Antes Que Tudo Desapareça
5 O magnata
Notas iniciais
Outro dia amanhecia. Já era possível avistar pequenas faixas com tons variados de vermelho e laranja no horizonte distante que vinham preparar a chegada do sol, majestoso e ilustre, para espantar a escuridão e testar mais uma vez os limites da sobrevivência. Quando fosse embora, quem permaneceria vivo e quem deixaria a espada cair? Ironicamente, parecia mais brilhante do que nunca, parecendo apreciar o “espetáculo” diário que lhe era apresentado. O silêncio era sepulcral, rompido periodicamente apenas pelo som de algumas aves carniceiras tentando estabelecer uma comunicação umas com as outras, mas nem os animais queriam partilhar o alimento que encontrassem. O mundo mudara muito e estava cercado de perguntas sem respostas, mas nada disso afetava os sonhos de Danton. Apesar de tudo que estava acontecendo com ele e com os sobreviventes, as pessoas ainda podiam sonhar e terem algumas horas de paz longe das preocupações corriqueiras. E esse momento foi interrompido repentinamente pelo som do motor de um velho carro que aparecia no horizonte e se aproximava do abrigo do rapaz. Dentro do veículo estavam três homens vestidos com sobretudos pretos empoeirados, óculos escuros e botas de couro pretas com o cano baixo. O motorista logo avistou a “casa” de Danton e fez sinal aos outros, para que também vissem o achado. O ronco do motor era mais intenso à medida que o carro se aproximava, mas Danton estava longe em seus sonhos e não percebeu a movimentação atípica fora do abrigo. O automóvel parou em frente à casa. O motorista permaneceu no carro, enquanto os outros dois homens desceram com as pistolas engatilhadas. Ficaram encostados nas paredes externas da casa por alguns segundos, tempo suficiente para que colocassem as máscaras que traziam presas ao sinto da calça. Entraram ao mesmo tempo no abrigo.
Viram uma simples fogueira já repleta de cinzas e totalmente apagada no centro, uma trouxa encostada em uma das paredes, um isqueiro e um homem dormindo. Não esperavam encontrar um homem ali, apesar de terem sido treinados para estarem preparados para qualquer situação. O que estaria fazendo um homem ali, sozinho, perdido em um canto do mundo com tão poucos recursos? Com muito cuidado, um dos homens molhou um pano no líquido de um frasco que carregava, deixando-o bem úmido. No frasco, lia-se “ÉTER”. O outro homem, cautelosamente, imobilizou Danton, que acordou muito assustado e começou a espernear e resistir à dominação do estranho. O pano úmido foi colocado em sua face, encobrindo a região da boca e narinas, fazendo com que não conseguisse respirar de forma alguma sem inalar a substância. Não demorou muito para que Danton desmaiasse e os homens pudessem concluir o seu objetivo. Revistaram o rapaz e encontraram o revólver que carregava.
– Acha que devemos levá-lo conosco? – Um deles perguntou.
– Por carregar uma arma, não deve ser qualquer um. Talvez seja até um dos homens dos Guardiões da Terra. Levá-lo pode ser útil, quem sabe não nos dê algumas informações importantes? – Respondeu o outro homem.
– Talvez o chefe nos dê até uma bonificação!
– Talvez. Se esse homem for tudo que estamos esperando, quem sabe?
O homem que carregava o frasco de éter carregou Danton até o carro enquanto o seu companheiro pegava os pertences do rapaz dentro da casa. O motorista sem olhar para trás para ver o que havia acontecido, quando todos estavam prontos, seguiu o destino desconhecido aos olhos mais humildes, e desapareceu na poeira que o próprio carro levantava. O silêncio voltou a reinar, como se nada tivesse acontecido.
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Acordou algumas horas depois, tonto, e se assustou quando se lembrou do que havia acontecido. Na verdade, tudo o que lembrava parecia fragmentado em pequenas partes embaçadas e sem sentido. Lembrava-se de quando carregou o revólver e de quando caiu no sono, mas depois tudo ficou estranho. Tinha fixa na memória a máscara pálida de um homem que estava de cócoras e lhe obrigava a inalar alguma substância que o fez desmaiar. A luz forte ofuscava sua vista, e sua pupila tentava se acostumar com a nova entrada de luz a qual era submetida. Encontrava-se em uma sala sem janelas e sem móveis. Era apenas um cubículo onde os seus “sequestradores” prendiam seus prisioneiros por tempo indeterminado, concluiu. Havia uma porta de metal, mas não pensou em abri-la, pois certamente estaria trancada. Vestia uma roupa totalmente branca. Parecia que queriam torturá-lo: tudo era branco, e se já achava incômodo aquela monocromia da paisagem, agora era muito pior. Mais uma vez encontrava-se em um quarto, perdido, sem saber o que estava acontecendo e cheio de perguntas.
A porta abriu de supetão. Um homem fortemente armado que aparentava ser um guarda pegou Danton pelo braço e conduziu-o a força pelos corredores do local desconhecido onde se encontrava até chegarem a uma porta muito diferente das outras. Era feita de madeira, possuía alguns desenhos, que o rapaz identificou serem dragões, talhados na própria madeira e era dona de um brilho interessante, talvez por efeito de algumas boas camadas de verniz. O homem parou, fez sinal para que esperasse e entrou no aposento guardado pela porta peculiar. Danton pôde perceber que o homem dizia algumas palavras, mas não pôde definir quais, já que ouvia apenas um murmúrio distante. O homem saiu da sala e ordenou para que Danton entrasse.
