Another Life
93 Chapter 93
Notas iniciais
O encontro com Amanda lhe derrubou e mais ainda o que ela lhe disse. Deitada em sua cama com uma das mãos repousando sobre a barriga e os olhos cheios de lágrimas, Sara não parava de relembrar o rápido encontro e os diálogos que trocou com a noiva de Grissom. Por mais que ela não quisesse as lembranças desse momento vinham pra tripudiar dela e lhe causar mais dor.
Por que aquele encontro teve que acontecer?
Será que estava escrito em algum lugar que isso devia suceder pra que ela visse que não teria chance alguma com Grissom caso ele não lembrasse dela nunca e resolvesse lhe conquistar?
Ela não ia mesmo ter chance contra aquela mulher linda e fina como a noiva dele. Aquela tal de Amanda parecia tão acima dela e combinava tanto com Grissom. Enquanto que ela combinava com o Arthur.
Daria tudo o que tinha e até o que não tinha pra seu apaixonado marido voltar pra ela!
Esticando o braço pra apanhar o telefone, a médica decidiu ligar pra única pessoa com quem poderia desabafar e compartilhar sua angustia. Necessitava falar com alguém e a única pessoa que poderia ser sua melhor ouvinte e conselheira nessa situação era sua amiga Lucy.
Discou o número da amiga e esperou. Quatro toques e a voz ofegante de Lucy soou do outro lado da linha.
—Oi, Lucy. Sou eu, Sara. — sua fala não passou de um mero e baixo murmúrio.
—Sara o que houve, por que essa voz?
Ela então começou a chorar na linha deixando Lucy preocupada com aquilo. A mãe de Doug e Lewis logo imaginou que aquele choro tivesse relação com Grissom/Arthur ou algo que ele deva ter feito a ela. E sem ter a certeza do motivo do pranto da amiga, Lucy lhe disse palavras de conforto e tentou tranqüilizá-la. Quando Sara se acalmou e parou de chorar alguns minutos depois, Lucy então soube a causa do choro da morena e teve que reconhecer que aquilo certamente deve ter sido um duro golpe pra sua amiga ouvir aquilo.
—Sara, eu sei que você o ama e prometeu ao Arthur que ia lutar pra fazê-lo lembrar de você caso a memória dele voltasse e ele esquecesse de você, mas não acha melhor desistir disso, minha querida? Já tem duas semanas e nada. E além do mais, pelo que tudo indica ele vai casar com essa noiva.
—Se fosse você no meu lugar e o Grissom fosse o Yuri, você desistiria do amor da sua vida, Lucy?
—Não! — respondeu a outra mulher segundos depois que a pergunta de Sara lhe foi feita.
—Nem eu vou desistir dele.
—E se ele casar com essa moça? Você ainda vai insistir?
—Eu quero acreditar que ele não irá casar e que lembrará de mim antes disso.
—Eu vou torcer muito por isso e por você, Sara. E qualquer coisa é só ligar que eu tô aqui há milhas de distância, mas eu tô aqui, querida, para o que você precisar.
—Obrigada, Lucy.
***
Dia seguinte...
—Você não precisava me acompanhar, sabia?
—Mas eu quero oras! E de nada por vir com você, tá?!
Ele suspirou e olhou pra irmã.
—Desculpa e obrigado por vir, Catherine.
A irmã dele sorriu, estacionando na frente ao estabelecimento do costureiro amigo de Amanda.
—Vamos lá noivo ver esse seu fraque como ficou?
Eles saíram do carro de Catherine e seguiram pra dentro do estabelecimento diante deles. Ao adentrarem no lugar encontraram o dono do local ali na recepção falando com uma jovem.
—Olha só se não é o meu noivo mais célebre e bonitão! — Don disse com um largo sorriso de empolgação.
Grissom franziu a testa e olhou pra Catherine que parecia se divertir do escarcéu que Don, o costureiro gay, fazia ali diante deles.
—Olá! Eu vim pra prova do fraque.
—Ai, mas claro, meu querido. Venham comigo! — Don seguiu a frente sendo acompanhado pelos irmãos Grissom. _E Amandinha? — o costureiro quis saber. Ele e Amanda eram velhos conhecidos. Estudaram juntos logo no começo da faculdade e fizeram amizade instantaneamente. E apesar de seis meses depois de terem começado o curso, Don ter mudado pra outro, os dois amigos não perderam o contato.
Don abandonou o jornalismo, que tinha sido uma imposição do pai, pra fazer o curso que queria, no caso moda. E não foi só isso que ele mudou. Don ainda "saiu do armário" para o pai. Até então ele fingia ser hétero, mas então resolveu se assumir para desgosto do pai que lhe expulsou de casa e desde então, há quase dez anos, Don não tinha mais contato com o pai.
—Amanda está bem, obrigado.
—Se conheço minha amiga, ela deve estar num nervoso só com a proximidade do casório.
—Um pouco.
