Antes Que Tudo Desapareça
7 Capitão Barbosa
Notas iniciais
Os dias eram cada vez mais intermináveis. Arrastava-se pelas horas, perdia-se nos minutos e enlouquecia nos segundos. Talvez essas unidades de tempo antigas nem tivessem mais validade, mas eram perfeitas para expressar o que ele sentia. O corpo também sentira o impacto do rompimento do tempo: a barba e os cabelos cresciam em ritmos às vezes diferentes, outras vezes iguais, chegaram até a parar de crescer por um período e voltaram de repente; tinha a impressão de que estava apenas jogado em um canto esquecido de um bar. Não sabia se envelhecia ou se ficava mais jovem, mas isso não importava. Tudo que tinha com o que se preocupar era em acertar aquele alvo...
“BAM!”
Viu a garrafa ser transformada em pequenos cacos de vidro que voaram, realizando inúmeros loopings antes de caírem no gramado. Dos dez que atiraram junto com ele, apenas mais dois acertaram o alvo. Alexandre corrigia a posição de um novato enquanto Danton colocava mais um projétil no tambor da arma. Sua habilidade com armas de fogo havia crescido consideravelmente desde que o treinamento começara. Treinavam todos os dias, independente do tempo que fizesse, e isso agradava Danton de alguma forma. Era torturado todos os dias por essa indiferença do tempo, então nada como ter momentos íntimos com seu corpo segundos antes do tiro ser disparado. Podia ouvir as batidas do coração, sentir o ar entrando e saindo lentamente e a visão focada em um único ponto a uma distância considerável daquele purgatório que havia se tornado sua própria existência...
“BAM!”
A cena se repetiu exatamente como a primeira. Agora apenas ele havia acertado o alvo, e Alexandre parou para cumprimentá-lo:
- Está inspirado hoje. É por conta da sua promoção à equipe de campo? – O professor perguntou já esperando certa resposta.
- Me inspiro por motivos que eu nem sei quais são. Talvez a promoção ajude nessa inspiração, talvez não. Quero acrescentar logo algo ao mundo.
- Chegou a sua hora. Daqui a pouco será efetivado e talvez já haja alguma tarefa pra você no mundo real.
Ainda não consideravam o campo de treinamento o mundo real. Danton “sobrevivera” por um dia apenas no mundo que foi denominado real e já teve uma prévia do que era. Agora treinado, teria mais chances de explorar o que não tinha visto e, principalmente, de confirmar a história sobre as facções que lhe foi ensinada. A verdade é que não confiava plenamente em nenhuma história. Não que elas fossem totalmente falsas, mas todos mudam um fato ou outro para causar certo impacto desejado. Talvez a história que Alexandre contou fosse verdade em grande parte, mas não fosse totalmente verdade. Omitir certos fatos não era uma coisa nova, e Danton sabia que isso era possível, por isso não acreditava fielmente em tudo.
Preparou mais uma vez o tambor enquanto outra garrafa era colocada em um pequeno pedestal de pedra. Sentiu a brisa na face, as mãos ligeiramente trêmulas e começou a pensar em como teria sido seu passado. Não conseguiu se imaginar mais jovem e estremeceu quando percebeu o número de lembranças se esfarelaram em questão de segundos...
“BAM!”
Mais um tiro seco, melancólico e certeiro. A fumaça já saia do cano da arma, mas Danton não saiu da posição de tiro. Ficou ali, prostrado ao ponto de não conseguir se mexer. Sempre que pensava no passado sentia essa sensação, e sabia que ela passaria logo. Ficou mais alguns segundos daquela maneira e voltou a ter a energia necessária para voltar ao normal. Guardou a arma no coldre fortemente amarrado ao cinto da calça de brim, tirou alguns cabelos da testa e foi andando, de cabeça baixa, até seu aposento dentro do prédio da facção.
2
Já havia lhe sido dado todos os acessórios necessários para que fosse integrado à equipe de campo: vestimenta, óculos, arma, munição, espada, tranquilizantes e um pacote de “primeiros socorros”. Um guarda o chamara, e agora estava pronto para deixar o aposento e ir atrás de mais respostas. O sobretudo preto quase arrastando no chão levantava uma quantidade incrível de poeira nos corredores estreitos que guiavam à sala de Luciano, mas Danton não se deu conta disso. Estava mais focado do que nunca no que iria acontecer nos próximos minutos. Acontecimentos que mudariam mais uma vez a sua vida, mas já se acostumava com a entonação efêmera que sua vida adquirira. Há pouco tempo saia de um abrigo desconhecido, era pego por “criminosos” que lhe explicariam como o mundo estava e seria treinado por eles. Talvez não tivesse como ficar mais efêmera, pensou, mas evitava pensar no futuro assim como fugia de pensar no passado anterior ao Retorno. Abriu as portas de madeira, e se encontrava novamente na sala de Luciano, onde só esteve uma vez.
