Ansiando
15 Aguardando impacientemente
Notas iniciais
Muito distante da Camelot's, em um ponto obscuro de Oxford, Merlin, Gwen e Lancelot trocavam olhares, sentados em uma pequenina sala abafada, com uma mesa retangular e algumas cadeiras, o calor da sala ignorava o frio que fazia do lado de fora.
Merlin ouvia atentamente o que Elyan dizia, o irmão de Gwen era levemente mais baixo que Lancelot, e tinha a mesma pele de ébano de sua irmã Gwen, os olhos castanhos perspicazes dele acompanhavam as explicações de Gwen e Lance, enquanto a mão rápida escrevia sem cessar em um papel de rascunho.
— Quem teve o último contato com Arthur? Pelo que entendi nenhum de vocês chegou a ver ele na empresa.
— Você pode conferir os passos de Arthur na empresa pelo circuito interno de segurança. — Apontou Lance.
— Sei disso, já fiz contato com Percy, ele vai trazer as cópias em uma hora, até este ponto meu parceiro já terá chegado aqui. Elyan dispensou o comentário de Lancelot desdenhosamente.
— Parceiro? Eu pensei que você não tinha parceiros... — Gwen disse torcendo as mãos no colo, o movimento nervoso era ocultado pela mesa, mas Merlin percebia, já que estava ao lado da amiga.
— Eu não estou sozinho, isto é tudo o que você precisa saber, maninha. Agora, voltando a minha pergunta: Quem teve o último contato com Arthur? — Ele perguntou, olhando detidamente para Merlin, que por incrível que pareça se encolheu.
— Acredito que Sefa, foi ela quem deu a informação para Gwaine. — Merlin respondeu, observando a reação de Elyan, o nervosismo de Gwen o englobando.
— Certo... Sefa, a recepcionista que trabalhava com Sophia. Pelo que eu investiguei antes de chegar aqui, a recepção não é uma área que as pessoas ficam por muito tempo... foram cerca de seis recepcionistas ao todo nos últimos três anos nesta empresa. Desde Alice, que se aposentou, nenhuma funcionária parou na recepção da Camelot's. Eu me pergunto o motivo. — Elyan disse, e seus olhos castanhos mais uma vez pousaram em Merlin.
— Talvez elas encontrem emprego melhor? — Respondeu Merlin infantilmente.
— Talvez... mas, ainda estou levantando todas as hipóteses. Ele respondeu categórico, escrevendo no rascunho. Me diga uma coisa... Sr. Emrys...
— Merlin. Pode me chamar de Merlin.
— Certo. Merlin... Você poderia me explicar por que você foi visto saindo do flat de Arthur, acompanhando-o, exatamente... ontem?
— Ah... eu... hm... — Merlin gaguejou.
— Esta pergunta é mesmo necessária? — Questionou Lancelot.
— As perguntas não, mas as respostas são sempre necessárias. — Apontou Elyan, mirando Lance com olhos gélidos.
— Elie... o que Lance quis dizer é se não seria uma pergunta pessoal... entende? — Gwen interviu afetuosamente, e no mesmo momento a expressão do irmão suavizou.
— Gwennie... querida... eu sinto que você queira proteger seus amigos, mas, as investigações não podem ser barradas por conta de coisas insignificantes como privacidade. — Elyan respondeu olhando intensamente para a irmã, como se explicasse algo muito complicado a uma criança muito pequena.
Merlin notou as bochechas de Gwen corando loucamente, ela franziu as sobrancelhas e fechou a cara para o irmão, pronta para a réplica, quando Merlin resolveu interferir.
— Tudo bem, espere! Eu, hm... estive com Arthur no fim de semana. — Merlin respondeu com a voz grave, tenso e ainda intimidado por ter que falar de seu tão recente relacionamento.
— OK, agora você está colaborando... — Elyan sorriu satisfeito. — Onde foram no domingo? Com quem estiveram... e o mais importante: Você notou algo estranho? Arthur recebeu ligações durante este tempo?
