"Por favor, não me solte. Não me abandone agora. As coisas ficarão complicadas se me deixar. O remorso dominará a sua mente e nunca mais sairá. Dizem que o relógio, quando se está em situações como essa, é o

*Tic

pior inimigo. O som se tornará cada vez mais confuso

*Tac

até a agonia dominar tudo o que restou dos homens e seus conceitos atrasados.

*Tic

Seja livre. Não era isso que você queria? O tempo é uma prisão, e o homem ousou destruí-la sem pensar

*Tac

nas consequências. O mundo, agora, é uma ruína, mas você é livre dentro dele. Será que valeu a pena?

*Tic

*Tac

*Tic

*Tac"

Abriu os olhos, assustado. As batidas fortes e aceleradas do coração eram acompanhadas de uma dor de cabeça incontrolável. Nunca havia sentido aquilo antes, ao menos não na mesma intensidade. Ficou um pouco deitado no chão gelado e desconfortável da sala desconhecida onde se encontrava. Tentou, por um momento, se lembrar de como chegara ali e o motivo. A cabeça ardia, e ardia ainda mais forte quando tentava se lembrar do passado, coisa que não passava de um borrão na cabeça do rapaz.

Desistiu e levantou-se. Tudo rodou, obrigando-o a se apoiar em um criado mudo para não encontrar o chão novamente. Quando a sensação finalmente passou, olhou ao seu redor e sentiu certo pânico por não reconhecer absolutamente nada. Os móveis, os quadros, a iluminação fraca e a grande porta de aço da sala fechada eram totalmente desconhecidos. Perguntou-se por que a sala era tão quente, mas como ele mesmo esperava, não recebeu resposta de si mesmo.

Ouviu passos abafados unidos a vozes no corredor protegido pela espessa porta de aço. Não demorou muito para que a porta se abrisse revelando dois homens muito mais velhos do que ele, com vestes maltrapilhas e pés descalços. Os homens entraram e pararam em frente ao jovem por um longo período de tempo reinado pelo silêncio, olhando fixamente para ele e tentando entender o motivo pelo qual ele estaria apoiado do criado mudo. O rapaz pensou que pudesse ter sido raptado e estar sendo mantido como refém enquanto o resgate era negociado com sua família. Apesar de ele não se lembrar de nenhum de seus entes queridos, aquela era a única explicação lógica que conseguiu encontrar para o que estava acontecendo com ele e, enquanto já formulava planos para fugir, seus pensamentos foram interrompidos pela fala de um dos homens.

- Danton! Que bom que acordou! Estávamos preocupados com a possibilidade de isso nunca mais acontecer. Venha, eu te ajudo. — Disse oferecendo a mão para que Danton se apoiasse levantasse. — O que aconteceu? Guerreou com você mesmo?

- Não gostaria de ter tido o sonho que eu tive. Quem são vocês e o que querem comigo? — Indagou, já em pé e estabilizado.

- Imaginei que não se lembraria de nós. Eu me chamo Sandro, e ele se chama Pedro. Somos uns dos poucos sobreviventes do "Retorno", aquele plano ridículo de tentar arrumar uma outra besteira. Mas acredito que antes de ouvir a história toda, vai querer comer alguma coisa e se curar dessa dor de cabeça.

- Como sabe que eu estou com dor de cabeça se eu não disse nada?

- Todos nós acordamos com ela, pode acreditar. Sei o quanto ela incomoda, e temos a solução em um outro cômodo. Venha comer algo e se livrar dessa maldição. — Disse Pedro, passando um dos braços de Danton sobre seu pescoço, enquanto Sandro fazia o mesmo. Apesar de serem homens mais velhos, os dois conseguiram oferecer o apoio necessário ao rapaz, conduzindo-o por uma gama interminável de corredores estreitos e pouco iluminados até chegarem a um cômodo maior, ainda sem janelas, mas bem mais fresco do que o anterior.

O aposento contava com uma grande mesa no centro, com alguns pratos em cima e rodeada por bancos de madeira. Sentaram Danton em um dos bancos e trouxeram-lhe um prato com um conteúdo líquido que o rapaz não soube identificar exatamente o que era.

- O remédio já está dissolvido na sopa, pode tomar tranquilo. Logo se sentirá muito melhor. — Sandro afirmou e, juntamente com Pedro, sentou nos bancos ao lado de Danton.

- Estou pronto para ouvir a história. E espero que ela seja bastante esclarecedora, por que eu não estou entendendo absolutamente nada.

Os dois homens velhos não disseram nada, apenas apresentam ao rapaz um pedaço de papel fino e batido, que Danton pegou com muito cuidado. Curioso, voltou os olhos a ele e começou a ler, com muita atenção...