Notas iniciais
Ciúmes

—Oi! Quanto tempo! E que grande coincidência te encontrar.

Ele não se fez de rogado e pegando-a desprevenida abraçou-a e lhe deu um beijo demorado no rosto.

—Como vai Hank?

Ela sorriu pra ele mais por pura educação após seu ex se afastar dela depois daquele cumprimento efusivo demais.

Curioso que vê-lo de novo não lhe causou raiva alguma como algumas vezes achou que aconteceria caso um momento desses viesse acontecer algum dia.

Pra ser franca, ela não sentia nada ao estar diante dele revendo-o depois de anos.

—Eu vou bem. E surpreso por te encontrar. Sabia que há uns dias eu tava lembrando de você? Na verdade, lembrando da gente.

—E a sua mulher e o seu filho, como estão? — Ela tocou nesse assunto pra cortar o outro que ele tocava a respeito deles dois. Não queria falar do passado. Ainda mais de um passado com ele.

—Meu filho está bem. Crescendo forte e saudável. E quanto a mãe dele, ela está bem também. Eu e ela não estamos mais juntos. Nós nos separamos uns meses depois que você terminou comigo. Ela descobriu sobre eu ter me envolvido com você durante estar casado com ela e não quis conversa, terminou comigo.

Era muito bem feito pra ele. Quis bancar o garanhão com duas mulheres e acabou no fim sem as duas.

—Mas e você? Como está, Sara? Mora por aqui?

—Eu estou ótima. Tô morando na cidade vizinha de Desmond.

—Eu soube do que houve com o seu pai, Sara.

—Soube como? — Sara não deixou de se surpreender pela segunda vez ali.

—Assim que me separei da mãe do meu filho, eu pedi transferência do meu trabalho e voltei para o hospital onde você e eu trabalhávamos juntos. Tão logo voltei pra lá, te procurei pra gente conversar, mas descobri pelos seus colegas que você não trabalhava mais lá e que seu pai tinha morrido. Fui a sua casa, mas você já não morava mais lá. Eu sinto muito pelo que aconteceu com Henry. Ele era um sujeito fora de sério. E sei o quanto você era ligada e amava seu pai demais. Não deve ter sido nada fácil o que aconteceu.

—Não foi mesmo. Eu me culpei pela morte dele durante um longo tempo.

—Mas você não teve culpa disso, Sara.

—É, eu sei. Mas demorei pra enxergar isso.

Arthur tinha lhe feito enxergar que aquilo foi uma fatalidade e não culpa ou negligência sua. Tudo o que ela fez pra salvar seu pai naquela noite, ela tinha feito. E seu namorado lhe fez entender isso.

—Mas e você? O que faz aqui em Desmond?

Por mais uma vez, ela mudou o rumo da conversa deles.

—Estou a passeio. Vim visitar uns primos e aproveitar uns dias de descanso do trabalho.

—Hum...

—Sara, você já conseguiu me perdoar pelo que fiz?

—Hank isso já é página mais que virada pra mim.

Ela quis dizer que era uma página até já esquecida, ou melhor, que ELE era uma página mais que esquecida em sua vida, mas não achou uma boa dizer isso.

—Você tá mais linda do que eu me lembrava, sabia? Tá com um brilho diferente! Um brilho que te deixa mais linda do que já era.

—Deve ser a gravidez. Dizem que ela deixa a mulher com um brilho diferente.

—Você tá grávida?

Era impressão sua ou ele pareceu desapontado e espantado com aquilo.

—Sim. Descobri recentemente.

De longe um par de olhos azuis observava nada contente sua namorada de conversa com aquele desconhecido.

Arthur tinha notado o estranho de papo com Sara há poucos segundos e não estava gostando nada da forma como via aquele sujeito olhar pra sua namorada. Se bem que nesse momento, o sujeito parecia ter se "desapontado" com algo e seu olhar demonstrava isso.

Quem será que era aquele homem?

E o que ele conversava com Sara?

—Aqui seu cartão e o comprovante, senhor.

A voz da caixa chamou a atenção de Arthur e o fez desviar os olhos da namorada com aquele sujeito.

—Obrigado!

—De nada. Uma boa tarde e volte sempre.

Ele apenas se limitou a assentir pegando o cartão e as sacolas com suas compras da mão da jovem, pra logo em seguida se dirigir à passos rápidos até sua namorada e aquele estranho.

Chegou nos dois bem no momento em que o sujeito muito sem jeito lhe parabenizava pela gravidez.

—Sara!!

Ela se virou pra seu namorado e Arthur viu o sujeito desconhecido lhe encarar também pra depois medi-lo de cima a baixo.

