Dezembro de 2017

O telefone toca insistentemente quebrando o silêncio do apartamento, está muito quente aqui, mas não ligo, parado diante da janela do meu quarto, vejo a noite se aproximar, a escuridão que recobre o mundo se misturar com o negrume da minha alma e os meus fantasmas atormentados surgem das sombras, vem mais uma vez para me fazer companhia, durante aquelas longas horas vazias, onde ainda ouço os sons das jovens risadas, a música que brotava dos lindos lábios de Lídia, que eu admirava pelo espelho retrovisor do meu carro, antes de...

— Eu não me preocupo porque tudo vai dar certo.

Nada deu certo.

Não quero dormir, não posso dormir, não sei se suportarei descer ao inferno da minha inconsciência, de novo, voltar ao mundo dos pesadelos que me atormentam anos após e escutar os sons do metal torcidos, os gritos de pavor e choros, o silêncio.

É tanta amargura, tamanha agonia que parece se rebelar no meu peito, crescendo e crescendo, tentando escapar.

Não sei mais o que fazer, por tanto tempo, tentei esquecer, fingindo que vivia uma vida normal, a casca lisa e perfeita que escondia a polpa escura e apodrecida, enganando a todos, até a mim mesmo, pois quase cheguei a acreditar na minha própria mentira, que poderia ser feliz apesar de tudo. Dissimulada placidez. No entanto, não se pode viver mentindo, ainda mais para si próprio.

Dia após dia, eu me convenço que está na hora de acabar com todo esse sofrimento, com toda essa dor, enfrentar meus fantasmas cara a cara, seria tão fácil e, ao mesmo tempo, tão difícil.

E por ser um covarde, não posso mais suportar essa aflição e desgosto que assolam a minha alma e quase me impedem de respirar.

Não consigo mais carregar a lembrança daqueles sorrisos abertos, as risadas felizes, as promessas não cumpridas, o futuro de um novo dia que nunca veio, o Sol que jamais nasceu. A música que ecoa sem parar, na minha cabeça, o som daquela voz doce da menina amada:

— Eu só quero você por perto. Onde você possa ficar para sempre.

A noite já se fez, só enxergo a escuridão, meu irmão avisou que chegará mais tarde hoje, sei que é ele ao telefone que parou de tocar, queria saber se está tudo bem. Então, não tem ninguém em minha casa, somente o silêncio e o meus fantasmas.

Sei o que preciso fazer, deve ser simples, não posso ter medo, nesse momento.

Escrevo um bilhete curto: Não suporto mais essa dor.

Isso já basta.

Vou até o meu armário, decido qual será a minha melhor escolha, o cinto de couro marrom forte, não muito grosso nem muito fino. Afasto minhas roupas, prendo uma das pontas no suporte de cabides, testo se está bem preso, passo a outra ponta em volta do pescoço, aperto bem, demoro na minha tarefa, pois minhas mãos tremem, mas finalmente consigo.

Finalmente. Final mente. Final. Fim. Por fim, paz. Esquecimento.

Coragem! Falta pouco, logo tudo estará terminado, toda dor e aflição passarão e ficarei livre. Não haverá mais o que temer.

Fecho os olhos, respiro fundo, não posso retroceder, assim deixo que o peso do meu corpo faça o serviço, sinto a compreensão queimando a minha pele, a tira de couro apertando a minha garganta, esmagando minha traqueia, o ar falta, minha mente fica nublada, entro em um túnel escuro e estou de volta aquela noite, naquele carro, depois da nossa festa de formatura, há quase dez anos. Tenho dezoito anos, outra vez.

— Eu só quero você por perto. Onde você possa ficar para sempre. — Ouço a voz doce de Lídia a cantar. Olho no espelho e deparo com o seu lindo rosto. O rosto que eu amava. Meu amor não correspondido. Ao meu lado, Renato reclama da música.

— Que música mais deprê.

Então, o impacto, o estrondo inesperado, sacudo de um lado para o outro, enquanto o carro gira e gira, estou caindo na escuridão. Será isso morrer?

— Joaquim! Joaquim! — Alguém chama pelo meu nome, não consigo respondeu, mergulho no torpor.

O mundo se movimenta a minha volta, enquanto flutuo, percebo seu corpo ser levado em um doce balanço, a semelhante a um barco, vozes, sons e luzes.

— Joaquim, Joaquim, está me ouvindo?

Como um afogado, tento emergir em busca de ar, da luz, meus olhos pesados se abrem e logo se fecham, afundo outra vez no vazio.

— Senhor, qual é o seu nome? — Reconheço a voz distante, um som do meu passado, um dos meus fantasmas.