Another Life
90 Chapter 90
Notas iniciais
Acomodada numa cadeira acolchoada na recepção do edifício da editora, Amanda aguardava a vinda do noivo pra buscá-la. O desagradável mal-estar que sentia em decorrência da queda de pressão que tiveram mais cedo, até havia amenizado um pouco, mas não a ponto de ela se sentir segura pra dirigir sozinha. Se seus pais tivessem na cidade, ela teria ligado a um deles pra vir lhe apanhar no trabalho, mas como ambos viajaram em virtude de um evento que Perry ia participar fora da cidade, então a jornalista teve que recorrer a seu noivo.
Ela podia ir de táxi pra casa, mas desde o assalto que sofreu no mês retrasado quando estava indo de táxi do trabalho pra casa, ficou com trauma de pegar táxi.
—Ei, pensei que já tivesse ido!
A jornalista viu sua amiga e colega de trabalho vir em sua direção.
—Estou esperando o Gil. Liguei pra ele vir me buscar. Não tô bem pra dirigir.
—Ainda tá se sentindo mau?
—Não tanto quanto na hora que minha pressão baixou, mas ainda me sinto um pouco desconfortável. Tenho medo de estar dirigindo e passar mau no meio do caminho, por isso liguei pro Gil.
—Podia ter me dito que eu não teria problema em levar 'vocês' em casa. — a amiga de Amanda tocou a barriga da jornalista.
—Eu sei amiga. Mas está seria uma ótima "desculpa" por assim dizer, de eu ir pra casa com um motorista bem particular. — Lorena sorriu dessas palavras da amiga, mas notou que a mesma após sorrir junto com ela, ficou séria.
—O que foi Amanda?
—Às vezes eu tenho sentido o Gil meio estranho e distante, mesmo ele estando ao meu lado.
De uns dias pra cá ela vinha percebendo isso.
—Não é impressão sua amiga? Vai ver que isso é só nervoso dele por conta da proximidade do casamento.
—Não, Loh.
Conhecia seu noivo o bastante pra detectar quando algo andava diferente nele como era o caso dos últimos dias.
—Ou então deve ser porque ele ainda está no processo de se reambientar com a vida dele.
—Não creio que seja isso também!
Seu "faro" de jornalista lhe dizia que havia algo e que não era nenhuma das coisas que sua amiga mencionou.
—Você quando encasquetar com alguma coisa, né? — Lorena tinha um sorriso.
—Geralmente estou certa quando encasqueto.
—Eu acho que dessa vez só pra variar, você deve estar errada.
"Tomara que eu esteja!"— pensou a ruiva.
—Vou ficar aqui te fazendo companhia até o Grissom chegar pra te buscar.
—Não precisa, Loh. Você deve estar doida pra ir pra casa.
—Eu faço questão de ficar aqui com a minha amiga. — decretou Lorena sentando-se ao lado de Amanda. _E os preparativos do casamento?
—Estão indo a todo vapor.
Mesmo sendo um casamento com festa pequena, ainda sim, o trabalho era grande. Não tanto quanto o outro organizado, diga-se de passagem, mais era trabalhoso.
—Faltam apenas duas semanas, né?
—Sim. E não vejo a hora desse dia chegar logo e eu me casar com ele.
—Você o ama muito não é?
—Demais, Lorena! Tive a terrível "experiência" de passar um tempo sem ele ao pensar que Gil estava morto e foi a pior coisa. Eu não me imagino mais sem ele! Quero passar o resto da minha vida com o Gil e dar mais dois irmãos a Lizzie.
—Ouviu só princesa? Você ainda nem nasceu e sua mãe já está pensando em te dar dois irmãos!
Lorena sorriu afagando a barriga de Amanda.
—Mais é claro. — Amanda sorria. _Lizzie não será filha única que nem eu, né minha princesa? Ela vai ter irmãos ou nem que seja um só, mas vai ter.
