Notas iniciais
Vamos dizer que esse capítulo é como uma "reconciliação" devido ao pequeno atrito que houve no seu antecessor.

Sozinha no quarto, Sara não deixava de pensar na amargura do tom de voz usado por Arthur ao lhe dizer que assim que estivesse recuperado, ela poderia deixá-lo em uma delegacia pra ele encontrar a família dele e assim, ela estaria livre da culpa que sentia.

Por incrível que pareça, ela já se sentia mal por antecipação só de cogitar a idéia dele indo embora dali.

Ainda que sua permanência lhe fizesse sentir culpa por estar privando sua família de encontrá-lo, ela ainda sim, não queria que ele se fosse. E nem ele queria ir, inclusive, o próprio já havia deixado claro sua vontade de ficar ali.

"Mas você não pode permitir isso!"

Sua cabeça lhe instruía. Só que algo dentro dela lhe dizia pra ir contra aquele pensamento.

Parecia até coisa de louco!

Nunca tinha lhe acontecido algo semelhante antes. Apegar-se instantaneamente por alguém desconhecido assim.

Aquele "apego" instantâneo e visível dela com um sujeito desconhecido e vice-versa, não era algo "normal". Como também não era 'normal', o fato dele mexer com ela do modo como mexia desde que seus olhos pousaram nele.

—O que tá acontecendo comigo?

Ela gostaria muito de ter a resposta para aquela pergunta, mas no momento não tinha. Estava mais era confuso com o que sentia.

...

Sem saber se ele já havia ou não acordado, Sara entrou no quarto de Arthur horas mais tarde carregando uma bandeja com uma tigela de sopa para seu hóspede. Notou assim que entrou no cômodo, que Arthur já estava acordado, pois ele encarava o teto. Com certeza, devia estar com fome aquele horário, depois de ter dormido por algumas horas.

—Trouxe um jantar pra você!

Ele virou o rosto em sua direção e a encarou.

—Não precisava se incomodar. Eu não estou mesmo com fome, Sara. — Arthur fez uma careta ao falar.

—Mas você precisa comer. Ao menos, um pouco que seja. Por favor!

Depois de um pedido desses, Arthur não teve outra escolha a não ser, aceitar comer o que Sara lhe trouxera.

—Tudo bem.

Ela ajeitou os travesseiros no encosto da cama e ajudou Arthur a se sentar na cama, e se escorar a cabeceira do móvel de maneira, a fim de que ele ficasse confortável para comer. Depois depositou a bandeja sobre uma almofada posta sobre o colo dele.

—Hum... Está muito bom isso!

Arthur comentou após a primeira colherada que Sara lhe servira à boca. Ele mal conseguia levantar direito os braços sem sentir uma dor terrível nas costelas.

—Que bom que gostou!

Sara lhe serviu outra colherada e ele viu-se confessando silenciosamente, que experimentar aquela sopa, fez a sua fome despertar. O gosto daquilo estava ótimo e o cheiro nem se fale!

—Pensei ter ouvido você dizer que não era boa na cozinha.

—E eu não sou. As únicas coisas que sei fazer bem, modéstia a parte, são: essa sopa, café e as panquecas que você experimentou de manhã. De resto eu sou um desastre total. Costumo ir a cidade pra almoçar. Ou então, passo num ótimo restaurante que tem por lá e encomendo pra semana toda comida congelada. É mais prático. Deixo armazenada no congelador e depois, é só descongelar e comer.

—Nossa... você deve ter uma despesa enorme assim.

De fato ela tinha, mas fazer o quê?! Antes, ela não tinha que se preocupar em fazer comida, seu pai era o 'cozinheiro' da casa. Na verdade, ele sempre foi! Ele adorava cozinhar, criar pratos, receitas e Sara sempre as experimentava. E seu irmão — que era fruto do primeiro relacionamento que seu pai tivera com uma moça que morreu ao dar a luz ao filho — quando mais moço e ainda morava com eles, também servia de 'degustador' das receitas do pai.

—É o preso a se pagar por não saber cozinhar.

—Nunca tentou aprender?

