Anyone Else But You
54 Will you be our best friend?
Notas iniciais
Samantha Puckett.
Eu conseguia sentir e ouvir o coração dele batendo bem no meu ouvido. Parecia manso e sossegado. Era bom. Mas era melhor ainda sentir o meu. Porque ele tinha um motivo, e eu estava deitada bem em cima dele. Ele tinha um nome engraçado. Era Fredward Benson... e eu mal não conseguia acreditar que tinha acabado de se tornar meu namorado. Eu não sabia o quanto queria até acontecer.
Enquanto nos aconchegávamos na companhia um do outro, eu tecia em minha mente inúmeras situações pelas quais já havíamos passado e era engraçado lembrar o quanto tudo isso permaneceu implícito durante tanto tempo, nas nossas brigas e nas nossas apostas. Recordar é viver, de fato. E era incrível resgatar boas memórias da pessoa com a qual você pretendia fazer muitas outras.
– Nerd. — Continuei deitada em cima dele, apenas olhando-o de baixo.
— Oi. — Ele me encarou de cima.
— Estava aqui me lembrando das nossas apostas. Lembra de uma que a gente fez na sexta série? Eu tinha que passar um dia inteiro sem te insultar.
— Ah, lembro. — Disse rápido e eu já esperava por isso. Ele tinha uma ótima memória. — Lembro quando perguntei se você queria me beijar e você disse: Beijar você?!— Freddie me imitou com uma vozinha fina que me fez rir. — Cara, eu prefiro... Não agora. Ou não no momento, sei lá. Mas, olha, você meio que previu, né?
— E na sétima série, quando eu fiz uma barraca do beijo pra beijar o Shane, você se aproximou e eu disse "Nem por um bilhão de dólares."
— Droga, quanto eu te devo?
— Uma fortuna. Mas foi no mesmo ano do nosso primeiro beijo.
— Esqueceu que não podemos falar sobre isso? — Brincou ele, inclinando-se para mim com os olhos arregalados.
— Não mesmo. Cara, eu fiquei com os olhos abertos.
— Foi tão ruim assim? — Disse Freddie, com um ar decepcionado, voltando à posição anterior.
— Não, só era estranho. Sabe, era você... Frednerd.
— Diga o que quiser, eu gostei. E fechei os olhos.
— Confiou em mim? Eu podia agarrar seu pescoço e te esganar a qualquer momento.
— Eu sei. Por isso mesmo.
— Você é louco.
— E você é mais ainda. — Sussurrou próximo ao meu rosto, me puxando um pouco para cima e dando um beijo longo na minha bochecha.
— Você listou todos os crimes que eu cometi hoje, mas aposto que também cometeu um com suas coisas nerds pra hackear o sistema da escola.
— Droga... A influência Puckett sobre mim novamente. Mas acho que foi mais uma questão de falsificação, sabe?
— Continua sendo crime. É uma pena que a gente não possa dividir a cela.
— Até lá vamos nos aturar nas aulas de recuperação do Howard.
— Que bom. Você vai fazer os meus trabalhos.
— Errr... Não.
— Por que não, idiota? Você é meu namorado. — Disse, já fazendo menção para agredi-lo, quando percebi o significado da minha própria frase.
— E isso é o que namorados fazem? Não. Vou te ensinar a pescar, não dar o peixe.
— Brega.
— Se fizer tudo certinho, talvez tenha um prêmio no final.
— Não vou querer.
— Já quer brigar? Sério?
— Não, espera mais uns vinte minutos. Não quero ter que sair de cima de você agora.
— E eu não quero você saia.
— Mal posso esperar pra não sair.
— Como assim?
— Esquece, Freddie. Você é inocente demais pra me namorar.
— Você por acaso se referiu...
— E aí, Sam, já podemos ir? — Gritou Mike enquanto se aproximava do carro, interrompendo Freddie e, graças a Deus, uma conversa esquisita e precoce que teria início logo em seguida porque ele simplesmente não sabia brincar.
— Eu que pergunto. Estamos esperando aqui há horas desde que você se enfiou nessa oficina caindo aos pedaços. — Retruquei enquanto me levantava de cima do nerd.
— Eu resolvi não atrapalhar... Sabe... — Fez um gesto com os dedos, fazendo referência a nós dois, com cara de confuso.
— Oh, sim. Obrigada por isso.
— E então, os pombinhos estão namorando ou toda essa merda não serviu de nada e talvez estejamos presos em menos de vinte e quatro horas?
— Estamos namorando muito bem, obrigada. — Respondi com as bochechas pegando fogo de tanta vergonha e o coração aquecido de felicidade. Freddie entrelaçou nossas mãos e deu um sorriso tão tímido quanto o meu, me deixando mais vermelha ainda.
