Another Me
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Eu estava perdida em meus pensamentos, imaginando tudo o que Ryan pensava sobre mim.
Será que me acha esquisita? Uma garota estranha digna de dó?
Tudo que é possível de negativo eu consegui criar em minha mente, deixando-me ainda mais agoniada na espera por Ryan.
Resolvi ir para casa, tomar um banho e acalmar meus pensamentos. Talvez até, inventar alguma coisa para passar o tempo, e não sei exatamente o quê. Mas não importava. Nada além de ver Ryan tiraria essa aflição de mim. Pensei até em chegar mais cedo na casa de David — onde aconteceria o torneio de xadrez – ao invés de ficar em casa fazendo nada.
Fui até o estacionamento, onde minha bicicleta estava estacionada. Retirei o cadeado num movimento brusco e montei nela. Quinze minutos pedalando por uma rodovia completamente lotada de ônibus escolares, carros, caminhões e motos e, isso foi bem cansativo
Eu já deveria ter acostumado com isso há tempos.
Desci da bicicleta e abri os portões, entrei empurrando-a e soltei a bike no meio no quintal.
– Mãe? — chamei, procurando alguém dentro de casa.
Ninguém. Ainda bem... Estou sozinha.
Subi as escadas correndo, cambaleante, fui direto para meu quarto. Joguei-me na cama, num sentimento de alegria que apenas eu podia entender com um formigamento na pele que me deixava eletrizada. Abracei meu travesseiro, pensando nele, e abri um sorriso enorme.
Ryan...
Se Ryan estava afim de mim, ele deveria ter seus motivos, já que aquela foi provavelmente nossa primeira conversa.
Levantei saltitando e me obriguei a olhar no espelho. E um sentimento de satisfação ou orgulho, amor próprio me consumiu de repente.
Entrei no meu banheiro, encostei a porta e tranquei-a. Novamente me olhei no espelho, e eu realmente precisava de um visual novo. Eu encarava meus olhos, da cor mel. Eu achava-os grandes, das poucas vezes que me lembrava de olhar-me no espelho. Meu rosto era fino, e os lábios um pouco grandes. Meu cabelo era um pouco abaixo dos ombros, era liso e fino, da cor preta.
Sem graça.
Sempre o achei sem graça, sem mais nem menos. Não tinha um corte diferente, ele era... Simples, monótono.
Sem pensar muito bem, abri o armário da pia, vasculhando seu interior. Achei uma tesoura no fundo do armário e a encarei por alguns segundos, imaginando-a dizer:
– Me use, me use!
Antes de me olhar novamente no espelho e cortar o cabelo de forma completamente aleatória, eu inspirei fundo e sorri.
Uma grande sensação de arrependimento me sobrecarregou naquele instante, vendo mechas e mais mechas do meu cabelo caídas no chão. Mas, logo essa sensação passou.
Eu até gostei disso.
Sorri amarelo e criei coragem e me encarei no espelho.
Meu cabelo, que antes era todo numa medida só, agora parecia um espanador, cada mecha uma medida diferente. Uma pequena franja havia surgido exatamente no canto esquerdo.
Soltei uma risadinha. Tinha realmente ficado bom. E um efeito que eu nunca havia provado me atingiu. Eu estava bonita.
Com tudo isso que estava sentindo, juntei toda aquela cabeleira do chão e, antes de tomar o banho mais feliz que já tomei, joguei fora os cabelos junto da minha tristeza e decepção.
Despi-me, jogando minhas roupas no chão, incluindo os sapatos. Liguei o chuveiro e deixei que a água levasse todos aqueles sentimentos ruins que tanto me sobrecarregavam. Ainda caíam fios sobre minhas pernas, difíceis de tirar.
Eu realmente me senti melhor, mais leve, solta.
Passando a mão pelo corpo, eu imaginei Ryan ali, inesperadamente. Era como se Ryan estivesse diante de mim, eu corei, mesmo sabendo que era apenas um desejo.
Fechei os olhos e deixei que minhas vontades me guiassem, levando-me a atos que nunca havia experimentado antes. Era estranho, bom, diferente...
Com minha mão ainda na coxa e a outra tirando mechas do cabelo do rosto, experimentei cada segundo daquilo. Completamente perdida no prazer, ouvi um barulho estrondoso vindo da porta:
– Kate?! – alguém gritava, dando socos na porta do banheiro.
