Notas iniciais
Molly tem cada surpresa na vida dela, né? Mal sabe ela que outra está a caminho...

Molly Hooper

— Ora, ora. O único detetive consultor do mundo não cumprimenta um velho amigo – a mulher falou. – Acho que os bons tempos acabaram. Não tenho mais o direito a uma xícara de chá com o herói de Reichenbach.

Ali reinava o mais absoluto e incômodo silêncio. Só ouvíamos ruídos distantes, que poderiam ser muito bem de uma realidade completamente diferente.

— Imagino o quanto John, Sra. Hudson e até mesmo seu irmão – continuou ela – ficaram desolados com a sua morte. Lestrade deve ter dedicado um tributo a você, com a ajuda do seu fã mais entusiasta, aquele fraco do Anderson.

A cada vez que ela falava, suas palavras se tornavam mais parecidas com o Moriarty que me acostumei a criar, mesmo sem nunca tê-lo visto em sua pose de vilão. Ainda assim, ela certamente não se pronunciava com a pompa do nosso ausente interlocutor; suas pausas e seu modo de falar eram mecânicos, com toda sua tensão marcando o conteúdo do discurso.

Um discurso com intenção de comunicar e não dialogar. Com uma mensagem que era, há tempos, muito esperada.

A desconhecida nos encarou e deu uma volta em torno de si com os braços erguidos, seguindo ordens estritas pelo fone em seu ouvido. Tremia.

— Fico feliz por estarem aqui. Todos reunidos e concentrados no que digo. Não se sintam pressionados com isso, vamos aproveitar o momento — e ela parou ao ouvir as novas ordens recebidas. Engoliu em seco antes de voltar a falar.- Até onde sei, não há nenhuma bomba obrigando-os a ficarem calados, há? – o rosto dela se contorceu.

Ninguém questionou.

— O que você quer, Moriarty? – e quando Sherlock pronunciou o nome que todos temiam, foi como se o próprio ar parasse e a temperatura subisse alguns graus, tal a força que aquele título deslocado no tempo possuía.

— Fazer valer os momentos que me foram tirados, roubados. Tive que interromper meu descanso quando descobri que o heroizinho tinha retornado – respondeu. – Eu vi sua morte, Sherlock. E ela foi linda!

— Viu? – Holmes perguntou. – Como?

— Tenho vários olhos ao meu dispor, mas nenhum deles capaz de explicar sua sobrevida.

Sherlock, em contraste aos rostos repletos de medo, teve o estado de espírito de rir.

— Então você simplesmente resolveu voltar dos mortos? – e sorriu em desafio.

— O que não faço por um bom jogo, não é mesmo? – ela respondeu.

Olhei para o detetive por alguns segundos. Ele estava louco, tentando descobrir quais os planos de seu arqui-inimigo, com o familiar brilho da caça e da curiosidade aguçada refletindo em seus olhos de cor indefinida. Tentei passar a mensagem a ele de que aquilo era sério, e não uma brincadeira com fantoches novos e despreparados, porque era isso o que éramos ali.

Infelizmente, não consegui sua atenção.

Só consegui uma atenção indesejada.

— Molly Hooper – e eu tive que me concentrar muito para manter o controle, imaginando que era impossível Jim esquecer quem quer que tenha ajudado seu rival. – Minha doce Molly, eu senti tanto sua falta. Espero, com todo o meu coração, que o presente seja de seu agrado.

Inspirei fundo, afastando da cabeça as imagens do sonho que tive.

— Não quero presentes seus – disse baixo. – Nada ligado a você me interessa – e senti minhas unhas cortando a palma das mãos enquanto eu respondia a quem estava brincando de deus conosco.

Moriarty não podia estar vivo.

Podia?

Novamente, ouvi o zumbido que vinha do fone de ouvido de nossa interlocutora, suas ordens tinham que ser seguidas à risca. Ela voltou-se para Lestrade, que estava concentrado em acompanhar seus movimentos, e estendeu a mão. O detetive da Yard tirou um envelope branco do bolso do paletó e o entregou a Sherlock, que o analisou rapidamente sem comentar.

— Considere isso um pequeno souvenir, Holmes – disse a desconhecida. – Em nome do nosso caso especial.

Era isso? Sem ameaças? Um encontro para a entrega de um envelope?

— Espere um minuto – John falou. – Você nos ameaça com uma bomba. Não só a mim ou ao Sherlock, porque da forma mais insensível nos acostumamos a isso, mas você colocou pessoas que não fazem parte desse teatro gótico que adora fazer em risco, e tudo para entregar a porra de um envelope? – ele gritou, apertando a mão de Elizabeth.

