Antes Que Tudo Desapareça
8 A ponte
Já eram conduzidos há horas, e o chacoalhar febril e monótono do automóvel tornava a viagem ainda mais penosa aos passageiros. Ainda era possível ver pequenas faixas claras no céu, mas a noite anunciava sua chegada de forma majestosa e imponente e logo um tapete de estrelas se estenderia sobre suas cabeças enquanto iam de encontro a um destino incerto. Enquanto olhava para o vazio da paisagem, Danton foi alertado por um dos companheiros:
– Não esqueça dos óculos. Vai começar.
Abriu a mochila na qual estavam todos os acessórios e colocou o par de óculos. Não demorou muito para que visse pela segunda vez aquele estranho fenômeno da luz. Sabia que não trazia consequências aparentes aos sobreviventes, mas era impossível prever se algo ocorreia nas entrelinhas, e isso é o que mais o intrigava. Após os aproximados dois minutos, retirou os óculos e guardou-os, agradecendo no seu consciente mais íntimo por estar acompanhado de pessoas que o lembraram de colocá-los apesar de não saber realmente quem eram essas pessoas. Decidiu, por fim, descobrir.
– Estamos há muito tempo sem dizer nada. Acredito que seremos um esquadrão melhor se conhecermos uns aos outros. – Danton disse olhando timidamente para os companheiros, que não esboçaram nenhuma reação.
– Acho que na pressa de irmos logo ao destino, o Capitão esqueceu de lhe dar algumas instruções. – Disse um deles, enquanto enrolava cuidadosamente um cigarro. – Somos aconselhados a não conhecermos a real identidade um do outro por motivos de segurança. Assim, se alguém for capturado pela facção inimiga, o resto do grupo não é comprometido. Nenhum de nós conhece nada sobre o passado do outro, apenas o que acontecer daqui pra frente.
– Esperam que lutemos como uma equipe sendo que nem sabemos o nome dos nossos companheiros? – Danton indagou, olhando fixamente para as piruetas rápidas que o cigarro realizava por entre os dedos habilidosos do rapaz.
– Por isso nos deram pseudônimos. Eu sou André. – Disse o rapaz e, logo após terminar de enrolar o cigarro, ergueu a cabeça apontando para cada um dos homens. — E esses são Rodrigo, Leonardo e César. Como você não tem nenhum, acredito que caiba a nós lhe darmos um. A partir de agora você será chamado de Raul.
Danton pôde pela primeira vez olhar nos olhos de André. Olhos verdes, profundos e indiferentes com o que viam, parecia que já tinham visto muita coisa para se surpreenderem com algo nesse mundo de caos. O cabelo liso e loiro escorria pelas têmporas, mas não se importava com isso. Aparentava ter 24 anos apesar de o vício no fumo já ter envelhecido seu rosto em alguns anos(Danton estimou que poderia estar 3 anos mais jovem se não fumasse), com a barba e as pequenas cicatrizes no rosto contando também alguns anos a mais na idade do rapaz.
– Acho que para um guerrilheiro atrapalhado que “caiu de paraquedas” como eu é um excelente pseudônimo! – Constatou Danton.
Os homens deram pequenos risinhos, flagrados apenas pela rápida movimentação dos cantos das bocas. O mundo estava mergulhado em tons de cinza é verdade, mas Danton percebeu a partir desse momento que nem tudo estava perdido, apesar de parecer, e muito, estar perdido. As pessoas ainda sorriam timidamente e isso era o suficiente para que a esperança de que o mundo pudesse ser um dia como fora no passado ou quem sabe até melhor se mantivesse acesa.
– Esse é o máximo de humor que conseguirá ver por aqui. – André replicou. – Como pode perceber, não temos muitos motivos para sorrir. Até onde sei, estamos indo desapropriar um vilarejo que abriga alguns moradores da facção inimiga, não sei dizer se são moradores pacíficos ou se têm experiência com armas, mas é bom estarmos em alerta o tempo todo e preparados para reagir em qualquer situação. Alguém tem mais alguma informação?
– Quando foram me recrutar, disseram-me apenas que teríamos nossa primeira experiência de forma mais tranquila. – César adicionou, timidamente.
– Então estamos indo armados lutar contra pessoas inocentes? – Leonardo indagou, colocando a mão no cabo da arma e desejou por um instante que ela não estivesse lá.
