções do que fazer quando acabarmos aqui.
"Mas que droga", pensei comigo mesmo enquanto esperava que os dois parassem de discutir. Como nada poderia ser pior, pois já estávamos passando vergonha, mais dois ou três minutos gastos para ouvir o que realmente queria dizer não fariam diferença. Além do mais, estava curioso para saber o que de tão importante demandava uma estratégia de tamanha magnitude. O problema era que Sam estava mais ainda, e como eu bem a conhecia...
— Puckett, será que poderia ser mais rápida? Não tenho o dia todo.
— Se está com pressa, vá embora! — Vociferou em minha direção, sem usar o microfone em sua mão. Nem sequer fiz menção de que fosse obedece-la e antes de mover um membro sequer, já fui impedido. — Espera! Eu já vou... É que estou nervosa.
Continuei estático, apenas observando-a quase afundar a caçamba do carro com o peso do próprio receio. Apresentava todos os sinais óbvios que me garantiam sua insegurança sobre o que estava prestes a fazer como as mãos inquietas, a perna trêmula e os olhos vidrados, e isso despertava em mim uma vontade descomunal de subir até lá conforta-la de alguma forma.
O que não aconteceu, porque não podia nos dar ao luxo. Precisava ouvi-la se desculpar, ainda mais de um jeito tão... Público.
Só não esperava que fosse mais que isso.
— Tudo bem... Vamos lá. — Dizia para si mesma, mirando o chão e cerrando os pulsos, suspirando alto e forte. Quando parecia pronta, ou ao menos se convencia disso, conseguiu olhar diretamente para mim de novo. — Freddie, eu... Preciso te pedir desculpas. Por ter dispensado você ontem quando fui conversar com a Carly por ter descoberto sobre nós dois; por ter me passado pela Melanie pra dizer que não queria falar com você; por ter feito você me ajudar a estudar esses últimos meses e mesmo assim ficar de recuperação; por ter dito que tinha terminado com o John, quando ainda não tinha; por ter feito com que brigassem e você herdasse esses hematomas; por ter sido a autora de mais um monte deles por todo o seu corpo desde que nos conhecemos... Me desculpe por tudo, nerd. Fui uma idiota durante esse tempo e sinto muito por isso.
— Sam...
— Olha só, Freddie, antes que você diga suas porcarias de que não preciso me desculpar e blábláblá, saiba que eu não aluguei essa merda por um dinheiro que não tenho só pra isso. Eu quero refutar, e olha só que tipo de palavra você me faz aprender, toda a sua teoria de que eu sou insegura e não sei mais o quê. E talvez eu seja, mas... Mas ontem eu caí na real pra tudo o que tá acontecendo entre a gente. — Finalmente soltou o microfone, mas não desceu até a calçada como esperei que fizesse para continuar todo aquele discurso pomposo. O cara do megafone colocou uma romântica dos anos oitenta pra tocar e eu não sabia se ria ou chorava. Estava tremendo como se meus ossos fossem se desmontar a qualquer instante e a expectativa do que Sam diria me fez esquecer até mesmo que estávamos no meio da rua servindo de piada pra quem nos visse. Eu só precisava deixa-la continuar pra ver se era verdade. — Espero que você entenda a forma como nunca me declarei tão explicitamente, ao contrário de você, que já tem anos de experiência com sua paixão pela Carly, mas aqui vamos nós: Freddie, eu não preciso que ninguém me avise que eu gosto de você. Muito menos você porque, na verdade, é bem ofensivo. Eu sei que eu gosto de você. O problema era não querer acreditar. Era nunca ter tido um namorado sério e o mais próximo disso me traumatizar com a ideia de que não sou educada ou inteligente o suficiente quando você é os dois. O problema era ter medo de você fazer o mesmo algum dia. Mas agora eu sei que não vai por tudo que me disse ontem. Por tudo que me disse no sábado e em todos os outros dias que nós passamos juntos. E agora eu estou aqui, de listras, que é a coisa que eu mais odeio e você insiste em usar só por isso, com um all star que eu nem sei se combina e tremendo pra cacete. Sério, eu tô quase caindo dessa joça. — Reclamou, erguendo um caixote que parecia ser extremamente pesado e colocando-o do outro lado da caçamba. Respirou fundo antes de continuar e eu fiz o mesmo, ainda surpreso por tudo que dissera. Por estar admitindo para mim e para