***
Parado esperando o semáforo abrir pra seguir caminho pelas vias de Los Angeles, Grissom relembrava o abraço trocado com Sara. Tinha sido tão bom abraçá-la! Não podia imaginar que aquele simples gesto trocado por eles fosse lhe desencadear as coisas que desencadeou. Mexeu com ele de um jeito que não conseguia dimensionar ou precisar. E o que era aquele perfume dela? Algo tão agradavelmente familiar e gostoso de sentir. Ficou gravado em seus sentidos e talvez não o esquecesse mais depois de hoje.
O sinal abriu e ele seguiu com seu carro. Se só com aquele abraço ele ficou assim, imagina se tivesse deixado com quê o beijo acontecesse entre eles antes disso?
Mas ele tinha consciência de que beijá-la seria a pior traição com Amanda. Já estava traindo sua noiva vendo Sara as escondidas dela. Sem contar no fato de ainda omitir de Amanda o envolvimento que teve com Sara enquanto esteve desaparecido e nos sentimentos que andava começando a ter pela médica.
Ele sabia que estava se envolvendo com ela mais do que devia. Se enveredando por caminhos que talvez não tivessem volta e que, certamente, fariam alguém sair magoado no fim da história.
"O quê que eu estou fazendo?"
Gostava de Amanda, mas havia algo crescendo por Sara tanto a ponto dele não conseguir mais se afastar dela. Agora, a cada novo "encontro" com a jovem, ele sentia mais a necessidade de lhe ver, de estar ao seu lado, conversar com ela, ou melhor, escutá-la, saber a seu respeito, enfim... Passar nem que seja poucos minutos com ela!
Sara tinha mesmo um jeito cativante e apaixonante como foi mencionado por ele mesmo em uma das gravações no pendrive que Sara lhe deu, o qual já tinha sido revisto umas trocentas vezes por ele desde que Sara lhe entregou aquilo.
E nesses dias em que ele e Sara já andavam se vendo, Grissom pode comprovar esse fato dito por si próprio num dos vídeos. Foi tão rápido e fácil se encantar com ela. Dois encontros depois do primeiro que tiveram, foram necessários pra isso e para o empresário deixar totalmente pra trás a imagem deturpada de oportunista que ele criou de Sara assim que a conheceu na casa dela.
De oportunista ela não tinha absolutamente nada! Era uma jovem que ele identificou como sendo íntegra, de bom coração; alguém que já sofreu algumas perdas e decepções contadas por ela própria à ele em um dos encontros anteriores deles. E que era linda!
Ela tinha um sorriso tímido que lhe deixava mais encantadora do que era, uma fala doce e mansa que conquistava, e um jeito de ser que fascinava. Certamente, foram por essas e outras razões que ele como Arthur acabou se apaixonando por ela. E, agora, como Grissom se via encantado pela mesma!
***
Deitada em sua cama no hotel Sara não tirava da cabeça o abraço com Grissom. Da frustração do beijo negado, ela foi agraciada pelo abraço reconfortante que trocaram na despedida deles. E não foi um simples abraço! Ela sentiu que houve sentimento e carinho da parte dele ao trocar aquele gesto com ela.
Ele podia ter lhe abraçado rápido e de maneira nada calorosa como ela sentiu que foi o abraço deles. Mas não foi assim! Ele lhe abraçou demoradamente e o melhor, com tanto carinho que por um momento, enquanto estava em seus braços Sara chegou a imaginar que era seu marido apaixonado quem lhe abraçava.
—Será que ainda vai demorar muito pro seu pai lembrar da gente, filho? — sua mão deslizou pela barriga que começava a aparecer quando ela usava roupas mais justas, o que não era o caso naquele momento posto que Sara trajava uma blusa mais folgada. _Tomara que ele lembre antes do casamento. Ou que ele nem case mesmo não lembrando nada.
Duas semanas! Em duas semanas ele tinha que lembrar. Ou do contrário sua torcida seria pra ele desistir do casamento, algo que ela achava improvável de ocorrer, porem não impossível!
***
Grissom estacionou em frente a editora onde Amanda trabalhava, saltou do carro e se dirigiu para o prédio. Ao passar pelas portas de vidro do mesmo, ele enxergou sua noiva na companhia de Lorena. Seguiu até elas que estavam há pouca distância dele.
—Oi! O que houve com você? — preocupou-se em saber o empresário dando um beijo e abraçando a noiva.
