Notas iniciais
Conversa entre irmãos.

Grissom encarou a irmã no mesmo instante em que ela lhe fez tal pergunta.

—Você teve alguma coisa com ela, não foi?

Era de se supor que sua irmã perspicaz e astuta como era, tenha concluído assertivamente aquilo.

—Eu não me lembro de nada com ela, mas Sara me mostrou coisas que provam meu envolvimento com ela enquanto estive desmemodiado e vivendo esse tempo todo com Sara.

—Eu já imaginava que algo desse tipo tivesse acontecido. O olhar apaixonado dela pra você era evidente demais. Assim como foi evidente a dor e a tristeza dela quando você anunciou que queria vir embora.

—Nem notei. — Mentiu Grissom. Ele havia notado, só não quis admitir a irmã.

—Mas eu sim. Me diz uma coisa... Realmente, não lembra de nada com ela, Gil?

—Não, Cath. E tem algo mais grave que você nem imagina nisso tudo.

—Do que se trata?

—Meu envolvimento com essa moça... Teve sérias conseqüências.

—Não me diga que ela...

—Tá grávida de mim!

—Meu Deus, Gil! Eu vou ser titia duplamente e você papai duplamente?

—Catherine isso não é brincadeira! — Grissom olhou severamente pra irmã que exibia um sorriso alegre com a notícia da vinda de mais um sobrinho. Independente da mãe dessa criança não ser sua cunhada, ainda assim, era seu sobrinho e seria tão bem quisto e amado por ela quanto já era a sua sobrinha que Amanda trazia na barriga.

—Eu sei que não é brincadeira. Até porque, você não brincaria com uma coisa séria dessas.

—Então por que está rindo?

—Porque fiquei contente com a notícia ora.

Ele preocupado com essa "novidade" e sua irmã fica feliz com a mesma.

—Contente? Catherine acorda pra realidade! Eu sou noivo e engravidei outra mulher além da minha noiva! Não tenho ideia de como vou contar uma coisa dessas a Amanda.

—Mas tem que contar.

—Você diz como se fosse fácil. — Ele resmungou sério.

—Eu sei que não vai ser fácil. Mas, você tem que contar logo pra ela isso, meu irmão. Não pode esconder algo assim dela. Seria errado!

—Ela não vai me perdoar quando souber.

—Talvez perdoe, pois você estava desmemoriado e não tinha conhecimento de que era alguém comprometido.

—Se fosse você e o Warrick perdoaria?

—Talvez. Isso ia depender se eu sentisse que o sentimento dele por mim não tivesse mudado e ele não sentisse nada pela outra. Você senti algo por essa moça?

—Não! Eu gosto da Amanda. — Disse com tanta firmeza que Catherine não ousou contestar.

—Bom! Então diga tudo isso à ela quando abrir o jogo sobre essa "pulada de cerca".

—Você usando esse termo fica pior do que é a situação.

—Ora, mas foi uma "pulada de cerca". Que termo queria que eu usasse?

Ele revirou os olhos em desagrado e encarou o céu.

—Deixa pra lá, Cath. E por hora ainda não vou contar nada a Amanda.

—Protelar isso não vai adiantar nada.

—É só até eu criar coragem pra contar a ela.

—E quanto a essa Sara e o bebê?

—O quê que tem eles?

—Como vai ficar, Gil?

—Eu disse a Sara que pretendo assumir minha responsabilidade e ajudá-la financeiramente nos gastos com a criança.

Catherine franziu a testa não acreditando em toda aquela frieza com a qual seu irmão falou. Nem parecia que ele estava falando de um filho que era dele.

—Criança?? Isso é modo de se referir a seu filho? OK, que é um filho que não planejou, mas é seu filho, Gil. Não pode falar dele desse modo.

—Tá certo, desculpa, fui grosseiro.

—Foi mesmo. E pelo jeito como falou, você não vai querer ter contado com seu filho, é isso?

—Não, não é isso. Eu pretendo ter contato, ir visitá-lo de vez enquando depois que nascer...

