Antes Que Tudo Desapareça
9 O Centro Comercial
1
Danton abriu os olhos, mas permaneceu deitado e sem fazer sequer um movimento que denunciasse seu despertar. A aurora já despontava no horizonte apesar de a escuridão ainda predominar no céu que se estendia majestoso e imponente acima de sua cabeça. Pôde ouvir uma conversa discreta entre o Capitão Barbosa e o soldado que ficara ao seu lado durante o primeiro dia de viagem. Lembrou-se então do que Luciano lhe dissera antes de deixar o campo de treinamento e decidiu que talvez aquela conversa pudesse render bons frutos ou quem sabe até salvar sua vida. Sem executar nenhum movimento, pôs-se a ouvir atentamente os fracos ruídos que chegavam até ele:
- Temos que agilizar essa viagem. O ataque ao vilarejo estava planejado para o exato momento em que a população estaria despreparada e não ofereceria qualquer resistência. Agora, é possível até que já nos tenham preparado uma emboscada no meio do caminho. — Disse Barbosa, olhando o grande vazio da fenda que se prolongava diante de seus pés. — Como vamos cumprir nosso objetivo se eles estiverem preparados?
- Só precisamos da garota chefe. Enquanto eles lutam com os nativos, rapidamente pegamos a menina. Pelas informações que temos, essa garota tem poderes especiais, só não sabemos quais. Quem sabe poderemos criar uma nova facção mais poderosa que todas as outras e dominar o país inteiro.
- Talvez. Mas antes precisamos descobrir como vamos fazer para chegar ao vilarejo o mais rápido possível. Três dias é um prazo muito longo, e a chance de falharmos mesmo que só tenhamos que pegar a garota são demasiadamente grandes.
- Não temos outra alternativa a não ser contornar a fenda. No meio do caminho, teremos que parar em um pequeno centro comercial para abastecer o automóvel, afinal, não viemos preparados pra esse imprevisto. Assim que estivermos prontos, partimos em direção ao vilarejo e, o que podemos fazer para diminuir o tempo de viagem, é dirigir durante a noite, sem pausas. Isso encurtaria o tempo de viagem em um dia. Chegaríamos amanhã.
- Ótima idéia! De lá, pegamos a garota e partimos. Os soldados são novos, não vão saber como nos seguir e estaremos livres pra explorar completamente o potencial da menina. Vou acordá-los, vá para o carro e espere lá. Partiremos em breve.
O homem fez um sinal em frente ao Capitão, deu-lhe as costas abarrotada de equipamentos dos mais variados tipos e funções e seguiu até o carro. Barbosa ficou ainda breves instantes observando o abismo. Imaginava qual seria o potencial da garota que procuravam e o que poderiam fazer com seu poder. Antes de entrar para o esquadrão, importava-se com as pessoas, mas em alguma parte do processo isso mudou. Se tornou um sujeito frio, triste e fanático pelo poder. Para alcançar seus objetivos, não pouparia nem mesmo uma criança. "E muito menos esses soldados que sou obrigado a aturar" pensou enquanto seguia até o local aonde os soldados estavam desconfortavelmente deitados em colchões portáteis tão finos que quase não se notava a diferença entre se deitar nele ou no chão de areia.
- Acordem soldados! Temos que partir se quisermos chegar ao vilarejo amanhã! Levantem! Estamos esperando no carro, e não me façam voltar aqui para chamá-los! — Exclamou Barbosa, que se certificando, com rápidos olhares, se todos haviam acordado, foi se juntar ao seu assistente, que já estava esperando com o automóvel ligado.
Danton decidiu manter o sigilo perante o que tinha ouvido. Não sabia se algum companbeiro estaria envolvido e, se ele contasse o que sabia para a pessoa errada, com certeza sua vida terminaria ali. Pelo que pôde deduzir, Barbosa não poupa quem atravessa seu caminho, então com certeza não teria dificuldades em matar um medíocre soldado que sabe demais. Como os outros, levantou-se, dobrou o colchão no qual dividira uma noite sem sonhos e caminhou até o veículo que já os esperava. O capitão ainda não havia ocupado seu lugar na parte da frente do carro e, assim que se aproximaram, informou os recrutas que fariam uma pausa em um centro comercial no meio do caminho e que depois seguiriam ininterruptamente até o destino final. Nenhum dos soldados pareceu esboçar alguma reação diante da infornação e a coisa mais interessante que aconteceu enquanto Barbosa explicwva o roteiro foi a dança hipnotizante de um cigarro por entre os nós dos dedos de André. O comandante, quando se viu farto de passar instruções, sentou-se no banco reservado por ele mesmo como um presente para si(de todos os lugares do automóvel, aquele era o que menos balançava) e reiniciaram a corrida rumo ao vilarejo em que residia a menina tão misteriosa a qual Barbosa estava planejando aprisionar e usar como arma para matar sua sede de poder naquele novo mundo.
