Another Me
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Ryan estava diante de mim, mais perto do que nunca esteve antes.
Eu fitava aquele seus olhos verdes hipnotizantes, e perante isso, meu chão pareceu sumir e minha voz se recusava a sair.
Sua voz doce entrava em meus ouvidos de forma ecoante, fazendo todo o meu corpo se arrepiar, podia sentir minhas bochechas queimarem. Meu peito afundava, de um jeito que minha respiração falhava constantemente.
Estava diante de sua pergunta e ficar apenas mirando-o não era bem uma resposta, então me forcei a dizer:
– E-eu estou bem... – gaguejei, quase num sussurro.
Ele continuava me olhando nos olhos.
– Precisamos sair daqui. – disse ele, puxando-me pelo pulso.
Precisamos que sair daqui?
E sem dar tempo de questioná-lo, ele me arrastou para perto dos banheiros. Parecia quase um sonho andar lado a lado de Ryan. Foi quase um tormento obrigar-me a parar, interrompendo os seus passos.
– E-eu tenho que ir à sala do diretor...
– Você não pode ir lá, – interrompeu-me – a não ser que queira consultar o idiota do psicólogo dessa escola.
– É-e... – gaguejei, sem conseguir completar minha frase.
Por que ele se importa com isso?
– Vamos sair da escola, Kate. – Ryan disse seriamente, apertando meus ombros.
Ele sabe meu nome...
Acho que nunca estive tão perplexa. Era um sentimento de surpresa misturada com felicidade.
Por dentro, eu estava com um sorriso de orelha a orelha. Por fora, estava tão maravilhada que não conseguia esboçar nada em meu rosto, a não ser a cara engraçada que eu sabia que estava fazendo.
Então sem dizer mais nada, eu apenas o segui como um cachorrinho. E de repente, minha ficha caiu:
Eu estou andando com Ryan Bettley.
E aquele sorriso que permanecia apenas dentro de mim até então veio à tona: um sorriso que eu nunca havia aberto em minha face antes.
– Para onde estamos indo? – perguntei, com medo de olhar em seus olhos.
E com um sorriso no canto do rosto, ele respondeu:
– Para qualquer lugar longe daqui.
– Certo... – falei num murmúrio quase inaudível.
Um silêncio súbito nos acompanhou até um dos bancos de madeira envernizada de um parque, próximo à uma lagoa.
Sentamos e, aquele mesmo silêncio incômodo voltou a nós.
Ryan deitava sobre seus braços, entediado.
– Está entediado? – resolvi dizer, afinal.
– Não, apenas cansado. – respondeu, coçando os olhos.
Ryan parecia estar perdido em seu próprio mundo, distante de mim e de todas as coisas que nos aproximavam. Olhando para baixo, diretamente às pernas de Ryan, lembrei-me dos meus desejos mais íntimos e o quanto eu queria realizá-los.
Não consegui mais suportar ficar quieta, apenas à deriva dos meus questionamentos sobre o que Ryan poderia estar pensando.
– Ryan, o que há? – disse impacientemente.
Alguns minutos se passaram e enfim lidei com o fato de que ele não iria responder.
A névoa vinda da lagoa me hipnotizava. Parecia entrar por baixo de minha pele, fazendo os pelos do meu corpo se eriçarem.
– Me desculpe a pergunta, – a súbita quebra de silêncio me surpreendeu por um instante. – Por que atacou o professor? – a expressão de Ryan se tornou severa.
Hesitei por um segundo, procurando uma resposta. O garoto pareceu notar.
– Achei que ele fosse me agredir. – respondi em seco, escolhendo com cuidado cada palavra.
– Agredir? — arqueando as sobrancelhas.
– Se não se importa, — tossi as palavras – eu não quero falar sobre isso.
Ryan encarou-me por uma fração de segundos. Abaixou sua cabeça, concordando, e fitou a lagoa por vários minutos.
Eu disse algo errado? pensei, depois de mais alguns segundos de silêncio.
Passou-se mais de meia hora sem nenhum de nós dizer sequer palavra. Eu já estava me acostumando com isso. Apenas ouvia o som da água e das folhas das árvores que faziam quando o vento batia.
Pelo menos Ryan está aqui...Mas isso não é o suficiente.
Esse pensamento imediato surgiu em minha mente.
– Por que você me trouxe aqui? – perguntei.
A pergunta pareceu atingir Ryan em cheio.
– Eu só... – consegui sentir um tom envergonhado em sua voz. – Eu só pensei que seria um lugar melhor pra você do que lá... quer dizer, no meio de tanta gente rindo... Você sabe...
Soltei um pequeno sorriso que Ryan acabou notando.
Finalmente criei coragem e encarei-o.
– Obrigada por ter feito isso... E por ter me defendido. – soltei. – Nunca pensei que alguém faria isso.
– O que você quer dizer com isso? – indagou Ryan, franzindo a testa.