Ela sorriu só de se recordar das várias tentativas frustradas que já fizera quando seu pai era vivo e ele tentou lhe ensinar a cozinhar. E, depois, sozinha após a 'partida' dele, quando já havia se mudado para aquela casa. Um desastre atrás do outro em ambas as situações!

—Inúmeras vezes. Mas eu não levo o menor jeito pra cozinhar. Ou eu me corto, me queimo, quebro coisas. É um horror!

Ele sorriu com certa dificuldade enquanto, ela lhe levava outra colherada a boca.

No fim das contas, ele acabou comendo tudo pra satisfação de Sara.

—Muito bem! Comeu tudo.

—Porque estava bom mesmo.

—Fico contente por ter gostado.

Ela lhe deu água e junto logo, o remédio que a médica lhe receitou tomar após o jantar.

—Pronto! Já jantou e está medicado.

Ele involuntariamente sorriu pelas suas palavras e o modo como ela as falou.

—Do quê você tá rindo? Disse algo engraçado?

—É que você falou como se eu fosse uma criança e você minha mãe.

Os dois sorriram de maneira contida após o comentário de Arthur.

—Bom, em seu estado, você requer cuidados que nem de uma criança mesmo.

—Eu acho que vou viver te agradecendo a cada instante por tudo que tem feito por mim.

—Que isso! Não precisa me agradecer nada.

—Preciso sim!... Só gostaria de poder retribuir, de alguma forma, o que tem feito por mim.

Ele aproveitou a proximidade de suas mãos e segurou a de Sara. Havia algo de especial naquela jovem que lhe atraiu no mesmo instante em que a viu. E desde então, tudo o que ele sentia e queria, era poder ficar perto dela.

—Não há necessidade disso.

Ela retrucou, desfazendo o contato entre suas mãos.

Um choque havia lhe percorrido o corpo todo no momento em que aquele homem segurou sua mão. E quando o contato fora desfeito, aquele choque se esvaiu na mesma hora pra alívio de Sara.

—Desculpa! Eu não devia ter feito isso.

Arthur pediu ao deduzir que ela tivesse desaprovado aquele seu gesto, já que havia imediatamente desfeito o contato entre as mãos deles.

—Eu vou levar essa louça pra lavar.

—Espera! — Ele novamente segurou em sua mão, numa tentativa de detê-la ali. _Não precisa sair assim fugida.

Novamente, o toque fez com que ela sentisse o mesmo choque de segundos atrás. E o mesmo, fora sentido agora por Arthur.

—Não estou saindo fugida.

—Não é o que tá parecendo. Eu não vou te fazer nada de mal, Sara.

—Eu sei que não.

Ele não tinha cara de alguém que era capaz de cometer alguma maldade com alguém. Tudo bem, que ninguém trazia na cara estampado o letreiro "sou um bandido", mas Sara podia aposta que aquele homem era alguém bom e íntegro, e incapaz de fazer mal à ela ou à qualquer outra pessoa.

—Que bom que sabe!

—Arthur...

—Sim!!!

—Sobre o que me falou na sacada...

—Eu falei algumas coisas. À quê está se referindo especificamente?

—Ao fato de você ir embora quando estiver recuperado.

—Ah, isso. Não se preocupe que assim que me sentir bem, eu irei mesmo.

—Não!

—Não?

Ele franziu a testa formando um vinco de total dúvida acerca daquele "não" dela.

Sara então tratou de dissipar aquela visível dúvida que estampava a cara de Arthur.

—Se você quiser ficar mais além desse tempo... pode ficar.

Ela resolveu deixar pra lá o conselho que sua cabeça lhe mandava seguir, e decidiu seguir sua própria vontade, o quê queria, que no caso era: que Arthur ficasse!

—Tem certeza?

Ele não conseguia disfarçar o sorriso contente nos lábios, pois era o que queria. Ficar ali com ela!

—Absoluta!

—E se eu não quiser ir embora nunca?

Com delicadeza, ela desfez mais uma vez o contato bom entre sua mão e a dele que ainda permanecia. E só então lhe respondeu:

—Eu sei que um dia você vai. Quando você recuperar a memória e lembrar da sua família... você irá embora daqui atrás deles!

Notas finais
Um grande beijo e até o próximo.