Antes Que Tudo Desapareça
4 O pôr do sol
Notas iniciais
O sol ficara a pino, e o calor era insuportável. Não havia sinal algum de brisa, sombra, ou qualquer elemento que pudesse aliviar, mesmo que por poucos instantes, o suor que escorria em seu rosto. Já caminhava há três horas, talvez mais, talvez menos, não soube precisar. Lembrou-se que o homem da instalação havia comentado algo sobre um relógio que funcionava no "novo mundo", e se arrependeu de não tê-lo pedido, apesar de duvidar que esse favor fosse concedido, afinal, deduziu que os relógios que funcionassem corretamente em um mundo onde o tempo havia sido tão prejudicado eram raros. Olhava para frente e não via nada além de poeira e seca. Imaginou, com certo humor, se aqueles minúsculos grãos de poeira invadissem a sua mente e sufocassem seus pensamentos. O que seria dele? Não queria pensar em coisas negativas e lutava contra, mas esse tipo de pensamento é inevitável nas situações mais críticas, como se houvesse duas personalidades diferentes dentro de um só lugar digladiando, de maneira desleal, pela soberania dos pensamentos e destruindo tudo ao seu redor. O sol pareceu ficar ainda mais intenso por alguns segundos, o que ajudou Danton a retomar a lucidez e seguir seu caminho, que se encontrava à deriva da vontade do grande oceano denominado "destino".
Andava febrilmente, com um chacoalhar tão repetitivo que muitas vezes não se lembrava de comandar certos movimentos que o cérebro já se responsabilizara em automatizar e deixá-lo livre para se preocupar com o futuro. Tocou o coldre, passou levemente os dedos pelo cabo do revólver e sentiu um pouco de segurança. Não dispunha de muita munição, é verdade. Os homens lhe deram apenas o necessário para começar uma caminhada, afinal, eles mesmos não acreditavam que iria muito longe, mas provaria que estavam errados. Não sabia se já tinha atirado antes, e ficou em dúvida. Caso precisasse da arma, saberia carregar e atirar? Talvez fosse bom fazer um teste, mas logo pensou na bala desperdiçada e desistiu. Teria que descobrir quem realmente era na hora que fosse preciso. Concluiu que oportunidades não faltariam e, independente de falha ou sucesso, o mundo continuaria condenado com ou sem a sua presença na plateia, o que lhe tirava um pouco da imensa responsabilidade que assumira das costas.
Rasgando a paisagem monótona, Danton avistou o que achou ser uma pequena cabana cercada por algumas árvores secas que esperavam apenas um vento mais forte para abandonarem esse mundo. A princípio, não conseguiu ver muitos detalhes, mas conforme foi se aproximando, viu que era uma casa de sapê e que, pela disposição externa da casa, não era mais habitada. Seria lá que passaria a primeira noite, que já se aproximava bem lentamente e aliviaria as barbáries terrestres. A porta estava aberta e entrou com muito cuidado, verificando antes de tudo se não havia nada que pudesse feri-lo lá dentro, afinal, não sabia como estavam os animais depois do Retorno. Por fim, as suspeitas do rapaz se confirmaram: a casa estava vazia. Não havia móveis ou ferramentas, a única coisa que encontrou foi um isqueiro, e agradeceu o fato em voz alta a qualquer um que estivesse ouvindo e se importasse com a sua existência. Provavelmente o dono, antes de partir, retirou tudo o que pôde, mas Danton não se importava, queria apenas um lugar para ficar por uma noite e pensar tranquilamente no dia de amanhã. O sol ainda não havia se posto então ele aproveitou o momento e pegou alguns galhos secos das árvores em volta da casa para fazer uma fogueira. Após reunir uma quantidade considerável, levou-os para dentro da casa e armou uma fogueira. Abriu cuidadosamente a trouxa onde trazia a espada e os bifes e reparou que havia uma coisa que não esperava que estivesse lá dentro: um par de óculos, e junto a eles havia um bilhete:
“Danton,
Coloquei os óculos em sua trouxa, pois vai precisar deles. Quando o sol estiver começando a se pôr, todos os dias, uma onda muito forte de luz atinge a Terra e, se não estiver munido dos óculos no momento, corre o risco de ficar cego. A luz não queima apenas cega. NÃO esqueça, isso acontece TODOS os dias, exatamente no mesmo horário.
Boa sorte,
Sandro”
Danton rapidamente colocou os óculos e saiu da casa e observou o fenômeno que Sandro descrevera: o sol começou a se pôr no horizonte, e imediatamente pôde ver a luz se aproximando a uma velocidade impressionante, até que o atingisse. Dentro da onda não conseguiu ver nada, apenas a cor branca. O fenômeno durou cerca de dois minutos, que para o rapaz pareceram uma eternidade. Quando cessou, retirou os óculos e reparou que tudo estava como antes, sem nenhuma alteração na paisagem ou em seu corpo, com exceção da temperatura ambiente que começou a abaixar, exatamente como nos desertos, onde os dias são extremamente quentes, mas as noites podem ser ardilosamente frias, castigando os viajantes mais desavisados.
Voltou para dentro da casa e observou por poucos segundos, hipnotizado, a dança que o fogo fazia ao som dos estalos proferidos pelos galhos, que queimavam lentamente e pareciam lamentar alguma ode melancólica a Danton. Prendeu um bife em um galho e, com apoio de outros dois nas extremidades, colocou a carne para cozinhar. O estômago já dava cambalhotas de fome, e elas aumentaram quando o cheiro começou a ficar mais intenso. Enquanto o jantar não ficava pronto, Danton decidiu dar uma olhada no revólver e nas balas, pois não sabia quando iria precisar utiliza-los. Na caixa de munição lia-se: “Munição Glock .18”, e o rapaz deduziu ser o nome da sua companheira. Não sabia como carregar, então ficou um bom tempo apertando os botões esperando que algo mágico acontecesse, mas não aconteceu. Por fim, depois de muito tentar, entendeu o mecanismo e engatilhou a arma. Sentiu um ímpeto fortíssimo de apertar o gatilho e ver como a engenhoca funcionava, mas a carne estava pronta, e ele não podia se dar ao luxo de desperdiçar tanto balas quanto carne. Comeu como nunca fizera antes, apesar de não se lembrar de sua vida antes dos ocorridos, e desmontou a churrasqueira improvisada. Já fazia muito frio, apesar de nenhum sinal de brisa, e sem uma fogueira talvez não conseguisse passar logo a sua primeira noite. Recostou-se no chão, rente a fogueira, e tentou dormir, mas sem sucesso. Sua cabeça estava à milhão, apenas bombardeando a consciência de perguntas e mais perguntas sem respostas, mas como em algum momento tudo tem que acabar, as perguntas também cessaram depois de muito tempo, permitindo que Danton se desligasse por algumas horas do mundo e de todas as questões que ele insistia em lhe apresentar sem, no entanto, responder a todas elas.
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