Another Life
65 Chapter 65
Notas iniciais
Devidamente arrumado em seu terno preto, camisa de dentro também preta e sapatos sociais escuros, Arthur observava pela janela do quarto a rua enquanto aguardava Sara terminar de se maquiar no banheiro pra eles irem. Seus olhos azuis então se desviaram da rua por um breve momento pra fitarem o céu. Ele estava lindo, estrelado e com uma lua magnífica. Era uma noite bonita que tinha tudo pra ser perfeita e inesquecível.
—Amor tô pronta!
Ele virou-se e se apaixonou mais ainda se era possível, pela mulher linda com quem era casado. O vestido já tinha deixado sua mulher linda no dia em que ela o experimentou na loja sem estar toda arrumada. E agora, com ela toda produzida com maquiagem, salto alto e cabelos escovados, sua esposa ficou ainda mais linda naquela peça de roupa.
—Você está... Linda e deslumbrante, honey!
—Obrigada! — Ela agradeceu com um sorriso tímido.
Seu marido também estava lindo na roupa que usava. Terno parecia combinar com ele e lhe cair muito bem.
—Vamos? — Ele ofereceu gentilmente seu braço pra que ela o segurasse e assim, Sara o fez.
Eles saíram do quarto e foi impossível vestidos como estavam não atraírem olhares dos outros pelo hotel no caminho até o carro. Os homens olhavam pra Arthur com inveja, pois queriam estar no seu lugar ao lado da bela mulher que o acompanhava. E as mulheres olhavam pra Sara também com inveja duplamente, por ela estar deslumbrante e também por estar acompanhada de um homem lindo como aquele com ela.
Alguns minutos de carro até o restaurante e logo, Sara estacionava em frente a entrada do lugar. Entregou as chaves ao manobrista e seguiu de mãos dadas com seu marido pra dentro do estabelecimento.
Eles deram seus nomes, mostraram um pequeno comprovante e após consultar uma lista e checar o comprovante, a hostess que não era a mesma que lhes atendeu do noutro dia, os encaminhou até a mesa deles.
O local onde ocorreria o show já estava quase lotado. As mesas vazias ja eram poucas. Eles ficaram acomodados em uma mesa lateral perto da parede de onde tinham uma boa vista do palco mais adiante. Nele o casal viu um piano e outros poucos instrumentos musicais.
—O garçom já vem atendê-los. — A jovem hostess lhes informou após sinalizar para um garçom.
O casal assentiu e pedindo licença a moça se retirou. Em poucos instantes, eles já haviam feito seus pedidos de bebida. Pra Arthur foi vinho e para Sara apenas um suco já que ela não podia beber nada alcoólico por conta da gravidez.
—Confesso que estou mais que empolgada pra esse show começar.
—Você já foi à um show desses antes?
—Já. Quando morava na minha antiga cidade, fui com uns amigos à um show de jazz que aconteceu também num restaurante. Foi muito bom. Adorei!
—Eu estou curioso pra assistir esse show. Será que eu gostava desse tipo de música?
—Acho difícil alguém não gostar de jazz nem que seja um pouquinho.
Eles seguiram em conversa enquanto o show não começava. Fizeram seus pedidos de jantar. E poucos instantes após terem saboreado a sobremesa, um homem subiu ao palco avisando a platéia que o show já começaria.
As luzes diminuíram e a banda foi subindo ao palco. Eram cinco integrantes: uma mulher que era a vocalista e pianista, e quatro homens que eram: o baixista e guitarrista, trompetista, baterista e o saxofonista.
Eles se acomodaram em seu devidos lugares e já abriram a apresentação com um cover de um clássico de Etta James — At last, numa nova versão com uma roupagem mais moderna e tão linda quanto a original. Na sequência vieram outras canções: What a Wonderful World — Louis Armstrong; Cry Me a River — Ella Fitzgerald; Be Here to Love Me — Norah Jones; Fly me to The Moon — Frank Sinatra; e outras canções mais de outros cantores.
Sara estava adorando aquele show. Só vinha tocando músicas que ela adorava e sabia a letra. Por uns instantes em determinadas canções, a jovem lembrou do pai que adorava a maioria das músicas que já haviam tocado ali. Henry era um amante de jazz e blues, e foi com ele que Sara aprendeu a gostar desse gênero musical.
Acomodado ao lado de sua mulher com o braço sobre os ombros dela, Arthur apreciava e bastante o show. Algumas músicas até lhe soavam como conhecidas apesar dele não saber a letra de nenhuma delas, mas ele tinha a impressão de já tê-las ouvido antes.
Uma pequena pausa no show para os músicos se apresentarem em solos musicais e antes da próxima leva de músicas, a vocalista convidou os casais a virem pra pista de dança que havia em frente ao palco, pra eles dançarem os sons que tocariam.
Alguns atendendo ao pedido da cantora se levantaram e foram pra pista. E dentre esse casais estavam Sara e Arthur.
Uma nova sequência de canções começou a ser tocada pelo grupo. Tonny Benetti, Roberta Flack, Billie Holiday, Nina Simone, Diana Ross e Nat King Cole. E foi justamente nesse último com a canção Unforgettable, que a mente de Arthur deu um estalo.