— Pelo menos isso. — Disse Mike, sorrindo, como se nos parabenizasse com o gesto, enquanto estendia o braço e pegava as chaves do carro comigo.
Ele entrou no automóvel e deu partida com certa dificuldade alguns segundos depois e o trajeto parecia infinito para nós dois na caçamba daquela carroça velha que soltava tanta fumaça tóxica quanto um incêndio químico. Tentando ignorar a possível causa de um futuro câncer de pulmão, eu e Freddie continuamos a resgatar mais acontecimentos relevantes, outros talvez nem tanto, sobre nós dois e a relação esquisita que sempre tivemos. Entre um assunto e outro, chegamos à Carly, nossa magoada amiga. Era até desrespeitoso estar tão feliz por nós dois sabendo que, em algum lugar daquela Seattle, ela se sentia a pessoa menos confiável do universo por ter ficado de fora de um grande acontecimento entre os dois melhores amigos. Eu a conhecia bem e sabia cada um de seus dramas e como ela costumava potencializar qualquer situação e tornar algo maior do que realmente era. De qualquer forma, não poderia culpa-la por isso. Logo tomamos consciência de que precisaríamos reconquista-la e, se tratando da Shay, não seria tão fácil.
— Freddie, como nós vamos nos desculpar com a Carly? Eu já tô me achando a pior espécie da terra por ter pedido você em namoro antes de me reconciliar com ela.
— Sam, não pensa assim. — Ele não pode evitar uma risada antes de continuar. — Vamos resolver isso logo. E quando ela souber que estamos namorando, vai ficar muito feliz.
— É, eu acho que você tem razão. Sabe, o caso aqui era grave. Você tinha dado um chilique ontem que não podia esperar mais pra ser contestado.
— Chilique? Ah, claro. Use isso a nosso favor.
— Já vai dar outro? — Brinquei, vendo-o fazer um bico enorme de insatisfação. — Enfim... Tenho medo dela não reagir bem, sabe...
— Acho que não. Quando conversamos no dia que você se passou pela Melanie pra me ignorar, ela disse que iria conversar com você talvez ainda hoje.
— Mas ela não me procurou.
— Sério, Puckett? É ela quem tem que te procurar?
— Ei! Você também tem culpa!
— Eu sei, mas ela foi mais dura com você quando disse que já sabia de nós. A reconciliação é mais urgente entre vocês. Sabe, de qualquer forma, também quero estar presente e me desculpar melhor.
— Ok. Alguma ideia?
— Não... — Disse com os olhos confusos, batendo as mãos nas coxas e erguendo-as em seguida. — Já sei. Vamos aparecer lá amanhã com as coisas que ela mais gosta de comer.
— Freddie, você está confundindo as coisas. Quem se agrada com comida aqui sou eu.
— Então que tal só um café da manhã na cama?
— Você está me deixando com fome. — Falei, deixando-o com uma típica expressão de decepção enquanto rejeitava mais uma de suas ideias e ficava em silêncio até que ele surgisse com outra de repente.
— Já sei!
♡
Era realmente uma possibilidade tosca demais pra parecer convincente, mas eu não tinha outra melhor. A briga entre nós dois até que eu concordasse quase levou o nosso namoro ao fim no mesmo dia em que começou. Eu era insuportavelmente convencida e cabeça dura e Freddie insistia que eu deixasse essas peculiaridades de lado pra arriscar a tentativa numa ideia dele pelo menos uma vez na vida. E conseguiu.
De qualquer forma, só fora posta em prática no dia seguinte. Estávamos em frente ao Bushwell às onze da manhã e, por mais urgente que fosse fazer o que estávamos prestes a fazer, eu não conseguia esconder minha insatisfação.
— Sam, qual é? A gente já se levantou bem mais cedo pra ir à reposição.
— Eu sei, mas mesmo assim eu tô com sono. E nervosa.
— Fica calma. Daqui a pouco nossa carta na manga vai chegar e a gente arranja uma desculpa pra Carly descer aqui e nos ver.
— Nossa carta na manga? Freddie, você não teve o mínimo de criatividade. Até nisso me copiou.
— Tá bom, então dê uma ideia melhor. — Ele cruzou os braços e literalmente me encarou por cerca de quarenta segundos na mesma posição. Eu fiquei calada e, quando estava prestes a rir, revirei os olhos e bufei. — Você não tem. Pronto.
Ainda irritada com meu namorado estupidamente chato e atraente, resolvi não contestar mais. Pouco tempo depois, o que ele se referia como "nossa carta na manga" chegou e a cada instante eu só conseguia ficar mais apreensiva.
— Já sei, vamos pedir a ajuda do Spencer pra Carly aparecer aqui.
— Não podemos correr o risco de bater na porta deles e a Carly atender.