— Fomos almoçar em uma lancheria, próximo a London Eye, conhecemos a roda-gigante... passeamos no parque, comemos sorvete... — Lance ergueu as duas sobrancelhas para tantas informações, e Gwen baixou o rosto de modo que Merlin não a visse sorrindo. — ...encontramos uma amiga de Arthur...
— Uma amiga? Qual era o nome dela? — Perguntou Elyan, ignorando o desconforto de Merlin e nunca deixando de escrever.
— Elena.
— Elena... lembro dela, talvez precise interrogá-la já que ela é bastante atenta ao que acontece em volta.
— Sério? — Perguntou Merlin lembrando a loira espevitada que derrubara Arthur no chão.
— Sim, ela é muito inteligente. Então, eram apenas você e Arthur até encontrarem Elena... — Elyan pensou alto.
— Ah, não, meu amigo Will também estava conosco.
— Will... quem seria Will, exatamente?
— William... é meu amigo de Ealdor. — Merlin respondeu simplesmente, mas sob o olhar de expectativa de Elyan, ele completou: — Ele veio para uma entrevista de emprego, ficou hospedado no meu flat no fim de semana, e nos encontrou para almoçar. Depois que nos despedimos de Arthur, eu voltei com ele para o meu flat.
— Certo... acho que com estas informações eu posso começar. Ligo para vocês assim que tiver mais informações. — Elyan falou reunindo suas anotações e o celular que estivera em cima da mesa.
— O que faremos agora? — Merlin perguntou.
— Vocês vão para suas casas, e aguardam o meu chamado para novos esclarecimentos. Não demonstrem preocupação e cuidem se estão sendo seguidos.
— Okay, tudo bem! — Lance falou sorrindo, e esticou a mão para Elyan que ignorou, virando o rosto para a irmã.
— Você vem comigo, Gwennie? Posso te dar uma carona, vou na direção do seu bairro.
— Não, estou bem, eu vim com Lance. — Ela disse e segurou a mão de Lancelot junto a sua. Elyan olhou detidamente para as mãos unidas.
— Poderia me dar uma carona também, Lance? Eu não dirijo e acho que pode não ser uma boa ideia ir de táxi... — Merlin falou apenas para cortar a tensão dos olhos de Elyan.
— Claro que não é incômodo Merlin... venha! — Gwen disse já o arrastando pela porta.
Elyan ainda encarava Lancelot.
— Cuide dela, ou não vai sobrar muito de você para os peixes do Tâmisa. — Ele disse muito baixo.
— Não se preocupe, eu cuidarei dela como se fosse a coisa mais preciosa que eu já encontrei... pois é exatamente o que ela é para mim. Lancelot disse sincero, ostentando o olhar de Elyan.
Elyan pareceu aprovar, uma vez que meneou a cabeça suavemente e seus lábios tremeram levemente, no que poderia ser o esboço de um sorriso.
Gwen caminhava nervosa pelo corredor, as mãos sempre contorcendo no colo, Merlin também não estava tranquilo, durante todo o dia ele rejeitou pensamentos ruins, mas agora parecia que as imagens de Arthur sendo machucado transitavam em sua mente sem serem convidadas.
— Sabe, Gwen... eu acho que gostei do seu irmão... quer dizer, se nos conhecêssemos em outras circunstâncias acho que nos daríamos muito bem. — Merlin declarou, para ocupar o silêncio.
— Culpa minha... eu tenho sido uma amiga terrível para você, Merlin... não saímos, não conversamos... me desculpe...
— Não! O que é isso... tudo bem... afinal... você tem andado bem... ahm... ocupada...
Assim que Merlin fechou a boca, Lancelot emparelhou do outro lado de Gwen, ele olhou sorridente para Merlin.
— O que tem a dizer em sua defesa, Merlin... com câmeras de segurança flagrando você e Arthur saindo do flat juntos? — Lancelot apontou sorrindo imensamente e flexionando as sobrancelhas.
— O... que... eu... ah, por Deus, você tem andado com Gwaine? Pare de fazer essa cara!!
— Desculpe! Eu apenas... lembrei que todos nós andamos ocupados ultimamente. — Lance falou desviando o olhar de Merlin para Gwen, ela respondeu com uma ternura estampada no rosto, que fez Merlin querer correr dali.
