Molly Hooper

Era o início da noite. Estava de camisola, deitada no sofá, relendo pela milésima vez O Morro dos Ventos Uivantes. O fascínio que tinha pelo romance gótico entre Catherine e Heatchcliff chegava a me assustar às vezes; eu relia o livro todos os anos para relembrar os tempos de colégio, tempos fáceis de uma vida mais fácil...

Lia de forma tão concentrada que demorei a perceber que batiam à porta. Olhei para o relógio ao lado da TV. 08:30 pm. Novamente, tornaram a bater, e dessa vez com mais urgência. Quem quer que fosse estava com pressa.

Aproximei-me da porta e perguntei quem estava ali, mas não fui respondida. Durante mais duas vezes questionei meu visitante. Nenhuma voz, nenhuma resposta. Nada.

Pela terceira vez naquela noite, bateram; a curiosidade em mim aumentou para saber quem estava ali. Recuei alguns passos e procurei algo na cozinha para me proteger. Sem chances de eu abrir aquela porta sem qualquer objeto em mãos. Peguei uma panela grossa – em outras situações eu riria daquela escolha — embora as facas estivessem à mostra em cima da bancada. Poderia usar o treinamento que aprendi quando meu pai ainda era vivo, exercitar as táticas que há tempos não punha em prática.

Reconhecer, avaliar e atacar. Eram os lemas que Antonie Hooper, meu pai, sempre ensinara às suas filhas; ele sempre procurou nos proteger das situações de perigo, e nos qualificou para enfrentar cada uma delas. Mas algo me dizia que essa situação não requeria medidas tão drásticas.

De volta à entrada, as batidas cessaram, meu visitante estava à espera do que viria a seguir. Ergui a panela acima da cabeça e com a mão esquerda girei a tranca para abrir a porta.

À minha frente, uma mulher de cabelos pretos curtos me encarava com olhos tristes. Vestia uma camiseta branca, calça skinny e botas de cano alto. Reconhecia-a como Elizabeth Bolton; quase perguntei o que fazia ali, mas ela se adiantou.

— Venha comigo. Por favor – pediu, e pude ver uma lágrima rolar por seu rosto. – Preciso de ajuda.

Assenti. Pus a panela em cima da bancada e peguei um robe de cetim que tinha jogado pelo sofá. Assim que saí, corremos escada abaixo, sem esperar pelo elevador, e continuamos a correndo por todo o caminho até o residencial onde ela morava.

Àquela altura, já sabia se tratar de um sonho lúcido, não é muito comum sair e esbarrar nas pessoas sem que elas se importem ou gritem. Só esperava encontrar pistas para o dilema da identidade do assassino.

Elizabeth entrou num rompante, sem esperar que eu acompanhasse seu ritmo. Quando a alcancei, encontrei-a prostrada diante do corpo estático de sua tia. Tudo permanecia do mesmo jeito que vi ao encontrar o corpo de Helena Bolton; seus olhos vagavam pelo vazio, e seus lábios avermelhados, murchavam como flores sem sol.

Fechei os olhos e respirei fundo, um ar quente e abafado. Murmurei palavras de conforto enquanto ouvia Elizabeth soluçar baixo.

— Já está com saudades? – ouvi e um arrepio eriçou os pelos do meu braço. Conhecia aquela voz. Frágil e quebradiça. – Não diga que já se esqueceu de mim – disse, um pouco desapontado.

Com uma coragem inexistente, abri os olhos e observei Vicent Bolton em pé, atrás do corpo da tia.

Seu sorriso estava lá, cínico, como me lembrava. Da mesma forma do nosso primeiro e último encontro.

— Peço desculpas – fiquei confusa, ele percebeu. – Por ter atirado em você. Acidentalmente – acrescentou, com o mesmo sorriso desprezível estampado em sua cara magra e ossuda.

Não conseguia me mover. Sua prima continuava chorando e não dava sinais de perceber outra presença na sala.

— Não acredito que você foi capaz de atirar nesse anjo – alguém pronunciou poucos passos atrás de mim. Sentia sua respiração quente contra a minha nuca. – Sentiu minha falta? – perguntou.

Perfeito. Um sonho com dois mortos, Molly... Na verdade, três. Não se esqueça da que está fantasiada.

Um novo arrepio. O medo tomou conta ao ouvir aquela pergunta tão simples de um desafeto que estava tão perto. Sentiu minha falta? Aquilo não era um sonho, era o pior pesadelo possível.

James Moriarty se aproximou ainda mais para colar nossos corpos, me causando repulsa, e pôs suas mãos ao redor de minha cintura para evitar que fugisse.

— Diga-me, ratinha – sua voz ritmada estava de volta – ele é um lobo mau? – E apontou Vicent com o dedo.

Fiquei tentada a responder que sim, entretanto ninguém merecia estar no caminho de Moriarty, nem mesmo alguém como o Estrangulador.