quem passasse por ali tudo o que sentia. Por estar finalmente dando voz a si mesma, e a novidade que isso trazia me deixava sem palavras. — Olha, Benson, é extremamente irritante quando você começa a falar suas coisas nerds aleatoriamente, comenta do seu clube do trem ridículo ou tenta explicar a importância dos seus banhos antibacterianos pra eu parar de te zoar por causa deles. Mas até que compensa quando a gente fala de Star Wars, que é uma das únicas coisas que nós dois gostamos, quando cozinhamos juntos ou assistimos algumas séries. É como se... Uma coisa compensasse a outra. Do mesmo jeito que você me compensa. Porque você tem tudo o que eu não tenho e é tudo o que eu não sou. E, droga, eu odeio o quanto isso é clichê, mas é verdade... Nunca pensei que fosse até a gente se tornar prova viva. Até eu entender por que, às vezes, eu ia parar no seu apartamento sem motivo nenhum e por que sempre que eu ia o tempo passava tão rápido. E... Talvez ele seja pouco demais pra caber a gente. E sim, eu quero que exista a gente. Ou nós, se você preferir. E eu não vejo outra maneira disso acontecer sem pedir que... Droga, por que é tão difícil dizer isso? — Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir e, seguindo a lógica, no que viria logo em seguida. Estava extasiado e meu coração batia tão rápido que eu quase conseguia ouvi-lo. E eu conseguia ouvir a Sam, que motivava toda essa arritmia e quase motivou também uma parada cardíaca no momento seguinte. — Frednerd... Você quer ser meu namorado?
– Ali, policial, é aquela garota!
Mas é claro que algo, ou melhor, uma senhora rabugenta, precisava nos interromper. Como parecia haver um trato entre toda a cidade de que a cada momento importante entre nós, um cidadão de Seattle atrapalharia tudo.
Ela apontava na direção do carro, enquanto caminhava pela calçada na mesma velocidade em que a viatura estacionava logo atrás. Afobado, um policial que sintetizava todos os esteriótipos de alguém da profissão, surgiu com seu bigode grosso e óculos escuros, num ar repreendedor e autoritário.
– Recebi uma denúncia de que vocês estão violando a lei do silêncio. Preciso que me acompanhem até a delegacia. — Disse num sotaque sulista forçado e irritante, enquanto colocava as mãos no cinto para manter uma pose rigorosa.
— Como assim?! Estamos numa avenida movimentada em plena luz do dia. — Respondeu Sam, enquanto descia do carro e ficava ao meu lado no meio fio.
— Na denúncia, fui informado de que havia uma música demasiadamente alta tocando e incomodando os moradores das casas e condomínios ao redor, além de diversos xingamentos sendo gritados.
— Ah, seu policial... — Começou, dissimulada, aderindo uma entonação imaculada à voz que me fez segurar uma risada. — Vai mesmo me punir por ser uma romântica?
— A questão não é essa, mas sim a perturbação desse seu... Show. Você foi denunciada.
— Foi essa velha ridícula, não foi? — Respondeu a Puckett, desaforada, mostrando suas verdadeiras cores e apontando na direção da idosa ao lado do policial.
— Fui eu mesma, garotinha insolente, e ainda vou te denunciar por injúria!
— Injúria? Eu só estou falando a verdade!
— Sam! — Eu a repreendi, tendo como resposta um olhar furioso.
— Garota, eu realmente vou ter que te levar à delegacia. — O policial se aproximou, quando ela rapidamente me agarrou pelo pulso e pulou na caçamba do carro.
— Vem logo! — Disse, me puxando para cima. Sem alternativa, apenas a obedeci, apressado.
— Ei! Volte aqui, ou ainda vai responder pelo crime de fuga!
— Que se dane. — Vociferou ela, em seguida se pendurando até alcançar a janela do motorista e pedindo: — Cara, se você fugir daqui agora, eu pago o triplo. Se passar os sinais vermelhos e for multado, eu pago também.
— Mas...
— Anda logo!
E aí, o cara do carro que Sam havia alugado para se desculpar e se declarar para mim publicamente, acabou participando de uma fuga da polícia depois de terem sido denunciados por perturbação ao sossego. E eu estava incluso nisso, me segurando nas laterais da caçamba do veículo que aparentemente não passava por uma revisão há anos e violava todas as leis de trânsito, morrendo de medo, enquanto ela ficava de olho no policial que nos seguia com a sirene ligada.