De olhos fechados dançando aquela música com Sara, Arthur viu de repente no meio daquela canção sua mente ser invadida por uma sucessão de rápidos flashes de um homem mais velho cantando aquela música e um garoto pequeno escutando aquela sua cantoria, depois flashes de Arthur dançando numa sala com uma mulher que ele não sabia quem era e por fim flashes dele num carro dirigindo e cantarolando aquela mesma música que dançava com Sara. Ele se viu dirigindo por um estrada deserta, com uma chuva torrencial caindo lá fora. Inesperadamente perdeu o controle do carro, saiu da pista com o veículo e desceu por um barranco até cair num rio. Com cuidado conseguiu sair do carro e a forte correnteza lhe arrastou. Ele tentou lutar nadando pra alcançar a margem, mas a escuridão da noite não lhe deixava enxergar nada. E após bater fortemente com a cabeça em algo, ele apagou e não viu mais nada.
Assim que esse último flash de lembrança acabou Arthur abriu os olhos assustado e parou de dançar no mesmo instante. Estranhando a parada abrupta do marido, Sara também parou e desencostando sua cabeça do ombro dele, ela fitou Arthur e encontrou o marido com uma expressão muito assustada.
—Arthur tá tudo bem?
—Não! Eu preciso me sentar. Não estou me sentindo bem, Sara.
Um mal-estar súbito lhe tomou após aquela sucessão de flashes. Arthur se mostrava pálido e ao tocar seu rosto, Sara sentiu-o gelado e imediatamente se preocupou com seu estado.
—Vamos sim pra mesa agora!
Com um braço em torno da cintura dele, Sara levou Arthur de volta a mesa. Sinalizou ao garçom.
—O que está sentindo, amor?
—Minha vista está escura e estou tonto.
O que foram aqueles flashes?
Seriam suas lembranças?
Deus queria que não! Mas algo lhe dizia que eram sim, suas lembranças.
—Deve ter sido o vinho. Acho que baixou sua pressão.
O garçom chegou neles e Sara lhe pediu um copo de água com açúcar, alegando que seu marido não estava passando bem. O garçom assentiu e foi prontamente atrás do pedido dela.
—Amor não baixa a cabeça, olha pra cima. — Ela o instruía tombando sua cabeça pra trás na cadeira. _Deus, você tá suando frio.
Ela abriu dois botões de sua camisa e começou a assoprar em seu marido.
O garçom apareceu com a água e Sara instruiu Arthur a beber tudo. Como um menino obediente, ele fez o que sua mulher pediu.
Um senhor que estava na mesa ao lado e que percebeu que algo não parecia bem, se levantou e veio a mesa do casal saber o que estava acontecendo. Sara disse que seu marido tinha tido uma queda de pressão.
—Eu sou médico e estou com minha maleta no carro. Se quiserem posso ir buscá-la pra consultar seu marido e checar a pressão dele.
Antes que Sara aceitasse a sugestão, Arthur se pronunciou agradecendo a gentileza do homem e dizendo que não era necessário isso, pois seu mal-estar estava passando.
—Tem certeza que não quer que eu lhe examine?
—Tenho. Obrigado pela atenção e gentileza.
—Ok! Mas seria bom você ir pra casa e descansar. Ainda está pálido e não lhe recomendo que continue nesse lugar fechado e com pouca luz.
—O médico tem razão, amor. Vamos embora?
—Vamos! — Ele concordou ainda desnorteado com aquelas lembranças que vieram enquanto dançava com Sara.
—Querem que eu os acompanhe até o carro?
—Agradeço, mas não se preocupe que eu já estou melhor.
—Tudo bem então. Descanse e melhoras.
—Obrigado! — Arthur agradeceu ao outro homem que retornou a sua mesa de onde sua esposa o observava.
Sara então pediu a conta para o garçom e este em poucos instantes já trazia o papel pra ela.
...
—Tá melhorando, amor?
Ele apenas assentiu em resposta sentindo o vento que entrava pela janela do carro bater em seu rosto.
Aquelas lembranças que teve no restaurante veio novamente a sua mente e ele quis arrancá-las de sua cabeça.
Por que tinha que lembrar daquilo?
Será que sua memória estava voltando?
Não! Ela não podia voltar. Não agora e nem nunca.
Sua mulher estava grávida dele e de forma alguma, queria esquecer dela e do bebê no ventre dela. Aquilo não era justo.
—Arthur, você tá melhorando mesmo amor, não mente pra mim.
Ele abriu os olhos e virou o rosto na direção da esposa. Podia ver a preocupação estampada no rosto dela. E se odiou por isso.
Ele não podia esquecer dela. E, em hipótese alguma, por enquanto, ia contar sobre aquelas lembranças à ela.
—Eu tô sim, honey. — Ele forçou um sorriso pra que parecesse convincente.
—Fiquei tão preocupada com você.
—Mas eu já tô bem melhor. E me desculpe por ter estragado a nossa noite. Você estava curtindo tanto o show.
—Não se preocupe com isso, tá bom?
Eles chegaram ao hotel em que estavam hospedados e subiram para seu quarto imediatamente.
Momentos mais tarde, com Sara adormecida em seus braços, Arthur encarava o teto do quarto preocupado com aquelas lembranças que teve.
Quem eram aquelas pessoas que ele "viu"?
Será que aquela mulher com quem ele se viu dançando, era sua mulher?
Ele rezava pra não ser!
Por que depois de meses isso foi acontecer?
Seria o começo do fim de sua história com Sara?
Será que ele teria sua mulher apagada de sua memória assim que outras lembranças mais viessem?
Deus permita que isso não aconteça!
Sua esposa precisava dele e ele dela.
Não queria causar mais uma tristeza na vida dela. Já basta as que ela teve ao longo desses anos.
Por que aquilo tinha que acontecer?
Justo no melhor momento que ele estava vivendo com ela.
Arthur segurou a mão da esposa que descansava sobre o peito dele e entrelaçou seus dedos nos dela. Suspirou e uma lágrima solitária escorreu do canto de seu olho e foi "morrer" no travesseiro macio.
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