2
Os abutres já sobrevoavam o veículo, talvez na esperança de que seus tripulantes estivessem a beira da morte, o que era um profundo engano. Vistos de cima, os soldados tinham o aspecto frio, triste, talvez até alguns traços de morte, mas seus corações ainda batiam e não pretendiam parar tão cedo. Só se via o rastro irregular deixado pelos pneus do automóvel na areia e a poeira que subia ao passo que o rastro se estendia. O chacoalhar era incessante, e o barulho que o acompanhava era tão monótono quanto o balanço, o que trazia um sentimento de loucura adicional à viagem. Não havia uma nuvem no céu, e os homens já previam que não fosse chover e que as eventuais irritações nos olhos não passariam tão cedo. As vezes chegavam até a jogar um pouco da água dos cantis nos olhos para aliviar o incômodo, mas era uma solução paliativa, e logo voltavam a incomodar. Na ausência de novidades, qualquer detalhe ganhara importância relevante no cenário. Durante toda a manhã fizeram disputas pra decidir quem encontrava as novidades na paisagem primeiro, tendo como vencedor Rodrigo, que era muito mais rápido que Leonardo e por isso teve que aguentar as queixas de que foi injusta sua vitória desde que a brincadeira terminou. André decidiu intervir:
- Leonardo, sua boca ainda vai te matar. Se eu tivesse dormido melhor na noite passada e não te conhecesse, tenha certeza que não teria hesitado em esvaziar o meu tambor há pelo menos 2 horas atrás.
O garoto se intimidou e calou-se. Rodrigo lançou um olhar de agradecimento a André, que retribuiu com expressões como se estivesse dizendo: " Você devia ter dito isso há muito tempo!". Com um breve sorriso de ambos, o assunto morreu ali.
Danton não se importava com nada do que ocorria ao seu redor. Tinha em mente apenas a conversa que ouvira mais cedo, e estava realmente preocupado com o que descobrira. As vezes lhe passava pela cabeça que era tudo uma parte do treinamento, que aquele diálogo havia sido forjado de propósito para que os soldados que não estivessem preparados acabassem sendo punidos pela ingenuidade de acreditar que o próprio líder do esquadrão os trairia. Mas aquela explicação não convencia. Luciano não teria lhe dado a Magnum( nesse momento procurou o bolso para se certificar de que ela lá estava, e para seu alívio sentiu o frio da arma na mão ao tocá-la) se não achasse que ele poderia realmente precisar dela. Algo lhe dizia que deveria ficar alerta a qualquer movimento brusco dos dois condutores do veículo, principalmente quando chegassem ao destino que tanto procuravam.
- Anda pensando tanto em que? Nem garotas temos pra pensar tanto assim...- disse César, libertando Danton dos próprios fantasmas.
- Nada muito interessante. Não há nada além de areia e destroços de alvenaria pelo caminho. Até chegarmos ao centro comercial, nada de relevante pode passar pela minha mente.
- Falando nele, ai está. — Afirmou André enquanto apontava para um pequeno e desfocado ponto escuro beirando o horizonte. — E é bem maior do que eu supunha.
Não demorou muito para que se aproximassem o suficiente para ver os detalhes do local. O centro comercial era composto por várias tendas, uma ao lado da outra, onde os comerciantes vendiam seus produtos. Entre duas fileiras de tendas, fora formada uma espécie de "rua" onde os consumidores andavam e procuravam os pelos produtos. Um torre se erguia e, em sua extremidade superior, abrigava uma enorme ampulheta. O espaço era realmente muito grande, e Danton perguntou a si mesmo por que não o chamaram de "cidade comercial". Estacionaram o carro em frente a uma das entradas da"cidade" e, antes que pudessem entrar, Barbosa se adiantou:
- Vocês entrarão, mas seremos breves. Viemos apenas para abastecer o automóvel. Estão vendo aquela ampulheta gigante? — Disse o Capitão, apontando para ter certeza de que todos a veriam. — Quando a areia parar de cair e ela estiver sendo virada para recomeçar a contagem, estaremos partindo, então aconselho a estarem aqui. Se eu tiver que buscar alguém, vai ser muito pior. Levem esses adesivos sinalizando que são soldados da facção, acreditem, vão me agradecer por isso.