"Quem devia ser aquele homem?", Era a questão que ambos os homens se questionavam mentalmente enquanto um fitava o outro.

—Já pagou as compras?

—Já!

Sara notou o olhar incisivo de seu namorado pousando em Hank e notou que seu ex também tinha o olhar preso em Arthur. Ela ia ter que apresentá-los.

—Amor, esse é o Hank. Ele e eu trabalhamos juntos. — Ela sabia que não precisava mencionar sobre o envolvimento amoroso que teve com Hank, pois seu namorado era esperto suficiente pra fazer essa associação já que ela contou sua história com o ex pra ele. _Hank, esse é o Arthur, meu namorado e pai do filho que espero.

Os dois homens se estudaram, analisaram e coube a Hank tomar a iniciativa de estender a mão pra cumprimentar o homem diante dele.

Arthur olhou sério pra mão do sujeito. A vontade dele era de não aceitar o cumprimento daquele homem que foi namorado de Sara. Ainda que ela não tenha mencionado que esse tal Hank foi seu namorado, Arthur sabia que esse homem só podia ser o ex dela que enganou-a. Até porque, não haveria dois Hank trabalhando com ela no mesmo hospital. Aquele cara era o sujeito que ela lhe contou que mentiu pra ela. E mais ainda por isso, que Arthur sentiu vontade de recusar o cumprimento.

Todavia, apesar de seu desagrado e por educação e não vontade própria, Arthur aceitou o cumprimento e apertou a mão de Hank.

—Muito prazer, Arthur. E meus parabéns pelo bebê.

—Obrigado! — Agradeceu o homem de olhos azuis com total seriedade largando a mão de Hank e enlaçando logo em seguida, a cintura de Sara.

O sentimento de ciúmes o corroía por dentro feito ácido. Estar diante de alguém que teve envolvimento com sua namorada não era algo agradável.

—Você é um cara de sorte por ter uma mulher incrível como a Sara ao seu lado.

Hank sabia bem o que tava dizendo. Sara era uma mulher fora de sério. Infelizmente, ele foi um canalha com ela. Se arrependera muito disso. E agora, vendo-a com alguém, construindo uma família, ele se arrependia mais ainda por ter sido canalha com ela. Talvez, se não tivesse sido assim, eles poderiam ainda estar juntos e, quem sabe, até com filhos.

—Eu sei disso. Sei muito bem por sinal. E não preciso que você me diga.

Sara podia sentir a tensão e o completo desconforto em seu namorado por estar diante de Hank.

A vida às vezes parece querer gostar de pregar dessas suas surpresas na gente. Queria entender por que raios seu ex tinha que cruzar seu caminho mesmo depois de dois anos?

Hank notando que o namorado de sua ex parecia visivelmente não gostar de sua presença ali, resolveu ir embora.

—Bom... Eu vou indo. Foi um prazer te rever, Sara. E meus parabéns aos dois novamente, pelo bebê. Adeus!

—Adeus, Hank! — Somente ela respondeu.

Arthur e ela viram Hank sair de cabeça baixa da loja no instante seguinte. O ex de Sara não pode deixar de ficar decepcionado, pois assim que viu a médica achou que teria alguma esperança com ela, mas a morena já tinha refeito a vida dela com outro.

—Vamos pra casa? — Ela olhou para Arthur que ainda fitava a saída da loja por onde Hank tinha passado.

—Vamos!

...

Ele pouco havia falado desde que saíram da loja e durante estarem no carro à caminho de casa. Parecia quieto demais e sério demais também. Algo lhe dizia que tinha a ver com o encontro com o ex dela.

—Amor o que você tem?

—Nada! — Ele respondeu laconicamente após dar um suspiro enquanto seus olhos estavam presos a paisagem verde que passava rápido pela janela do carro.

Rever alguém do passado dela, um sujeito que ela foi apaixonada e que pelo que pode perceber do cara, ele ainda parecia nutrir algo por ela, lhe incomodou.

—Por que não diz a verdade pra mim?

Ele sentiu a mão dela agarrar a sua que estava descansando em uma de suas pernas. Seu olhar se desviou da paisagem pra fitar sua namorada que tinha a atenção voltada a estrada.

—Que verdade, Sara?

—A verdade que tá aí dentro de você.

Ela escutou Arthur suspirar pra logo em seguida, ele confessar:

—Me incomodou o encontro com esse seu ex!

Como ela imaginava!

Novidade e surpresa seria se ele do jeito que era, não se incomodasse com isso. Ela acharia que ele estava doente! Já achou estranho ele não ter sido muito mais hostil com Hank do que foi.

—O que você sentiu ao revê-lo, Sara?... Ficou balançada?

