Antropogênese
1 Capítulo 1 - Gênesis
Notas iniciais
"Somos nós as únicas criaturas no Universo que pensam sobre sua origem e evolução, ou existiriam outras formas de vida inteligente entre as estrelas? A origem da existência e a condição de vida extraterrestre vêm sendo focalizadas nos noticiários com grande intensidade desde os anos 1950, mas de forma crescente nos últimos anos, com a possível detecção de restos de fósseis microscópicos em Marte, e da existência de água em forma de oceanos, sob uma manta congelada, na lua Europa de Júpiter. Qual é a origem da vida? O que diferencia seres vivos de simples matéria orgânica? No contexto de evolução cósmica, a vida resulta de uma sequencia natural de evolução química e biológica da matéria pré-existente, regida pelas leis físicas. A regra fundamental é que os seres vivos são organismos que se reproduzem, sofrem mutações, e reproduzem as mutações, isto é, passam por seleção cumulativa. Já a vida inteligente requer trilhões de células, diferenciadas em um organismo altamente complexo, e portanto a seleção natural cumulativa requer um longo tempo. A Via Láctea possui mais de 400 bilhões de estrelas. Existem pelo menos 600 milhões de planetas habitáveis em nossa Galáxia. A probabilidade de vida extraterrestre é tão grande, que toda a discussão atualmente gira em torno da procura de vida inteligente, com a qual possamos nos comunicar. Os seres inteligentes produzem manifestações artificiais, como as ondas eletromagnéticas moduladas em amplitude (AM) ou frequência (FM) produzidas pelos terráqueos para transmitir informação (sinais com estrutura lógica). Acreditando que possíveis seres extraterrestres inteligentes se manifestam de maneira similar, desde 1960 se usam radiotelescópios para tentar captar sinais deles. Esta busca leva a sigla SETI, do inglês Search for Extra-Terrestrial Inteligence, ou Busca de Inteligência Extraterrestre. Até hoje não houve nenhuma detecção, mas esta busca se baseia em emissões moduladas de rádio, que produzimos aqui na Terra somente nos últimos 60 anos."
Essa foi minha última leitura antes de tudo. Antes do hoje, antes do futuro. O futuro talvez já havia começado por meio de questões nunca solucionadas, porem aquelas com que as respostas iriam afetar um mero cidadão, sucedido então por um impacto mundial. Posso dizer com toda a clareza que as mudanças desencadeadas vieram para se tornar fixas, nada será como antes. Seguindo a ideia de que evolução, em poucas palavras, é um processo de variação e adaptação de populações ao longo do tempo, podendo inclusive provocar o surgimento de novas espécies a partir de uma pré-existente, podemos aplica-la exactamente a minha futura narração, porem como desejo esclarecer totalmente minha parte crítica usarei o termo revolução,que a primeira vista, refere-se a toda e qualquer transformação radical que atinja drasticamente os mais variados aspectos da vida de uma sociedade.
Antes de começar o que tenho objetivado, desejo informa-los que eu fiz parte dessa revolução, deixei minha marca talvez acima daqueles que se julgavam superiores, fortes ou anciões de uma atmosfera de dor e sofrimento, porem como consequência disso eu já não me encontro junto aos vivos, esse é o motivo do meu desejo de deixar junto as minhas origens a minha história e por escrito o meu legado.
Talvez por receio prefiro não me identificar, o que provavelmente não será necessário para aqueles que se integrarem e conectarem os fatos a minha pessoa. O receio como já é de se imaginar, não é por mim, pois não há o que possam fazer comigo, já que de onde estou o mal não habita. Meu receio é de interferir no destino dos meus herdeiros, aqueles que imortalizaram na Terra parte dos meus sentimentos.
Não pretendo estender os fatos, serei breve por três motivos: Primeiramente não desejo deixar rastros de sangue na memória de uma raça que sofreu o suficiente para todas. Segundo, nunca fui profissional em arquivar ou exibir fatos e por ultimo porque não tive escolha, não tive a chance de edição, corte ou adição, portanto o que proporcionarei são apenas capítulos que foram vividos por toda uma geração.
Capitulo 1 : Gênesis
Era um dia frio, com a temperatura minima prevista para dezessete graus Celsius negativo, o que não seria algo extraordinário para um dia de inverno na Russia, que porventura costuma durar cerca de cinco meses, chegando até a quarenta graus negativos em cidades como Yakutsk. Contudo nossa história começa a cerca de seis mil e quinhentos quilômetros dali, em uma cidade chamada Cheliabinsk.