—De vez enquando?? Gil o que é isso? O que aconteceu com você? Sei que sempre teve um coração meio de pedra, mas tá sendo de uma insensibilidade agora que chega a me deixar espantada.

A irmã do empresário não estava reconhecendo seu irmão com aquele comportamento todo dele. Ele era sim tido por muitos como o insensível, homem de gelo, mas não tanto assim como estava demonstrando. Ele com esse comportamento só estava fazendo jus a essas descrições lhe impostas por terceiros que não o conheciam bem.

—Catherine, eu ainda estou desnorteado com tudo isso. Foi um susto pra mim quando aquela moça me contou que era minha esposa e que...

—Sua... esposa?

Catherine até engasgou com aquela pergunta e ficou literalmente de boca aberta ante a essa informação do irmão.

—Não legalmente. Segundo ela me contou, nós casamos simbolicamente.

—Ah, bom! — A irmã do empresário respirou aliviada.

—E quando ela contou sobre o bebê foi um susto maior ainda. Por um momento, eu achei que ela tinha feito isso de propósito.

—Não creio nisso. Ela não tem cara de oportunista. Você não chegou a comentar isso com ela, não é? — Ele ficou calado e Cath logo entendeu o que aquilo significava. _Não posso acreditar que você foi capaz de dizer na cara dessa moça, que ela era uma oportunista?

—Não disse!

—Ah, bom!

—Na verdade dei a entender isso.

—Você, hein? Vou te contar, Gil!

—O que você queria que eu pensasse? Ela me manteve com ela lá todo esse tempo. Ainda me chamava pelo nome do meio. Eu logo imaginei que ela sabia quem eu era e se aproveitou que eu estava desmemoriado pra me envolver e ter algo comigo, pra garantir um futuro pra ela.

—Você tá ouvindo a barbaridade que disse? Essa moça enfiou a mão na sua cara depois de ter dito essas coisas a ela? Porque se eu bem te conheço, você deve ter dito a ela isso tudo que acabou de me dizer. E se ela enfiou a mão na sua cara, foi muito bem feito pra você. Eu no lugar dela faria isso e muito mais, além de me arrepender amargamente de ter te socorrido quando você precisou e se encontrava ferido.

Grissom ficou espantado com a reação irritada de sua irmã diante do que lhe contou. Não esperava que Cath tomasse as dores de uma desconhecida assim.

Mas ele sabia que sua irmã tinha razão naquela insatisfação toda. Ele foi um canalha desalmado ao externar a Sara aquelas afrontas todas a seu respeito. E teve sorte também da jovem em questão, não ter o gênio de Catherine porque teria ouvido poucas e boas, além de ganhar umas bofetadas na cara.

—Eu pedi desculpas a ela por isso.

—Era o mínimo que podia fazer.

—Ela tá grávida de dois meses e umas semanas.

—Coitada dessa moça. Apaixonada por você, grávida de você e abandonada por você. Não consigo dimensionar a dor que ela deve estar sentindo agora. E o que ela deve ter sentido por você tê-la esquecido. Ela visivelmente te ama.

Ele também teve essa impressão. As coisas que Sara lhe contou sobre eles, o modo como contou, o desespero dela em pedir e insistir pra ele não lhe deixar, seu olhar de carinho, tudo deixava claro que o sentimento dela por ele era grande. Mas ele não sentia nada por ela.

—Ela disse que eu também a amava!

—Disse?

Grissom confirmou com a cabeça.

—Eu quero ter contato com ela, Gil. É meu sobrinho que ela tá esperando. Seu filho! Você deve ter pedido o número de contato dela, não é?

—Pedi!

—Ótimo! Depois com calma quero me passe esse número, pois quero ligar pra ela.

—Tem certeza disso?

—Absoluta! Agora vou entrar e dormir. Devia fazer o mesmo.

—Daqui a pouco, eu já entro.

—Boa noite, Gil!

Ela deu um abraço e um beijo no irmão pra em seguida se dirigir a porta.

—Catherine! — Grissom chamou-a quando sua irmã ia cruzar a porta.

—Oi!

—Você se simpatizou com aquela moça, não foi?