O aposento agora era muito mais interessante do que o anterior. Uma sala ampla que possuía inúmeros quadros nas paredes, o chão era coberto por tapetes com os mesmos desenhos encontrados na porta, a iluminação mais baixa era proporcionada por várias lamparinas localizadas em cantos esporádicos do recinto. Havia não só uma janela, mas uma sacada com portas de vidro. Uma mesa pegava uma das paredes inteira e, em uma cadeira atrás dela, um homem com pouco cabelo, magro e com o nariz grande demais para a proporção do rosto estava sentado. Lia um livro de capa vermelha, mas logo o jogou de lado quando viu Danton entrar. Dois homens semelhantes àqueles que haviam conduzido o rapaz até o aposento fechavam a porta, e com certeza estariam bloqueando a saída.
– Muito prazer em conhecê-lo! Sente-se, por favor! – Disse o homem, conduzindo Danton até a cadeira em frente à sua mesa.
– Quem é você? E por que me sequestrou? – Danton respondeu assim que sentou.
– Não acha que homens civilizados devem primeiro dizer seus nomes? Chamo-me Luciano. Seu nome, qual é?
– Não vou dizer o meu nome enquanto não entender o que está acontecendo aqui. – Retrucou Danton, encostado no encosto da cadeira com uma face indiferente.
– Não torne as coisas difíceis. O único prejudicado aqui será você. Aceita um pouco de uísque?
– Uísque? Não conheço essa bebida. Ou, pelo menos, eu não me lembro dela. – Danton comentou, fazendo força sincera para lembrar, mas sem sucesso.
– Garanto que vai gostar! – Luciano levantou e, em uma prateleira cheia de garrafas das mais variadas bebidas, pegou uma que continha um líquido com cor de ferrugem. Despejou um pouco em um copo baixo, cheio de gelo, e entregou ao seu convidado – Espere um pouco para que o gelo derreta. Com esse calor, isso não deve demorar.
– O que quer exatamente comigo?
– Apenas conversar um pouco. Estou muito solitário nesse mundo. O que acha de começar me dizendo o seu nome e contando sua história? – Luciano tomou um pouco da bebida e houve uma pequena pausa – Quem sabe ela contenha algo interessante?
– Pra dizer a verdade não tem nada de interessante na minha história. Eu acordei nesse mundo estranho sem me lembrar de nada e sai vagando por ai, até seus homens me sequestrarem. Isso é tudo.
– Você tem certeza disso? – Luciano tirou de uma gaveta uma pistola e começou a limpá-la com uma flanela. – Simplesmente começou a vagar por ai?
– Sim. Não me lembro de nada do mundo anterior a esse, sei sua história, mas não sei se vivi nele ou não. Talvez você possa me dar algumas respostas em troca de favores e...
– GAROTO, EU NÃO ESTOU BRINCANDO. VOCÊ ACHA QUE EU SOU ALGUM IDIOTA? – Luciano disse gritando, se levantou e aproximou seu rosto da face de Danton e lhe mostrou a pistola mais de perto. – NÃO DIFICULTE AS COISAS, POIS EU SEI UTILIZAR MUITO BEM A MINHA AMIGUINHA. Vamos começar novamente. Conte-me sua história. – O homem voltou a se sentar.
– Senhor, eu juro que é só isso. Eu estou muito perdido e cheio de perguntas! – Danton retrucou, gaguejando e muito assustado.
– Então você está me dizendo que andava por ai com um revólver carregado e está perdido? Parece-me muito convincente. – Disse Luciano, tomando mais um pouco do uísque. – Vai fazer a desfeita de não tomar a bebida?
– É toda a verdade senhor, eu garanto. – Danton tomou a bebida estranha e gostou tanto do sabor que sentiu que tomou mais um pouco.
– Como conseguiu a arma?
– Fui encontrado por alguns homens depois do retorno e eles me deram tudo o que encontraram comigo.
– Então sabe sobre o mundo antes desse. Muito bem, está mais informado do que eu esperava. Você por um acaso não conhece ninguém do Guardiões da Terra certo? – Luciano perguntou, apoiando o rosto nas mãos entrelaçadas e olhando fixamente para os olhos de Danton – Não minta pra mim. Posso descobrir seu passado facilmente, mas preferi ouvi-lo de você mesmo. Qualquer mentira eu vou descobrir e será pior.
– Guardiões da Terra? Não sei o que é isso. Estou há pouco tempo nesse mundo, não sei muito sobre as mudanças nele.
– Qual o seu nome mesmo? É a última vez que pergunto, na próxima, não terá condições de responder mesmo que queira.
– Danton. Por favor, não me machuque. Faço tudo o que quiser. Tudo.
– Ricardo, leve esse rapaz, Danton, para a sala branca novamente. – Luciano comunicou um dos homens do lado de fora, que entrou e pegou o rapaz pelo braço, exatamente como havia ocorrido quando chegara. – Mais tarde saberá o que decidi fazer com você.
Foi guiado pelos mesmos corredores de antes, e jogado novamente no quarto monocromático. Não sabia mais o que pensar, sentir, muito menos o que fazer. Guardiões da Terra? O que seria isso? Quem era aquele homem? O mundo o aplicara um profundo golpe, e as dúvidas não o deixavam nunca. Deitou no chão e dormiu novamente, pois era a única maneira de esquecer o mundo e suas perguntas inexplicáveis. Sentia que logo alguém apareceria e sanaria todas elas, de uma vez por todas.
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