— OK, vamos embora, ainda precisamos encontrar Gwaine e falar com Morgana.
Merlin os deixou para trás e caminhou rapidamente até a saída do prédio, ele começaria seu calvário, aguardando impacientemente por notícias.
Elyan fechou a sala e caminhou até sua mesa no pequeno estúdio que usava como escritório, ele ergueu o telefone da base e apertou uma tecla.
— Agente BS, transfira esta ligação via New York para Amsterdam, código 5, fase 1.
Quando recebeu o sinal, ele digitou o número do celular.
Elyan esperou alguns instantes, em seguida a voz carregada de sotaque irlandês atendeu.
— Hey, enfim algo? Pensei que mofaríamos aguardando um trabalho decente... O que temos aí, Blacksmith?
— Recebeu o e-mail que enviei? Pensei que estava a caminho! Preciso de você o mais breve possível.
— Recebi sim, código 5 é? Vai ser divertido... Estou no aeroporto, chego em vinte minutos, OK?
— Tristan? Isolde está na França ainda?
— Sim, é a base dela. Vamos precisar de apoio?
— Vamos... aguardo você no escritório para mais detalhes.
Ambos desligaram o telefone.
Elyan olhou a janela intrigado. Um sequestro, mas sem pedido de resgate, a vítima não tinha inimigos... e por que a França? Havia algo, algum detalhe que ele estava perdendo.
~*~*~*~*~*~*~*~
O quarto estava gélido, escuro, a cabeça dele doía, latejante e pesada, ele tentou abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam como se ele estivesse muito cansado. Arthur sentia cada músculo do corpo dolorido e antes de tomar consciência de onde estava, tentou reorganizar o que havia acontecido, a última coisa que lembrava era de pegar um táxi no aeroporto, já em solo francês, quando Arthur pediu urgência, o taxista sorriu levemente e comentou sobre a pontualidade britânica, depois disso... ele não conseguia lembrar de nada.
Arthur tentou se mover, mas rapidamente notou que suas mãos estavam amarradas de encontro às costas, e o mais curioso é que ele percebeu a total falta de contato de algum tecido contra o corpo, por algum motivo ele não se sentiu bem com a nudez inesperada.
— Então o príncipe acordou... — Uma silhueta feminina surgiu, recortada contra a luminosidade de um cômodo fora do quarto, na porta parada com as mãos na cintura.
Arthur teve dificuldades em fazer a imagem entrar em foco, ele observou com os olhos pressionados na intenção de identificar o vulto, quando a mulher começou a dar alguns passos em direção a ele.
— Você me deu bastante trabalho... nunca pensei que seria tão difícil... — ela falou, a voz soava melosa e aguda, e Arthur não gostou do perfume doce e artificial que repentinamente encheu o quarto escuro.
— O que... do que está falando? — Ele tinha a voz rouca e sentiu a boca seca assim que tentou falar. — O que está acontecendo?
A mulher se aproximou e Arthur teve certeza de que a conhecia, era a recepcionista que seu pai havia destacado para acompanhá-lo até a França, onde ele deveria encontrar com o conselho que tratava da compra da Rennes.
— Oh Arthur... — Ela falou, sentando na beirada da cama onde ele estava. — Você... tão lindo... olhe para você... parece um sonho, tê-lo aqui, absolutamente a minha mercê, nu na cama, ao alcance da minha vontade...
Enquanto ela falava a proximidade entre eles diminuía, Arthur sentiu um calafrio de pânico quando o dedo delicado dela escorregou pela coxa dele, e quando ela plantou a palma da mão delicadamente nos pelos do peito dele, Arthur foi inundado com lucidez, uma ideia absurda o atingiu como se fosse um raio.
— Eu perguntei o que está acontecendo? Por que estou aqui, e o que você pretende? — Ele falou sentando, ignorando o desconforto do olhar lascivo de Sophia para sua nudez.
— Não acha que é bastante óbvio... estamos brincando um pouco... — ela declarou, a mão escorregando do peito para um lugar que Arthur não permitira.
