Another Life
70 Chapter 70
Notas iniciais
Acomodado na cadeira do escritório, Arthur posicionou a câmera bem sobre a pequena pilha de livros que havia montado bem a sua frente sobre a mesa de madeira.
O homem de olhos azuis resolveu aproveitar que sua mulher estava dormindo naquela tarde após terem feito amor apaixonadamente muitos momentos atrás, para gravar um vídeo pra ela, porque sentia que estava muito mais próximo ainda de ter Sara apagada de sua mente.
Mais lembranças vinham e ele já se sentia um tanto estranho, como se ele não fosse mais ele mesmo. Como se outro estivesse assumindo seu lugar a cada nova lembrança que tinha.
E em virtude disso, ele estava ali pra gravar aquela mensagem pra esposa e outra pra ele próprio ver quando não fosse mais Arthur e sim outro, com um nome que ele não fazia ideia. Tinha certeza que sua mulher quando visse os dois vídeos ia lhe mostrar na intenção de lhe fazer lembrar deles, da história que criaram juntos.
Ligou a câmera e apertou o play pra começar a sua gravação. A primeira seria para sua esposa.
—Oi, Sara... meu amor. — Ele começou com a voz embargada. _Eu tô aqui no escritório te gravando esse vídeo, porque quero que...
Poucos minutos depois com o rosto úmido pela lágrimas, Arthur encerrava a gravação daquele primeiro vídeo.
Esperou uns minutos pra se recompor e se recuperar dessa primeira gravação pra só então dar o play pela segunda vez na câmera pra gravar outro vídeo, agora pra ele próprio.
—Olá! Se você que sou eu, estiver vendo essa gravação agora é porque eu, Arthur, não sou mais você...
Alguns minutos depois, Arthur encerrava aquela segunda gravação tão emocionado quanto estava ao fim da primeira. Torcia para aqueles dois vídeos serem útil e esclarecedores pra si próprio quando assistí-lo num futuro que ele já sentia muito, muito, muito próximo.
Pegou a câmera e começou a ver as fotos antigas dele com a esposa que haviam salvas no cartão de memória da máquina de fotografar. Eram fotos deles sempre sorrindo, felizes e contentes. Alegria e felicidade eram algo constante na vida deles antes dos flashes de lembranças dele começar a virem. Depois que isso começou a acontecer a alegria não foi mais a mesma e a felicidade deu lugar ao medo e a tristeza. Assim como o sonho cada vez mais ia virando pesadelo. Um horrendo pesadelo no qual Arthur via sua esposa ir sumindo de sua mente pouquinho por pouquinho até o dia que ela sumiria por completo.
—Deus! Permita que eu não demore muito pra lembrar dela e do nosso filho, eu te imploro. — Ele murmurou de olhos fechados.
...
—Amor... — Sara o chamou entrando no quarto apressadamente. _Lucy ligou querendo que eu vá lá socorrê-la com o Lewis. O garoto tá com uma febre que não passa desde ontem. Quer vir comigo?
—Não, honey. Eu vou ficar.
Ela notou a face dele se contorcer em uma careta de dor assim que ele terminou de falar.
—O que você tem?
—Uma dor de cabeça horrível. Até meus olhos estão doendo.
Sara ficou preocupada. Ontem ele teve dor de cabeça, hoje também. Pelos seus conhecimentos clínicos, dor de cabeça em pacientes desmemoriados não é um bom sinal. Ainda mais, quando a pessoa está com as lembranças em processo de retorno.
—Você quer que eu fique com você. Eu ligo pra Lucy e...
—Não precisa. Vai passar logo, meu amor. Ontem foi assim. Vá ver o Lewis. Eu vou ficar bem.
Ela não queria deixá-lo sozinho mau como via que ele parecia. Visivelmente seu marido não estava bem. Os olhos dele estavam vermelhos e a expressão de dor era clara em sua feição. Mas também não podia deixar de atender a um pedido angustiado de sua amiga.
—Olha eu vou, mas prometo que não vou demorar, tá bom? — Ele apenas assentiu com os olhos semifechados. _Qualquer coisa, tem um analgésico aqui na gaveta. Só tome o remédio se a dor se tornar insuportável.
—Sim, senhora doutora.
Ele sorriu um pouco.
—Vou lá rápido, amor. Fica bem.
Sara deu um beijo no marido que era pra ser rápido, mas Arthur aprofundou o beijo e este se tornou algo demorado e intenso.
—O que foi isso? — Ela murmurou desorientada pelo beijo avassalador que Arthur lhe deu.
—Um beijo apenas. — Ele esticou os lábios em um meio sorriso e piscou pra ela.
