Notas iniciais
Aqui teremos um pequeno, mas necessário "estranhamento" entre Sara e Arthur.

Arthur achou no mínimo estranho e curioso esse "corte" que Sara lhe deu. Ele pôde perceber que depois da pergunta que lhe fez, a jovem ficou mais calada e aquela tristeza que ele via em seus olhos, acentuou-se mais ainda.

—Porque eu tenho a impressão de quê aconteceu algo sério com você que te fez vir pra esse lugar. — Arthur comentou enquanto Sara lhe auxiliava a chegar ao sofá.

Era nítido pra ele que havia acontecido algo com ela. Ninguém abandona uma cidade grande que diz gostar tanto como Sara disse à pouco, e vêm se "enterrar" num lugar longínquo desse, do nada e sem ter uma razão plausível.

—Não aconteceu nada. — Mentiu a jovem.

—Você está doente e por isso veio viver nesse lugar?

Ele arriscou em perguntar enquanto ela o ajudava a se sentar.

Sara pôde ver a preocupação nos olhos deles assim que o fitou após sua pergunta.

—Eu estou perfeitamente bem de saúde, Arthur! — A jovem o tranquilizou. O que não andava bem era seu emocional.

—Então por que largou sua cidade pra se isolar nesse lugar?

Ele não conseguia entender isso. Precisava de uma resposta que "justificasse" bem aquilo.

—Eu já falei que queria tranquilidade e sossêgo.

Aquela justificativa dela não o convenceu em nada.

—Olha, Sara... Eu posso ter perdido a memória, mas não a capacidade de perceber quando uma pessoa esconde algo sério que lhe faz sofrer.

—Não sei do quê você está falando.

Ele ficou a fitando por um breve instante até que ela desviou o olhar dele.

—Tudo bem! Se você não quer falar, eu não vou ficar insistindo. Não quero parecer chato e intrometido. Você está sendo tão incrível comigo e eu não quero te aborrecer.

Arthur resolveu parar por ali, pois já estava ficando claro pra ele que ela começava a demonstrar certo nervosismo e um pouco de irritabilidade com a insistência dele.

—Eu vou subir e dar uma ajeitada no quarto que você ficará.

—Tá bem!

—Vê se não levanta daí dessa vez, pode ser?

—Não vou arredar o pé daqui, senhorita!... Prometo!

Arthur esticou os lábios em um sorriso que fez a expressão de Sara suavizar um pouco.

Ela seguiu escadas acima pra ir ao quarto que disponibilizaria à Arthur. Ao chegar lá, Sara sentou-se na cama e suspirou. Arthur parecia ter lido sua alma e descoberto seu segredo ainda à pouco quando falou aquelas coisas. Era como se ele estivesse vendo o que se passava dentro dela. Isso a deixou um tanto assustada e desconcertada. Aquele desconhecido parecia desvendá-la com uma facilidade que poucos conseguiram. Se questionou como isso era possível?

Eles se conheciam há pouco mais de 24hs, mas a sensação que ela tinha era de quê ele lhe conhecia há anos!

Algo no mínimo intrigante!

...

Era fim de tarde, o sol se punha lá no horizonte e acomodado numa cadeira ali na sacada do quarto, Arthur admirava a vista em companhia de Sara. Ele havia insistido tanto pra ela ficar ali com ele, que a moça cedeu aos seus pedidos insistentes.

—Acho que vou querer morar aqui com você pra sempre. — Ele comentou em tom de brincadeira e olhou pra moça ao seu lado, e pelo olhar distante que ela tinha, Arthur deduziu que Sara sequer tinha lhe ouvido. No quê ela estaria pensando?

O homem aproveitou que ela nem estava lhe olhando, e ficou admirando-a. Ela era uma jovem muito bonita. Tinha traços de alguém nobre, porte delicado, um sorriso encantador e carregava uma tristeza no olhar, que ele adoraria saber qual era pra quem sabe, lhe ajudar de algum modo, como ela lhe ajudou e está ajudando.

Talvez, quando ela se sentisse mais a vontade com ele, lhe revelasse seu segredo. Ele gostaria muito que isso acontecesse, pois queria muito retribuir aquilo que ela estava fazendo por ele. Sem contar, que desde que se conheceram ontem, ele sentiu uma "coisa", que não sabe bem descrever o que é, somente sabe que do seu lado ele não quer mais sair.