Quando a mão dela chegou no limite abaixo do umbigo, Arthur girou na cama, com dificuldade por causa das pernas fracas e a tontura inesperada, ele se forçou a ficar de pé, não seria submetido a qualquer situação que não concordasse, e que Deus o perdoasse, mas se tivesse que usar a força, ele faria.
— Não seja idiota. — A voz dela soou completamente diferente, havia raiva contida e algo que Arthur não pôde identificar. — Se você colaborar pode ser agradável para nós dois.
Ela falou se erguendo de pé e alisando a saia godê e a barra da blusa branca, Sophia deu a volta na cama e se postou em frente a Arthur, a diferença de altura deles era visível, na primeira vista Arthur a achou uma moça pequena e sorridente, todas as manhãs cumprimentando agradavelmente na recepção da empresa, mas agora, os olhos verdes cinzentos que o observavam eram duros e injetados. Arthur não sentiu medo, ele apenas estava se perguntando o que a mulher queria dele, embora parecesse evidente, pelo olhar que ela lançava para seu corpo.
— Senhorita Tír-Mòr... vamos começar novamente... eu sinto muito, mas não estou entendendo onde a senhorita quer chegar. Então, vamos ser práticos: Me devolva minha bagagem e solte meus pulsos, pois preciso me preparar para uma reunião. E por favor, providencie um analgésico, pois estou com uma terrível dor de cabeça. Certo? — Arthur falou tudo com voz de comando, as palavras eram seguras, mas ele sentia a voz saindo rascante, sua garganta ardia.
— Não. Você não vai a nenhum lugar! Não há reunião alguma para você comparecer, e infelizmente estou aqui aguardando ordens sobre o que fazer. Se não fosse por isso, eu já teria feito o que bem entendo — ela se aproximou, colando o corpo pequeno ao de Arthur — mas nada nos impede de fazer algo divertido, enquanto esperamos.
Arthur se esquivou com um passo para trás, fazendo o sorriso dela desaparecer.
— Não estou interessado.
— Mas ficará, me deixe apenas mostrar alguns dos meus atributos...
Sophia começou a desabotoar a blusa delicada.
— Não vai funcionar. Acredite em mim e poupe nós dois disso. Olhe bem a sua frente: Não vai funcionar.
— ORA, CALE A BOCA, SEU ESTÚPIDO MIMADO! — Ela gritou, parou de desabotoar a blusa, e vermelha de ódio e ultraje, estalou um tapa sonoro no rosto pálido de Arthur.
O loiro não caiu, aguentou firme o impacto da palma da mão pequena, e absurdamente forte, ele sentia o rosto arder no local, suas pernas estavam fracas e os ombros doíam pela posição em que as mãos estavam presas. Arthur encarou a moça na frente dele, balançou a cabeça, contrariado.
— Eu realmente não sei o que você quer, mas tenho certeza que poderia arranjar alguém verdadeiramente interessado, pelo pouco que pude compreender, não estou preso e amarrado nesta espelunca escura por causa da sua vontade de me ter como um brinquedo... e posso lhe dizer uma coisa: Essas coisas sempre deixam um rastro. Em algum momento alguém vai sentir minha falta e vai me procurar.
— CALE A BOCA, EU JÁ MANDEI! — Algo deixou Sophia completamente fora de si, ela encheu a mão e atingiu o outro lado do rosto de Arthur. — Agora, fique bem quietinho, ou eu vou começar a ficar irritada de verdade.
Ela saiu do quarto, bateu a porta fazendo o som explodir no cérebro de Arthur. Com forte dor de cabeça, sentindo tonturas e enjoo, ele sentiu todas as forças o abandonando. Ele não tinha inimigos, sempre tivera bons relacionamentos, e não conseguia entender o que fez Sophia o carregar até ali... ela dissera estar esperando ordens... mas de quem?
No entanto, de uma coisa Arthur tinha certeza: Sentiriam falta dele, e ele odiava admitir, mas precisaria ser encontrado.
Como se fosse muito longe, Arthur ouviu o clique eletrônico da porta sendo trancada, a visão dele se tornou completamente escura, ele perdia os sentidos rapidamente, e uma única imagem brilhou intensa na sua mente:
Um sorriso idiota e olhos azuis plissados.
Ele sempre teria Merlin em seu coração.
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