Antes do nascer do sol.
5 Lídia - A esposa perfeita.
Fevereiro 2018. No fim da tarde, eu dirigia o meu novo Mercedes C prata, presente do meu amantíssimo marido, indo em direção ao colégio dos nossos filhos, poderia ter mandado o motorista e a babá, mas gostava da tarefa de buscá-los sempre que conseguia, era uma das poucas vezes que me considerava uma verdadeira mãe, apesar de enfrentar o trânsito conturbado àquela hora do dia.
No rádio do carro, uma música antiga começou a tocar:
— Eu só quero você por perto. Onde você possa ficar para sempre.
Por um instante, sou arremetida há alguns anos, quando cantava essa canção, sentada no colo de Teresa, no banco de trás daquele carro apertado, após a festa de formatura, antes do raiar do dia, queríamos ver o sol nascer na praia, o começo de nossas novas vidas, contudo, nunca chegamos lá. Ainda me lembro do forte barulho, o mundo girando, eu sendo jogada de um lado para o outro, até minha cabeça bater, violentamente, contra o teto, a dor lancinante e desmaiar.
Não, por favor! Não preciso disso, agora. Troco imediatamente para a minha própria seleção.
Meu telefone toca, atendo na viva-voz, ouço a voz de Jonathas, meu marido:
— Querida, não me espere para jantar, hoje à noite. Tenho um jantar importante de negócios, não sei a que horas chegarei — ele me avisa, em um tom suave, quase se desculpando.
— Não quer que eu vá com você? — pergunto, mesmo já desconfiando da resposta, mas ainda me agarrando a uma pequena esperança.
— Não precisa, não quero que se você aborreça com esse jantar entediante, e não espere por mim acordada, pois não chegarei cedo. Boa tarde, querida.
— Boa tarde e bom jantar, querido.
Eu respiro fundo, seguro o volante com tanta força que os nós dos meus dedos estão brancos. A raiva crescente vai tomando o meu corpo, apertando o meu peito, mal me deixando respirar. Eu sei que meu marido está comendo uma outra piranha. Não adianta nada do que faço: as inúmeras aulas de ginásticas, sessões de massagem, horas intermináveis em salões de beleza, de gerir com esmero a casa dele, cuidar dos seus filhos, me envolver em campanhas beneficentes para promover a empresa dele, ou seja, a esposa perfeita, a mulher ideal para ser exibida em festas e jantares, no entanto, ele sempre arranjava uma vadia qualquer, me deixando em casa, sozinha, noites e noites seguidas, em companhia de doses de vodca com gelo, até cair na cama e apagar para não vê-lo chegar, em casa, pleno e feliz.
O sinal abre, o idiota da frente demora bastante a sair, minha mão pesada vai direto para a buzina.
— Cretino! Cachorro!
Subo a rampa que dá no estacionamento da escola, respiro fundo, me recompondo, me olho no espelho conferindo a maquiagem, retoco o batom com cuidado, e saio do carro, ajeitando a minha roupa, ergo e queixo e vou em direção a porta de entrada. Entre as muitas babás, há algumas mães ali, todas bem vestida, com roupas caras, e maquiadas, querendo se exibir, em uma velada disputa.
Eu me aproximo, sorridente, sem sequer um vestígio da angústia no meu coração.
— Oi, Lídia, querida. Adorei a sua nova cor de cabelo — Marsha, a jovem segunda esposa de um importante executivo americano sessentão, se aproxima de mim, oferecemos as faces trocamos dois beijinhos flutuantes.
— Supreme blondie, uma marca francesa, encontrei um colorista incrível — falo, passando a mão nos meus cabelos.
— Você precisa me passar o telefone dele. E o seu carro novo!
— Presente de Natal de Jonathas — digo, com falsa animação.
— Nada como um marido carinhoso! — Cintia, outra mãe e terceira esposa de um famoso diretor de TV, se chega a nós.
Ainda faltam alguns minutos para as crianças saírem, a conversa debanda para os assuntos de sempre, academia, personal trainer, novos tratamentos de beleza e babás. As frases saiam da minha boca sem que precisasse pensar, talvez, elas fossem como eu, que soubessem e fingiam não ver o que os seus maridos faziam. Será que Marsha não sabia que o seu marido era um grande assediador sexual das funcionárias da sua empresa? Cintia não desconfiava que o seu amado conjugue estava tendo um caso com um jovem e belo ator em ascensão? Quem sabe, que como eu, essas mulheres apenas dissimulavam não enxergar a verdade, para manter seu estilo de vida, pois, sem isso, não seriam ninguém, não teriam nada.
As portas se abrem, podemos ver as crianças indóceis do outro lado, loucas pela liberdade. Uma das cuidadoras me entrega Brenda e Matheus, meus filhos de 6 e 5 anos.
— Vamos combinar e tomar um drink qualquer noite dessas — Marsha disse, antes de eu me afastar.
— Sim, com certeza. Até manhã — respondo, segurando as mãos das crianças, caminhamos até o carro.
— Mãe, quero um vestido de princesa azul — Brenda exige, autoritária, penso como ela se parece com seu pai.
— Eu quero um uma espada de pirata — Mateus aproveita a deixa, como sempre.
— Você já tem um vestido de princesa azul, Brenda. E você já tem um montão de espada, Matheus — pondero, sem dar muita atenção, pois todo dia é a mesma história.
— O meu vestido está velho.
— Não, tenho não. Quero uma espada nova.
Os dois protestam e fazem birra, quando os coloco dentro no banco traseiro do carro e os prendo, firmemente, com os cintos de segurança. Não estou com paciência para isso, assim, apenas os ignoro, por fim, eles se cansam e se distraem com seus tablets
Ao chegar em casa, entrego direto as crianças para a babá, não quero mais me aborrecer mais ainda com essas mesquinharias, vou para o bar e encho um copo grande de vodca, coloco gelo e sento no belo sofá, na minha sala muito bem decorada, capa de revista, e tomo um longo gole, imaginando como deve ser a vadia que meu marido está comendo, atualmente, e onde ele a pegou. Será que ela trabalha no escritório? Preciso dar uma passada lá, qualquer dia desses. Tomo mais um grande gole da minha vodca.
Não posso me queixar, já não sou mais nenhuma mocinha romântica, na verdade, nunca fui, diferente dos meus amigos, aqueles tolos que ficavam sofrendo por amores não correspondidos, não me apaixonei no colégio.
Por onde eles andarão, especialmente, Joaquim? Sempre soube que ele gostava de mim, e eu até adorava o modo sonhador como ele me olhava, fazia bem para o meu ego. Viro o copo de uma vez, vejo os olhos e apoio a cabeça no encosto do sofá, pensando em Joaquim e no seu olhar quente e apaixonado.
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