Ao não obter uma pronta resposta de Amanda, o empresário desfez o abraço com ela pra lhe encarar. Encontrou-a com uma expressão séria, totalmente, contrária a de segundos atrás quando ele a avistou rindo com amiga assim que entrou no prédio.
—Amanda?? Está tudo bem com você?
—Ela teve uma queda de pressão mais cedo e desde então não ficou bem, Grissom. — explicou Lorena já que por alguma razão desconhecida sua amiga fitava o noivo calada, sem responder a pergunta que ele lhe fez.
Grissom assentiu e tratou de pedir desculpas a amiga de sua noiva por nem ter lhe cumprimentado quando se aproximou delas. Lorena aceitou as desculpas dele e se dirigindo a Amanda avisou que agora que o noivo da amiga já estava ali, ela iria pra sua casa. As duas trocaram um abraço e Lorena desejou melhoras a amiga. Na sequência ela se despediu de Grissom e saiu, deixando o casal sozinho.
—Você não quer que eu te leve ao hospital pra saber se está tudo bem?
—Não é necessário. Você pode me levar só pra casa mesmo.
—Como seus pais não estão na cidade e você não está bem, eu acho mais prudente passar essa noite lá em casa comigo, do que ficar sozinha na sua casa.
—Grissom, eu não vou ficar sozinha. Tem empregados lá em casa.
—Mas eu vou ficar mais tranquilo se você dormir lá em casa. Vamos?
Sem vontade de discutir ou entrar em conflito com o noivo por isso e por outra coisa que ela "percebeu", ou melhor, sentiu nele, a jornalista aceitou o que ele disse e seguiu calada com Grissom para o carro dele.
O trajeto até a casa do empresário foi silencioso da parte de Amanda, algo que no mínimo foi inusitado pra Grissom já que sua noiva é sempre tão falante. Ele atribuiu esse silêncio dela ao fato de ainda não estar se sentindo bem.
—Você ainda se sente mal?
Ele aproveitou o sinal fechado pra tocar a mão dela e lhe olhar. Estava preocupado com seu estado e seu comportamento quieto demais pra seu gosto. Ela não era assim!
—Não. Está passando. — ela se limitou em dizer enquanto era assolada por pensamentos nada agradáveis que passavam em sua mente, sem que ela quisesse.
O restante do caminho foi feito sem que mais nenhuma palavra fosse dita. E esse fato incomodou Grissom. Pela primeira vez o "som" do silêncio que ele tanto prezava em certas ocasiões, dessa vez lhe incomodou profundamente.
***
Deitado em sua cama e abraçado a Amanda que estava acomodada a sua frente, Grissom se pegava tentando supor qual seria o "problema" com sua noiva. Até Catherine notou algo estranho com a jornalista durante o jantar e comentou disfarçadamente com o irmão isso após a refeição deles.
"Também não sei o que ela tem!"— foi a resposta que ele deu a Catherine quando ela lhe questionou a respeito da noiva dele estar calada e quieta durante o jantar todo.
Com cuidado pra não despertar sua noiva, ele deslizou com delicadeza uma das mãos pelos cabelos dela pra logo em seguida, esconder o rosto neles a fim de sentir o perfume que emanava deles. Foi impossível não lembrar do perfume que sentiu nos cabelos de Sara e compará-lo com o que sentia em Amanda.
Eram cheiros completamente diferentes!
O na primeira era um floral suave propício a um domingo de primavera. Já na segunda era algo mais marcante e vivaz como uma noite quente de verão. Ambos lhe agradavam ao seu modo e ambos tinham seu fascínio. Porém, havia uma leve predileção em seu olfato pelo suave de Sara.
Aquele perfume dela se agarrou ao seu olfato e grudou em seu cérebro, que o empresário não o tirava mais da cabeça. Assim como não tirava também o abraço que trocou com a dona do perfume naquele dia.
Recriminou-se mentalmente por estar com os pensamentos na morena enquanto se encontrava com sua noiva dormindo em seus braços. E pela segunda vez naquele dia ele se questionou: "O quê que eu estou fazendo?"
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