— Por isso que eu comprei um celular novo depois de tanto tempo sem um porque você quebrou o último que eu tive pra poder ligar diretamente pra ele. — Disse o convencido enquanto sacava o aparelho do bolso da calça que usava.
— Um celular? Grandessíssima coisa.
— Tente esconder melhor sua invejinha da próxima vez.
Em poucos instantes Freddie já havia ligado pro nosso amigo e explicado detalhadamente a situação. Depois, os dois continuaram na linha enquanto Spencer fingia que não poderia ir até a portaria do prédio pegar uma suposta encomenda feita pela internet porque estava morrendo de dores nas costas e que sua irmã o fizesse por ele. Depois de uma encenação barata e de perder dez dólares para compensar o incômodo, convenceu-a.
Enquanto Carly descia pelos andares do plaza, eu e Freddie subíamos na caçamba do carro. Sim, nós havíamos alugado o carro que usara no dia anterior para tentar pedir o nerd em namoro, quase caindo aos pedaços, para também nos desculparmos com nossa amiga e isso era constrangedor. Do ponto de vista dele, a graça causada nela pela vergonha que passaríamos nos deixaria mais perto do perdão. Discordar, àquela altura, já não era mais uma opção.
– E se ela nos ver aqui e simplesmente ignorar?
— Não vai acontecer, Sam. Fica calma porque daqui a pouco ela aparece.
Após mais alguns instantes de tensão, Carly apareceu. Ainda estava dentro do prédio, mas conseguíamos vê-la através da porta de vidro. Coberta em seu roupão rosa, com cara de sono e o cabelo bagunçado, estava à procura da "encomenda" do Spencer. Olhou por todo o saguão e, confusa, perguntou alguma coisa para Lewbert e aparentemente recebeu uma resposta grosseira. Já impaciente, deu uma última olhada ao redor, novamente se aproximando da porta. Quando estava prestes a se virar de volta, Freddie pediu que Mike ligasse o som bem alto. Seria útil para atraí-la. E foi.
O plano era tocar uma música melosa do Jason Mraz chamada Best Friend, mas não seria suficiente para chamar atenção. O que nos restou foi sermos vistos por ela como dois idiotas em cima de um carro velho tocando Bad Romance pra avenida inteira ouvir. Quando começou a caminhar em nossa direção com o olhar confuso, abaixamos o volume do som e vestimos nossos sorrisos aflitos, ainda sem saber qual seria sua reação. Pela cara que fazia, não parecia ser a melhor.
– O que vocês dois estão fazendo aí em cima? — Disse enquanto apertava os olhos para nos enxergar através do sol forte daquela manhã.
— Nós viemos aqui hoje publicamente para nos desculparmos com você. — Respondi, ainda não acreditando no quanto minha voz parecia trêmula.
— E foi realmente necessário fazer isso em cima de um carro tocando Lady Gaga? — Perguntou de volta, já me fazendo perceber a pontinha de um sorriso surgindo em seu rosto.
— Sim, Carls, porque você merece algo tão extraordinário quanto você.
— Vocês dois só podem estar loucos...
— Por você. — Interrompi-a, tentando usar minha voz mais doce.
— Gente...
— Carly, antes de você falar qualquer coisa... Escuta. — Freddie começou, deu uma pequena pausa, e continuou apenas quando Mike colocou a música fofinha de amizade pra tocar enquanto eu o odiava por não ter feito nada certo quando precisei no dia anterior. — Há alguns meses nós estávamos meio que apaixonados, fizemos um acordo sem sentido e acabamos misturando um monte de sentimentos de uma só vez até colocarmos em risco a sua amizade. Como você fazia parte do trato, não podia saber de nada e, mesmo quando foi conveniente que qualquer um de nós dois contássemos o que estava acontecendo, nós não contamos por medo. Medo do que você acharia, medo do que nós acharíamos e medo dos sentimentos que tivemos uns em relação aos outros.
— E agora, a gente espera que você não pense, por Deus, que escondemos isso por não confiarmos em você. É claro que nós confiamos, mais do que em qualquer pessoa. Você está sempre tentando nos manter unidos, nos recebe em na sua casa, nos ajuda em tudo que precisamos.... Sabemos que erramos feio. Foi um grande acontecimento entre nós dois, quer dizer, no nosso trio de uma forma mais... Enfim, Carly, nós... Nós estamos muito arrependidos. E de agora em diante queremos cumprir, com muito mais esforço, a promessa de não escondermos nada uns dos outros. Então... — Enquanto eu terminava parte do que havia combinado dizer com Freddie e me via soar de forma muito mais natural e honesta, via um sorriso se formar no rosto da minha amiga e seus olhos compreensivos caindo sobre nós dois de forma gentil e cuidadosa. Meu coração parecia aquecido, meu medo já havia passado e eu não me continha de felicidade. Afinal, só restava mais uma coisa a dizer. — Carly Shay... Você gostaria de voltar a ser nossa melhor amiga?