Foi instintivo. Todos os policiais presentes ergueram as armas, numa reação de defesa que não possuiria efeito aqui. Parecia que toda a raiva e frustração do Watson tinha sido o gatilho para todos sentirem a necessidade de tentar algo, mas apenas isso, tentar. Nenhum tiro que disparassem seria capaz de deter o sistema de uma bomba, ou as engrenagens da teia maléfica de nosso vilão.

— John – Sherlock chamou. – Esse não é o momento para isso.

Tinha medo de alguma faísca surgir ao acaso e consumir rapidamente a tensão que se espalhara entre nós.

— Acho melhor dar ouvidos a seu amigo, doutor – a mulher disse com a voz reduzida a um fio quebradiço, claramente apavorada. Seus tremores estavam cada vez maiores, e eu temia que ela não aguentasse por muito mais tempo. – Ouça quem pode proteger sua querida filha e esposa, pois não me esqueci delas.

E toda a cor no rosto do doutor sumiu. Ele ficara tão branco quanto Elizabeth.

Jim tinha colocado todos nós, seus alvos, em seus devidos lugares.

— Esperem notícias minhas – a mulher dizia, com lágrimas escorrendo por sua face. – E segurem essa vadia. Ela treme tanto que é capaz de ativar a explosão no processo.

Quando realizou as últimas ordens, seus joelhos vacilaram. Lestrade e mais dois policiais a agarraram antes que caísse. O detetive inspetor, como convém à sua posição, disparou ordens a seus subalternos que se colocaram a postos para cumprirem e fazerem todo o possível para descobrir informações sobre a invasão ao sistema da polícia. Seu celular tocou e ele atendeu. A ligação durou poucos segundos.

— Atenção a todos – ele gritou ao encerrar a chamada. – Preciso que evacuem o prédio em dez minutos – seus gestos eram rápidos – ou menos, uma equipe precisa entrar para desarmar a bomba – e todos olhamos para a mulher que fora obrigada a ir até ali com explosivos em volta do corpo. Ela era observada pelos dois policiais que a ampararam antes da queda.

— Alguém precisa levar a Srta. Bolton – lembrou a sargento Donovan.

Ele assentiu e apontou para uma policial de cabelos escuros e curtos que digitava freneticamente em um telefone.

— Sue, preciso que acompanhe Elizabeth até um local seguro. Entre em contato com o superintendente e relate o caso, e avise aos parentes dela – falou.

— Já relatei o ocorrido, ele está mandando reforços – ela respondeu.

— Ótimo! – e olhou para mim. – Nada de ir para seu apartamento agora, Molly.

— Óbvio. – Sherlock respondeu. – Nós a acompanhamos – pegou o celular e digitou algo que não consegui ler, mesmo a curta distância. — Vamos!

O detetive indicou uma porta lateral para eu e John seguirmos.

— Para onde? – perguntei, odiando a situação.

John me respondeu quando, após uns minutos, saímos na rua lateral da Scotland Yard, e o detetive já chamava um táxi.

— Baker Street.

Sherlock Holmes

Ao longo de todo o trajeto feito pelo taxista, Molly Hooper não pronunciou palavra alguma. Sua bolsa estava jogada ao meu lado, mas a dona se encontrava de braços cruzados e com o olhar perdido de uma retirante. Os cabelos presos num coque frouxo deixavam escapar alguns fios revoltos; uma perfeita mostra dos pensamentos confusos e raivosos que pareciam lampejar no rosto dela a todo instante.

John falava ao celular com Mary, pondo-a a par dos últimos acontecimentos.

Tanto o doutor quanto Molly batiam ritmadamente os pés, numa evidente demonstração de ansiedade.

Suspirei, lembrando do que presenciamos a pouco.

James Moriarty. O único consultor criminal. Emaranhando-nos novamente em sua teia de ideias. Casos novos.

Ah, aquilo era como o dia em que Mycroft fraturara o siso somado aos poucos erros que cometi nas investigações.

Ao menos foram poucos erros.

Frustrante.

Assim que chegamos, indiquei a Molly que subisse ao apartamento, e quando ela se foi, disse a John que não havia necessidade para estar ali, visto que o mesmo seria mais útil e se sentiria mais calmo quando estivesse com esposa e filha. Ele concordou. Agradeceu. Por fim, passou o endereço ao motorista.

Peguei o celular do bolso do casaco e mandei uma mensagem ao meu querido irmão.

Inspeção. Watson e Hooper. Lazarus falhou.

SH

Sua resposta foi imediata.

As variantes mudam, irmão. Uma volta dos mortos não era esperada...