Passou-se um minuto sem que ninguém falasse absolutamente nada, e em todo esse tempo a respiração de Jim esteve presente e em pleno contato com minha pele, sensível a qualquer aproximação sua.

Eu queria sair dali e não podia. EU. QUERIA. ACORDAR!

— Um lobo mau, uma ratinha e um rei – ele continuou, sem se importar com nosso silêncio. – Ah, que cabeça a minha, também temos um cadáver mal vestido e uma moribunda – falou alegremente.

Como se fosse uma deixa para uma apresentação, Helena Bolton abriu os olhos, outrora vazios, e focou sua atenção em mim.

— Ache quem fez isso comigo! – quase gritou. Nem parecia que estava morta a poucos instantes.

— Isso – sua sobrinha se virou para me olhar e concordou. – Seja útil, Molly Hooper. Não a trouxe aqui por acaso.

Dito isso, voltou à sua posição e choro de antes, sua tia retornou aos braços da morte e seu primo desapareceu. Parecia mágica.

— O conto de fadas está montado, Molly. Meu próprio circo dos horrores – Jim sussurrou, ainda atrás de mim, me deixando nervosa por não ver seu rosto. – Bons sonhos! – e beijou meu pescoço. Fechei os olhos e desejei com todas as forças que aquilo acabasse.

Acordei num pulo. Atordoada, com a pulsação acelerada e suando frio. Lembrava-me de todo o pesadelo e achava que sabia quais as causas para isso. Hoje era o interrogatório da sobrinha da vítima. Talvez, a pressão do caso estivesse causando mais efeitos do que esperava.

Fui ao banheiro para molhar o rosto, e passei as mãos pelo pescoço para afastar qualquer lembrança que persistia em existir; porém, senti o estômago se embrulhar ao tentar soterrar quaisquer vestígios daquele pesadelo. E ainda assim, consegui sentir o beijo quente e pegajoso de James Moriarty contra minha pele.

...

Saí do Barts na hora do almoço e peguei um táxi. Estava a caminho da Scotland Yard.

O interrogatório de Elizabeth já havia sido adiado duas vezes; a primeira tentativa foi no dia seguinte ao assassinato, mas a garota, ainda muito abalada, não dizia nada coerente à investigação. A segunda vez havia sido dois dias depois, e Sherlock viera me buscar no necrotério para a interrogarmos.

— Não — disse, de repente, cinco minutos após sua chegada.

— Desculpe, mas não o quê? – perguntou e levantou as sobrancelhas. Estava à minha frente, acompanhando os movimentos que fazia no pulmão acima da mesa.

— Não vou sair para interrogar aquela garota, Sherlock – estiquei a mão e indiquei que queria a pinça que estava ao seu lado.

Ele a passou para mim.

— Nada do que foi dito por mim poderia relacionar minha vinda à situação que sugere – tentou se esquivar.

— Você diz muito quando não diz nada, sabia? – tirei algumas viscosidades do pulmão que examinava.

Ele tentou uma abordagem diferente.

— Molly – adoçou a voz – quanto antes a Srta. Bolton for ouvida pela polícia – a última palavra foi dita com pouco sarcasmo – melhor será para ambos. Imagine o sofrimento dela, ao ter que esperar várias cerimônias fúnebres serem realizadas para uma pessoa que morreu, e que nem sabemos se era queri... — não esperei que terminasse de falar. Cerrei o punho e atingi seu ombro.

Encarou-me com olhos surpresos, sem emitir um som.

— Afinal, você aprecia bater no público em geral, ou essa é uma atração que reserva para mim? – o canto de sua boca se levantou num riso sarcástico.

— Ouça, Holmes. — Desconsiderei o comentário — Nós não vamos tirar o pouco de paz que aquela garota possa estar tendo agora. Vamos continuar nessa sala, e você – apontei para ele – vai me ajudar a terminar essa análise, já que um álibi precisa disso. A menos que queira ser o próximo corpo sob meus cuidados — sorri.

Sherlock cerrara os lábios e, com determinação, se concentrou no trabalho a ser feito.

Ao chegar ao destino, o primeiro conhecido que encontro é John, suspirando – talvez de alívio – ao me ver.

— Elizabeth já está aqui? – cumprimentei-o rapidamente com um sorriso. Ele fez o mesmo.

— Sim, conversando com Greg nesse momento – respondeu.

— Pensei que começariam sem mim – olhei o relógio no pulso que marcava meu atraso de dez minutos.

— Lestrade e eu imaginamos que Sherlock fosse querer começar no horário combinado, mas quando o questionamos, respondeu que preferia esperar a sentir outra demonstração sua de... – pigarreou – brutalidade.

Sorri.

— Que dramático.

— Algo que eu deva saber? – ele perguntou, sorrindo.

— Não, Dr. Watson – respondi ao chegarmos à sala específica. – Algumas situações funcionam melhor se imaginadas.

