Antes do nascer do sol.
4 Joaquim e Mariana - Encontros e desencontros.
Joaquim
Dezembro 2017. Abro os olhos pesados, com dificuldade, e percebo a tênue claridade do começo do dia que entra pela pequena janela lá no alto, sinto frio, puxo mais o cobertor e me encolho. Meu corpo doe, meu pescoço arde onde o cinto apertou, a garganta arranha, seca como papel, eu movo a minha cabeça bem devagar, ao pressenti uma presença ao meu lado, e lá está aquela jovem médica, novamente, sentada na incomoda cadeira de plástico, tem os olhos fechados, vencida pelo cansaço da noite insone. Ela me lembrava alguém desde o início, porém, minha mente obnubilada não a reconheceu e, nesse momento, sou arremetido há nove anos, naquela fatídica noite dentro do meu carro, recordo-me da garota sentada no banco bem atrás de mim, que mal notava, pois estava entretido com a visão da face de Lídia, cantando junto com a triste canção do rádio.
— Mariana — murmuro, no seu leve sono, ela escuta e abre os olhos, que se encontram com os meus.
— Oi, Joaquim — ela responde, com um sorriso forçado. — Como você está?
— Eu não sei, acho que fisicamente bem.
— Sim, fisicamente, você está bem — ela se ergue e para ao meu lado, como em um ato reflexo, começa a me examinar, sente meu pulso, ausculta o meu coração, olha as minhas pupilas.
— Você não precisa ficar tomando conta de mim, à noite toda — falo, depois que terminou, dando um passo para trás.
— Sim, eu não precisava, mas quis. Hoje, o plantão estava muito calmo, assim... — ela dá de ombros, me fazendo lembrar a minha amiga de escola.
— Fico contente que estar bem, que é uma médica, como sempre sonhou — forço um sorriso.
— Joaquim, por quê? — ela geme, franzindo a testa, sei que a doutora não está mais ali, mas a garota que conheci anos atrás, que fazia parte do grupo de amigos da escola, que costumava se divertir juntos, um tempo alegre e inocente, cheio de esperança e futuro.
— Não há mais nada para mim, eu perdi tudo naquela noite, só sobrou o vazio que assola a minha alma, um enorme buraco negro, que suga toda luz e energia à minha volta. Não aguentava mais isso, cansei de lutar, precisava de paz.
— Joaquim, você não teve culpa de nada. Ninguém teve, a não ser aquele motorista que avançou o sinal vermelho.
— Eu quero muito acreditar nisso.
Ela me olha com intensidade, pensa que sou um louco, um covarde, coloca a mão sobre o meu ombro.
— Por favor, Joaquim, não faça mais nenhuma loucura, procure ajuda, porque não há nada que possamos fazer para mudar o passado. Nenhum de nós teve culpa do que aconteceu.
Os nós dois nos entreolhamos, naquele instante, quase eu confessei a verdade que, naquele sinistro instante, admirava Lídia pelo retrovisor, prestando atenção na face daquele amor adolescente e intenso, que tanto me fazia sofrer, sem que ela nem desconfiasse da verdade.
Um dos técnicos de enfermagem se aproximou de nós, um tanto sem jeito pela interrupção.
— Doutora, chegou mais uma sutura.
— Já estou indo — disse a ele e se voltou para mim, podia ver a hesitação na sua face. — Joaquim, meu plantão está quase acabando, volto aqui para conversarmos com mais calma.
— Eu não irei para lugar nenhum.
Mariana me deu um sorriso triste, tocando o meu braço e sumiu pela porta. No entanto, eu não cumpri minha promessa, pois antes de ela regressar uma ambulância veio me buscar, para me levar a uma clínica de repouso, onde minha família julgava que ficaria salvo de mim mesmo. Poderia deixar um recado, o número do meu telefone, mas não quis, já que, encontrar qualquer pessoa do passado só me faria sofrer ainda mais, quando olhasse para seu rosto.
Sou um homem condenado, carregando peso da culpa, não desejo dividir isso com mais ninguém.
Mariana
Por fim, o cansaço venceu e meus olhos se fecharam por um breve instante, mergulho no vazio. E meu coração pulou sobressaltado, ao ouvir o meu nome constatando que, finalmente, Joaquim me reconheceu, olho nos seus olhos escuros e tristes e procuro aquele amor que existiu outrora, que consumia o meu peito e que tanto me fazia sofrer nos anos da minha adolescência.
Quantas noites passei insone pensando nele, sofrendo por ele não me notar?
Quantas lágrimas derramadas por esse amor não correspondido?
Mesmo assim, gostava de ficar ao seu lado, em busca de alguma mera migalha da sua atenção. Então, aconteceu aquela tragédia, que mudou as nossas vidas, e nunca mais nos encontramos, assim aquele sentimento foi se desfazendo nas voltas que a vida dá até eu achar que desapareceu. Agora, ali, diante daquele homem magro de rosto abatido, sentia uma imensa ternura, um medo de perdê-lo mais uma vez, uma vontade de protegê-lo, ficar junto dele. Não queria me afastar, não o deixar ali sozinho, mas era preciso.
— Já estou indo. Joaquim, meu plantão está quase acabando, volto aqui para conversarmos com mais calma.
— Eu não irei para lugar nenhum.
Não foi tão rápido como imaginei, duas suturas, uma cólica renal, uma crise de asma, o movimento foi mais intenso no fim do plantão. Portanto, quando o primeiro membro da outra equipe chegou, passei os casos e corri para a sala de repouso, esperando rever Joaquim, contudo, meu coração deu um pulo ao encontrar o seu leito vazio.
— Onde está o paciente do box 6? — pergunto, aflita, a uma das técnicas, já de saída, indo em direção ao vestiário.
— Uma ambulância veio buscá-lo para levar para outra clínica, ainda há pouco — ela me responde, um tanto impaciente, doida para ir embora.
— Quem o liberou?
— Doutor Adolfo.
Queria perguntar se ele havia deixado algum recado para mim, mas não tive coragem.
— Obrigada e bom descanso — digo, desanimada.
Procuro no prontuário o nome da clínica para onde ele foi transferido, não sei se teria coragem para procurá-lo lá, mas guardo o número do telefone dele. Quem sabe, seria melhor esquecer, continuar a vida como se esse encontro não tivesse acontecido? Mas, no fundo do meu coração, acho que seria impossível.
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