O líder da facção e outro homem conversavam descontraidamente, com copos de uísque cheios até um pouco menos da metade e repletos de gelo nas mãos, enquanto olhavam um mapa na parede da sala. Não perceberam sua presença até que Danton fizesse um som com a boca.
- Danton! Que bom te ver novamente! Acho que deve esquecer o nosso primeiro encontro um pouco conturbado. Se bem me lembro dele foi conturbado, não foi? – Disse Luciano, cumprimentando Danton simpaticamente.
- Foi um pouco. Mas já passou. – Replicou Danton sem perder a expressão séria que carregava consigo desde que saíra do seu aposento.
- Deixe-me lhe apresentar o meu amigo. Danton, esse é o Capitão Barbosa, chefe do seu esquadrão.
- Um prazer. Ouvi coisas muito boas a seu respeito. Espero que ao menos a metade seja verdade. – Barbosa disse enquanto se cumprimentavam.
- O prazer é meu. – Danton respondeu. – Mas não acredite em tudo que ouve por ai, não sabemos se é verdade ou se é apenas um julgamento precipitado.
Luciano olhou para Danton, que devolveu o olhar agudo. Trocaram muitas palavras em poucos segundos, palavras que apenas os mais atentos quadros na parede conseguiram identificar e entender, mas Barbosa havia identificado algo, mesmo que apenas de forma sutil. Alisou a barba que se estendia um até um pouco abaixo do queixo, tomou um pouco do uísque (ficou bravo consigo mesmo por ter deixado todo o gelo derreter e tornar a bebida quase um remédio para gripe), e decidiu quebrar o gelo da situação.
- Mas me conte Danton, como acha que estamos lá fora?
- Acredito que estejam equilibrados com as forças da Imodion e Guardiões da Terra. Pelo menos essa foi a última informação da qual tenho notícia. As coisas podem ter mudado, mas eu ainda acredito que estejamos equilibrados.
- Você anda muito bem informado. – Disse Barbosa – Mas perdemos um lote de terra importantíssimo ontem. Conversava a respeito disso com Luciano quando você chegou. Estamos precisando de soldados. E mais ainda de coragem.
- Eu tenho uma missão própria a cumprir, Capitão Barbosa. – Danton encarou-o. – E nada vai me fazer desistir desse objetivo.
- Gostei desse garoto, Luciano! – Barbosa exclamou, tomando o resto o uísque no copo com uma careta no rosto. – Precisamos de mais como ele!
- Sem dúvidas, um grande achado. Com certeza nos ajudará a lutar contra os opressores. — Luciano murmurou sem muito entusiasmo.
- Então vamos logo, Danton. Quanto mais homens lutando e ao mesmo tempo cuidando uns dos outros, menos morrem. – Barbosa disse enquanto se dirigia para a porta e sinalizava para que Danton o seguisse.
Danton já se dirigia em direção ao Capitão quando Luciano pousou a mão sobre um de seus ombros. O rapaz parou.
- Não confie nele. – Luciano cochichou no ouvido de Danton, que ainda estava virado no sentido do Capitão, mas estático. – Nenhuma má primeira impressão pode ser pior do que o que ele vai fazer caso o pegue desprevenido.
O magnata colocou uma Magnum no bolso do sobretudo de Danton, que sentiu o cano encostar na pele como um dedo frio e triste. Não eram necessárias mais palavras, e o rapaz continuou o seu rumo atrás do seu mais novo líder.
3
Seguiram por inúmeros corredores até chegarem a uma porta já conhecida por Danton, mas o que ela guardava era um mistério. Depois de digitar uma sequência de números (1-6-7-7, Danton jurou para si mesmo jamais esquecê-la) a porta se abriu e o rapaz sentiu mais uma vez o calor do mundo real. Um velho carro estava estacionado em frente à saída, e Barbosa indicou para que entrasse na parte de trás (semelhante a uma caçamba) enquanto ele se dirigia ao banco do motorista. Junto a ele, quatro homens estavam sentados e não trocaram uma palavra enquanto a viagem durou. Mais uma vez, eram apenas ele e seus pensamentos, que corriam de um lado a outro como quem sabe aonde quer chegar, mas não sabe como chegar.
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