—Sim. Ela além de salvar sua vida ainda me pareceu uma boa moça. Tive essa impressão assim que pus meus olhos nela. E você sabe que sou boa em sacar as pessoas só no olhar.

—Sei!

—E se não houvesse a Amanda, eu até faria muito gosto de ter como cunhada essa moça que te socorreu. Até mais tarde.

—Até!

...

Na tarde do dia seguinte, os meios de comunicações, divulgavam a nota que a assessoria de imprensa que Catherine pediu que soltassem, contando sobre Grissom ter aparecido vivo.

TV, rádio, sites na internet, em tudo quanto foi canto saiu nota ou reportagem sobre o aparecimento do empresário dado como morto há meses e que agora havia aparecido vivo.

Diversos repórteres e fotógrafos se amontoaram e fizeram campana em frente a entrada do condomínio particular onde Grissom mora, na intenção de pegarem algum depoimento de alguém ou fazerem algum registro mesmo do próprio empresário.

—Gil, eu acho que devia ir lá falar rapidamente com eles e assim eles vão embora. Deixavam você em paz.

—Amanda tem razão. Sei que detesta falar com a impressa, mas vai por mim, ignorar é pior. Quando você foi dado como morto, eles passaram dias atrás de mim querendo uma declaração minha. E só me deixaram em paz depois que falei com eles.

—Se quiser te acompanho, querido.

Ele soltou um suspiro de desgosto, pois não queria encarar repórteres lhe bombardeando com perguntas, mas mesmo não sendo da sua vontade falar com eles, o empresário resolveu fazer isso pra acabar com a balbúrdia que estava na portaria do condomínio. Por causa desse bando de repórteres acampados na portaria, que sua irmã, Amanda e Warrick não saíram pra trabalhar.

—Ok! Vamos lá enfrentar essas feras!

Com Amanda ao seu lado segurando em sua mão, Gil saiu de casa pra ir falar com os repórteres. Pelo caminho, o empresário recebeu acenos de alguns vizinhos que souberam pelos noticiários sobre ele e outros fizeram questão de pará-lo pra externarem sua felicidade ante ao fato do empresário estar vivo.

Grissom até se mostrou bastante surpreso com tudo aquilo. Não imaginava que fosse tão bem quisto assim na vizinhança. Poucos vizinhos que ele conhecia ali e os que conhecia era só de vista e de cumprimentar quando saía de casa. Mas foram inúmeros os que vieram falar com ele durante o percurso até a portaria.

Quando chegou onde os repórteres estavam, uma enxurrada de flashes, câmeras e microfones foram direcionados a Grissom pelas frestas da grade que o separava dos repórteres.

Inúmeras perguntas foram feitas a ele ao mesmo tempo, deixando Grissom até perdido e tonto de tanto falatório. Ainda bem que sua noiva tomou a rédia da situação e acalmou os ânimos dos repórteres.

Instantes depois, sem o bombardeio sem trégua de anteriormente, Gil tratou de sanar a curiosidade dos jornalistas contando o que ele lembrava do acidente e omitindo sobre partes que não interessavam como, por exemplo, a principal delas: seu paradeiro exato.

—Mas doutor Grissom onde esteve esse tempo todo mesmo?

—Eu já falei que estava vivendo numa cidade pequena chamada East Wood.

—Sozinho?

—Sim!... Agora se me dão licença. Vamos, Amanda! Já chega disso.

Ele saiu dali ouvindo gritos dos repórteres pedindo por mais esclarecimentos dele.

—Só espero que me deixem em paz depois disso.

—Você estava vivendo sozinho mesmo como disse ao repórter?

Ele podia aproveitar o gancho disso pra abrir o jogo com a noiva, mas não teve coragem pra isso.

—Sim. Por que?

—Senti certa hesitação e tensão quando respondeu.

—Impressão sua. — Desconversou.

Notas finais
Gil ainda vai esconder um bocadinho da Amanda sobre a Sara e o filho que a mesma espera dele. No próximo vamos ter a Sara sendo consolada pela única amiga. Beijos e até breve.