Antes Que Tudo Desapareça
6 Explicações
Notas iniciais
Espero que gostem.
Era impossível determinar quanto tempo havia se passado desde que pegara no sono até aquele momento em que era acordado pelo mesmo homem que o guiara através dos corredores. A cabeça ardia, não tanto quanto a dor de quando acordou no primeiro abrigo, mas o suficiente para incomodar e manter viva a sua lembrança na mente de Danton. Luciano com certeza já havia tomado uma decisão, e ele não ficaria surpreso se o matassem. Chegou a pensar que seria um alívio morrer ali, mas no fundo não era isso que queria. Talvez tudo tivesse um propósito, e ele desejava descobrir qual era o seu naquele mundo. O homem o guiou novamente por mais uma gama interminável de corredores, dessa vez mal iluminados, até chegarem a um campo aberto. Danton logo percebeu que se tratava de um local de treinamento. Um muro delineava os limites do território (até o momento, Danton não havia visto nenhum lugar com os limites tão bem marcados, e concluiu que eles seriam cada vez mais raros, já que nem o próprio mundo tinha os seus limites bem definidos e o tempo havia tido os seus violados) e evitava que algum agente externo influenciasse nas condições internas do campo. Pôde ver vários homens aprendendo a atirar e outro punhado atirando com armas de alta precisão em alvos colocados a grandes distâncias. O guarda que o guiava pediu para que esperasse perto da entrada do campo e iniciou uma conversa sigilosa com outro homem, com vestes diferentes daquelas trajadas pelos outros. Só poderia ser o professor, é claro! O arrebol já tinha se perdido quase totalmente no céu azul celeste quando o guarda mergulhou novamente nos corredores e o professor se dirigiu até ele.
– Muito prazer em conhecê-lo! Sou Alexandre, o instrutor do campo de treinamento. Você deve ser Danton, estou certo? Mal chegou e eu já ouvi muita coisa sobre você. Por favor, me acompanhe até a minha sala para conversarmos melhor. Não vai querer as respostas para suas perguntas ao som de tiros, vai? – Disse o professor, conduzindo Danton a uma pequena sala que ficava tão longe de onde estavam que era quase impossível de ver se os olhos fossem uns mínimos desatentos.
A sala era um cômodo apertado. A mesa de trabalho do instrutor diminuía ainda mais o espaço para que os convidados pudessem se locomover, tornando o ato de entrar e acomodar-se em uma das cadeiras a única opção viável. Atrás da mesa havia um armário muito sujo e descuidado, visto que estava claramente danificado em certos pontos, que abrigava uma papelada tão numerosa que causou arrepios em Danton. Observou por alguns segundos o quadro na parede acima do armário com a foto de Luciano e a descrição gravada com letras douradas em uma pequena plaqueta fixada ao retrato: “A Nova Ordem, com orgulho, ovaciona seu grandioso fundador”. Era possível ouvir o som distante de tiros esporadicamente, mas já era um ambiente muito melhor para estabelecer uma conversa, ainda mais para colocar um fim em suas dúvidas, como comentara o professor.
– Sente-se, pode ficar a vontade. A sala é pequena, eu sei, mas é o necessário. Bem, vamos ao que interessa: quais são suas dúvidas? – Disse Alexandre calmamente, acendendo um cigarro e concentrando-se no que seu convidado iria dizer.
– São muitas. Eu diria que são infinitas. – Danton disse descontraidamente, e arrancou um sorriso tímido do instrutor. – Gostaria de começar esclarecendo: o que são vocês?
– Caro amigo, consigo ver a confusão em seu rosto. É uma resposta longa, espero que não durma durante a minha explicação. Você já deve estar informado sobre tudo o que ocorreu com o mundo e alguns dos efeitos colaterais que o Retorno trouxe. Mas com certeza não sabe tudo. Os primeiros a acordarem do sono ficaram totalmente perdidos e passaram um bom tempo tentando entender o que tinha acontecido com o mundo. Quando descobriram tudo, assimilaram que o Brasil não tinha governo e que ele não poderia ser centralizado em apenas uma pessoa. Por isso, foi inevitável a criação de facções, que são responsáveis pela gestão das áreas nas quais estão inseridas. Por exemplo: nós estamos no que seria a antiga cidade de São Paulo e região sudeste do Brasil. A região sudeste está sob a influência de duas facções que vivem disputando pequenos lotes territoriais entre si: Nova Ordem, que somos nós, e os Guardiões da Terra. Essas duas organizações são responsáveis pelas leis e pela administração de toda a região sudeste, mas são rivais, então essa gerência fica bastante prejudicada. Eu fui membro dos Guardiões da Terra por um tempo, mas eles têm uma filosofia totalmente diferente da que temos aqui. Se você tivesse sido pego por soldados deles, com certeza não estaria vivo agora. Eles são mais cruéis, intolerantes e violentos. Concluindo, nós treinamos os sobreviventes que encontramos para que estejam preparados para enfrentar qualquer tipo de situação a fim de que sejam úteis à facção.