—Don, Warrick pediu pra te avisar que virá pra ver o fraque dele amanhã pela manhã. Tudo bem? — questionou Catherine.
—Tudo ótimo, querida. Ele pode vir a hora que quiser.
—Ei, e sem gracinhas pra cima dele. Warrick me contou sobre suas cantadas baratas.
Don deixou escapar uma escandalosa gargalhada.
—Não me contive com seu marido. Desculpa, querida. — pediu com um sorriso. _Aqui, seu fraque, bonitão. — Don puxou a peça da arara e estendeu a Grissom. _Coloque pra vermos se ficou perfeito os ajustes. O provador é ali. Se quiser ajuda pra...
—Eu sei muito bem me vestir sozinho. — Grissom apanhou a peça da mão de Don e seguiu para o provador.
—Ai, Catherine! Eu adoro a seriedade e a macheza desse seu irmão. — Don comentou com Cath quando Grissom saiu dali de perto deles e entrou no provador.
—Don quer segurar essa sua bicha interior? — brincou Catherine rindo. Ela se divertia com o jeito de Don e o escancarado fascínio dele por Grissom.
—Catherine passei anos da minha vida segurando a bicha dentro de mim. E depois que a expulsei e coloquei a danada pra fora, não tem santo que a faça voltar pra dentro. Ainda mais, quando me deparo com um bofe como esse seu irmão ou então o seu marido. Olha, você e Amanda são duas sortudas. Onde vocês encontraram esses dois espécimes que eu também quero um assim?
—Eu queria saber como durante anos você conseguiu pousar de macho e esconder o ser gay que você é.
—Ai, amada, só Deus sabe! Acho que foi muito autocontrole, coisa que agora não tenho mais em relação a isso. Vamos ser gay assumido e escancarado.
—Você é uma figura, Don. — Catherine riu e a ajudante do costureiro que estava ali ao lado também sorriu.
Quase dez minutos depois Grissom saiu do provador vestido com o fraque.
—Ai, minha Nossa Senhora da linha e da agulha! Você ficou mais divido ainda, Grissom! Daria tudo pra ser a noiva só pra ter um noivo escândalo como você. — Don não resistiu em deixar escapar isso ao ver Grissom.
O empresário ficou completamente constrangido com isso. Olhou em desespero pra irmã que se divertia. Ele desconfiou que tenha sido essa razão pela qual ela veio.
—Você quer parar com isso? — pediu Gil ainda sem jeito e levemente incomodado já com aquele comportamento de Don com ele.
—Ai, desculpa! Parei! Vem, deixa eu ver se ficou tudo certo.
Deixando a brincadeira de lado, Don observou nos mínimos detalhes os ajustes que tinha feito na peça que Grissom usaria. Tudo tinha ficado excelente.
—Tudo certo, gatão. Pode ir lá tirar.
Grissom foi imediatamente se trocar. Minutos depois estava de volta e entregando o vestuário à Don. O costureiro avisou que ia mandar as peças pra tinturaria, depois pra lavagem e quando fosse um dia antes do casamento ia mandar entregar a roupa na casa do empresário.
—Tchau, gatão!
—Tchau! — limitou-se em dizer Grissom já se afastando do costureiro. _Vamos Cath. — chamou já seguindo para a porta.
—Você gosta de constrangê-lo, né?
—Não resisto. — riu Don. _Tchau, querida. Vou esperar seu marido amanhã.
—Okay. Tchau!
Catherine saiu do estabelecimento e encontrou seu irmão escorado ao carro com uma cara de desagrado.
—Queria entender qual é problema do Don que fica assim toda vez que venho aqui?
—O "problema" dele é que sofre de paixonite por você.
—Que engraçado.
Catherine sorriu e acionou o alarme pra seu irmão e ela entrarem no veículo.
—Ainda bem que não demorou tanto aqui. Ainda dará tempo de estarmos presentes na reunião das quatro. — contou Catherine colocando o cinto de segurança.
—Eu não estarei presente nessa reunião.
—Por quê?
—Tenho um compromisso.
—Ah, já posso até imaginar qual seja. — resmungou a loira dando a partida no carro. Ela achava muito errado seu irmão ficar de encontro as escondidas com Sara. Não queria nem imaginar o que Amanda ia achar disso quando soubesse.
—Quero que me deixei no shopping. — contou ignorando as palavras da irmã. Se ela já imaginava qual era seu compromisso então ele nem precisava dizer. _Vou aquela loja de bebê comprar um presente.
—Vai comprar um presente pra sua filha?
—Não. É pro... Meu outro filho.
Catherine foi pega de surpresa duplamente por essa resposta dele. Primeiro por ouvi-lo se referir pela primeira vez ao bebê de Sara como também "seu filho". E, segundo, por ele ir comprar um presente para o bebê. Seu irmão havia mudado em relação a mãe desse seu segundo filho e até em relação ao próprio bebê. E essa "mudança" do irmão acendeu um sinal alerta na cabeça de Catherine.