– Não sei o que vocês esperavam quando entraram no campo de treinamento. O mundo mudou, nada é mais como era antes. Chego a duvidar se ainda existem pessoas realmente inocentes nesse cenário de hoje. Faremos o que tivermos que fazer sem causar maiores problemas, caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos as “pessoas inocentes”. – André respondeu firme, e Danton imaginou que fosse a pessoa que exercesse a maior autoridade no grupo.
– Mesmo que o mundo tenha mudado, não podemos simplesmente sair matando todos os que sobreviveram acreditando que eles sejam culpados pelo que aconteceu. Provavelmente teremos uma hierarquia a seguir, mas não quer dizer que tenhamos que concordar cegamente com todas as ordens que nos são dadas. – Rodrigo finalizou.
A opinião de Rodrigo era a mais próxima da posição defendida por Danton antes de ter recebido seu treinamento na sede da facção. Porém, depois de ser treinado e de ouvir inúmeros discursos dos líderes da organização, acabou por se convencer de que não havia motivos e nem vantagens para que pessoas de fora da facção fossem poupadas. Sua consciência mais profunda lhe dizia que havia algo muito estranho naquele discurso, talvez uma sonoridade radical demais, e que devia duvidar dele assim como fazia com tudo que ouvia, mas diante dos fatos que foram apresentados a ele, era impossível ter força para qualquer dúvida. Duvidava apenas de alguns fatos que Alexandre contou e que certas informações pudessem ter sido omitidas, mas não era nada forte o sufuciente para que questionasse o resto do sistema, seu funcionamento e suas bases.
– Não podemos simplesmente descer do carro e agirmos por nós mesmos então? – Leonardo disse, com um raio de esperança de que não precisaria fazer o que não queria.
– Você acredita que é fácil assim? As facções possuem sistemas de vigilância e patrulha por todo o terrítório. Cedo ou tarde nos encontrariam e não teriam compaixão, pode ter certeza. – André replicou, jogando as cinzas do cigarro para fora do carro e tirando os cabelos grudados na testa por conta do suor. – Nossa missão está definida e iremos executá-la.
– Estou com o André. – Raul adicionou, e percebeu que recebeu o olhar aprovador do companheiro. – Na nossa situação não temos muita opção de escolha, ou obedecemos ou somos massacrados. Acredito que não querem a segunda opção e muito menos que a Guardiões da Terra junto com a Imodion tenham forças o suficiente para nos ameaçar. Alguém tem mais alguma informa...
O carro parou de supetão, e todos foram jogados para frente, batendo as cabeças na lataria que revestia a parte dianteira do carro. Após recuperarem os sentidos e perceberem o que tinha acontecido, todos desceram da caçamba e encontraram Barbosa e um outro homem(que supuseram ser mais um soldado, mas de um escalão superior) olhando fixamente para um penhasco. Uma fenda intransponível separava o lote de terra onde estavam e o outro lado.
– Más notícias rapazes. – Iniciou Barbosa. – A ponte que nos daria acesso ao outro lado foi muito danificada por uma ventania há dias atrás e desabou. Não temos como passar por aqui. O único jeito é dar a volta e contornar a fenda, o que vai atrasar nossa viagem em aproximadamente três dias.
– Três dias a mais de chacoalhar? Vai ser insuportável. – Leonardo deixou escapar e recebeu os olhares ácidos dos companheiros. Sabia que um dos seus maiores defeitos era não conseguir segurar as palavras, e um companheiro do campo de treinamento já havia profetizado que morreria por isso, mas realmente era uma tarefa árdua segurar as palavras que desciam pela língua e simplesmente saíam voando, como uma borboleta que acaba de terminar seu processo árduo de metamorfose.
A notícia surpreendeu a todos, mas como a noite já estava totalmente instaurada no céu não tiveram tempo de pensar em uma outra alternativa possível. Teriam que passar aquela noite ali no automóvel e, nos dias seguintes, se esforçariam para encontrar alternativas tanto para o problema da ponte quanto para o local para dormir. O dia havia sido cansativo, e os guerrilheiros mesmo em pé sentiam o corpo realizar um movimento involutário semelhante ao chacoalhar repetitivo do carro. Sob o céu recheado de estrelas, não sonharam, mas tiveram um momento de paz.
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