—Sara!!

Ele a chamou, mas ela não lhe respondeu. Então ele chamou mais uma vez e tocou delicadamente em seu braço. Desta vez, ela lhe ouviu e olhou pra ele.

—O que foi?

—Tá tudo bem?

—Tá. Por que a pergunta?

—Você parece distante e preocupada.

Ela não parava de pensar na família daquele homem que deveria estar desesperada por seu sumiço.

Não devia ter compactuado com aquilo. Devia ter levado-o para uma delegacia pra encontrar sua família. Esse era o certo a se fazer. Mas não! Ela foi trazê-lo pra sua casa.

Não era pra ele estar ali. Mas, curiosamente ela o queria ali. E ele também, queria o mesmo!

—Eu não consigo deixar de pensar na sua família. — Ela confessou, dando um suspiro.

—De novo isso, Sara?!

Ele se aborreceu um pouco com isso. Se ele que era ele, não estava preocupado e pensando nisso, ela também devia estar menos ainda. Mas pelo visto, esse não era o caso!

—Você pode não estar nem aí pra eles, porque os esqueceu. Mas eu fico pensando na angústia que eles devem estar passando e me sinto culpada por ter te trazido pra cá.

— Olha, você não tem que se sentir assim. Eu te pedi pra me trazer e não me levar a delegacia.

—Você não se sente mau ao pensar que seus familiares podem estar desesperados atrás de você.

—Eu não lembro de ninguém. Então como vou me sentir mau por pessoas que nem lembro?

Ela estava achando de uma insensibilidade sem tamanho esse comportamento dele. Que espécie de pessoa ele era? Ou será que a amnésia o tornou esse insensível?

—Aposto que deve estar me achando um monstro por isso...

—Um monstro não. Mas insensível, sim!

Ele não tirava a razão dela de achar aquilo. Realmente, ele estava sendo insensível, mas tudo o que ele lhe disse era o que ele sentia de verdade. E se ser verdadeiro era passar a ideia de insensível, então ele teria que conviver com isso.

—Sara, você quer que eu vá embora daqui pra quê não se sinta mais culpada? Eu posso ir.

Ele sentiria muito em ir e se afastar dela, mas não queria que ela se sentisse culpada por algo do qual ela não tinha culpa. Foi ele quem pediu pra ela não lhe levar a uma delegacia. Era ele quem não queria correr atrás de uma família que se ele tinha, não se recordava. O que ele queria era apenas ficar ali com ela, seu anjo da guarda!

—Você quer ir embora?

Ela devolveu a pergunta. Torcia pra ele dizer "não", porque queria que ele ficasse mesmo que isso lhe fizesse sentir culpada pela família dele não saber de seu paradeiro.

—Eu não quero. Mas acho que você quer.

—Não, eu não quero. Só que não posso evitar me sentir culpada, entendi?

Se ela fosse parente dele e ele desaparecesse, ia querer que alguém que o encontrasse, lhe levasse a uma delegacia pra ela poder encontrá-lo depois.

—Entendo. — Ele concordou. Depois tomou uma decisão que não queria, mas que parecia ser a que faria bem a Sara. _Então pra quê não se sinta mais tão culpa, quando eu estiver recuperado dos meus machucados, você me leva à uma delegacia pra eu encontrar a minha família. E aí, tudo resolvido pra você e pra mim.

Pelo tom amargo com o qual ele finalizou sua fala, Sara deduziu que ele havia se ressentido com aquela conversa toda.

—Arthur também não...

—Você pode me ajudar a entrar? — Sério, ele a interrompeu. A conversa pra ele já estava encerrada ali mesmo. _Eu quero me deitar um pouco.

—Claro!

Ela o auxiliou a levantar da cadeira, depois a chegar até a cama e por fim, lhe ajudou a se acomodar nela.

—Eu vou te deixar descansar. Você precisa.

De olhos já fechados, Arthur apenas assentiu em resposta à Sara.

Notas finais
Acho que alguém ficou aborrecido com essa conversa toda.