— Mas que droga é essa?! — Grite durante o trajeto, tentando me fazer ser ouvido pela garota do outro lado que parecia calma apesar da apreensão.
— Relaxa, Freddie!
— Sam, eu quero descer!
— Mas não vai! Para de ser cagão!
Antes que eu terminasse meu chilique por toda a loucura do acontecimento, o cara já havia conseguido despistar a viatura e parecíamos estar do outro lado da cidade vinte minutos depois. O carro também já parecia estar nas últimas, quando o motor morreu duas vezes e uma fumaça suspeita saiu do capô antes de estacionar próximo a uma oficina mecânica meio afastada da avenida mais próxima.
Sam desceu, ofegante, com o rosto meio enrubescido, deduzi que pela fuga que acabávamos de concluir, calada e distante. Não sabia se surtava ali mesmo, se saia correndo ou se perguntava se ela estava bem.
– Eu passei uns quatro faróis vermelhos, andei na contramão e quase atropelei um velhinho. Isso vai custar caro. — Disse o homem, com a voz mais melancólica do que raivosa, com as mãos na cintura, depois de descer também.
— Depois você acerta tudo com a minha mãe. — Colocou as mãos na cintura, mantendo a calma.
— Ela já me deve dinheiro, duvido que pague por isso.
— Se ela não tiver algum, eu arranjo com o namorado dela. Ou sei lá, trabalho pra você por alguns dias.
— Garota, eu posso até aceitar que não me pague tudo, mas não posso ser preso. Estou de condicional!
— Eu também!
Aparentemente comovido com o fato de uma adolescente como Sam já ter sido presa, o moço abrandou a expressão no rosto e saiu em direção à oficina do outro lado da rua sem responde-la, deixando as chaves com ela, apenas avisando que voltaria dali alguns minutos.
Em seguida, resolvi descer do carro.
– Sam. — Chamei-a, fazendo-a virar de frente para mim. Ainda indeciso sobre o meu faniquito. Seria apropriado ou não?
— O que foi?
— Você percebe o risco que está correndo agora? — Optei pela preocupação que acabara de surgir sabendo que Sam não estava em boa situação perante à lei e isso era mais grave que minha preocupação com a recente fuga.
— Já vai começar com suas ladainhas?
— Aquela senhora te denunciou por perturbação, você a ofendeu, desacatou o policial, fugiu e fez o cara violar umas dez leis de trânsito.
— Eu sei de tudo isso e já fui presa por coisa pior, mas aposto que você só está preocupado com o fato d'eu ter envolvido sua bundinha nisso tudo.
— Não, Sam, estou preocupado com você, justamente por já ter sido presa antes. — Ela simplesmente continuou me encarando como se esperasse que um raio mortal saísse dos seus olhos e me atingisse e a apreensão de ser olhado desse jeito me proporcionou uma sensação equivalente. — É triste como você sempre pensa o pior de mim quando está irritada.
— Eu não... — Tentou justificar-se, mas logo desistiu. Mordeu a parte interna da bochecha e fez um biquinho adorável antes de recolher uma porção do próprio orgulho e mudar o rumo do que diria. — Me desculpe.
— Já temos problemas suficientes pra ficar brigando agora, não é? — Respondi, dando uma risadinha, tentando quebrar a tensão.
O olhar mortal voltou a me atingir antes que Sam revirasse as córneas e subisse de volta na caçamba, onde permaneceu calada. Alguns minutos depois, subi também, sentando-me ao seu lado.
A tarde já virava noite e o céu estava bem laranja, o que geralmente a entretinha no sentido de dar significado às formas abstratas, assim como costumava fazer entre as nuvens de dias nublados. Mas, naquele momento, ela olhava pra baixo e não pra cima. Eu conseguia sentir sua angústia e era assustador perceber o nível que nossa conexão atingia. Eu não podia ficar alheio.
– Sam... Não fica assim. Nós vamos arranjar o dinheiro pro cara e aquele policial nunca mais vai nos ver. — Tentava ser o mais compreensivo possível, tentando alcançar seu rosto com os olhos.
— Não vai ser tão simples assim. Se ele puxar minha ficha eu estou ferrada.
— A gente... Vai dar um jeito. — Continuei forçando positividade, quando ela deu um risinho que logo se tornou uma gargalhada. — O que foi?
— Freddie, a sua ingenuidade é engraçada. — Suspirou em seguida, recuperando-se por ter zombado de mim.
— E você não.
