Antes do nascer do sol.
1 Depois daquela festa
Dezembro do ano de 2008. A madrugada já ia longe e a festa de formatura do ensino médio do Colégio São Leôncio, tão planejada e ansiada por ao longo do ano, estava preste a terminar, como um dos momentos mais felizes das suas vidas. Os jovens estudantes tinham a certeza que, em breve, tudo se transformaria, só o que aquele pequeno grupo de amigos não sabia era que essas mudanças aconteceriam antes do sol raiar do dia.
Na beira da pista de dança, Joaquim estava parado, com as mãos nos bolsos das calças, a gravata frouxa, o paletó há muito foi esquecido sobre uma cadeira, as mangas da camisa social enroladas, com um certo ar de melancólica, observando Lídia, tão linda, naquele vestido vermelho, os cabelos castanhos arrumados em cachos, caindo sobre os ombros, enquanto dançava a última música lenta, bem juntinho, com primo de Mariana, um bonito rapaz que cursava o 2º ano da faculdade de engenharia.
João se aproximou do amigo, acompanhando seu olhar.
— Por que você não aproveita que a festa está acabando e que é pode ser sua última chance, vai lá e se chega nela? — João disse, erguendo o queixo na direção da garota. Joaquim encarou o amigo como se fosse louco.
— Não está vendo que ela está com outro cara! Lídia nunca foi a fim de mim mesmo, e não quero fazer papel de otário, logo hoje — respondeu com falsa resignação, pois por dentro seu coração ardia de ciúmes.
— Nunca se sabe o que pode acontecer — João dá de ombros.
— Se é assim, por que você não tenta com Teresa? E não vem me dizer que não é a fim dela.
— Teresa é diferente. Não é como Lídia.
— Diferente como? — Joaquim franziu a testa.
— Sei lá, só é diferente. — João dá de ombros.
Renato se achegou aos amigos e passou os braços sobre os ombros de cada um, com um copo quase vazio na mão, estava sem o paletó e a gravata, despenteado e suado de tanto dançar. Dos três, somente João permanecia com o exigido traje social completo.
— Qual é a boa? — o recém-chegado disse, em um tom animado.
Os dois olharam para Renato, pelos cantos dos olhos.
— Você bebeu demais, Renato — Joaquim falou de modo sério.
— Por favor, perdoe-me, padre Joaquim — Renato rebateu, com sarcasmo, e começou a rir da própria piada. — Hoje, eu quero me divertir, aproveitar até o último momento, pois, amanhã, tudo irá mudar nas nossas vidas, quando acordarmos, seremos adultos, então, por enquanto, serei completamente irresponsável.
João revirou os olhos e Joaquim riu, Renato era sempre assim, irreverente.
Mariana se sentou à mesa, cruzou as pernas e começou a massagear os doloridos dedos dos pés maltratados pelas tiras das sandálias altas, dando um gemido de prazer. Teresa sentada à mesma mesa, observava a cena com ar de desaprovação.
— Não seja tão deselegante, Mariana — reclamou de modo duro
— E quem se importa agora com isso, Teresa? A festa já está acabando mesmo — Deu de ombros, revirando os olhos. — Olha só o Renato! Está totalmente bêbado! — Mariana riu, olhando para os três amigos parados, mais adiante.
— Será que ele está bem? — Teresa não disfarçou a preocupação, franzindo a testa.
— Por que você não vai até lá saber? — Mariana provocou, de modo ácido.
— Pare com isso, Mari! O que eu contei para você é segredo, não quero que ninguém saiba, muito menos, Renato — Teresa rebateu, aborrecida.
— Não seja boba e aproveite, pois, hoje pode ser sua última chance. Coragem, vá até lá e fale com Renato, quem sabe, o que pode acontecer!
— Você mesmo disse que ele está bêbado, por isso, prefiro que continuemos amigos. Além disso, tenho certeza que ele gosta de outra menina.
— Quem?
— Não sei, mas desconfio.
Mariana sabia exatamente o que amiga estava sentido, olhando de relance para Joaquim, que nunca percebeu, ou fingia não perceber, como ela gostava dele, há um tempão, apesar de todas as tentativas inúteis de lhe mostrar seu sentimento.
— Lídia está se divertindo bastante, não largou o meu primo a noite inteira — Mariana observou, um certo tom maldoso.
Então, as luzes se acenderam, a música parou com um uivo de lamento dos derradeiros casais, que aproveitavam as últimas músicas lentas. Assim a festa terminou.