Sara ficou com a sensação estranha de que aquele beijo teve um melancólico gosto de despedida. Uma despedida que não era só por ela estar indo a casa de Lucy, mas uma despedida como se eles não fossem se ver mais. Rapidamente afastou esse pensamento. Seu marido ia estar ali quando ela voltasse.
—Não demoro, amor.
—Vou ficar no aguardo da sua volta.
...
Após ouvir de Lewis o que ele estava sentindo além da febre que Lucy relatou que o filho vinha sentindo, Sara chegou a um diagnóstico:
—O que o Lewis tem é Amigdalite, Lucy!
—Amigdalite, Sara?
—É! Você precisa levá-lo a um médico pra que este prescreva a medição correta para o Lewis, porque eu não tenho como fazer isso. E a medicação que esse rapazinho precisa tomar pra sarar logo, só se compra mediante a receita médica.
—Amanhã então cedo vou ao posto médico levá-lo.
—Faça isso. Pois o quanto antes esse rapaz começar a tomar a medicação, mais rápido ele ficará bom dessa amigdalite.
Sara tocou a cabeça de Lewis que tinha uma carinha amuada por sentir febre e muita dor na garganta.
—Tia Sara por que o tio Arthur não veio com você?
—Ah, o tio Arthur tava com um pouco de dor de cabeça, Doug, por isso que ele não veio.
—Puxa que pena. Eu queria que ele tivesse vindo pra jogar um pouco de videogame comigo, porque o Lewis doente assim nem quer saber de jogar.
O pequeno contou meio aborrecido fazendo Sara e Lucy sorrirem dele.
—Mas logo o seu irmão vai ficar bom pra voltar a jogar com você. E da próxima vez que eu vier o tio Arthur vem junto pra jogarem videogame com ele, tá bom?
Doug assentiu entusiasmado e Lewis imitou o irmão, porém sem o mesmo entusiasmo por causa de seu estado adoentado.
—Lucy, eu já vou. Deixei o Arthur lá em casa sozinho e ele não tava bem por causa da dor de cabeça.
—Tá bom. Eu te acompanho até a porta. Doug fica aqui com seu irmão que eu já volto.
—Tchau meninos!
—Tchau tia.
As duas mulheres saíram do quarto dos filhos de Lucy e poucos instantes depois estavam na porta de entrada da casa da amiga de Sara se despedindo.
—Sara muito obrigada por atender meu pedido e vir.
—Que isso não precisa agradecer nada. Agora, deixa eu ir ver como meu marido está.
—Vai lá. Melhoras pra ele.
—Obrigada. Beijo.
—Outro!
Enquanto Sara entrava no carro pra seguir pra casa, seu marido se via as voltas com sua dor de cabeça que ficou muito mais forte. Ele então decidiu fazer uso do medicamento que Sara disse estar na gaveta. Apanhou a cartela com o comprimido e com dificuldade se levantou da cama pra ir a cozinha pegar um copo de água.
Pelo caminho lento que vinha seguindo através do corredor que lhe levaria até às escadas, Arthur começou a ter novos flashes de lembranças dele recebendo um prêmio, discursando pra um bando de pessoas. Depois, flashes dele numa sala de escritório, reunido com umas pessoas, dando ordens, assinando papéis, viajando e mais uma sucessão de outros flashes.
—Parem de vir, pelo amor de Deus! — Ele suplicou sentindo a cabeça latejar muitos mais a medida que os flashes vinham espocando em sua cabeça aos montes.
Poucos segundos depois chegou as escadas e veio descendo-a ainda tendo flashes e mais flashes espocando na mente. No meio da descida, ele pisou em falso e acabou perdendo o equilíbrio, caindo e rolando os poucos degraus que ainda faltavam até alcançar o piso da sala completamente desacordado.
Sara estacionou o carro em frente a sua casa e saiu do carro torcendo para seu marido ter melhorado da dor de cabeça. Acionou o alarme do veículo e seguiu pra porta de casa.
Assim que ela entrou em casa viu o marido caído no chão.
—Arthur!!
Imediatamente ela correu até ele no chão e desesperada começou a chamá-lo:
—Amor... Acorda!... Abri os olhos!... Meu Deus, o que foi que houve aqui?... Arthur, acorda. — Ela pedia já chorando enquanto dava leve tapinhas no rosto do marido pra despertá-lo. _Amor não faz isso comigo... Acorda!
Foi com alívio que Sara viu as pálpebras dos olhos de Arthur se mexerem sutilmente pra poucos segundos depois os olhos dele se abrirem devagar.
—Graças a Deus, você acordou! O que foi que aconteceu aqui, amor?
—Amor??... Quem é você?
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