Antropogênese

2 Capítulo 2 - Saron


O clima de festa contagiava todo o país, um costume que foi passado de varias gerações que agora de uma forma diferente e conturbada, se comparada as tradições originais, tomava total espaço na mídia e no aspecto social de diversos brasileiros. O calor, alegria e tranquilidade se destacavam globalmente, e por esse momento a fome, o desemprego e a saúde eram mascarados no ritmo do Samba.

Nos noticiários, a contagem de pontos das competições festivas eram interrompidas por algumas passagens sobre o desastre ocorrido na Rússia, porem mil pessoas feridas não eram importantes diante a todos os preparativos atuais. O assunto algumas vezes era mencionado nas redes sociais, seguindo o mesmo clima sarcástico e irônico.

Exemplificando a exceção que há em todas as regras, em cima de seus livros épicos permanecia uma jovem garota de apenas dezessete anos que mantinha seus negros olhos deslumbrados diante a uma obra de capa marrom que se misturava a partir de sua mão com a cor de todo seu corpo. O brilho de seus cabelos anelados era semelhante a de sua boca sorridente, o encanto que exalava do livro era absorvido e transformado em expressões doces e solitárias. Essa solidão fazia parte da sua alma, não era seu animal de estimação e sim uma fera que havia sido domada e agora se tornou útil a sua ama. Esse processo começou quando sua mãe optou por seguir sua carreira de pesquisadora na Universidade de Cambridge e a deixou com seu pai George, um humilde professor de Letras que não possuía as mesmas ambições de sua esposa.

Viver com o pai tornou Beatriz uma pessoa de carácter misto, entre a determinação e força de uma filha única disposta a cuidar de si e de seu pai, que já não possuía a mesma juventude dos anos oitenta, e a humildade que herdou do lado paterno de sua arvore genealógica. O gosto e fome pela literatura também tinham a mesma origem, o acervo da biblioteca de sua casa fornecia material suficiente para suas próximas gerações, mas os livros de seu interesse eram apenas aqueles que a fantasia vencia a logica, os sentimentos venciam a razão. Isso era apenas nos livros, a inocência de uma vida de aventuras e de super heróis não existia mais, os tinham como passatempo, com a consciência de suas responsabilidade na vida real e que haviam grandes chances de seguir a similaridade da massa, em uma futura carreira profissional regular, com uma vida social regular formando um destino nada acima do ordinário. Como vocação a escolha já havia sido feita: Medicina. O fato de poder ser útil chamou sua atenção para essa carreira, obedecendo a uma regra retirada em uma de suas leituras que dizia “...qualquer atitude só é efetiva quando integrada a sua prática...”.

Contorcer o tronco para a direção inversa dos membros inferiores de seu corpo era uma tentativa de relaxar por um instante e se acomodar na leitura novamente. A sala branca com pinturas expressionistas denotava o gosto vanguardista dos moradores e a influencia européia introduzida pela arte. A poltrona onde estava deitada se auto-denominava “poltrona do papai”, um presente que havia comprado ao seu pai, que a beneficiava mais que ao próprio dono. O silêncio era seu maior amigo, o ambiente sonoramente isolado ganhava a preferencia da leitora exclusivamente por essa característica.

Do outro lado da casa estava Bárbara Angélica, filha da ex-secretaria de Laura Queiroz, mãe de Beatriz. Seu rosto claro, cabelos lisos aos ombros, adornado por um arco lilas passava a imagem de uma garota séria, comportada e solitária como a dona da residencia, porem a amizade que as duas haviam construído não era por outro motivo além da diferença entre ambas. Bárbara não escondia sua infantilidade e inocência permanente, seu falar doce e sotaque do interior conquistava seus ouvintes. Seu relacionamento com Bia era de irmandade, terem crescido na mesma casa e fraquentado o mesmo colégio resultou em um laço de amor e lealdade. Angélica havia sido praticamente adotada pela família ainda criança, o amor que havia conquistado de George Queiroz a colocou dentro do âmbito e orçamento familiar, parte desse amor era gratidão, gratidão pela prova de cumplicidade que havia demonstrado a Beatriz.

Os rastros de amizade da dupla foram deixados por toda a história de suas adolescências e por uma fatalidade, no corpo de Bárbara. A violência que por uma razão desconhecida é considerada como uma normalidade fez parte da construção do caráter de Beatriz, vitima responsável pelo ocorrido. Na tentativa de conhecer pessoalmente um garoto de sua idade, encontrado em uma das infinitas redes sociais, que, por teoria, se assemelhava nos gostos e atitudes e havia passado por situações familiares próximas ao dela, marcou um encontro em uma casa de boliche que ofertava como entretenimento jogos, musicas e pizza, por escolha do adolescente.