Cruzei os braços, irritado, e ela voltou a rir de mim. Fiquei em silêncio até que parasse, mas quando parou, não soube o que dizer em seguida. Não que não fosse importante, mas finalmente lembrei por que estávamos ali. O que havia levado Sam a subir na caçamba de um carro para me dizer algo tão significativo, e lembrei que sua pergunta ainda estava sem resposta. E eu ainda não acreditava que ela havia sido feita.
Quando fora procura-la na escola dois dias antes, pretendia conversar e decidir o que seríamos dali em diante, mas não planejava o estabelecimento de um compromisso tão cedo pela possibilidade de faze-la surtar, recusar e não olhar na minha cara nunca mais. No mesmo dia mais tarde, quando me dispensou fingindo ser a própria irmã, eu já havia descartado a possibilidade de uma vez por todas. Depois de admitir meus sentimentos no dia seguinte e dar o caso como encerrado, não esperava que ela fizesse mais nada. Quando ela me surpreende com o contrário.
Quando ela me surpreende com tudo e prova que, mesmo conhecendo-a como a palma da minha mão, ainda era imprevisível. E eu amava a forma como, naquela tarde, voltava para casa como o nerd amorosamente fracassado e no final do dia já havia sido pedido em namoro num carro de som caindo aos pedaços em plena avenida Western e violado algumas leis da constituição.
– Eu aceito, Sam. — Disse num impulso, depois de alguns segundos observando-a sem ser notado. Esperando faze-la surpresa por um pequeno instante como ela havia feito comigo por uma vida. Não tinha mais nada a perder, e se tivesse não seria tão importante quanto parecia a possibilidade de perde-la; deixá-la escapar por entre os meus dedos, quando eu sabia que a única coisa que nos distanciava era o medo, e não a falta de vontade. E eu iria aproveita-la o quanto pudesse, justificando minhas loucuras e as dela também. E quando não houvesse justificativa, continuando da mesma forma, porque não éramos exatamente o tipo de pessoa que precisava de razão para qualquer coisa. — Eu aceito, porque você é a pessoa mais maluca e divertida e fora da lei que eu conheço. Porque você é adorável e agressiva ao mesmo tempo e eu simplesmente adoro, e eu já te disse isso, eu adoro estar imerso na sua contradição. Eu quero ser nós, Sam. Eu quero ser a gente. Eu quero discutir séries e cozinhar com você. Eu quero sentir todo o frio na barriga que você consegue me fazer sentir e o que mais você quiser, por ter a coragem que eu não tenho, por ser o que eu não sou. Eu quero ser clichê e ao mesmo tempo não ser convencional, porque a gente já começou na contramão quando você que pediu e... Ah, Puckett... Eu aceito ser seu namorado.
Ela ficou paralisada pelos próximos segundos. Seus olhos pareciam maiores do que já eram e não piscaram nem uma vezinha. Se não estivessem tão abertos, diria que estava morta. Tentando reaviva-la, continuei com minha expressão positiva até vê-la escancarar o sorriso mais largo que já vi modelar seus lábios e pular em cima de mim, rindo, segurando meu rosto e me enchendo de beijos da testa ao pescoço. Eu a segurei pela cintura, contorcendo-me de felicidade e de cócegas, acompanhando o som mais gostoso da sua gargalhada que invadia os meus ouvidos e contagiava toda a minha existência.
Afastei seus cabelos longos e macios que roçavam no meu rosto, colocando-os atrás de sua orelha. Precisava ver seu rosto com atenção, como se precisasse registra-lo na minha mente. Como precisava registrar aquele exato momento. Acariciei seu rosto com o polegar e contornei suas bochechas, seu maxilar, seu queixo, seus lábios. Ela fez o mesmo com devoção equivalente, minunciosamente, perdida em mim como eu estava perdido nela.
– Seu idiota, você me assustou! Por que demorou tanto pra responder? — Sussurrou com a boca próxima à minha, agora segurando-me pelos ombros. Era o nosso primeiro minuto como namorados e eu ri ao perceber que isso não significaria que deixaria de ser chamado por todos os sinônimos de idiota. E eu gostava disso.
— A gente teve que fugir e quando chegamos aqui eu precisava listar todos os crimes que cometemos, então só deu pra fazer isso agora.
— Eu já estava morrendo por dentro achando que todo o dinheiro gasto e a possibilidade de ser presa de novo não valeriam a pena.
— E agora que eu aceitei você acha que vale?