Antes que eu pudesse ter um mini surto dentro de milésimos de segundos à espera da resposta, Carly já havia subido no carro e pulado entre nós dois pra um abraço apertado. Daqueles que parece um enlace de almas. Daqueles em que você se sente protetor e se sente protegido ao mesmo tempo pela dimensão da reciprocidade em que se dá e que se recebe. Era o que eu sentia com os meus dois melhores amigos e nada poderia tirar isso de mim.
Nos separamos do aperto dos braços uns dos outros, mas não do nosso sentimento de amizade. Muito mais pelo susto do grito do Lewbert do que pela nossa própria vontade, pelo incômodo que ele alegava ser a música e a nossa presença.
– Vocês estão atrapalhando o trânsito e perturbando os moradores, suas crianças malcriadas! Saim daqui!
— Lewbert, vai se...
— Ok, nós já estamos saindo! — Carly me interrompeu enquanto descíamos do carro, acalmando Lewbert de alguma maneira misteriosa. Em poucos segundos ele já estava dentro do Bushwell de novo e Mike desligava o som.
— Nós ainda não acabamos, senhorita Shay. — Disse Freddie em seguida, sorrindo.
— Oh, Deus, o que mais vocês aprontaram?
— Isso aqui... — Ele se virou para a caçamba do carro novamente, de onde tirou a enorme cesta que havíamos preparado mais cedo. Estava decorada com papéis coloridos, cintilantes e brilhantes e enormes laços ao redor, cheirava ao perfume dela e tinha uma foto de nós três pendurada. — Algumas coisinhas que você gosta: alcachofras, cupcakes, balas de goma, um gloss de cereja, um pijama de pezinho que compramos ontem à noite sem saber se vai caber e... nós!
— Ah, gente! Não precisa! — A histeria na voz, a empolgação para tomar a cesta das mãos de Freddie e para nos abraçar de novo em seguida denunciaram todo o seu entusiasmo. Nossa amiga era nossa novamente, todos estávamos felizes e nada poderia ser melhor que isso. — Obrigada, meus cupcakezinhos recheados. Eu vou fazer questão de finalizar isso aqui hoje mesmo. Vamos subir pra tomar café?
Aceitamos o convite de Carly, mas não sem antes liberarmos o Mike e pagarmos o que devíamos a ele pelos dois dias de serviço. Eu contribuí com os trocados que pude e Freddie completou com muito mais apesar do meu orgulho. Garanti que o ressarciria em breve, mas nós dois sabíamos que isso levaria nunca aconteceria.
– Eu não acredito que vocês alugaram um carro de som pra se desculparem e montaram uma cesta com minhas coisas favoritas. — Comentou nossa amiga enquanto subíamos as escadas até seu apartamento.
— Era o mínimo que a gente podia fazer.
— Eu já tinha perdoado vocês. Mas se restava alguma raivinha, saibam que já foi embora.
— Bom saber depois do micão que nós pagamos.
— Imagino que deve ter sido difícil pra vocês. — Respondeu com um sorriso que parecia esconder uma gargalhada. Num misto de lisonjeio e vergonha, apenas permanecemos calados até que ela voltasse a falar. — Posso fazer uma perguntinha?
— Claro.
— Vocês dois já estão... juntos... né?
— O quê?! Carly!
— Como sabe?? — Perguntei surpresa, com o coração batendo na garganta, refutando a dissimulação que Freddie pretendia iniciar, colocando em risco tudo que acabávamos de fazer.
— Ah, sei lá. Vocês estão mais coradinhos.
— Carly...
— Não se preocupem, eu não estou brava, não é como se eu devesse. Aliás, acho que estaria se não estivessem juntos.
— Me surpreende.
— Então, Sam, como foi o pedido?
— Você está me perguntando por eu ter aceitado ou por eu ter feito? — Respondi com um sorriso presunçoso, esperando a cara de constrangimento do nerd.
— Porque você... Ah, não. Então quer dizer que...
— É, eu que fui pedido em namoro, satisfeita? — Berrou ele, mais cedo do que eu imaginava, cruzando os braços e cerrando os lábios de uma maneira adorável.
— Calma, Freddie, eu não estou zoando você... Achei fofo! — Carly dizia, cada vez mais alto, uma vez que o estresse em pessoa começou a caminhar mais rápido e alcançou a porta antes de nós duas.
— Pois é, Carls. — Entramos no apartamento também e nos jogamos no sofá antes que eu contasse toda a história. — Somos um casal subversivo ou não?
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