—Balançada? Você está me perguntando isso mesmo? — Havia incredulidade em sua voz ao questionar. Ela viu seu namorado baixar a cabeça e encarar as mãos deles ainda unidas no colo dele. _Sabe o que eu senti fora a surpresa desse reencontro?... Nada! Eu não senti absolutamente nada, Arthur!

—Nada? — Ele encarou, mas ela estava com os olhos atentos a pista.

—É! Me diz por que eu me sentiria balançada por alguém que já deixou de ser relevante pra mim há muito tempo? Pensei ter deixado claro pra você que o que sentia por ele já não existe mais em mim há tempos. — Seu olhar rápido o encarou por segundos antes de voltar a encarar a estrada.

—Deixou! Claro que deixou.

—Então... Por que essa pergunta? É sem despropósito algum, não acha?

—É, me desculpa. Eu não sei o que me deu na cabeça pra perguntar isso, honey.

—Eu sei o que deu. Ciúmes. Esse sentimento é uma arma perigosa em você. Precisa controlá-lo já disse isso uma vez pra você. Acha mesmo que depois do que Hank aprontou comigo e do que você e eu estamos vivendo, eu iria ficar balançada ao reencontrar meu ex, Arthur?

—De novo, me desculpa.

—Não quero desculpas. Quero que responda o que eu perguntei.

—Eu não acho. E mais uma vez, me desculpa. Eu não devia ter iniciado essa conversa e nem te questionado isso. Fui um tolo ciumento. Perdão, honey!

Mais uma vez, ela olhou de relance pra ele e sua cara de arrependido lhe desarmou completamente e fez a raiva que sentia dele por conta de sua pergunta, sumir como num passe de mágica.

—Tá bem. Eu te desculpo.

—Obrigado, meu amor. — Ela ganhou um beijo delicado dele no dorso de sua mão que ainda era segura pelas deles.

...

—Sabe que me deu vontade de comer esses morangos passando-os num brigadeiro? — Sara comentou enquanto ela e Arthur estavam acomodados na cozinha comendo as frutinhas que Lucy havia dado à eles, em sua rápida passada ali algumas horinhas atrás.

—Não seja por isso. — Arthur se pôs de pé de sua cadeira e disse que ia preparar um brigadeiro rápido pra satisfazer a vontade de sua namorada. _Não quero nosso filho nascendo com cara de brigadeiro.

Sara não resistiu a essas palavras e caiu na risada de seu namorado que já trabalhava em abrir a lata de leite condensado.

—Isso é pura lenda, sabia?

—Lenda ou não, eu não quero arriscar.
Sob o olhar divertido dela, Arthur se pôs a preparar o brigadeiro, que momentos mais tarde já era apreciado junto com os morangos por ele e sua namorada.

—Hum... É uma ótima mistura essa de chocolate e morango. — Sara comentou acomodada no colo do namorado vestida só com a camisa do pijama dele enquanto Arthur estava com o short.

—Só que com esse morango aqui não ficou uma mistura boa, porque esse morango que acabei de mastigar tá tão azedo que nem o chocolate o deixou doce. Deus do céu!

Sara começou a rir da careta que seu namorado exibia ao falar.

—Posso saber do que está rindo?

—Você fez uma careta tão engraçada ao falar.

—Fiz é?

—Fez!

—Ah, é?

Ela assentiu e viu seu namorado mergulhar no chocolate a ponta de um morango e depois sujar de leve a maçã do seu rosto.

—Arthur! — Ela o recriminou.

—Pra não rir mais de mim. — Ele tinha um sorriso por aquela "travessura" feita.

—Ah é assim?

Ele assentiu e viu sua namorada imitar seu gesto no instante seguinte. Minutos depois estavam ambos com o rosto sujo de chocolate e rindo feito duas crianças.

—Olha como me deixou, Arthur!

Pelo espelho do armário, ela conseguiu ver que seu rosto estava com alguns riscos de chocolate pela sua extensão e alguns no pescoço. E o rosto de seu namorado também se encontrava igual. Inclusive, a babar dele estava com chocolate.

—E olha como você me deixou também.

Eles acabaram rindo ao se verem naquele estado.

—Você que começou. Ei! O que pensa que tá fazendo?

—Tirando esse chocolate de você. — Ele contou antes de deslizar a língua outra vez pela mandíbula dela, fazendo Sara se arrepiar.

—E pretende tirar tudinho assim?

—Aham...

Aquela "brincadeira" dele acabou em pouco tempo atiçando o desejo neles e momentos depois ali mesmo sobre a mesa, entre restos de morangos e sujos de chocolate, eles fizeram amor.

Notas finais
Coisa boa no próximo capítulo. Aguardem! Beijos.