– Algumas coisas se esclareceram em minha cabeça, mas me responda: por qual motivo as duas facções são rivais? E por que não se juntam para formarem uma unidade mais estável, mesmo com as diferenças? – Danton replicou curioso para ouvir a resposta do professor.
– Não é tão simples assim. – O instrutor levantou e foi até o mapa que estava fixado na parede, indicando nele a área de influência de cada facção. – Existe uma facção, chamada Imodion, que domina o centro do país. Ocupam as áreas que correspondiam anteriormente aos Estados do Maranhão, Tocantins, Goiás e Mato Grosso do Sul e isso divide o Brasil em ocidente e oriente como se fosse um muro. Se reparar no mapa, é impossível que se estabeleça qualquer relação entre as organizações do oriente e ocidente sem que eles façam o intermédio, o que os torna muito poderosos. Além disso, impostos são cobrados para que as mercadorias cheguem ao outro lado. O mesmo ocorre com as cartas, com a única diferença de que, além do imposto cobrado, fiscalizam seu conteúdo, a fim de garantir que nenhuma união revoltosa de facções contra eles seja organizada. O que acontece é que, os Guardiões da Terra, apesar de mais agressivos, não enfrentam os Imodion. Não enfrentam por que não existe a menor possibilidade de vitória, mesmo que lutem com todas as suas forças e soldados. Então eles decidiram ser aliados da facção central, o que lhes gera muitos benefícios, como redução dos impostos e livre circulação. Como eu disse anteriormente, nossa filosofia é diferente, e como é de se esperar, não aceitamos essa opressão e lutamos bravamente contra ela. Temos apoio da facção do sul e do nordeste, pois esse tipo de comunicação eles não conseguem fiscalizar já que se trata de algo apenas entre o lado oriental e que nada interfere no lado ocidental. Visualizando esse panorama, estamos equili...
– Alexandre, então você está me dizendo que treina aqueles soldados que estão lá fora para morrerem em uma guerra que não temos a chance de vencer? – Danton interrompeu a explicação, inconformado com o que acabara de ouvir.
– Era o que eu ia dizendo. Com os nossos atuais aliados, temos uma chance. E temos que resistir a eles se ainda queremos que a facção exista. Não tenha dúvidas de que nos planos deles a exclusão das demais facções está incluso.
– Então, quer dizer que nós somos bons e eles são maus? – Danton mais uma vez questiona.
– Não existe certo ou errado em um país dominado por facções. É absolutamente normal que você ache que somos bons por que está incluindo você mesmo no grupo, e você não quer ser mau, quer? Mas, de qualquer maneira, não importa. Você acha que as aves carniceiras vão se importar se o corpo que elas estão devorando pertenceu a uma facção ou outra? O mundo está todo errado Danton, e nós apenas sobrevivemos a ele. O bem e o mal resolveram sentar e assistir o que fazemos por nossa conta, sem a influência deles. Pois bem, isso é o que temos para o momento.
Um grande silêncio reinou no aposento por alguns minutos. A resposta do instrutor atordoara Danton, que não esperava ouvir uma realidade tão pura naquele momento. O que o professor dissera tocara seu coração profundamente, e ele começava a entender e se conformar. Apesar de já saber de tudo o que acontecera com o mundo e as coisas passarem pela sua cabeça antes de ser capturado pela facção, as dúvidas eram mais fortes e não permitiam que o rapaz refletisse. Com grande parte das respostas dadas, o choque da realidade foi muito forte, e ele não sabia mais o que dizer.
– Luciano pediu para que eu respondesse tudo o que quisesse e logo depois inserisse você no treinamento. Você vai ser um soldado que vai lutar nessa guerra. E eu prometo que não será em vão, como é o seu medo.
– Acredito que me treinará muito bem. Apesar de eu não ter outra escolha, quero participar disso. Se for o que o mundo me pede, é o que vou devolver a ele.
Os dois levantaram e seguiram rumo ao campo de treinamento, onde Danton aprenderia a sobreviver no mundo que mais uma vez caíra em suas mãos.
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