—Gil, você não está se envolvendo com essa moça, não é?
Ele olhou pra irmã no mesmo instante, mas ela não retribuiu o olhar pois estava com sua atenção focada na pista.
—Só porque vou comprar um presente pro bebê?
—Não me responda com outra pergunta. Eu tenho notado você em relação a Sara. Toda vez que a menciona sinto algo diferente em você. Está gostando dela, Gil?
Por que será que ela tinha que ter uma irmã tão astuta e perspicaz daquele jeito? Parecia que Catherine tinha um radar pra detectar as coisas.
Sim, ele estava gostando de Sara. Mas também gostava de Amanda na mesma proporção. Seus sentimentos andavam confusos e por hora sua irmã não tinha que saber disso.
—Catherine não vê coisas onde não tem!
—Será mesmo que não tem?
Ele não ousou responder. Se dignificou a ficar calado. E em silêncio eles seguiram o caminho até Catherine parar em frente ao shopping.
—Obrigado pela carona! Daqui pego um táxi e apanho meu carro na construtora. Até à noite. — ele despediu-se da irmã antes de sair do carro.
—Gil! — Cath o chamou assim que ele saiu e antes que se afastasse do carro.
—Sim! — Grissom se agachou pra falar com a irmã pela janela do carona.
—Compre algo para seu filho numa cor neutra já que ainda não sabe o sexo do bebê.
Ele apenas assentiu e sorriu.
***
Ele se arrependeu de não ter pedido a irmã pra que viesse com ele escolher algo. Havia tanta coisa linda ali que ele não sabia por qual optar e levar de presente. Roupa, brinquedo de pelúcia, acessórios, eram inúmeros os objetos que poderia comprar de presente, que estava até perdido.
—O senhor já escolheu algo. — uma solícita vendedora se aproximou e Grissom viu a ajuda que poderia lhe salvar ali.
—Na verdade não sei o que escolher. — ele contou sem jeito. _O que me sugeri?
—Roupinhas são sempre uma boa. O senhor sabe o sexo do bebê?
—Ainda não. A minha irmã me sugeriu até comprar algo de cor neutra.
—Sim. Assim serve pra caso seja ou um menino ou uma menina.
—Acho que vou levar uma roupinha mesmo. Poderia me mostrar alguns modelos de macacões?
—Claro. Venha aqui comigo.
Ele seguiu até o balcão com a jovem e ela lhe mostrou uma dezena de modelos da peça pedida por ele. Era um macacão mais lindo que o outro.
—Eu gostei deste! — ele apontou o último macacão que ela havia lhe mostrado.
O modelo que cobria os pés e contava com uma touquinha, era na cor branca e trazia um pequeno urso panda com uma borboleta bordados delicadamente ao centro da peça de algodão, bem na altura do peito do bebê.
—Pode embrulhar pra presente?
—Posso sim, claro!
Enquanto a vendedora embrulhava pra presente, Grissom foi até o caixa pagar sua compra. Momentos depois saia da loja carregando um pequeno e delicado embrulho com tema infantil, e enfeitado com um laço amarelo.
À caminho da saída do shopping pra pegar um táxi, Grissom ligou para o hotel de Sara. Assim que a ligação foi repassada para o quarto da morena e a mesma atendeu, ele sentiu no seu tom de voz que algo não parecia bem com ela.
—Sara tá tudo bem?
—Sim!
Não era o que parecia pra ele.
—Eu liguei pra saber se a gente pode se ver em meia hora?
Da parte de Sara a linha ficou em silêncio por um breve instante. E quando Grissom já ia falar algo, a médica lhe disse:
—Me desculpa, Grissom, mas a gente pode se ver só amanhã?
Apesar de querer vê-lo, ela não se sentia em condições de estar diante dele sem deixar transparecer que estava abatida pelo encontro de ontem com a noiva dele.
—Amanhã? — ele parou de caminhar no mesmo instante. As palavras dela foram meio que um balde de água fria nas intenções de Grissom.
—Sim. Eu... reencontrei um velho conhecido e a gente marcou de sair daqui a pouco. — ela inventou de supetão pra justificar a razão pela qual não poderiam se ver hoje.
—Um conhecido?? — murmurou Grissom e ouviu a confirmação ainda que tímida e baixa da médica do outro lado da linha.
—Fica pra amanhã de a gente se ver?
Havia uma pontada de decepção e frustração nele por aquilo. Queria vê-la hoje e assim lhe entregar o presente que comprou, mas pelo visto não seria possível.
—Fica! — foi a única resposta dele em tom decepcionado.
Eles se despediram e a ligação foi encerrada. Um suspiro de puro desapontamento escapou dele. Guardou o celular no bolso e seus olhos bateram na sacola do presente em sua mão esquerda.
"Uma pena não poder entrega-lo hoje!"— pensou, retomando sua caminhada em direção a saída do shopping.
Apanhou um táxi e seguiu para a construtora. Já que não iria mais encontrar Sara então resolveu trabalhar.
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