Inspeção em andamento. Aguarde progresso.

MH

Guardei o celular e subi as escadas, pensando nas variáveis abertas no momento em que Moriarty explodira seu cérebro, e também depois disso, quando fingi minha morte. Nada mais seria o mesmo. Estávamos ilhados entre o momento do suicídio de um consultor criminal e sua enervante volta.

Molly estava de frente para a janela, quando entrei, segurando meu violino. Dedilhava sutilmente pelas cordas, arrancando uma melodia infeliz.

Não sabia que ela tocava.

— Não toco violino, Sherlock – ela falou olhando para mim. – Meu pai gostava muito de ouvir, embora nunca tenha tido vontade em aprender a tocar. Uma tia tentou ensinar a mim e a minha irmã, alguns anos atrás, mas a gente não levava jeito.

E lá estava ela fazendo aquilo de novo. Curiosamente a um passo do que poderia pensar. Agindo de maneira diferente, entendendo sinais, vendo mais que o usual. Desde o dia em que fora atingida pela arma do Estrangulador, Molly Hooper parecia estar mais atenta, como se do dia para a noite tivesse herdado um novo grau de intelecto, ou, mais provável, como se sempre estivesse fingindo.

— Não me olhe desse jeito – ela continuou. – Deduzir você às vezes não é tão difícil. Até parece que sou um caso a ser estudado – colocou o instrumento de volta à mesa. – Quero sair daqui – disse.

— Ainda não – falei.

Tirei o casaco e o envelope que a mulher bomba me entregara.

Era um papel caro, analisei à luz de uma luminária. Boêmio, idêntico ao que recebera durante o Grande Jogo... Bufei, até eu estava pensando nos casos como literatura titular, simplista e romântica de John Watson.

— Caneta tinteiro? – Molly perguntou por cima do meu ombro. – Parker Duofold com pena irídio?

Olhei para ela.

— Está no blog do John – suspirou. – Daqui a pouco você vai suspeitar que posso atirar em você.

— Isso poderia acontecer.

— É verdade – ela concordou. – Deve ser difícil achar alguém que o conheça que não queira atirar no famoso detetive – sorriu de lado. – Abra o envelope, Sherlock.

Cumpri sua ordem. Dentro, havia um pedaço de papel dobrado ao meio com um endereço e uma mensagem codificada.

Cifra maçônica. Moriarty parecia gostar desse tipo específico de escrita, nem um pouco segura, mas misteriosa e interessante o suficiente para atraí-lo. Era um enigma muito simples, entretanto. Comecei a fazer as substituições dos ícones pelas letras correspondentes.

— Às vezes não sei se ele é tão literal ou se gosta realmente de brincar conosco – Molly disse.

— O que quer dizer?

— A frase, como já deve ter descoberto, é literal e dramática, assim como ele – falou.

Encarei-a surpreso, mais uma vez. Estava odiando parecer tanto e com tamanha rapidez ao meu amigo John, era entediante estar em seu papel.

— Pelo amor de Deus, não me olhe assim – ela repetiu. – Cifra maçônica não é complicado ou mesmo seguro, só é esotérico. Qualquer um que ler O Símbolo Perdido aprende.

Tive que concordar. Ela realmente tinha razão quanto à suposição da literalidade de James Moriarty, a frase era poética e ao mesmo tempo sugestiva:

Help I’m alive

My heart keeps beating like a hammer

M

—-----

Socorro, estou vivo

Meu coração fica batendo como um martelo

M

— Meu coração fica batendo feito um martelo – falei, pensando na genialidade por trás daquelas palavras.

Molly pegou o celular. Balançou a cabeça encarando a tela, algo a incomodava. Começou a digitar.

— Eu gosto dessa música – ela disse.

Demorei uns segundos para perceber o que ela dissera.

— O quê? – perguntei.

Ela revirou os olhos.

— Uma música, Sherlock. Achei a frase familiar – ofereceu o telefone a mim e mostrou o que pesquisara. – Metric, banda canadense; o nome da música é Help I’m Alive, caso se interesse.

— Interessante – disse.

Molly sorriu.

— Você não faz ideia, não é? – quis saber. — Dos caminhos que vão aparecer nesse joguinho de vocês.

Não respondi.

— O que acha que é: alguém querendo vingá-lo ou uma rede que mantém seu nome? – ela perguntou, depois de um período de silêncio.

Uns meses atrás, essa seria uma conversa que eu não esperaria ter com ela. Talvez com John ou Mycroft, mas não com a Molly-legista, não de maneira igualitária; e aqui estávamos.

— Ainda não sei dizer – respondi.

Só havia uma certeza. Moriarty estava morto.