Sim, respondeu num beijo. Ela roçou os lábios nos meus de uma maneira lenta e gentil como se nossas vidas dependessem disso, enquanto acariciava meu rosto e meus ombros. Parecia interminável e seria maravilhoso se fosse, porque eu não tinha presa. Não tinha a menor presa, porque estávamos apenas começando e compensando tudo que fora evitado até aquele instante por vontades alheias às nossas.
Eu conseguia sentir sua boca, seu corpo, seu coração e sua alma. Nossa conexão finalmente mutuamente estabelecida, sobreposta a qualquer coisa contrária, se fazia forte o suficiente para que eu tivesse certeza de que duraria pra sempre. Não que eu conseguisse dimensionar um período tão grande, mas a magnitude do que nos unia.
Toda vez era diferente e ainda melhor que a anterior. Daquela, não poderia ser igual: éramos, oficialmente, namorados. Um casal. Tínhamos um relacionamento e não havia mais nada dentro de nós que impedisse isso, apenas que favorecesse.
– Hum, você está muito cheiroso. — Disse, ofegante, antes de finalizar com um selinho ávido e demorado. Em seguida, saiu de cima de mim e deitou-se no meu colo, com as pernas estiradas para fora da caçamba do carro enquanto segurava uma das minhas mãos entre as suas, em cima de sua barriga, afetuosamente.
— Você também. Agora que sou seu namorado, vou te cheirar o dia todo.
— Não tão cedo. Ainda vou cumprir a droga da minha retenção em história. — O semblante sereno e radiante, naquele momento, fora substituído por um outro, zangado, que deu a perfeita dimensão do ódio de Sam.
— Trago boas notícias, Puckett. Vou ter que fazer as aulas com você porque o Howard já arquivou as listas e se eu não for vou ficar retido.
— Sério?! — Perguntou, tornando a sorrir como uma criança quando ganha doce.
— Sério. Pode rir. — Contive uma risada, sabendo que a dela viria logo em seguida. E veio.
— Ah, isso é impagável. O dinheiro gasto nessa joça aqui valeu mesmo. — Ela gargalhava, parecendo mais feliz com o fato deu ter me ferrado do que com a ideia de que passaríamos os próximos dias juntos de qualquer forma e isso não me incomodou porque eu sabia que essa era ela e eu gostava mesmo assim.
— Eu ficaria uma semana de recuperação sem a menor necessidade, mas você alugou um carro de som pra me pedir em namoro em plena avenida à luz do dia. Quer mesmo competir?
— Não, porque você já venceu.
— Você venceu, porque além de tudo me fez te ajudar a violar algumas leis.
— Nunca pensei que você teria uma ficha criminal.
— Acho que é o que ganho por namorar Sam Puckett. Em quantos dias já estarei preso?
— Isso vai depender da sua eficiência como foragido.
— Oh, meu Deus, nós somos Bonnie & Clyde!
— Sim! — Entusiasmou-se, levantando-se do meu colo e sentando de frente para mim. — Daqui nós vamos assaltar um banco.
— Sam, não se empolga. Você tá de condicional. Aliás, por que não me disse antes?
— Porque você não ia me querer se soubesse que eu ainda estava.
— Mas eu aceitei seu pedido depois de saber. — Sorri de lado, do jeito que a desconcertava, fazendo-a me olhar de uma forma terna. — Eu aceitaria de qualquer jeito.
— De verdade? Vou andar na linha enquanto estivermos juntos.
— Prefiro, mas não me importaria de visitar você na cadeia.
— Ei! — Deu um soco no meu peito que deveria ter doido menos, então no meu gemido de reprovação se redimiu com um beijo.
Sam se aconchegou entre ele, com a cabeça próxima ao meu coração e um dos braços eu redor da minha cintura. Segurei uma de suas mãos, acariciei seus cabelos e beijei o topo da sua cabeça. Ficamos em silêncio por um tempo tão bom que não vi passar, do jeito que precisávamos há muito tempo. Logo percebi a demora do cara do carro em voltar da oficina, mas imaginei que tivesse desistido, provavelmente ao nos ver do jeito que estávamos. Agradeci mentalmente por isso, percebendo que, pela primeira vez, ninguém havia interrompido um momento nosso.
Isso, definitivamente, deveria significar alguma coisa. Que era o momento certo pra coisa certa. E se fosse errado terminar a tarde abraçado àquela garota que acabava se tornar minha namorada, eu não queria estar certo.
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