Encontro inocente, não haviam primeiras, quanto menos segundas intenções, apenas a esperança de encontrar alguém que a compreendesse e compartilhasse os mesmos sentimentos, para que não fosse julgada como uma sofredora. Três horas foi o tempo que esperou sentada diante a um taça de água intocada, seu livro de bolso serviu de companhia e conforto a decepção. A escuridão salpicada por flashes de luzes verdes e roxas importunada por chamadas e congratulações aos novos recordes dos jogos a convidou a se jubilar do local. O retorno a sua casa exigia uma caminhada de trinta minutos, o que não parecia uma caminhada longa a luz do dia. A escuridão e o silêncio fez com que começasse a observar com maior atenção o cenário. Paredes de enormes residencias pichadas de um lado, e uma zona verde, semelhante a um parque público, ao outro. O assobio do vento que roçava sua pele e balançava seus cabelos produziam um efeito de aceleração na caminhada.

Seu medo a conduziu a realizar um telefonema para sua casa, atendida por Bárbara, Bia passou suas coordenadas e pediu para que avisasse ao seu pai a buscar, entretanto foi informada que ele ainda não havia retornado da universidade. Como única opção prosseguiu caminhando com os olhos voltados para o chão, até que com um impacto contrario a sua direção e a sensação fria em em seus braços notou que estava sendo abordada por um homem que aparentava seus quarenta anos. Como habito pediu perdão pela desconcentração e tentou desviar para continuar, no entanto as mãos frias do senhor mais uma vez se fecharam aos seus braços. Uma voz rouca e grave entoou da boca do desconhecido proferindo: “Você escolheu me encontrar, vem que eu vou te levar para o jardim, que é onde as abelhas polinizam suas flores”.

A frase veio acompanhada de uma tração forte em direção ao parque abandonado, com a outra mão sobre sua boca, fazendo de seus gritos inúteis resmungados. Seu corpo foi estendido como um tapete na superfície verde, a imagem do homem passando a linguá em seu pescoço ainda era seu pior pesadelo. De uma bolsa de mão o indivíduo, que na memória de Bia possui a imagem de um demônio, retirou uma tesoura fio navalha, comum entre barbeiros, esse momento a fez entender o que estava para acontecer, seus movimentos cessaram, toda sua angustia, medo e ódio se condensaram em lagrimas, que caiam de seus olhos junto a sua inocência de garota. Com metade de sua blusa rasgada a mão gelada do facínora deslizava em sua pele, com os olhos cerrados e ciente de seu destino, seu único desejo era que tudo acontecesse de forma concisa.

Com o barulho de uma colisão os olhos de Bia voltaram a se abrir, não havia mais ninguém sobre o seu corpo, o homem estava deitado a seu lado e diante dele estava Bárbara, com um pedaço de madeira. No mesmo instante o homem tentou se levantar e com um grito Angélica arriscou deferir seu segundo golpe que foi interrompido pelo sujeito que conseguiu se esquivar com um braço e com uma puxada a atraiu o suficiente para penetrar a tesoura em seu abdômen. Ainda no mesmo ato, com a arma livre da mão que agora estava manchada de seu sangue segurando a tesoura encravada em seu corpo, Barbara o golpeou diretamente no rosto, deixando-o inconsciente e dando-as tempo suficiente para fuga. Esse ato heroico rendeu a Angélica, além de um lugar fixo na família, uma promessa de divida eterna por Bia, que reconheceu a incapacidade de tomar a mesma decisão.

O silêncio que presenciava toda a extensão da casa foi expulso pela vóz aguda e potente da heroína que chamava por sua amiga, a sua insistência tornava o eco dos comodos um recurso inecessario, já que suas repetições incessantes exerciam a mesma função.

- Bia, vem ver, isso é do seu interesse, não tem cavalos e guerreiros mas é quase tão espantoso quanto esses seus livros! – O aviso foi precedido por diversos outros, entretanto não a privava de suceder com chamadas ininterruptas. – O Biaa, larga esse livro! Eu juro que o que proponho é mais interessante e será de grande utilidade para você!

O interesse era certo, Maria Beatriz estava prestes a começar sua graduação de medicina na Rússia, o motivo era incerto, argumentava que queria apenas mudar os ares, outrora era por saber que não teria acesso a uma boa universidade brasileira estando ciente que não alcançaria a nota minima para ingressar em uma instituição pública, mas no fundo era apenas uma forma de desafio. Os livros sempre mostravam a bravura de suas heroínas, que lutavam contra a sociedade para ganhar espaço e uma visão sem preconceitos. Tudo que Maria mais almejava nunca havia conseguido, no momento mais marcante de sua vida, mais uma vez fez o papel da vítima. A vontade de fazer diferente, de ser importante ao menos uma vez fazia com que tomasse decisões radicais na esperança de uma solução.