– É só que... Ninguém faria isso, não por mim, entende? Tudo mundo na droga daquela escola parece me humilhar ou me odiar. Principalmente Casey.
– Bem, isso não é completamente verdade... – ele oscilou.
– O que você quer dizer com isso?
Ele pareceu confuso, como se tentasse procurar as palavras certas.
– Eu não te humilho, não é? Também não te odeio. – sorriu. – Você parece ser uma garota legal.
Você parece ser uma garota legal? pensei, decepcionada.
– Só acho que as pessoas deveriam procurar conhecer você melhor, antes de julgá-la, como fazem o tempo todo. – continuou. – Cansei de ver isso. – ele me encarou. – Foi por isso que te defendi.
Sorri.
– Obrigada.
Ryan me fitava. E de repente, fui novamente hipnotizada por seus olhos verde-escuros, que me encaravam de forma calma, mas confiante também.
Aqueles olhos faziam-me derreter. Mas agora era diferente, eles estavam encarando a mim, intensamente.
Ele parecia se aproximar cada vez mais de meu rosto. Meu coração batia forte, de tal forma que eu não duvidava de Ryan estar escutando suas batidas. Ele se aproximou mais. Podia sentir seu hálito mentolado e até mesmo contar a quantidade de sardas de seu rosto.
– E por outros motivos também... – ele cochichou, num tom tão inaudível, que somente eu poderia escutar.
Eu podia sentir o sangue subir em minha face. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram.
Ele pôs uma das mãos em meu rosto, me fazendo aproximar-se mais de sua boca... Podia sentir seus lábios cada vez mais perto.
– O que está acontecendo aqui? – uma voz indaga, de repente.
Afasto-me de Ryan quase num pulo. Meu coração batia de forma enlouquecida e eu me sentia mais quente do que o costume.
Tinha que interromper logo agora?
Assustada, procuro o dono da voz: Casey.
Ela parecia estar estupefata com o que estava diante dela.
– Isso é sério? — riu. — Você estava quase beijando ela?
Nenhum de nós respondeu. Apenas a encaramos de forma severa.
Casey soltou um risinho indignado.
– Fala sério... Tanta garota por aí, Ryan. Isso é um total desperdício.
Eu realmente não queria discutir com aquela garota. Sabia que ela tentaria me humilhar de alguma maneira e me fazer sentir mal. Mas eu não a deixaria fazer isso, não naquele momento.
Levantei-me do banco e encarei Ryan.
– É, Ryan, tanta garota por aí... – eu disse, rindo e debochando do que Casey havia dito. – Até depois! — sorri pra ele, que contribuiu o sorriso.
Virei-me para ir embora, fazendo questão de esbarrar “sem querer” na garota, e rindo propositalmente.
Ryan quase me beijou.
Eu repetia essa frase várias vezes na minha cabeça durante o caminho de volta à escola. Mesmo Casey tendo interrompido, teríamos nos beijado. E não podia negar, foi realmente uma sensação muito boa ter debochado dela daquele jeito.
E eu quase beijei Ryan.
Sorri.
Foi quando voltei ao colégio que percebi a fome que estava. Olhei para o relógio de pulso.
12h43.
Com a barriga roncando, fui até uma das máquinas de salgadinho no pátio, coloquei US$4,00 e peguei uma batata pequena.
Era engraçado como eu não conseguia parar de sorrir. Qualquer coisa que eu estivesse fazendo, vinha à minha mente o – quase – beijo de Ryan. E pensando nisso, fui caminhando até um dos bancos debaixo dos pinheiros.
Fiquei completamente perdida em meus pensamentos. De tal forma que a ação de pegar uma batata e levar à boca parecia estar no automático.
Eu mal podia acreditar. Algumas horas atrás, eu acreditava que Ryan mal sabia da minha existência no mundo, e então ele disse meu nome. Ele sabia do meu nome, ele sabia da minha existência. Mas até ai, eu não imaginava que ele tentaria me beijar, e ele tentou. Não, ele não tentou, ele ia me beijar. Teria acontecido se não fosse por Casey. Qualquer uma teria ficado furiosa se alguém atrapalhasse seu beijo com um garoto, ainda mais se essa pessoa fosse sua grande inimiga. Eu fiquei um pouco chateada por não ter acontecido, mas eu não me importei com Casey e nem com que ela tenha me humilhado de novo.
Ryan quase me beijou.
Eu imaginei o que Casey e Ryan teriam conversado depois que saí, e se conversaram. Na minha cabeça, eu odiaria que ela permanecesse lá por mais de trinta segundos.
E foi de repente que eu me lembrei do torneio de xadrez que teria às sete. E eu poderia ir acompanhada de Ryan, já que ele iria participar também. Jessica não podia ficar brava comigo, não é mesmo?, eu “não sabia” que Ryan ia ao torneio.
De qualquer forma, eu precisava esperar o tempo passar até às sete. E sem Ryan...
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