Notas iniciais
Espero que gostem do segundo capítulo. Qualquer coisa, críticas, elogios ou sugestões, é só dar um review, terei o prazer de responder a todos.

"Caro sobrevivente,

Se estiver lendo essa mensagem provavelmente já estaremos todos mortos e o mundo um verdadeiro caos. Tenho pena de você, sobrevivente! A humanidade prova dos frutos da sua própria ganância em querer sempre mais e abusar dos limites da tecnologia.

Sou um cientista de uma equipe especial criada com a ajuda de todos os governos das nações mais importantes. Disseram-nos, um dia, que teríamos que fazer uma coisa nunca antes tentada. Investimentos aos montes foram feitos em um projeto que nenhum dos cientistas aprovava, mas que teria que ser levado adiante pelo simples fato de "darmos um grande passo em direção ao futuro". Futuro? Todos nós víamos um perigo iminente naquele projeto, perigo esse que infelizmente assombra a sua realidade.

Para prosseguir, preciso antes explicar um pouco de ciência. Todos os organismos conhecidos pelo homem até o momento possuíam Carbono em sua composição orgânica. Todos. Nunca tínhamos visto algum ser, mesmo os micro-organismos mais primitivos, com ausência desse elemento. Quando estudos provaram a existência de organismos sem Carbono em sua composição, os líderes mundiais logo exigiram que fossemos atrás e estudássemos esses organismos. A comunidade científica explodiu em protesto, mas quando se tem dinheiro e influência, é possível calar até mesmo as vozes mais sábias. Eis que esse micro-organismo se encontrava em outro planeta, e uma nave tripulada estava sendo organizada para recolher amostras do “milagre” e trazê-lo para que um estudo profundo fosse realizado.

Por que não gostávamos da ideia? Simples. Se todos os seres que habitam o nosso planeta possuem Carbono em sua composição e todo o nosso conhecimento científico acumulado por séculos é baseado nessa premissa, qualquer comportamento anômalo desse novo ser poderia ser mortal a todos nós. Não teríamos base e nem tempo suficiente para encontrar uma solução para qualquer imprevisto e isso causaria a extinção da raça humana. Parecia que víamos o futuro. O ser chegou ao nosso laboratório no dia 14 de março de 2017, e com toda a cautela possível, começamos o estudo.

Três dias após a sua chegada, ele começou a se comportar de uma maneira estranha. A mutação começou a acelerar e em poucas horas alguns cientistas, os mais próximos da amostra, já estavam contaminados. Apresentavam edemas nas extremidades corporais, dificuldade na respiração e paralisação parcial do corpo. O micro-organismo simplesmente passou pelos mecanismos de proteção e infiltrou-se em todos os cientistas da unidade de estudo em poucos dias. As autoridades globais tentaram sufocar o ocorrido, mas não obteve sucesso. Uma semana após sua chegada, 38% da população já estava contaminada e 12% da população original já havia morrido devido a complicações nos sintomas. Os animais começaram a morrer duas semanas após, complicando assim toda a “homeostase” terrestre. A partir desse ponto, os seres humanos me surpreenderam mais uma vez! Decidiram, então, executar um plano totalmente emergencial e sem garantia de sucesso. Foi batizado de “O Retorno”.

Anos antes, já havia sido provado que, para um corpo em velocidade semelhante à da luz, o tempo passava mais devagar. Em 2015, não sei dizer exatamente o dia, pois não participei da Convenção, foi descoberta uma unidade do átomo que se locomovia mais rapidamente do que a luz, aproximadamente o dobro da velocidade. Com uma velocidade de 600 mil metros por segundo, o ser humano poderia facilmente não só fazer o tempo passar mais devagar, como voltar e avançar dentro dele. A solução encontrada pelos chefes de Estado foi utilizar essa nova tecnologia para retornar no tempo e evitar que o micro-organismo fosse trazido ao nosso planeta. Em 2018, um ano após a chegada do ser, cerca de 80% da população original já havia morrido e 60% das plantas e animais já deixaram de existir. É nesse cenário caótico que “O Retorno” esta sendo posto em prática e eu escrevo essa carta a você.

Imagino as consequências desse plano: se der certo, o que é improvável devido a certas ordens e regras seguidas pelo tempo, tudo voltará a ser como antes e prosseguiremos a nossas vidas normais até que outro motivo para a ganância humana destrua o mundo novamente. Sinceramente, não quero que dê certo, pois a ganância será ainda mais indiscriminada, visto que vão passar a não temer mais nada, já que podem voltar no tempo e “concertar” tudo. Se der errado, o que provavelmente acontecerá, o mundo sofrerá o golpe de misericórdia e se tornará uma grande ruína. As pessoas não se lembrarão de nada, e a três noções do tempo – passado, presente e futuro – se destruírão, formando uma nova noção, a qual só você que está lendo pode sentir. Além disso, pessoas que morreram durante a pandemia podem voltar à vida e outras que estavam vivas podem simplesmente deixar de existir. Não sei se estarei vivo para ver o que o ser humano fez do mundo pela segunda vez, mas se eu não estiver, desejo-lhe sorte, se é que ela pode ajudar em algo.

Estou muito doente, é verdade. Não sei como resisti um ano a essa proliferação e aos sintomas. Já não sou a mesma pessoa, mas a escrita dessa carta me fez lembrar muitas coisas e talvez eu tenha recuperado um pouco da minha essência. Vi famílias sendo dizimadas por algo que nem mesmo sabíamos ao certo o que era. As coisas se tornaram confusas, e não sei mais o que são sentimentos. Não chove há três meses em nenhum lugar do mundo, consequência do equilíbrio danificado, mas estou indiferente. Não sei o que é sentir dor, frio, calor, amor, tristeza, qualquer sentimento, e isso pra mim é a pior das mortes. Espero que ao menos essa carta possa te ajudar em alguma coisa, seja ela qual for.

Até algum dia, ou não,

Danilo Campos”

Notas finais
Os capítulos da fic não serão muito longos, acostumem-se! Capítulos curtos são parte da minha estratégia para manter a curiosidade do leitor! Espero que tenham gostado.