Meninas frágeis e delicadas, que estavam em busca do príncipe do encando, todas entediantes e monótonas. Seu perfil ideal seria uma mistura dos sabores amargos com uma suave doçura quase imperceptivel e um toque do ácido irônico que contornava sua personalidade como uma barreira impenetravel, a fragilidade que de fato existia era escondida

- Primeiro me fale o que é, Bárbara, logo pensarei se vale a pena ou não. – Sarcastica era uma de suas caracteristicas alem da determinação em suas atitudes, se decidisse que não estava interessada, nada mudaria sua ideia – Você tem três segundos para me convencer de levantar da “poltrona do papai” e largar a história no momento em que Eldermy será degolado.

- Ok, três palavras: Rússia, Meteoro e Destruição! – As palavras soaram teatrais, dramaturgia: Uma habilidade natural de Bárbara.

As três palavras toaram como uma ordem, nenhum assunto poderia ser mais chamativo do que um relacionado a sua futura jornada. Sem sombras de dúvidas essa é a melhor palavra para descrever o que iria realizar, tudo em sua vida era convertido em uma forma literaria.

- Conseguiu comprar minha atenção, pode começar a falar, porem rapido antes que eu canse!

O tratamento que proponia a Bárbara se dava pelo fato de conhece-la muito bem, uma frase era um paragrafo e um paragrafo um capitulo, suas falas eram extensas e suas verdades distorcidas, não fazia por maldade era apenas um instrumento que havia adquirido para construir uma imagem comica própria, que por sua vez servia para disfarçar sua insegurança e carência.

Crescer a sombra dos outros não é uma maneira fácil de prosseguir, ter uma nova família era melhor do que qualquer coisa que poderia pedir, entretanto, não era sua. Não era a casa de Angélica. Não era seu pai, sua irmã. A incerteza de ser bem vinda era constante mesmo estando certa de que era amada. Todas as tentativas de se sentir cômoda eram falhas ao lembrar-se que nada ao seu redor era de sua posse, nada material, nada humano. Essa insegurança que arduamente, dia após dia, tentava disfarçar.

Largo os fatos para expor opiniões. Sim, ela era amada. Sim, tudo ao redor seria dela apenas com um pedido. Ela não sabia, mas eu posso afirmar que o que essa família a devia, não era suficientemente paga com amor. Amor, um sentimento que não traz em seu significado a sobrevivência, quem sabe em um dos livros das prateleiras do anfitrião da casa isso fosse possível, porém na vida real, em um país capitalista onde o direito de saúde, educação e moradia eram violados pelos desejos avarentos dos líderes governantes isso não passava de um pensamento utópico.

Sem dúvidas o que a família de Maria havia feito por Angélica até o momento a privou de diversos tipos de sofrimento dando uma chance de crescimento pessoal e profissional. A carreira de Barbara estava garantida assim como de sua meia irmã. Medicina talvez não fosse sua opção real, mas como fiel escudeira, o fato de estar próxima de Bia era mais importante. Sua verdadeira vocação era lidar com crianças, seu prazer estava em fornecer o conhecimento para aqueles que estavam no processo de amadurecimento. Mesclando as distintas áreas havia decidido se tornar uma psicóloga pediatra.

Não posso continuar falando de todas as características e virtudes da garota, pois como já disse necessito ser breve e caso continue esse caminho, serei exatamente o inverso, pois a minha admiração a ela não se limita a alguns parágrafos, eu poderia dedicar um livro.

Não havia muito o que falar, os conteúdos que se referiam ao assunto eram todos os mesmos: Um meteoro havia percorrido a camada atmosférica sobre o Russia, impactando desastrosamente diversas cidades causando prejuizos incontaveis, tanto economico quanto social, e como esperado a rocha se desintegrou atingindo algumas partes da superficies terrestres de forma desprezível.

As notícias afirmavam que a agência americana NASA descartou a relação entre o meteoro e o asteroide 2012 DA14 que também havia passado próximo a Terra em poucos dias. Também estava registrado que segundo um ministro russo de situações de emergência, uma equipe especial do governo foi enviada à região para avaliar a estabilidade sísmica dos edifícios. Ele destacou que o governo de Cheliabinsk iniciou uma grande operação para consertar os estragos provocados pelo fenômeno. Cerca de 20 mil pessoas foram mobilizadas no país para participar da limpeza e também do atendimento aos feridos, que ainda permaneciam sob observação médica.

Os grandes olhos negros e redondos de Beatriz brilhavam, sabia que era uma tragédia e tinha consciência da gravidade, porém tudo passava como uma peripécia em seu destino, o fato da grande necessidade de médicos em diversas partes do país instigava seu lado vocacional e a satisfazia pela certeza de que seria de alguma forma necessária, senão nessa, em alguma outra catástrofe que sucedesse. E iria acontecer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.