— Não acredito que terminou! — Lídia gemeu se aproximando na mesa e se jogando em uma das cadeiras, enquanto o primo de Mariana se despedia e ia embora, rapidamente. Os garotos também se aproximaram. Lídia arrancou os sapatos, sem nenhuma cerimônia.
— Não quero ir para casa agora, não quero que a festa acabe! — Lídia declarou, decidida, esticando os dedos com as unhas pintadas de vermelho.
— Vamos para algum lugar — Joaquim emendou.
— Que tal vermos o sol nascer na praia? — Mariana deu a ideia.
Os outros concordaram em coro.
— Vamos nessa!
— Legal!
— Vamos!
— Podemos ir no meu carro — sugerir Joaquim.
— Somos seis, não vai dá para todos — Teresa ponderou.
— Se nos apertamos, dá numa boa — João deu a solução.
Resolvido, o grupo animado, brincando e rindo, foi em direção ao carro estacionado a alguns metros do local da festa. A rua estava silenciosa, a maioria das pessoas ainda dormiam, o ar estava leve e agradável, não fazia tanto calor, a lua era uma fina casca no céu.
— Vamos logo, porque daqui a pouco o sol já vai sair— Lídia os apressou.
— Você tem certeza que sabe dirigir, Joaquim? —Teresa indagou, um tanto receosa.
— Claro que eu sei, antes de tirar a carteira eu já dirigia, na fazenda do meu pai. — A garota o encarou um tanto desconfiada.
— Não seja boba, Teresa. Quase não tem trânsito a essa hora — Mariana a repreendeu, já entrando no carro, para garantir o seu lugar bem atrás de Joaquim.
Teresa entrou logo em seguida. Renato fez menção de seguir, mas os outros protestaram.
— Você é o maior de todos, Renato. Vai na frente — Mariana determinou, o rapaz deu de ombros, olhando para Joaquim, já que pretendia deixar Lídia ir ao lado do amigo.
— Lídia que é a menor pode ir no meu colo — Teresa sugeriu e a outra garota fez isso.
Por fim, João se sentou ao lado de Teresa, tão próximo que pode sentir o calor do corpo dela através dos tecidos, era o êxtase do sofrimento.
Joaquim e Renato tomaram o seu lugar na frente.
— Está apertado aqui! — Lídia reclamou, se ajeitando.
— Ai! Não se mexa tanto, assim você me machuca, Lídia — Teresa reclamou.
— Todo mundo pronto? — Joaquim perguntou, ajeitando o retrovisor para ter uma visão melhor de Lídia.
— Sim, vamos logo, porque o sol já vai nascer! — Mariana alertou e assim, depois de duas engasgadas, o carro de Joaquim ganhou as ruas quase vazias, sem trânsito.
Durante o trajeto, continuaram conversando, trocando ideias e piadinhas sobre a festa, falando mal dos ausentes, implicando uns com os outros.
Aquele foi uma noite muito especial, sabiam que marcaria o resto das suas vidas, momentos para serem recordadas para sempre. No rádio, uma música começa a tocar e, como sempre fazia, Lídia começa a cantar junto:
— Eu só quero você por perto. Onde você possa ficar para sempre — Ela tinha uma boa voz e era afinada.
— Que música mais deprê — Renato reclama, não queria ficar triste naquele começo de manhã, a falsa alegria da bebida já estava se esgotando, do que aconteceu há pouco, naquela festa, lhe enchia de esperança, então fez menção de trocar de estação.
— Não deixa aí! Eu gosto dessa música! — Lídia protesta e continua: — Quando a chuva está caindo. E meu coração está sofrendo. Você sempre vai estar por aqui
— Droga! O sol já está nascendo, não vai dar tempo — Mariana observa, desanimada, quando surge a tênue claridade no horizonte.
Joaquim sabe que precisam se apressar, pois não chegaram a tempo ao seu destino, percebeu que sinal acabou de abrir para ele, assim acelerou para passar no cruzamento.
— Eu não me preocupo porque tudo vai dar certo — Lídia acompanha a música do rádio, de olhos fechados.
Joaquim fita o reflexo dela no espelho. Lídia de olhos fechados, uma ruguinha na testa, interpretando o sofrimento da melodia. Todos se reconhecem naquela canção. E nenhum deles percebeu o outro carro, que avançou o sinal, se aproximar, em alta velocidade, e atingi-los bem na lateral. Estrondo de metais amassados, o carro rodopia velozmente, gritos, dor, escuridão.
Gemidos, vozes e sirene. O caos.
— Ei! Como vocês estão? — Uma voz distante vem de algum lugar.
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