Senti-me, obviamente, envergonhada, como se pudessem ter ouvido ou visto algo do que eu estava fazendo. Corando, respondi a meu irmão:
– Eu já estou saindo. – deixando um tom de desespero escapar.
Ele não disse mais nada, devia estar esperando na sala ou em seu quarto.
Sentindo as bochechas em chamas, eu rapidamente terminei o banho, me enxuguei e saí do banheiro.
Andrew estava sentado na minha cama, estático, a me ver apenas com uma toalha.
O que diabos ele queria no meu quarto? Uma mistura de frustração e vergonha me atingiu.
Ele tinha que atrapalhar justo naquele momento?
Mesmo que ele não possa ter ouvido meus gemidos, eu sabia que ele estava zombando de mim, rindo. Isso e ter me visto apenas numa toalha deixou-me mais envergonhada do que nunca.
– Andrew? – roxa de vergonha.
– Tô saindo. – tampando os olhos, quase dando de cara na porta.
Quando ele saiu, rapidamente eu tranquei a porta do quarto e fechei as cortinas.
Abri meu guarda-roupa à procura de uma camisa específica; e lá estava ela, na última gaveta: uma regata decotada do time preferido de basquete de Ryan: Dallas Mavericks. Eu nem sequer sabia da existência desse time, nunca me interessei por basquete. Mas, depois que Ryan apareceu na escola com uma camisa deles... Eu tive certeza de que ele ia gostar de mim se eu também gostasse do time. Comprei numa lojinha depois que obriguei meu pai a me levar num jogo deles. Eu a tinha em mente desde que descobri que Ryan ia ao torneio, porque era do time de basquete preferido dele e porque era decotada.
Mas fazia frio lá fora, e eu não seria tão oferecida ao ponto de sair de casa apenas com uma regata que exibia meus peitos. Então peguei uma jaqueta de moletom qualquer e fechei-a pela metade. Então meus olhos pararam em cima de uma calça jeans preta, que sempre caira super justa em minhas pernas.
Perfeito.
Calcei um tênis qualquer, que por acaso estava atrás da porta.
Sorri para mim mesma antes de encarar-me no enorme espelho que havia na porta do meu guarda-roupa.
O corte do meu cabelo ficou bom, de verdade.
O que é engraçado é que meu cabelo ficou bom, mesmo eu cortando-o aleatoriamente.
Antes, toda vez que eu me olhava no espelho, nunca via nada demais. Agora é diferente.
O novo corte valorizava meu rosto, que era fino. E não sei se era apenas uma impressão, mas meus olhos pareciam mais bonitos e aquelas olheiras não chamavam mais tanta atenção.
Outro barulho estrondoso na porta me chamou a atenção, dessa vez, sem que ela seja quase arrombada.
– Posso entrar? – disse Andrew, com a voz abafada.
– Entra logo. – eu respondi, quase dentro do guarda-roupa procurando por uma mochila. Não consegui esconder minha irritação no tom de voz.
– O que está procurando? – ele indagou, rindo baixinho.
– A merda da minha mochila! – berrei impaciente.
– Essa aqui? – retrucou, apontando para o gancho na parede, onde minha mochila estava pendurada.
Encarei-o, bufando.
Estive há mais de dez minutos procurando essa droga e ela estava simplesmente pendurada no gancho da parede?
Andrew soltou uma risadinha e isso serviu para me deixar ainda mais irritada.
– É, essa aí. – soltei as palavras, bufando.
Chutei as roupas que ficaram no chão para dentro do guarda-roupa, abrindo passagem.
Podia sentir que qualquer coisa que ele fizesse, sendo o mais inocente e sem intenção, servia para me irritar. Eu ia explodir e acabaria gritando com o moleque. Não conseguiria me conter.
Porque tudo parece estar contra mim hoje (?)
Suspirei impaciente.
– Nada, agora vaza. – provavelmente mais vermelha que um tomate, eu contestei enraivecida.
– Está bem. – disse Andrew baixinho, enquanto saía cabisbaixo.
Vendo-o daquele jeito, chateado, entristecido, fez que caísse um tijolo de remorso em minha cabeça. Mas, aquilo foi o melhor modo de não me irritar com ele, ele precisava sair antes que eusurtasse. Ia ser bem pior para ele.
E para mim.
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