Todos colaram o adesivo na região do peitoral e mergulharam naquele mar de gente. Cada um foi para uma "rua", o que os obrigava a agir por conta própria. Apesar da liberdade provisória, não tinham dinheiro para comprar qualquer coisa, e talvez Barbosa só tivesse autorizado que andassem pelo centro comercial por conta disso. Vários produtos chamavam a atenção de Danton, mas o que mais o impressionou foi a lanterna com o foco de luz regulável. O vendedor destacava os pontos fortes do produto, mas o rapaz deixou claro que estava ali apenas para olhar e, enquanto explicava ao vendedor inconformado o por quê uma pessoa vai a um centro comercial sem dinheiro, Danton ouviu gritos e olhou para os lados a fim de entender o que estava acontecendo. Uma mulher estava sendo perseguida e acusada de ser ladra por três homens que corriam atrás dela. Com a ajuda de outros dois comerciantes, a mulher foi finalmente rendida, mas lutava com todas as suas forças contra a imobilização.
- Vocês não acham isso uma covardia? 5 homens contra uma mulher? — Indagou Danton aos homens que o olharam assustados ao perceberem que alguém os interrompera.
- Ela é uma ladra! — Um dos homens gritou. — Queremos levá-la ao posto policial para que a prendam!
- Tudo bem. Deixem isso comigo, eu a levo ao posto policial. — Afirmou Danton, que recebeu os olhares surpresos da mulher rendida. — Vocês não vão duvidar da minha palavra, vão?
Ao perceberem o adesivo da facção, os homens se entreolharam e permitiram que a mulher se levantasse. Danton se aproximou e acompanhou a moça até a sua casa que ficava em um ponto isolado do centro comercial.
- Obrigada por me salvar,...? — Disse a mulher, ainda ofegante.
- Danton.Você realmente roubou?
- Sou Carolina, um prazer. Roubei um colar de pérolas. Não me julgue mal. Meu pai também é comerciante, mas os negócios dele não andam muito bem, então sou obrigada a cometer pequenos furtos para que possamos vender o que roubei e comprar comida.
- E o que ele vende?
- Ele vende coletes Kevlar. São coletes especiais capazes de...
-Filha, você está bem! E quem é esse homem? — Disse o pai da moça, abrindo a porta de repente e interrompendo a explicação.
- Pai, esse é Danton. Me salvou dos comerciantes.
- Você salvou minha filha? Muito obrigado rapaz! Venha, entre. Vamos conversar mais lá dentro...
Danton observou que a areia da ampulheta já havia caído quase toda, e não tinha tempo para rodeios. Explicou rapidamente que tinha que ir, mas o pai da moça insistia em dar-lhe um presente. Rapidamente, entrou, pegou um dos coletes Kevlar que havia fabricado e deu ao soldado.
- Preste atenção. Esse colete pode parar os tiros de inúmeras armas. Use por baixo do uniforme, assim ninguém saberá que está protegido.
Danton retirou o sobretudo que utilizava, revelando toda a calça de brim que usava e a camiseta branca de algodão que cobria toda a parte de cima do seu corpo. O pai de Carolina ajudou-o a vestir o colete e, assim que estava pronto e devidamente uniformizado, despediu-se dos dois e foi correndo ao encontro de seu meio de locomoção antes que Barbosa pudesse ter a oportunidade de testar o colete que acabara de ganhar.
3
Quando finalmente conseguiu alcançar o carro, todos os seus companheiros já estavam a sua espera. Sem maiores explicações, juntou-se a eles e o carro começou a se locomover. O rapaz respirou fundo e voltou a admirar a mesma paisagem que os acompanhava desde que saíram do campo de treinamento. Agora o caminho estava livre para o vilarejo, e era para lá que seguiriam pelas próximas horas sem nenhuma parada.
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