O telefone tocava pela terceira vez consecutiva, não havia duvidas que a origem da ligação era o escritório de marketing da empresa Adamantium Mineradora, no qual Kriger Koslov trabalhava para suprir suas necessidades e a de seu irmão caçula Nikolai Koslov. A vida de ambos foi manchada pela morte de seus pais, que foram alvejados por um assaltante que permanece impune perante a sociedade. Talvez esse seja o motivo da dificuldade de Kriger em se adaptar ao meio em suas novas condições.
A bebida era sua saída. Não só para o esquentar fisicamente mas para mergulhar sua alma e pensamentos em um local onde apenas seu orgulho poderia o incomodar, sua face branca, olhos fundos azuis, e cabelos oleosos negros correndo por sua feição cansada, denunciava sua ressaca. Seu irmão beirando a adolescência não desestia de tentar levanta-lo, talvez por não ter presenciado de uma maneira memorável o fatal incidente, sua mente era mais clara e limpa. A inocência de esperança em uma vida melhor ainda permanecia como um dos seus objetivos.
Não havia outra opção, se não quisesse perder o ultimo membro de sua família, seu dever era atender ao telefone, mesmo sabendo que seria apenas mais uma das incontáveis chances que seu chefe de departamento daria para que ele chegasse a tempo e retomasse seu trabalho.
Após lavar o seu rosto e preparar o café da manhã, agradeceu Nikolai por haver insistido nele, e como de praxe nos últimos cinco anos, prometeu que tudo iria mudar, mesmo sem saber que de fato tudo mudaria, não por uma mudança de caráter, mas sim pelo desastre que estaria por vir.
Ao sair de casa entrou em seu carro, escolheu a estação de radio e se colocou em direção ao colégio de Nicolai, sua primeira parada antes de tomar sua rotina diária. O silêncio dominava o ambiente mesmo com as tentativas inúteis de conversa do caçula.
- O colégio fará uma pesquisa sobre a diminuição de emissão de nitrogênio em combustões, talvez isso seja interessante para ti Krig – Era como tratava informalmente seu irmão, na esperança que recebesse um tratamento afetuoso como resposta – Já que você trabalha em uma mineradora, não sei, talvez você possa comparecer.
Como um som automatizado:
- Sim.
- Sim? Então você vai? – A resposta de Krig realmente era motivo para indagação, considerando que nunca esteve presente a nenhum evento acadêmico de seu irmão.
- Vai aonde? Eu vou?
E o silêncio retornava como uma nuvem negra que expandia até obter o espaço total do Porsche Cayenne 2004, um dos objetos herdados de seus pais. O céu estava limpo, a imensidão azul era o que chamava atenção de Nicolai, já que havia desistido de qualquer tipo de interação com seu irmão. O colégio estava próximo, a primeira atividade do dia seria o treino de basquete que havia se inscrito no inicio do semestre, como forma de otimizar os recursos estudantis e evitar a solidão em casa, já que por teoria Kriger deveria trabalhar todos esses dias neste mesmo horário.
Ao chegar no primeiro destino Nicolai desceu do automóvel com palavras de despedidas engasgadas em sua garganta, não acreditava mais em uma resposta lúcida vinda de Krig. O treino já havia começado e a tolerância do treinador só existia devido ao conhecimento das problemáticas de seu aluno mais talentoso. Uma das heranças deixadas por seu pai foi o interesse e facilidade em atividades esportivas, em principio Nick participava de uma liga de futebol, mas o que havia chamado sua atenção e tornado seu novo objetivo de conquista era o basquete. Sua estatura avançada, velocidade e habilidades com as mãos eram dignas de reconhecimento profissional, porem sua força de vontade e insistência o tornava a nível de um, por esse motivo havia adquirido sua bolsa integral no instituto mais caro Cheliabinsk.
Seguindo viagem Kriger recebeu uma mensagem ordenando que ao invés de ir ao escritório de marketing fosse receber um material em uma das usinas da empresa. O local ordenado ficava cerca de cem quilômetros fora da cidade, o que o deixava ainda mais satisfeito pois seria privado de contado social por mais alguns instantes.
O deserto branco havia tomado espaço na paisagem, a neve havia dominado e pintado um quadro de luz e pureza, em um estado denso e frio. A única coisa que registrava esse momento era câmera do Porsche, pois os olhos de Krig não passavam de esferas de vidros que enviavam comandos automáticos de direção ao seu cérebro. Na Rússia todos deveriam ter uma câmera no painel. As estradas russas são perigosas, com muitos engarrafamentos, enormes valetas, áreas alagadas e rodovias que atravessam imensos desertos de gelo, como neste caso. Também existem partes sem lei onde você simplesmente não vai, policiais com tendência aguda à extorsão e motoristas frustrados que partirão seu carro ao meio na primeira oportunidade. Filmagens feitas com câmeras no painel são a única maneira real de provar suas acusações na corte. Batida e fuga é uma situação comum e as companhias de seguro são notáveis especialistas em negar acusações. Não obstante, o que ela estava por registrar era algo nunca presenciado pela raça humana.