Isso provocou um riso genuíno nele, deixando suas faces vermelhas.

Ele abriu a porta para que eu entrasse primeiro. Os detetives, inspetor e consultor, se encontravam, de pé, à nossa espera.

Fui cumprimentada por Greg assim que entrei e recebi dele uma folha de papel com perguntas que poderia fazer, embora tenha deixado claro que não eram obrigatórias.

— Estou considerando que a garota confie em você e espero que ele a deixe falar — segredou.

Como se Sherlock não fosse ouvir o que dissera, com aquela audição biônica que tinha.

— Hooper – me cumprimentou.

— Holmes — retruquei, achando graça. Estranhava sempre que me chamava pelo sobrenome.

John olhava de seu amigo para mim.

— Que bom, isso não vai ser nada estranho – comentou.

— Comportem-se – Lestrade falou, indo até a porta com o doutor.

Estávamos sozinhos esperando nossa interrogada.

Sentei. Sherlock bufou, claramente irritado por ser comparado, mesmo que implicitamente, a uma criança. Pegou uma cadeira e sentou-se ao meu lado.

— Está atrasada – começou, pronto para uma discussão.

Olhei para ele.

— Não teme mais minha brutalidade?

Ele riu.

— Sabia que John não aguentaria guardar uma informação para si – falou. – E ainda não – me respondeu.

Sorri, estranhando aquela conversa. É fácil imaginar a vida dele como uma montanha russa alucinada, cheia de crimes e casos para resolver, e esquecer que, em raras ocasiões, ele agia de forma agradável.

— O que foi? – perguntou, quando ficamos em silêncio.

— Às vezes, você parece...

— Normal? – sugeriu.

— Ia dizer divertido.

— Sinta-se com sorte, isso não aparece no...

A luz da sala apagou, voltando segundos depois.

Mais uma vez, o ciclo se repetiu. Ao que parecia, o sistema de energia estava com problemas.

—... blog do John. – Sherlock concluiu e me olhou – Por que tão séria, Hooper? Com medo do escuro? – provocou.

— Nossa interrogada está demorando – comentei.

Ele concordou.

Logo, ouvimos passos apressados vindos de fora.

Um tipo de movimentação incomum.

O detetive se levantou e caminhou até a porta.

— Me acompanha? – perguntou, curioso.

— Sem dúvida – respondi.

Saímos dali e vimos que algo acontecia. Ouvi quando chamaram reforços e uns poucos sussurros que falavam de uma queda no sistema, além de uma ação do esquadrão antibombas.

Assustada. Era assim que estava. Sherlock tentava assimilar as informações disponíveis no momento, sendo visível seu esforço, embora parecesse tão perdido quanto eu com tudo aquilo em volta.

— Ah, vocês estão aí! – Donovan vinha do fim do corredor à esquerda e andava rápido. – Estão requisitando sua presença, esquisito – fuzilou-o com olhar. – E a sua também, srta. Hooper – acrescentou.

Indicou-nos o caminho para seguir. O mesmo que tinha pego até ali.

— O que está acontecendo? – Perguntei.

— Quem nos chamou? – Holmes exigiu saber.

Ela nos empurrou para irmos mais depressa, mas nos respondeu o que sabia.

— Greg ligou para mim, cinco minutos antes de achá-los. Disse para eu levar o viciado e você para a entrada da delegacia – falou, dirigindo-se a mim. – Imediatamente!

Viramos à direita. Não lembrava de ter andado por um labirinto quando cheguei.

— Ao que tudo indica – continuou – nosso sistema de dados está com a rede suspensa temporariamente, na melhor das hipóteses. Ninguém consegue estabelecer contato com viaturas ou centrais de inteligência. Na pior das hipóteses... – não terminou.

— Foram hackeados – falei por ela.

Por visão periférica, percebi quando Sherlock me olhou por um instante. Ele estava me analisando, mas isso só durou até chegarmos à entrada.

Estancamos.

Uma mulher de longos cabelos castanhos se encontrava parada à dois metros, frente a frente conosco.

Lestrade estava parado, próximo a ela, falando ao celular. John segurava a mão de Elizabeth. Ambos estavam pálidos, o que me fez questionar o que ocorria ali.

Foi quando reparei nas roupas da mulher desconhecida. Sua blusa era grande, maior que seu número, e dela saíam alguns fios. Havia um volume preso ao seu tórax. Ela aparentava medo.

Entendi perfeitamente a necessidade do esquadrão antibombas.

Meu Deus!

Sentia a pulsação latejar na cabeça. Alta e forte. Quase não pensava direito. Aquilo não poderia estar acontecendo.

Lestrade olhou para nós e falou:

— Ainda bem que chegaram — e virou-se para a mulher bomba, à espera.

— Tenho um recado para vocês –a mulher disse, com uma voz robótica.

E esperamos.