Ainda assim, tão vivo como nunca esteve, e ansioso para jogar.

Molly Hooper

Sherlock resolvera bancar o babá e o segurança comigo.

Fui escoltada até meu apartamento.

— Você já pode ir – avisei-o antes de sair do táxi.

Ele bufou.

— Onde estará meu cavalheirismo se não a levar até a porta, Molly? – respondeu sem prestar atenção em mim, segurando o celular e olhando para os lados o tempo todo. Ele estava agindo assim desde que deixamos a Baker Street.

— O que tanto procura? – perguntei.

Ele finalmente me olhou e mudou a postura.

— Absolutamente nada, Hooper – disse. – Vamos, estou ansioso pela xícara de café que, tenho certeza, irá me oferecer.

Sinceramente, ele não fazia sentido, pensei enquanto procurava minhas chaves na bolsa.

Ainda pensava na maneira estranha de Sherlock, quando abri a porta e ouvi uma conhecida voz dizer:

— Molly, estou há eras esperando você, sabia? Pelo menos você sabe cozinhar e deixa comida pronta. A propósito, seus biscoitos acabaram, mas estavam maravilhosos.

De todas as surpresas que poderia ter aquela era quase impossível.

Uma mulher da minha altura saiu da cozinha, rebolando em cima de saltos pretos, calça jeans pantalona e uma blusa verde escuro com decote canoa. Seus cabelos, não mais tão loiros, estavam soltos; ela deu um sorriso radiante quando me viu.

— Finalmente você chegou! – ela disse e parou, pois seus olhos não perderam tempo em mim, eles se fixaram no ponto de interesse mais atrás. Sherlock estava parado na porta, observando nós duas.

Resolvi quebrar o silêncio apresentando-os.

— Agatha, esse é Sherlock Holmes.

Ela o olhou de cima a baixo, apertando os olhos para avaliá-lo melhor. Sua boca fez um pequeno O, ligeiramente surpresa, e em seguida um sorriso de pura malícia se espalhou por seu rosto.

— Molly Hooper – ela conseguiu dizer meu nome com ainda mais malícia, arqueando a sobrancelha. – Que belo namorado você arranjou. Estou encantada! – e estendeu a mão para Sherlock enquanto meu rosto ficava intensamente vermelho.

— Não sou o namorado dela. – ele respondeu e a cumprimentou. Parecia um pouco envergonhado também. Era o mínimo.

Ela me olhou como se não entendesse.

— Essa é minha irmã, Sherlock – falei como se explicasse tudo. Coloquei minha bolsa na bancada da cozinha. Havia um embrulho lá.

Ele aquiesceu e reparou no ambiente.

— Como conseguiu entrar? – ele roubou minha pergunta.

Agatha piscou para mim.

— A vizinha me viu batendo aqui e quando contei a ela nossa ligação, ela concordou em me dar a chave que Molly deixou para emergências – ela disse.

— E claramente essa não é a situação — respondi.

Era bem típico da minha irmã fazer isso.

— Hm – ele resmungou. Devia estar ansioso para sair daqui. – Pelo visto está segura, Hooper – falou, caminhando até a saída. – Vejo você depois – e acenou para nós duas ao sair, fechando a porta.

Cruzei os braços e encarei Agatha.

— Porque está aqui?

— Também senti saudades – ela disse, indo até a sala e sentando-se no sofá. – Parece que conheço seu namorado de algum lugar – falou pensativa.

Revirei os olhos.

— Você deve tê-lo visto nos noticiários. Deve conhecê-lo pelo caso da pintura A Queda de Reichenbach – respondi. – Ele é detetive consultor.

— Isso. O famoso detetive com aquele chapéu nada sexy. Mas devo admitir que ele tem presença e elegância – e a malícia voltou.

— É – concordei. – O que você veio fazer aqui?

Ela desviou os olhos e observou minha estante amarela de livros ao lado da TV.

— Isso é tão você – falou.

— Não mude de assunto, Agatha, o que veio fazer aqui?

— Mamãe ligou várias vezes para você hoje – respondeu e eu lembrei das ligações perdidas que vi quando estava na Baker Street.

— Sim, mas isso ainda não explica sua presença.

Ela inclinou o corpo na minha direção e dedicou-me toda sua atenção.

— Vim até aqui para conversarmos, Molly – respondeu. – Então, podemos começar?

Notas finais
Caso queiram ver a mensagem enviada por Moriarty, acessem esse link: https://68.media.tumblr.com/02dda44c3eec222c37f6fc93081ebaa1/tumblr_okr64sW4Cr1w2wosuo1_400.jpg