Nick havia decidido não treinar, sentado na arquibancada simulando um estudo de estratégia de jogo sua mente estava concentrada em outro rumo. Alguma coisa o estava incomodando, não era supersticioso mas podia sentir algo diferente, seu coração palpitava em outro ritmo, de repente nada fazia sentido e já não enxergava nada além de uma luz branca. Essa luz veio acompanhada de uma explosão, na qual os vidros das janelas se romperam e estilhaços foram lançados por todo ginásio e toda a luz se converteu em escuridão, agora apenas escutava, grito, choro, agonia expressada em ondas sonoras, seu corpo estava deitado sobre uma substancia liquida e quente, e a densidade acusava que era seu próprio sangue. Subitamente a luz voltou, mas não parecia a mesma, essa o chamava para mais perto, como uma fruta carnosa pedindo para ser mordida, ou um bom vinho tinto o chamando para ser tragado.
Uma pausa para esfregar os olhos diante a um lago totalmente congelado, a dor de cabeça ainda o incomodava e o fazia desejar mais um copo de café puro e amargo. Ao retirar as mãos dos seus olhos não conseguia ver mais nada, a mesma luz havia chegado ao seu encontro. Em reflexo ao momento Kriger abaixou em sua poltrona e ficou a escutar a explosão dos vidros de seu Porsche junto a outro estrondo ainda maior. Após o silenciamento, a curiosidade foi despertada e ele não pode se conter dentro do automóvel.
O frio era intenso, o vento corria em seu corpo como uma lamina de aço o deixando ainda mais nervoso. O lago era desconhecido para ele, nunca havia observado a existência do mesmo. O cenário branco contribuía para a camuflagem do ocorrido, uma fumaça branca acinzentada cortava o ar e tinha como direção algum ponto no meio superficial da água congelada. Krig nunca foi fã de se colocar em riscos por nenhum motivo, o conhecimento que tinha da morte o deixou temeroso diante a todos os tipos de situações insalubres, porem não conseguia parar. Ao pisar na superfície lisa não olhou para o chão, colocou em prática o que havia treinado durantes esses últimos anos: ignorar. As mesmas esferas de vidros que conduziam o carro estavam o conduzindo para o destino levado pelo objeto que acabara de cortar a atmosfera produzindo o choque explosivo.
A medida que ia se distanciando da terra podia escutar ainda mais forte sua pulsação, que provavelmente orçava seu limite. Seus pés deslizavam, não eram necessários passos, o movimento já era continuo pela presença minima de atrito. Agora já podia ver o começo de um orifício formado pela colisão, mas não era algo comum, uma pequena luz emergia da aguá, um efeito que alternava entre as cores verde, azul e um vermelho que se assemelhava a uma chama. Ao desacelerar inclinou-se para tentar distinguir o desconhecido, a energia liberada ao seu redor era perceptível pela diferença térmica. Um calor era exalado de dentro da água e, ao mesmo tempo, de um fragmento de rocha encontrado ao lado da cavidade, isso acelerava o descongelamento da placa de gelo, expandindo exponencialmente a lacuna. Percebendo isso a primeira reação de Krig foi tentar um retorno correndo, mas em seu primeiro passo um barulho de rachadura soou por debaixo de seus pés, uma escolha deveria ser feita correr contra o tempo e descongelamento da superfície, ou ser paciente prevenindo novas fissuras em uma caminhada minuciosa e calculada. Paciência nunca foi uma de suas melhores virtudes, mas a ansiosidade sempre foi um dos seus maiores pecados, com um salto começou a corrida contra os fatores físicos presentes, entretanto habilidades atléticas era algo que apenas Nicolai possuía, e em seu terceiro passo escorregou colidindo sua testa contra a camada sólida que em um estalo se rompeu sugando-o para a profundidade fria.
Submergindo conseguiu ver claramente as luzes e um objeto negro que se desintegrava incessantemente, não conseguia determinar se era apenas uma rocha, mas o aspecto metálico o colocava em duvida. Enquanto sua consciência ia apagando as luzes ficavam mais intensas até uma forma humana se materializar em frente a fonte da energia. Um homem alto, branco com cabelos negros, curtos e músculos definidos. Kriger escutou algo vindo de sua mente: Quem é você? O que busca de mim? O que para qualquer um iria parecer a uma alucinação, para ele era a voz do ser que se encontrava estático em sua frente. Com alguns movimentos braçais implorava por ajuda, porem mais uma vez escutou: Eu não posso te ajudar, seu destino já foi traçado. E em questão de segundos o homem se desmaterializou diante ao seus olhos, esses aos quais se fecharam neste mesmo instante, cerrando assim seu destino.
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